<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458</id><updated>2012-01-17T11:17:19.189-08:00</updated><category term='generosidade'/><category term='voluntariado'/><category term='solidariedade'/><title type='text'>Solidariedades</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>22</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-7682529350069128563</id><published>2007-07-23T15:51:00.000-07:00</published><updated>2007-07-28T23:51:53.617-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><title type='text'>O presente da costureira de colchas - Jeff Brumbeau</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez uma costureira de colchas que vivia numa casa no cimo das montanhas de bruma azulada. Até o mais idoso dos tetravôs não se lembrava de um tempo em que ela não estivesse lá em cima a coser, dia após dia.&lt;br /&gt;Aqui e ali, e onde quer que o sol aquecesse a terra, dizia-se que ela fazia as colchas mais belas que alguma vez se tinha visto.&lt;br /&gt;Os azuis pareciam vir do mais profundo do oceano; os brancos, das neves mais boreais; os verdes e os púrpuras, das abundantes flores silvestres; os vermelhos, os cor-de-rosa e os cor-de-laranja, do mais maravilhoso dos pores-do-sol.&lt;br /&gt;Algumas pessoas diziam que os seus dedos eram mágicos. Outras murmuravam que as suas agulhas e tecidos eram dádivas do povo das fadas. E outras diziam ainda que as colchas tinham caído de anjos que por ali passavam.&lt;br /&gt;Muita gente subia a montanha, com os bolsos a abarrotar de oiro, na esperança de comprar uma daquelas maravilhosas colchas. Mas a costureira não as vendia.&lt;br /&gt;— Dou as minhas colchas aos que são pobres ou não têm casa – dizia a todos os que lhe batiam à porta. – Não são para os ricos.&lt;br /&gt;Nas noites mais frias e escuras, a costureira descia até à cidade, no sopé da montanha. Percorria as ruas calcetadas até encontrar alguém a dormir ao relento. Então, tirava do saco uma manta acabada de fazer, enrolava-a nos ombros dos que tremiam de frio, aconchegava-os bem, e afastava-se depois em bicos de pés.&lt;br /&gt;No dia seguinte, depois de beber uma chávena fumegante de chá de amoras, começava uma nova manta.&lt;br /&gt;Por esta altura, vivia também um rei, senhor de muito poder e ambição, que, mais do que tudo, gostava de receber prendas.&lt;br /&gt;Os milhares e milhares de lindíssimos presentes que recebia pelo Natal e pelo seu aniversário nunca lhe chegavam. Proclamou, então, uma lei que dizia que o rei passaria a festejar o seu dia de aniversário duas vezes por ano.&lt;br /&gt;Quando isto também deixou de o satisfazer, deu ordens aos seus soldados para procurarem pelo reino as poucas pessoas que ainda não lhe tinham dado prenda alguma.&lt;br /&gt;No decurso dos anos, o rei foi ficando com quase todas as coisas mais bonitas do mundo. Os seus inúmeros bens estavam empilhados um pouco por todo o castelo. Em gavetas ou prateleiras, em caixas e arcas, em armários e sacos.&lt;br /&gt;Coisas que brilhavam, cintilavam e tremeluziam.&lt;br /&gt;Coisas extravagantes e práticas.&lt;br /&gt;Coisas misteriosas e mágicas.&lt;br /&gt;Eram tantas, que o rei tinha uma lista de tudo o que possuía.&lt;br /&gt;Mas, apesar de ser dono de todos estes tesouros maravilhosos de desfrutar, o rei não sorria. Não era nada feliz.&lt;br /&gt;— Deve haver, algures, algo de bonito que me faça, finalmente, sorrir — ouvia-se o rei dizer muitas vezes. — E hei-de tê-lo.&lt;br /&gt;Um dia, um soldado entrou precipitadamente no castelo com a notícia de uma mágica costureira de colchas que vivia nas montanhas.&lt;br /&gt;O rei bateu com o pé no chão.&lt;br /&gt;— E por que razão essa pessoa nunca me deu nenhuma das suas colchas de presente? — perguntou ele.&lt;br /&gt;— Ela só as faz para os pobres, Vossa Majestade — respondeu o soldado. — E não as vende por dinheiro algum.&lt;br /&gt;— Isso é o que vamos ver! — bradou o rei. — Tragam-me um cavalo e mil soldados.&lt;br /&gt;E partiram à procura da costureira de colchas.&lt;br /&gt;Quando chegaram a casa dela, esta limitou-se a rir.&lt;br /&gt;— As minhas colchas são para os pobres e necessitados e vê-se facilmente que não és nem uma coisa nem outra.&lt;br /&gt;— Eu quero uma dessas colchas — exigiu o rei. — Talvez seja o que finalmente me fará feliz.&lt;br /&gt;A mulher pensou por um momento.&lt;br /&gt;— Oferece tudo o que tens — disse — e então far-te-ei uma manta. Por cada prenda que deres, acrescento um quadrado à manta. Quando tiveres dado todas as tuas coisas, a tua manta estará terminada.&lt;br /&gt;— Dar todos os meus maravilhosos tesouros? — gritou o rei. — Eu não dou, eu recebo!&lt;br /&gt;E, dito isto, deu ordem aos soldados para se apoderarem da linda manta de estrelas da costureira.&lt;br /&gt;Mas, quando se precipitaram sobre ela, a mulher lançou a manta pela janela e uma forte rajada de vento levou-a.&lt;br /&gt;O rei ficou muito zangado. Levou a costureira montanha abaixo, atravessou a cidade e subiu outra montanha, onde os seus ferreiros reais fizeram uma grossa pulseira de ferro. Acorrentaram-na a uma rocha na gruta de um urso que estava a dormir.&lt;br /&gt;O rei pediu-lhe novamente uma manta, e uma vez mais ela recusou.&lt;br /&gt;— Muito bem, então — respondeu o rei. — Vou deixar-te aqui. Quando o urso acordar, tenho a certeza de que vai fazer de ti um óptimo pequeno almoço.&lt;br /&gt;Quando, algum tempo mais tarde, o urso abriu os olhos e viu a costureira na gruta, equilibrou-se nas fortes pernas traseiras e soltou um rugido que sacudiu os ossos da mulher. A costureira ergueu os olhos para o urso e abanou tristemente a cabeça.&lt;br /&gt;— Não admira que sejas tão resmungão — disse. — Para além de rochas, não tens nada onde possas à noite descansar a cabeça. Arranja--me um braçado de agulhas de pinheiro e, com o meu xaile, far-te-ei uma almofada grande e fofa.&lt;br /&gt;E foi isso que fez. Nunca ninguém fora antes tão amável para com o urso, que partiu a pulseira de ferro da mulher e lhe pediu que lhe fizesse companhia durante a noite.&lt;br /&gt;Mas, embora o rei desempenhasse bem o papel de homem ambicioso, desempenhava mal o papel de homem malvado. Durante toda a noite não conseguiu dormir a pensar na pobre mulher, na gruta.&lt;br /&gt;— Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? — lamentava-se.&lt;br /&gt;Acordou os soldados e lá marcharam todos em pijama até à gruta para a salvarem. Mas, quando chegaram, o rei encontrou a costureira e o urso a tomarem um pequeno-almoço de frutos silvestres e mel.&lt;br /&gt;Então, o rei esqueceu por completo a pena que sentira e voltou a ficar zangado. Ordenou aos construtores reais de ilhas que construíssem uma ilha tão pequena que a costureira só lá pudesse ficar em bicos de pés.&lt;br /&gt;Novamente o rei lhe pediu uma manta e novamente ela recusou.&lt;br /&gt;— Muito bem — respondeu o rei. — Esta noite, quando estiveres demasiado cansada para te manteres em pé e quiseres deitar-te para dormir, afogar-te-ás.&lt;br /&gt;E o rei deixou-a só na minúscula ilhota.&lt;br /&gt;Pouco depois de ele partir, a costureira viu um pardal atravessar o grande lago. Soprava um vento forte e violento e o pobre pássaro não parecia capaz de chegar a terra. A costureira chamou-o e ele poisou no ombro dela para descansar. Como o pobre e cansado pardal estava a tremer, a senhora fez-lhe uma capa de um pedaço de tecido do seu colete púrpura. Quando a ave se sentiu mais quente e o vento parou de soprar, levantou voo de novo, grato pelo que a costureira lhe tinha feito.&lt;br /&gt;Dali a pouco, o céu escureceu devido a uma enorme nuvem de pardais. Com as asas sempre a bater, milhares deles desceram, pegaram na mulher com os seus pequeninos bicos e levaram-na em segurança para terra.&lt;br /&gt;Novamente nessa noite, o rei não conseguia dormir a pensar na senhora, sozinha na ilha.&lt;br /&gt;— Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? — lamentava-se.&lt;br /&gt;Voltou a acordar os soldados que estavam a dormir, e lá marcharam em pijama até ao lago, para libertarem a costureira. Mas, quando chegaram, ela estava sentada no ramo de uma árvore a coser minúsculas capas cor de púrpura para todos os pardais.&lt;br /&gt;— Desisto! — gritou o rei. — O que tenho de fazer para me dares uma manta?&lt;br /&gt;— Como já te disse — respondeu ela — oferece tudo o que tens e eu faço-te uma manta. E, por cada prenda que dês, acrescento mais um quadrado à tua manta.&lt;br /&gt;— Não consigo fazer isso! — gritou o rei. — Eu adoro todas as minhas lindas e maravilhosas coisas.&lt;br /&gt;— Mas, se elas não te fazem feliz — retorquiu a costureira — para que servem?&lt;br /&gt;— Lá isso é verdade — suspirou rei.&lt;br /&gt;E pensou muito, muito no que ela dissera. Pensou durante tanto tempo, que as semanas se sucederam umas às outras.&lt;br /&gt;— Pronto, está bem — disse entredentes. — Se tenho de me libertar dos meus tesouros, então que seja!&lt;br /&gt;O rei regressou ao castelo e procurou, de uma ponta a outra, qualquer coisa da qual conseguisse abdicar.&lt;br /&gt;De sobrolho franzido, lá acabou por encontrar um simples berlinde. Só que o rapazinho que o recebeu retribuiu-lhe o gesto com um sorriso tão radiante, que o rei regressou ao castelo para ir buscar mais coisas.&lt;br /&gt;Por fim, pegou num amontoado de casacos aveludados e foi distribuí-los pelas pessoas vestidas de trapos. Ficaram todas tão contentes, que se puseram a desfilar pelas ruas da cidade.&lt;br /&gt;Mas, ainda assim, o rei não sorria.&lt;br /&gt;Em seguida, foi buscar uma centena de gatos siameses azuis, que dançavam valsas, e uma dezena de peixes transparentes como vidro. Depois, deu ordem para que trouxessem para fora o carrocel com os cavalos verdadeiros. As crianças gritaram de entusiasmo e puseram-se a dançar em redor dele.&lt;br /&gt;O rei olhou à sua volta e viu as danças, a felicidade e a alegria que os seus presentes tinham trazido. Uma criança pegou-lhe na mão e puxou-o para dançar. O rei agora sorria e até soltava gargalhadas.&lt;br /&gt;— Como é isto possível? — exclamou. — Como é possível eu sentir-me tão feliz por dar as minhas coisas? Tirem tudo cá para fora! Tirem tudo imediatamente!&lt;br /&gt;Entretanto, a costureira manteve a sua palavra e começou a fazer uma manta especial para o rei. Por cada presente que ele dava, ela acrescentava outro quadrado à manta.&lt;br /&gt;O rei continuou a dar e a dar. Quando, por fim, não havia mais ninguém que não tivesse recebido alguma coisa, o rei decidiu ir pelo mundo e procurar outras pessoas que precisassem das suas prendas.&lt;br /&gt;Antes de partir, o rei prometeu à costureira que lhe enviaria um pardal de todas as vezes que desse alguma coisa.&lt;br /&gt;De manhã, à tarde e à noite, as carroças partiam da cidade, cada uma delas carregada até cima com todos os objectos maravilhosos do rei. E durante anos e anos, os pardais mensageiros foram voando até ao peitoril da janela da costureira, à medida que ele ia esvaziando lentamente os seus carros por onde quer que passasse e trocava os seus tesouros por sorrisos.&lt;br /&gt;A costureira trabalhava sem parar e, pedaço a pedaço, a manta do rei foi crescendo, cada vez maior e mais bonita.&lt;br /&gt;Por fim, certo dia, um pardal cansado entrou-lhe pela janela e poisou na agulha. A costureira compreendeu imediatamente que este era o último mensageiro. Deu o último ponto na manta e desceu a montanha em busca do rei.&lt;br /&gt;Após uma longa busca, encontrou-o finalmente. As suas vestes reais estavam agora em farrapos e os dedos dos pés espreitavam-lhe das botas. Os olhos brilhavam de alegria e o riso era maravilhoso e sonoro. A costureira retirou do saco a manta e desdobrou-a. Era de tal forma bela, que borboletas e colibris esvoaçavam à sua volta. Ergueu-se em bicos de pés e pô-la à volta do rei.&lt;br /&gt;— O que é isto? — exclamou ele.&lt;br /&gt;— Prometi-te há muito tempo — disse ela — que quando fosses pobre, te daria uma manta.&lt;br /&gt;O riso radiante do rei fez cair maçãs e levou as flores a voltarem-se para ele.&lt;br /&gt;— Mas eu não sou pobre — disse. — Posso parecer pobre mas, na verdade o meu coração está cheio a mais não poder, com as recordações de toda a alegria que dei e recebi. Agora sou o homem mais rico.&lt;br /&gt;— Mesmo assim, fiz esta manta só para ti — disse a costureira.&lt;br /&gt;— Obrigado — respondeu o rei. — Mas só fico com ela se aceitares uma prenda minha. Há um último tesouro que ainda não dei. Guardei-o todos estes anos só para ti.&lt;br /&gt;O rei retirou o seu trono do carro velho e frágil.&lt;br /&gt;— É mesmo muito confortável — disse o rei. — E o ideal para quem passa longos dias a coser.&lt;br /&gt;A partir desse dia, o rei voltou muitas vezes à casa da costureira de colchas, que ficava bem lá em cima, perto das nuvens.&lt;br /&gt;Durante o dia, a costureira fazia lindas colchas que não vendia e, à noite, o rei levava-as para a cidade. Procurava, então, os pobres e infelizes, pois nunca se sentia tão feliz como quando dava alguma coisa a alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Jeff Brumbeau&lt;br /&gt;&lt;em&gt;The quiltmaker’s gift&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;New York, Orchard Books, 2000&lt;br /&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-7682529350069128563?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/7682529350069128563/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=7682529350069128563' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7682529350069128563'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7682529350069128563'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/07/o-presenta-da-costureira-de-colchas.html' title='O presente da costureira de colchas - Jeff Brumbeau'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-6730157111690120854</id><published>2007-06-27T11:19:00.000-07:00</published><updated>2007-07-21T07:33:09.246-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Joana Jugan</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Paul Milcent&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Joana Jugan&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Publicação das Irmãzinhas dos Pobres&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(excertos)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A filha de um pobre marinheiro&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1792-1816)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 190%"&gt;Uma casinha baixa de tecto de colmo e solo de terra batida; um lugarejo nas alturas que dominam a baía de Cancale, na Bretanha (França) — eis o quadro em que nasceu Joana Jugan, no dia 25 de Outubro de 1792.&lt;br /&gt;1792 — esta data evoca acontecimentos dramáticos. Algum tempo antes, duzentos padres eram massacrados em Paris, porque recusavam prestar o juramento exigido pelo poder revolucionário e, alguns meses depois, o Rei Luís XVI era guilhotinado.&lt;br /&gt;Pressente-se, desde logo, que o Oeste de França irá sublevar-se para defender as suas tradições e haverá, durante sete ou oito anos, uma dura guerra civil. Como muitas outras igrejas, a de Cancale será encerrada e transformada em armazém de forragem. Estes difíceis acontecimentos vão marcar a infância da pequenina Joana, que será também duramente afectada pela morte prematura de seu pai. Tendo saído, por alguns meses, para a pesca no alto mar, não estava presente quando a filha nasceu. Outras vezes, não podia partir, quando o deveria fazer para ganhar algum dinheiro, porque a sua falta de saúde o impedia de embarcar. Então, a mãe tinha de trabalhar, de lavar roupa, durante dias inteiros, para sustentar os filhos — oito ao todo, dos quais, quatro, morreram de tenra idade. E um dia, quando Joana tinha três anos e meio, o pai voltou a embarcar e nunca mais voltou. Esperaram-no durante muito tempo, mas tiveram de aceitar esta quase certeza: ele tinha morrido no mar.&lt;br /&gt;A pequenina Joana aprendeu com a Mãe a fazer os trabalhos domésticos, a tratar dos animais, a rezar. Nessa época não havia catequese organizada, mas muitas crianças aprenderam o catecismo em segredo, com pessoas suas vizinhas que tinham adquirido uma fé pessoal e responsável numa espécie de ordem terceira fundada por S. João Eudes, no século XVII. Nesses anos difíceis, os membros desta Instituição, vivendo a sua vida laica como uma consagração a Cristo, desempenharam um papel considerável na transmissão da Fé. Foi, sem dúvida, graças a eles, que Joana aprendeu a ler e alcançou um conhecimento exacto da Fé Cristã. Mais tarde, ela própria entrará para esse grupo.&lt;br /&gt;Por volta dos 15 ou 16 anos, Joana foi colocada como ajudante de cozinheira numa família dos arredores. A casa, que ainda existe, chamava-se «Mettrie-aux-Chouettes». A rapariguinha chegou lá muito tímida, mas pronta a aprender e a fazer bem o seu novo trabalho. Parece que a Senhora De La Choue a acolheu afectuosamente e a rodeou de simpatia. Com o decorrer dos anos teve mesmo por ela uma grande admiração porque Joana não foi só empregada na cozinha — esteve ligada ao serviço dos pobres. Ia visitar famílias indigentes e velhinhos que viviam isolados e aprendia já a partilha, o respeito, a ternura e quanta delicadeza é necessária para que se não humilhem os que precisam de ser ajudados.&lt;br /&gt;Por essas alturas, um jovem pediu-a em casamento e, segundo o costume, Joana pediu-lhe que esperasse. E continuou o seu serviço que, para ela, era também uma escola onde se aperfeiçoava. Um pouco mais tarde, em 1816, houve em Cancale, uma grande missão a cumprir: depois da terrível tempestade da revolução era preciso reconstruir a Fé e a Igreja. Joana participou nessa tarefa. Foi então que decidiu guardar-se para o serviço de Deus e não se casar, o que fez saber ao seu pretendente.&lt;br /&gt;O futuro era uma incógnita. Existia nela, todavia, um pressentimento indefinido, talvez. Mesmo assim, disse um dia à Mãe:&lt;br /&gt;«Deus quer-me para Ele. Guarda-me para uma obra que não é conhecida, para uma obra que ainda não está fundada.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Primeiros passos em direcção aos pobres&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1817-1823)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1817, Joana, com 25 anos, deixou Cancale e a Família. As suas duas irmãs eram casadas e, dentro em breve, seriam mães, Mas ela fizera outra escolha. Deixou às irmãs uma parte dos seus fatos «tudo o que tinha de elegante e de bonito» — diz-se; e partiu para Saint-Servan, pondo-se ao serviço dos pobres; queria ser pobre como eles. De facto, a cidade de Saint-Servan estava cheia de pobres, de necessitados. Quase metade da população estava inscrita no serviço de Beneficência e numerosos mendigos assediavam as poucas famílias que viviam mais à vontade.&lt;br /&gt;Joana entrou como enfermeira no hospital «du Rosais», demasiado pequeno para acolher as misérias que lá se refugiavam, porque um hospital, naquela altura, era mais um refúgio para todas as angústias que um importante lugar de ciência médica; e uma enfermeira apenas sabia preparar chás, fazer pensos, pôr cataplasmas...&lt;br /&gt;Durante cerca de sete anos, Joana dedicou-se aos trezentos doentes que aí se amontoavam, com trinta e cinco crianças encontradas ou abandonadas. Entre estes desgraçados «tinhosos, com sarna ou com doenças venéreas» e sem meios suficientes, o trabalho era rude, esgotante! Joana entregou-se a esta tarefa com todo o seu coração. Além disso, contasse, consagrava os seus momentos livres a iniciativas apostólicas; foi assim que teria ajudado um enfermeiro a aprender o catecismo.&lt;br /&gt;Era animada por uma fé viva. Aquando de uma missão que reavivou a vida cristã em Saint-Servan, em 1817, criaram-se congregações destinadas a encorajar uma ajuda espiritual, a estimular a oração e a reflexão cristãs. Joana inscreveu-se na congregação das raparigas.&lt;br /&gt;Um pouco mais tarde, entrou para um grupo mais exigente, a tal «ordem terceira eudista» (ou Sociedade do Coração da Mãe Admirável), que ela conhecera, sem dúvida, desde a infância, através das pessoas de fé que lhe tinham ensinado o catecismo.&lt;br /&gt;As mulheres que compunham esta sociedade levavam uma espécie de vida religiosa em casa e juntavam-se, regularmente, em reuniões de oração e de partilha. Impunham-se uma disciplina de vida e de oração quotidiana. Era sobretudo aí que encontravam uma tradição espiritual forte, herdada de S. João Eudes; o apelo a um cristianismo do coração, a iniciação a uma fé pessoal e livre, relação viva com Jesus Cristo.&lt;br /&gt;Joana foi membro desta ordem terceira durante vinte anos e parece que ficou profundamente marcada por ela. O espírito do grupo encontra-se na primeira regra ou hábitos das Irmãzinhas dos Pobres, principalmente no que respeita à comunhão viva com Jesus e à renúncia de si mesma — caminho para a liberdade interior.&lt;br /&gt;Mas nós tínhamos deixado Joana no «Hospital du Rosais», no meio dos seus pobres doentes, numa extrema pobreza de meios. Ao fim de seis anos, tendo ultrapassado os limites das suas forcas, estava completamente exausta e teve de abandonar o seu trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um tempo de pausa e de maturação&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1824-1839)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Joana encontrou, mesmo no momento oportuno, um novo emprego que foi simultaneamente para ela, uma pausa benéfica: uma certa Mlle. Lecoq, vinte anos mais velha do que ela e que era, sem dúvida, também membro da ordem terceira, contratou-a como criada e como amiga. Ambas viveram durante doze anos uma vida comum ocupada pela oração, pelas tarefas domésticas de uma existência modesta, pela presença junto dos pobres e pela catequese às crianças.&lt;br /&gt;Mlle. Lecoq estava atenta à saúde da sua companheira, obrigava-a a arranjar-se, tomava conta dela.&lt;br /&gt;Ambas viviam, com o seu povo, os bons e os maus dias. E houve dias de miséria, particularmente nos anos 1825-1832: em consequência de uma grave crise financeira em Londres, em 1825 e das más colheitas em França, nos anos seguintes, muitas pessoas conheceram a fome. Viu-se aumentar o número de indigentes e mesmo de desempregados que erravam, em bandos, pelos campos. Em S. Servan, o número dos necessitados aumentou ainda mais... Ambas estavam atentas a isso e tomavam, generosamente, parte nos esforços colectivos desenvolvidos para aliviar os miseráveis.&lt;br /&gt;Mas a querida Mlle. Lecoq adoeceu e, em Junho de 1835, morreu, deixando a Joana os móveis e uma pequena quantia em dinheiro.&lt;br /&gt;Para viver, Joana pôs-se a trabalhar a dias em casa de famílias de S. Servan que recorriam a ela: trabalho doméstico, lavagem de roupa, serviço de vigilância a doentes... Laços de amizade foram assim criados com um certo número de pessoas; estas relações foram, mais tarde, muito preciosas para Joana e para aqueles a quem ela ia ligar o seu destino.&lt;br /&gt;Joana tornou-se amiga de uma mulher muito mais velha que ela, Françoise Aubert ou Fanchon. Juntando os seus recursos, alugaram uma casa no centro de S. Servan: duas divisões no andar e duas outras adaptadas nos forros.&lt;br /&gt;Aí, as duas companheiras levaram uma vida ritmada pela oração, muito semelhante à que Joana levava com Mlle. Lecoq. Fanchon fiava em casa e Joana continuava os trabalhos fora.&lt;br /&gt;Mas, daí a pouco tempo, uma terceira foi juntar-se-lhes: uma rapariguinha de 17 anos, órfã, chamada Virgínia Trédaniel. Esta, parece, ter entrado, sem dificuldade, na vida de oração das suas amigas mais velhas. A partir desse ano de 1838, levarão as três — 72, 46 e 17 anos — uma vida regular em comum que só a morte virá interromper.&lt;br /&gt;Joana entregava-se cada vez mais aos pobres que a rodeavam em S. Servan. Mas que fazer? Sentia-se impotente perante estas imensas e múltiplas misérias... Bastaria sentir essa ferida no seu coração? Não seria preciso, com uma espécie de loucura, partilhar mesmo o necessário, mesmo a sua própria casa? Não seria necessário sentir na sua carne?&lt;br /&gt;É esse passo que Joana vai agora dar e não voltará atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Joana dá a sua cama&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1839-1842)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final de 1839, talvez quando estavam a chegar os primeiros frios do Inverno, Joana tomou uma decisão: de acordo com Fanchon e com Virgínia, trouxe para casa uma mulher idosa, Ana Chauvin (viúva Haneau) cega e doente. Até então, esta velhinha vivia acompanhada pela irmã, mas esta acabava de dar entrada no hospital — situação desesperada.&lt;br /&gt;Conta-se que Joana, para subir com ela a escada estreita de sua casa, a levou às costas... O que é certo é que ela lhe deu a sua própria cama e foi instalar-se no sótão. E «adoptou-a como sua Mãe».&lt;br /&gt;Pouco depois, uma outra mulher idosa, Isabel Coeuru, veio juntar-se a Ana Chauvin. Tinha servido, até ao fim, os seus velhos patrões caídos na miséria; tinha gasto com eles as suas próprias economias; depois, tinha andado a pedir esmola para os manter vivos. Tinham morrido e ela estava exausta e doente. Joana tomou conhecimento desta bela história de fidelidade e de partilha e acolheu a sua protagonista sem demora; desta vez, foi Virgínia que cedeu a sua cama e foi para o sótão.&lt;br /&gt;À noite, depois de terem tratado as suas protegidas e dado as boas-noites à boa Fauchon, Joana e Virgínia subiam a escada que conduzia ao sótão e, descalçando os sapatos para não fazerem barulho, terminavam as suas tarefas e as suas orações antes de se deitarem.&lt;br /&gt;Eram ao todo três a trabalhar (Virgínia era costureira) para manter cinco pessoas, duas das quais, idosas e doentes; às vezes, à noite, depois do trabalho, tinham de fazer serão para coser ou lavar a roupa. Foi, talvez, a partir dessa altura que Joana começou a estender a mão às famílias que ela conhecia bem.&lt;br /&gt;Virgínia tinha uma amiga, mais ou menos da sua idade, Marie Jamet que não tardou a conhecer Joana e toda a gente da casa. Ela própria vivia em casa dos pais e trabalhava com a mãe: mantinham um pequeno negócio.&lt;br /&gt;Marie vinha muitas vezes visitar a sua amiga e também ela dedicava a Joana um grande afecto e admiração. As três — e às vezes Fanchon com elas — falavam de Deus, dos pobres e das questões que a vida lhes punha. Joana fez saber às suas duas jovens amigas que pertencia à ordem terceira eudista. Elas eram ainda muito novas para entrar na Ordem, mas fizeram, com a ajuda de Joana, um pequeno regulamento de vida inspirado no da ordem terceira.&lt;br /&gt;Maria e Virgínia falaram da sua amizade e da sua entrea-juda espiritual, a um jovem vigário de S. Servan, o abade Auguste Le Pailleur, que era o confessor de ambas. Ele concordou com elas e prometeu ajudá-las. Conheceu Joana e interessou-se pelo grupo e pela sua acção benfazeja. Empreendedor, engenhoso, hábil, preocupando-se ele, também, com os pobres, pensou que deveria encorajar o que poderia ser o começo de uma obra. O seu apoio ia ser eficaz, mas também fonte de quantas provações!&lt;br /&gt;A 15 de Outubro de 1840, com a sua ajuda, as três amigas formaram uma associação de caridade que adoptou, como lei, o pequeno regulamento elaborado por Maria e Virgínia.&lt;br /&gt;Assim, à volta das duas velhinhas acolhidas por Joana, nasceu uma pequena célula: era já o embrião duma grande congregação que se chamaria, muito mais tarde, «as Irmãzinhas dos Pobres».&lt;br /&gt;Em 1840, Joana e as suas companheiras não o sabiam. Mas já sonhavam em albergar outras misérias, em oferecer a outras pessoas conforto, segurança e ternura. O dinheiro, Deus não lho recusaria. Mas a casa estava cheia e decidiram mudar.&lt;br /&gt;Um velho «cabaret», ali perto, estava para alugar: era uma grande sala baixa, sombria com duas pequenas divisões contíguas cujo aluguer custaria cem francos por ano. Alugaram-no. E a mudança fez-se no dia de S. Miguel, no ano de 1841. A esta casa se chamou, para a posteridade, «le-grand-en-bas».&lt;br /&gt;Doze mulheres idosas, contando com as que já tinham sido recolhidas, foram ocupá-la. Joana, Fanchon e Virgínia instalaram-se na pequena divisão ao fundo. Maria e Madalena ajudavam e davam algum dinheiro.&lt;br /&gt;E as velhinhas, tanto quanto podiam, fiavam a lã ou o linho; vendiam o fruto do seu trabalho, o que ajudava à subsistência do grupo.&lt;br /&gt;Não ficaram, contudo, por muito tempo no «grand-en-bas»; ainda não era suficientemente grande. Havia um velho convento que estava à venda. Com a ajuda de alguns donativos generosos e na esperança de peditórios abundantes para poderem pagar a dívida, a Casa da Cruz foi comprada em Fevereiro de 1842 e a mudança fez-se, em Setembro do mesmo ano.&lt;br /&gt;A 29 de Maio de 1842, as associadas reuniram-se com o abade Le Pailleur; queriam organizar-se mais solidamente, tendo em vista o futuro. Completaram melhor o regulamento de vida que já seguiam, tomaram o nome oficial de «&lt;em&gt;Servas dos Pobres&lt;/em&gt;», escolheram Joana para Superiora e prometeram-lhe obediência. Assim, por um crescimento quase imperceptível, como o de um rebento, a pequena sociedade tomava, pouco a pouco, a aparência de uma comunidade religiosa. Joana deixava-se guiar pelos apelos da vida, os quais identificava como apelos do Espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O peditório&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1842-1852)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;«Irmã Joana, substitua-nos! Peça em vez de nós!...». Assim pediam as boas velhinhas que tinham vivido muito tempo a pedir. Acentuavam, deste modo, a essência desta iniciativa do peditório que iria ocupar um lugar tão importante na vida de Joana. Ela própria iria tomar o lugar dos pobres, identificar-se com eles; ou melhor, guiada pelo Espírito de Jesus, ia reconhecer, entre eles a «sua própria carne» (Is. 58,7). A miséria deles, seria a sua própria miséria, o peditório deles, seria o seu próprio peditório.&lt;br /&gt;Aliás, motivos de ordem prática levaram-na a fazer o peditório, ela própria. Se tivesse deixado que as &lt;em&gt;boas mulheres&lt;/em&gt; (como eram gentilmente conhecidas) continuassem a andar pelas ruas da cidade, tê-las-ia exposto a muitas desgraças, sobretudo as que se entregavam à bebida. Pediu, então, delicadamente, a todas elas, que lhe dessem a morada dos seus benfeitores e fazia o peditório em vez delas. E explicava: «Desculpe, Senhor, a partir de agora já não será a velhinha que vinha habitualmente pedir, serei eu. Por favor, continue a ajudar-nos com a sua esmola». Repare-se neste «nos»...&lt;br /&gt;Devido à sua maneira de ser, não lhe foi fácil tomar esta decisão. É certo que tinha visto, antigamente, em Cancale, as mulheres de marinheiros ajudarem-se mutuamente, pedindo esmola com dignidade, mas isso não bastava para a fazer entrar de coração alegre, na mendicidade.&lt;br /&gt;Já velhinha, recordar-se-á ainda desta vitória sobre si-mesma que ela teve de alcançar muitas vezes: «Eu ia com o meu cesto pedir para os nossos pobres... Isto custava-me, mas fazia-o por Deus e pelos nossos queridos pobres.»&lt;br /&gt;Ajudou-a nisso um Irmão de S. João de Deus, Claude-Marie Gandet. Os Irmãos tinham, nessa época, em Dinan, uma comunidade activa, zelosa e um hospital; desempenharam um papel importante no peditório de Joana. Aconteceu que, um dia, o Irmão Gandet foi ao «grand-en-bas» pedir esmola para o hospital. Encontrou Joana que ficou perplexa! Compreenderam-se e ele ajudou-a a lançar-se deliberadamente no caminho do peditório. Para a ajudar, prometeu colaborar com ela e anunciar a sua visita a várias famílias onde ele havia de ir também. Diz-se mesmo que lhe ofereceu o seu primeiro cesto de esmolas.&lt;br /&gt;Joana fez-se, portanto, mendiga. Pedia dinheiro, mas também géneros alimentícios: comida, restos de refeições ou sobras serão muitas vezes apreciados, objectos, fatos... «Ficar-lhe-ia muito reconhecida se pudesse dar-me uma colher de sal ou um pouco de manteiga... Precisávamos de uma caldeira para ferver a roupa... Um pouco de lã ou estopa, dava-nos muito jeito...». Nunca tinha receio de confessar a sua fé; se ia pedir madeira para fazer uma cama, muitas vezes, esclarecia: «Eu precisava de um pouco de madeira para aliviar um membro de Jesus Cristo.»&lt;br /&gt;Nem sempre era bem acolhida. Um dia, quando andava a pedir, bateu à porta de um velho rico e avarento. Conseguiu convencê-lo e ele deu-lhe uma boa oferta. Joana voltou no dia seguinte mas, desta vez, ele zangou-se. Ela sorriu e disse: «Meu caro Senhor, as minhas pobres tinham fome ontem; têm fome hoje; e terão amanhã...». Ele tornou a dar e prometeu continuar.&lt;br /&gt;Assim, com um sorriso, ela sabia convidar os ricos à reflexão e à descoberta das suas responsabilidades. Uma das suas frases ficou célebre. Um velho solteirão, irritado, deu-lhe uma bofetada. Ela respondeu: «Obrigada! Isto foi para mim. Agora dê-me alguma coisa para as minhas pobres, se faz favor!»&lt;br /&gt;Joana ia muitas vezes pedir à Comissão de Beneficência da cidade e, nos primeiros tempos, tratavam-na como se fosse da casa; mas um dia, uma empregada tratou-a com aspereza e disse-lhe que tomasse o seu lugar. Quando era muito difícil, Joana encorajava-se a si própria. Dizia à companheira: «Caminhemos para Deus!» ou então, num dia de festa em S. Servan, com um dos tais meios-sorrisos que lhe eram familiares: «Hoje vamos fazer um bom peditório porque os nossos velhinhos tiveram um bom jantar. S. José deve estar contente por ver que os seus protegidos são bem tratados e vai abençoar-nos!»&lt;br /&gt;Parece que a sua presença impressionava favoravelmente as pessoas, pois possuía uma espécie de encanto que agia sobre elas. Um homem que a conheceu bem, teve esta bonita expressão: «Ela tinha um tal dom da palavra, uma maneira tão agradável de pedir... Pedia, louvando a Deus, por assim dizer.»&lt;br /&gt;Vivido assim, o peditório transfigurava-se. Teria podido provocar uma simples atitude de contribuição, de colaboração, pela qual os ricos ficariam com a consciência tranquila; mas Joana transformava-o numa evangelização que interpelava a consciência e convidava a uma mudança de vida.&lt;br /&gt;Graças ao peditório, a acção da pequena comunidade pôde ser ampliada. Instalaram-se sem receio na «Casa da Cruz» e, no mês de Novembro de 1842, havia lá vinte e seis velhinhas, algumas das quais muito doentes. Isto exigia muito trabalho.&lt;br /&gt;Madeleine Bourges veio juntar-se às associadas. Ela e Virgínia Trédaniel abandonaram o seu trabalho profissional para se dedicarem, totalmente, ao serviço das pessoas que tinham acolhido. Pouco depois, Maria Jamet fez o mesmo. Conta-se apenas com o peditório para assegurar a subsistência... e acabar de pagar a casa.&lt;br /&gt;Um médico que tinha conhecido Joana no Hospital de Rosais, ficou contente por encontrá-la à frente da «Casa da Cruz» e aceitou tratar, gratuitamente, os pobres velhinhos e, até 1857, fê-lo com uma grande abnegação.&lt;br /&gt;Deu-se um acontecimento importante durante o Inverno de 42-43: a entrada do primeiro velhinho. Tinham falado a Joana deste velho marinheiro que vivia doente e só numa cave húmida onde ela o encontrou num estado lamentável, em farrapos, deitado na palha apodrecida, extremamente cansado, esgotado. Movida pela mais viva compaixão, Joana foi contar o que tinha visto a um dos seus benfeitores e voltou pouco depois com uma camisa e roupa limpa. Lavou-o, mudou-lhe a roupa e levou-o para casa. Foi lá que ele recuperou as forças. Chamava-se Rodolfo Laisnê. Pouco depois, outros homens vieram juntar-se a ele. Às vezes, uma nova ajuda ou necessidades que surgiam, davam um novo impulso ou alargavam o peditório. Um dia, uma certa Mlle. Dubois ofereceu-se para acompanhar Joana no peditório pelos campos vizinhos. Era uma pessoa respeitada e conhecida que assim se comprometia, mendigando com Joana. A sua presença surpreendeu toda a gente e as bolsas abriram-se mais generosamente. Além do dinheiro, as pedintes receberam trigo, trigo mourisco, batatas e ainda linho, pano... E novas amizades se fizeram.&lt;br /&gt;Fazia-se agora mais assiduamente o peditório das sobras. Às vezes, organizava-se um grande peditório de roupa. Criou-se o peditório dos mercados e também o dos navios, no porto de Saint-Malo. Com a compra da «Casa da Cruz», tinha sido contraída uma pesada dívida de vinte mil francos. Dois anos e meio mais tarde, em fins de 1844 e com sete anos de avanço, Joana tinha tudo pago. De vez em quando chegava um donativo inesperado. Foi o que aconteceu quando o sobrinho de uma vendedeira de peixe, de muito má fama, verificou o prodígio: acolhida na «Casa da Cruz», tinha-se tornado uma outra mulher, tinha reencontrado a sua dignidade. Encantado por isso, o generoso sobrinho legou sete mil francos à Casa; morreu pouco depois. Esta quantia chegou a tempo para pagar o telhado dum novo edifício cuja construção tinha sido iniciada, sem quaisquer reservas de dinheiro: apenas uma moeda de cinquenta cêntimos que puseram aos pés de uma estátua de Nossa Senhora. Todos se entregaram à obra. Uns deram pedras, outros cimento, outros transportavam gratuitamente os materiais, outros, ainda, davam horas de trabalho. As Irmãs trabalhavam com a pá ou com a colher de pedreiro; e para pagarem os três mil francos que faltavam, o Prémio Montyon chegou mesmo em boa altura.&lt;br /&gt;Era um prémio atribuído todos os anos pela Academia Francesa a um francês pobre, autor da acção mais digna de mérito. Os amigos da casa insistiram junto de Joana que acabou por aceitar que o pedissem para ela. O presidente da Câmara de S. Servan e as personagens mais influentes da cidade enviaram um manifesto à Academia e, no dia 11 de Dezembro de 1845, diante de um ilustre auditório no qual figuravam Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, Thiers e muitas outras celebridades, o Sr. Dupin, o mais velho, fez um vibrante elogio da humilde Joana, de que os jornais se fizeram eco. O discurso foi publicado. Joana apercebeu-se de que este discurso poderia ser-lhe muito útil. Para onde fosse pedir, levaria, como ela dizia, «a brochura da Academia», o que seria para ela uma recomendação eficaz. Utilizá-la-ia, de facto, no decurso dos seus peditórios em novas localidades: Dinan, Rennes, Tours, Angers e muitas outras cidades de França.&lt;br /&gt;Durante dez anos, quase sem interrupções, de 1842 a 1852, Joana levou esta vida de mendiga. E nunca foi desiludida por Aquele em Quem tinha posto toda a sua confiança, Ante a admiração de todos, o número de velhinhos pobres aumentava sem cessar; eram bem tratados e felizes. Ampliava-se a casa e iam--se comprando outras... sem nada, sem recursos assegurados. Nenhuma outra explicação a não ser o incansável peditório de Joana, o esforço colectivo de toda uma cidade estimulada por ela e a sua fé no indefectível amor de Deus pelos seus pobres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As irmãs dos pobres&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco, o pequeno grupo formado por Joana e pelas suas amigas apercebia-se de que estava a seguir uma vida religiosa e organizava-se em conformidade com ela. Tinham feito votos — votos privados, ainda não votos religiosos oficiais — de obediência e de castidade. Usavam já uma espécie de uniforme, inspirado, aliás, nos fatos das camponesas da região. Como os Irmãos de S. João de Deus, as Irmãs traziam com elas um pequeno crucifixo e um cinto de couro; Joana era a Irmã Maria da Cruz.&lt;br /&gt;Em Dezembro de 1843, foi reeleita Superiora. Aconteceu, no entanto, que duas semanas mais tarde, o abade Le Pailleur, por sua autoria, anulou essa eleição e designou como superiora, a tímida Maria Jamet, de 23 anos que era sua penitente; seria mais dócil na sua mão que Joana Jugan, de 51 anos, fortalecida por uma longa experiência, conhecida em S. Servan havia já vinte e seis anos e que não recorria, pessoalmente, a ele.&lt;br /&gt;O sacerdote tinha decidido. Nessa época, face a um padre, que outra coisa teriam podido fazer essas humildes mulheres, senão curvar-se? Mas Joana não o fez sem dor e sem inquietação.&lt;br /&gt;Continuaram, todavia, o seu caminho. Aliás, fora do pequeno grupo, ninguém se apercebeu dessa mudança; Joana mantinha-se aos olhos de todos, responsável pela obra começada.&lt;br /&gt;No início de 1844, a associação mudou de nome oficial: as Irmãs decidiram chamar-se &lt;em&gt;Irmãs dos Pobres&lt;/em&gt;, para testemunhar melhor, sem dúvida, a fraternidade evangélica proclamada por Jesus e a intenção de uma partilha total com esses irmãos e irmãs.&lt;br /&gt;Mais tarde, as Irmãs fizeram, por um ano, os votos privados de pobreza e de hospitalidade: este quarto voto — pelo qual se dedicavam ao acolhimento dos velhinhos pobres — era directamente inspirado na regra estabelecida para os Irmãos de S. João de Deus.&lt;br /&gt;Em Janeiro de 1844, Eulália Jamet foi juntar-se a sua irmã mais velha, Maria, na «Casa da Cruz». No fim de 1845, uma nova irmã foi associar-se ao pequeno grupo: Françoise Trévily foi a sexta Irmã dos Pobres. E, no ano seguinte, uma etapa decisiva iria ser ultrapassada: a fundação de uma segunda casa.&lt;br /&gt;Em Janeiro de 1846, Joana partiu para Rennes. Ia pedir para os pobres de S. Servan. Mandou anunciar o seu peditório nos jornais locais que, aliás, tinham falado dela um mês antes, dando a notícia do Prémio Montyon e do discurso de Dupin na Academia Francesa.&lt;br /&gt;Desde os primeiros dias passados em Rennes, Joana verificou que aí, os mendigos eram menos numerosos que em S. Servan; no entanto, os mais velhos precisavam de ajuda. Havia mesmo muita miséria nos bairros pobres da cidade. Imediatamente, um projecto de fundação se esboçou no seu espírito e Joana pediu a autorização da sua Superiora.&lt;br /&gt;A partir deste momento, ela contactou com pessoas importantes e nem sempre bem dispostas, sem olhar a dificuldades. «É verdade, é uma loucura, isto parece impossível... Mas, se Deus está connosco, isto far-se-á!» E como não estaria Ele com os seus pobres?&lt;br /&gt;Maria Jamet veio juntar-se a Joana que já tinha alugado um quarto muito grande e outro mais pequeno, ao lado. Daí a pouco tempo havia dez pensionistas. Era preciso encontrar uma casa maior. As duas Irmãs procuraram, mas em vão. Confiaram-se a S. José (que terá um lugar cada vez mais importante na oração das Irmãzinhas dos Pobres). No dia 19 de Março, dia da sua festa, Maria rezava na Igreja de todos os Santos. Uma pessoa aproximou-se dela: «Já tem casa?» — «Ainda não», respondeu Maria. «Eu tenho o que procuram.» Foram ver; a casa, situada nos subúrbios da Madalena, podia acolher quarenta ou cinquenta pobres e tinha um pavilhão que serviria de capela. De acordo com a casa de S. Servan, o contrato foi assinado a 25 de Março e a instalação fez-se nesse mesmo dia. Alguns soldados ajudaram a fazer a mudança e a transportar velhinhas. E a casa continuou a crescer, na pobreza.&lt;br /&gt;Felizmente, algumas postulantes tinham entrado em S. Servan e outras vieram de Rennes e de outras localidades.&lt;br /&gt;Joana tinha recomeçado os seus peditórios: Vitré, Fougères... Por onde passava, atraía; acontecia muitas vezes que, depois da sua passagem, algumas jovens pediam para entrar no noviciado.&lt;br /&gt;Foi talvez nessa época que Joana foi até Redon. Bateu à porta do colégio dos Eudistas (ela também era um pouco eudista). Um padre contou: «Fui vê-la ao parlatório e ela electrizou-me (...) Sem mais demoras, levei-a à sala de estudo dos nossos pensionistas mais velhos. Eram cerca de cem (...) e Joana Jugan expôs, com simplicidade e clareza, o objectivo da sua missão. Maravilhados e profundamente comovidos, todos esses alunos esvaziaram totalmente os bolsos e as carteiras.»&lt;br /&gt;Um pouco mais tarde, depois de um peditório de Joana, uma nova casa foi aberta em Dinan, numa velha torre das muralhas. Não tardaram, porém, a trocá-la por uma casa menos sinistra e depois por um antigo convento. No capítulo seguinte, tornaremos a falar da velha torre.&lt;br /&gt;E Joana caminhava sempre, «com o alforge a tiracolo e o cesto na mão, pedindo em nome dos pobres velhinhos. Algumas vezes, era para ir socorrer uma das casas recentemente fundadas: Saint-Servan, Rennes, Dinan e mais tarde, Tours (1849). Porque esta obra, de cuja direcção ela tinha sido afastada, foi várias vezes salva do desastre por ela, porque era nela que as pessoas confiavam e porque era ela que sabia o que era preciso fazer-se. Joana vinha, tomava as medidas necessárias, obtinha os fundos que faltavam, encorajava uns e outros e depois desaparecia porque precisavam dela noutro lado. Não tinha onde «descansar a cabeça»; dava a impressão de que não pertencia a nenhuma comunidade local determinada. Desde que os pobres velhinhos estivessem abrigados, cuidados, amados, não se importava de estar sem lar nem lugar certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um turista inglês e um jornalista francês falam de Joana&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltemos um pouco atrás. No princípio de Agosto de 1846 Joana e Marie Jamet ocuparam, em Dinan, uma velha torre abandonada.&lt;br /&gt;Três semanas mais tarde, um turista inglês bateu à porta; vinha ver Joana Jugan. Publicou, posteriormente, um relato da sua visita do qual damos, a seguir, a tradução parcial: «Para chegarmos ao local que elas ocupavam, era preciso subir uma difícil escada de caracol; o andar era baixo, as paredes nuas e grosseiras as janelas pequeninas e com grades de ferro, de modo que parecia que se estava numa caverna ou numa prisão; no entanto, esta aparência sombria era um pouco alegrada pela claridade da lareira e pelo ar feliz dos que ali habitavam (...).&lt;br /&gt;«Joana recebeu-nos com uma expressão bondosa (...). Vestia um vestido preto, muito simples e muito limpo, uma touca e um lenço brancos; era o uniforme adoptado pela comunidade. Aparenta ter perto de 50 anos, é de estatura média, tem a pele queimada e parece cansada; mas a sua fisionomia é serena e cheia de bondade, não denotando o mais pequeno sintoma de pretensão ou de amor-próprio.&lt;br /&gt;Desenrolou-se, então uma verdadeira entrevista entre este turista — que era também um homem de bem, ocupado na criação de um hospício de velhinhos — e Joana Jugan que respondeu, com simplicidade, às suas perguntas. «Ela não sabia donde lhe viriam as provisões para o dia seguinte, mas perseverava, com a firme convicção de que Deus nunca abandonaria os pobres e agia segundo este princípio certo: que tudo o que se faz por eles, faz-se por Nosso Senhor Jesus Cristo. «Perguntei-lhe como é que ela podia distinguir os que se lhe dirigiam e que pareciam mais miseráveis, mais desamparados; que começava pelos velhinhos e pelos doentes visto serem eles os mais necessitados e que se informava, junto dos vizinhos deles, da sua maneira de ser e dos seus recursos, etc.&lt;br /&gt;Para não deixar ociosos os que ainda podiam fazer qualquer coisa, mandava-os desfiar e cardar velhos bocados de tecido e depois fiar a lã que obtinham; chegavam assim a ganhar seis «liards» (antiga moeda de cobre, francesa, equivalente a um quarto de soldo) por dia. Faziam também outros trabalhos, segundo as suas possibilidades e recebiam um terço do ganho obtido».&lt;br /&gt;«Eu disse-lhe que depois de ter percorrido a França, ela deveria ir a Inglaterra ensinar-nos a tratar dos nossos pobres; Joana respondeu-me que, se Deus ajudasse, iria, se fosse convidada.&lt;br /&gt;«Há nesta mulher qualquer coisa de tão calmo, de tão santo que, ao vê-la, eu pensei que estava na presença de um ser superior. E as suas palavras iam tão direitas ao meu coração que, não sei bem porquê, os meus olhos se encheram de lágrimas. Assim é Joana Jugan, a amiga dos pobres da Bretanha e só o facto de a ver bastaria para me compensar dos horrores de um dia e de uma noite passados num mar encapelado».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Crescimento&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A «casa-mãe» e o noviciado encontravam-se, desde as suas humildes origens, no antigo convento da Cruz, em S. Servan. Mas já não havia lugares suficientes, desde o fim do ano de 1847, para albergar, além das pessoas idosas, as quinze postulantes e noviças que tinham iniciado a sua formação.&lt;br /&gt;Como o abade Le Pailleur, o conselheiro de Maria Jamet, tinha tido algumas dificuldades com o bispo de Rennes, foi decidido instalá-las na casa de Tours, recentemente fundada. A partir dessa data, as jovens vão, aliás, afluir cada vez em maior número; no Verão de 1849, haverá já quarenta.&lt;br /&gt;No dia l de Agosto, começou uma nova fundação: uma casa em Paris. Tinha sido pedida pela Conferência de S. Vicente de Paula, que tinha conhecido a obra através do Sr. D’Outremont. No fim do mesmo ano de 1849, duas outras casas começavam a surgir: uma em Besançon e outra em Nantes. Foi em Nantes que se espalhou o nome das «Irmãzinhas dos Pobres», o qual se tornou designação oficial um pouco mais tarde. A intuição popular tinha encontrado o qualificativo que melhor exprimia a intenção de Joana: excluindo toda a espécie de domínio, fazer-se pequenino, amar melhor.&lt;br /&gt;Joana não tinha participado, directamente, na fundação das casas de Paris, de Besançon e de Nantes. Em contrapartida, foi ela que fez nascer a casa de Angers. Vejamos como.&lt;br /&gt;Prosseguindo, incansavelmente o seu peditório, Joana chegou a Angers em Dezembro de 1849, onde já era esperada por várias famílias.&lt;br /&gt;Ia pedir para as outras casas já feitas, mas teve, desde a sua chegada, (como em Rennes) a ideia de dotar a cidade de Angers — que a tinha recebido tão bem — de um asilo para os pobres velhinhos.&lt;br /&gt;Graças a um padre, que era vigário geral em Rennes, encontrou-se rapidamente uma casa que foi inaugurada em Abril de 1850. Entretanto, Joana voltou, provavelmente, a Tours com o produto do seu peditório e, depois, foi pedir para outras cidades.&lt;br /&gt;A 3 de Abril, regressou, então, a Angers em companhia de Maria Jamet e de duas jovens Irmãs. O Bispo Mons. Angebault, recebeu-as de braços abertos. Como acontecia em toda a parte, chegaram de mãos vazias: as quatro apenas tinham seis francos na bolsa, para começar a obra.&lt;br /&gt;Obtiveram as autorizações necessárias, instalaram-se e começaram a pedir. Dois dias depois, Maria Jamet regressava a Tours, «já consolada» e acompanhada de duas postulantes angevinas. No fim de Abril, acolhiam-se os primeiros velhinhos. Os donativos afluíam; um dia, porém, não havia manteiga; Joana viu que os velhinhos comiam o pão seco: «Mas nós estamos na terra da manteiga» disse ela. «Como não se lembraram de a pedir a S. José?» E acendeu uma lamparina diante da estátua do Pai que dá os alimentos; mandou trazer todas as manteigueiras vazias e colocou um letreiro: «Bom S. José mande manteiga para os nossos velhinhos!». Os visitantes ficavam admirados ou achavam graça a esta ingenuidade. Um deles exprimiu a sua desconfiança na eficácia do processo.&lt;br /&gt;Mas sob estas manifestações ingénuas escondia-se uma tal Fé! Alguns dias mais tarde, um benfeitor anónimo mandou entregar uma grande quantidade de manteiga e todas as manteigueiras ficaram cheias.&lt;br /&gt;Joana queria que a casa dos Pobres fosse alegre. Apoiada pela rede angevina de amizade foi um dia ter com o coronel que comandava uma unidade, em guarnição, em Angers e pediu-lhe que mandasse, na tarde de um dia de festa, alguns músicos do regimento para alegrar os seus bons velhinhos. «Minha Irmã, vou mandar-lhe a banda toda para lhe dar prazer e para alegrar os seus queridos velhinhos».&lt;br /&gt;Esta fanfarra de Angers parece acompanhar com alegria o amor que se dá e que suscita o amor.&lt;br /&gt;Joana deixou Angers para ir pedir noutras cidades. Durante o Inverno de 1950-51, assinala-se a sua presença em Dinan, em Lorient e em Brest.&lt;br /&gt;Nesta última cidade, encontrou uma senhora muito empreendedora, que não a encorajou nada. Joana ouviu-a, reflectiu e concluiu: «Pois bem, minha querida Senhora, nós tentaremos!». E pôs-se a pedir acompanhada por uma amiga. Chegaram a uma casa conhecida por ser pouco acolhedora; a sua companheira propôs que seguissem em frente. Mas Joana, puxando o cordão da sineta, respondeu: «Toquemos, pensando em Deus e Deus nos abençoará». A esmola foi generosa. Enquanto despertava nas pessoas o sentido da partilha e recebia os seus donativos, Joana continuava atenta ao desenvolvimento da família que tinha nascido dela.&lt;br /&gt;Depois de Angers, foram as inaugurações de Bordéus, Rouen e Nancy, nas quais, aliás, Joana não tomou parte directamente.&lt;br /&gt;Depois, foi a primeira casa de Inglaterra, nos arredores de Londres.&lt;br /&gt;Charles Dickens tinha ido, havia algum tempo, a Paris e tinha visitado o asilo recentemente fundado pelas Irmãs. Muito impressionado, escreveu um artigo no seu semanário «Household words» (14 de Fevereiro de 1852), onde descrevia a casa da rua Saint-Jacques depois de evocar a sua origem «... Um velhinho tem os pés sobre a braseira e murmura com uma voz fraca, que agora está bem confortável porque tem sempre calor. A recordação do frio dos anos e do frio das ruas, está gravada na sua memória, mas agora sente-se muito, muito confortável...». Este testemunho do romancista contribuiu para facilitar a instalação das Irmãzinhas dos Pobres no seu país.&lt;br /&gt;Paralelamente ao crescimento geográfico e numérico — 1853, haverá quinhentas Irmãs — verifica-se um desenvolvimento da própria Instituição: o regulamento amplifica-se e fixa-se. O Pe. Felix Massot e o abade Le Pailleur trabalharam nele, em conjunto em Lille, em 1851, durante três semanas. Este projecto foi submetido ao Bispo do Rennes e, no dia 29 de Maio de 1852, Monsenhor Brossais Saint-Mare assinou o decreto de aprovação dos estatutos. Desde então, a família das Irmãzinhas dos Pobres será, na Igreja, uma congregação religiosa.&lt;br /&gt;Esta aprovação episcopal fazia do abade Le Pailleur, oficialmente, o superior geral da Congregação, conjuntamente com a Superiora Geral, Maria Jamet. Ele desejava ser confirmado nesta função e o seu desejo foi satisfeito.&lt;br /&gt;Foi em Rennes que ele se fixou. Com efeito, tinham acabado de comprar, na periferia da cidade, uma propriedade bastante grande chamada «La Piletière». Com o asilo de Rennes, instalou-se aí o noviciado e a casa-mãe que, anteriormente, tinham sido transferidos de Tours para Paris. O Bispo foi lá no dia 31 de Maio, presidiu à tomada de hábito de vinte e quatro postulantes e à profissão de dezassete noviças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;«Tirou-me a minha obra»&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1852-1856)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Analisemos, um pouco, o estranho percurso do abade Le Pailleur — que, na verdade, apenas se explica por uma falha subtil, mas sem dúvida profunda, na sua personalidade. Em 1843, tinha impedido a reeleição de Joana Jugan como superiora para confiar esta responsabilidade à sua filha espiritual, Maria Jamet. Nos anos seguintes, a sua influência sobre a obra tornou-se cada vez maior, enquanto Joana pedia, infatigavelmente, para as novas casas, trabalhava directamente na inauguração de outras duas, acorria para apoiar e salvar as que estavam prestes a acabar, garantia, com a sua presença e com o seu nome, o valor e o dinamismo das iniciativas tomadas para bem dos velhinhos desprotegidos.&lt;br /&gt;Uma vez obtida a aprovação episcopal e conseguida a instalação da casa-mãe em Rennes, o abade Le Pailleur tomou uma decisão que ia modificar totalmente a existência de Joana: chamou-a para a casa-mãe. A partir de então, ela nunca mais teria contacto com os benfeitores, nem teria funções importantes na congregação; viveria escondida atrás das paredes de «La Piletière», ocupada em tarefas humildes.&lt;br /&gt;Joana tinha pouco menos de 60 anos e estava em plena actividade, mas obedeceu humildemente. E aí ficou — em Rennes e, depois, em La Tour S. Joseph, em Saint-Pern sem responsabilidades, até à sua morte, quer dizer, durante vinte e sete anos.&lt;br /&gt;Em «La Piletière» ela viverá na pequenez, e será a partir de então, a «Irmã Maria da Cruz». No interior da congregação quase nunca mais se empregou o seu nome de Joana Jugan. Mas lá fora, ele continuou vivo em quantas memórias!&lt;br /&gt;Ao princípio, Joana foi encarregada de dirigir o trabalho manual das postulantes, muito numerosas: sessenta e quatro, em 1853.&lt;br /&gt;Permanecerá para sempre a recordação da sua bondade, da sua doçura para com elas. Amou sempre as jovens e foi amada por elas. Não reivindicava nada, vivia plenamente o seu apagamento. Muito mais tarde, uma Irmã escreveu: «Nunca lhe ouvi dizer a mais pequena palavra que pudesse fazer supor que ela tinha sido a Primeira Superiora Geral.&lt;br /&gt;Joana falava com tanto respeito, tanta deferência das nossas primeiras «&lt;em&gt;boas Madres&lt;/em&gt;; (superioras) era tão modesta, tão respeitadora nas suas relações com elas...» Viu morrer, com 32 anos, uma das suas primeiras Irmãs, Virgínia Trédaniel. Terá sido esta morte ou o seu próprio sofrimento ou a recordação das primeiras provas da fundação, o que a levou a dizer um dia às postulantes: «Fomos enxertadas na Cruz».&lt;br /&gt;Este enxerto estava bem vivo. A Igreja reconheceu-o como seu. No dia 9 de Julho de 1854, o Papa Pio IX aprovou a Congregação das «Irmãzinhas dos Pobres», o que constituiu uma profunda alegria para a fé de Joana.&lt;br /&gt;Para se fazer reconhecer como fundador e superior geral deste novo Instituto, o Abade Le Pailleur tinha, pouco a pouco, deturpado a história da sua origem. Durante os 36 anos que se seguiram, as jovens, que entraram para a congregação, apenas aprenderam uma história falsificada, segundo a qual Joana aparecia como a terceira «Irmãzinha dos Pobres». O abade exigia provas de respeito absolutamente excessivas, exercia sobre a congregação uma autoridade total: tudo passava pelas suas mãos; todas as decisões eram tomadas por ele. Em tudo era necessário recorrer-se a ele.&lt;br /&gt;Mas a surpresa e mesmo o escândalo, acabaram por ser conhecidos pelas autoridades. Procedeu-se a um inquérito por decisão da Santa Sé e, em 1890, o abade Le Pailleur foi destituído e chamado a Roma onde terminou os seus dias num convento.&lt;br /&gt;Durante mais de 40 anos, Maria Jamet tinha-lhe sido docilmente submissa, pensando que estava a proceder bem. Mas fora frequentemente atormentada entre o que pensava ser o seu dever de obediência e o respeito pela verdade. Pouco antes de morrer, reconheceu: «Não sou eu a primeira Irmãzinha dos Pobres, nem a fundadora da obra. É Joana Jugan que é a primeira fundadora das «Irmãzinhas dos Pobres».&lt;br /&gt;Joana vivera tudo isto com uma mistura de dor e de confiança; estava lúcida e não podia estar de acordo, mas a sua fé elevava-se acima destas manobras. Mantinha o coração bastante livre para poder dizer, de brincadeira, ao Abade Le Pailleur, o que pensava dele: «O Senhor Padre roubou-me a minha obra, mas eu cedo-lha de boa vontade!».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sem rendimentos fixos!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1856-1865)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na Primavera de 1856, a vida de Joana mudou de quadro: acompanhando o grupo das noviças e das postulantes, foi ocupar, com a casa-mãe, uma enorme propriedade adquirida a trinta e cinco quilómetros de Rennes: A «Tour Saint-Joseph», em Saint-Pern.&lt;br /&gt;Continuou aí a sua existência oculta e as suas humildes tarefas. Ficou durante vários anos em companhia de duas noviças numa divisão chamada «chambre de la cloche» (quarto do sino). Continuava afastada de todas as responsabilidades e de todas as honras; embora nominalmente fizesse parte do conselho geral da congregação, nunca a chamavam para tomar parte nele.&lt;br /&gt;Uma vez, contudo, uma única vez, convidaram-na a tomar parte numa deliberação; e ela foi, como o prova a sua assinatura. Foi no dia 19 de Junho de 1865.&lt;br /&gt;Tratava-se de um problema grave para a vida da Instituição, de uma questão que punha em causa o essencial da vocação das Irmãzinhas: as exigências de pobreza da congregação. O desejo inicial era ser-se pobre com os pobres, estar-se inteiramente dependente da caridade, com eles. Tinham sido excluídas, portanto, todas as fontes fixas de rendimento. A única propriedade eram as casas de habitação que asseguravam a independência e a segurança dos pobres velhinhos.&lt;br /&gt;Na realidade, nenhum texto definia com clareza esta opção. E, nos primeiros anos, a congregação aceitou algumas rendas fixas ou fundações, mas muito esporadicamente. Ora aconteceu que em 1865, um legado de 4000 francos, sob a forma de renda, coube, por herança à congregação. Uma vez mais a questão foi colocada: deveriam ou não aceitar esta oferta? Enquanto o conselho hesitava, um leigo amigo, que ajudava na gestão financeira, recordou o princípio: «Se as Irmãs me permitem que dê humildemente a minha opinião, acho que só deverão aceitar essa renda com a autorização de a transferir para que esse capital possa servir para pagar a vossa casa (de Paris). As Irmãs apenas devem possuir as casas que habitam e, quanto ao resto, devem viver da caridade quotidiana. Se as Irmãzinhas passassem a ter rendas, perderiam os direitos a essa caridade que fazia viver os israelitas no deserto; e se, algum dia, juntassem o maná, ele alterar-se-ia como aconteceu outrora ao Povo de DEUS.»&lt;br /&gt;Esta observação era audaciosa: o capitalismo nascente florescia rapidamente, nasciam os grandes bancos franceses, era criado o livro de cheques; e a própria Condessa de Ségur escrevia a «Fortuna de Gaspar». Apenas se falava de lucro e o dinheiro era objecto de uma espécie de religião.&lt;br /&gt;Mas as Irmãzinhas dos Pobres, sensíveis ao apelo que lhes fora dirigido, iam escolher a pobreza.&lt;br /&gt;Pediram, primeiro, a opinião de vários bispos. O conselho geral reuniu-se. E foi então que se convocou a Irmã Maria da Cruz que ficou muito surpreendida e inquieta mesmo: «Eu apenas sou uma pobre mulher ignorante, que poderei eu dizer?» Insistiram. «Já que assim o desejais vou obedecer.» E foi, portanto, ao conselho onde exprimiu claramente a sua opinião. Deviam continuar a não aceitar rendas fixas, a depender da caridade. Foi esta orientação que foi adoptada. A circular enviada às outras casas dizia, sem ambiguidades: «A congregação não poderá possuir qualquer renda, qualquer rendimento fixo a título perpétuo» e, assim, «nós recusaremos todo o legado ou donativo consistindo em renda ou com a sobrecarga da instituição de camas ou de missas, ou mesmo de qualquer outra obrigação que exija a perpetuidade». E o Conselho escreveu ao «garde-des-sceaux» do Império — ministro da justiça e dos cultos — para lhe dar parte desta decisão. No ano seguinte, o governo tomou nota dela e, na mesma altura, da recusa do legado de 4000 francos.&lt;br /&gt;Algum tempo depois, vemos Joana convidar as jovens Irmãs a rezar «para que não cedamos às instâncias dos que quereriam deixar-nos rendas».&lt;br /&gt;Vemos assim que ela velava por meio da oração, por esta congregação que ela tinha feito nascer e pela opção da pobreza que a entregava ao Amor do Pai do Céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sabedoria da Irmã Maria da Cruz&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1865-1879)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os longos anos de «La Tour Saint-Joseph» não contêm muitos acontecimentos. Somente, de quando em quando, uma imagem: com o terço na mão, a Irmã Maria da Cruz «direita, apoiada numa bengala (...) percorria os prados e os bosques, agradecendo a Deus (...); quando via velhos amigos que tinham conhecido um pouco o princípio da obra (...) ela cantava o seu «Magnificai». Era verdadeiramente eloquente na sua simplicidade».&lt;br /&gt;E ia desfiando, no decorrer dos dias, palavras de sabedoria, muitas vezes carregadas de imagens, outras vezes com certo espírito. Um dia, por exemplo, explicou às noviças como deveriam comportar-se quando alguém lhes dissesse coisas desagradáveis: «Devemos ser como um saco de lã que recebe a pedra sem ressoar...»&lt;br /&gt;«Fazer penitência», o que é que isso quer dizer? Ela imagina um caso concreto: «Duas Irmãzinhas vão fazer o peditório; estão carregadas, à chuva e ao vento... estão todas encharcadas, etc. ... Se aceitam estes incómodos generosamente, com submissão à vontade de Deus, fazem penitência.» Um dia, Joana chamou uma jovem Irmã para junto da janela aberta e mostrou-lhe os canteiros: «Vê estes operários que talham a pedra branca para a capela e como eles alindam essa pedra? Assim deve a Irmã deixar-se talhar por Nosso Senhor!»&lt;br /&gt;A Irmã Clara corria num corredor. Joana fá-la parar: «A Irmã deixa alguém atrás de si!» A Irmã voltou-se intrigada: «Perdão, minha boa Irmãzinha, mas não vejo ninguém...» «Sim, sim, há Deus! Ele deixa-a correr à frente porque Nosso Senhor não andava tão depressa nem se afadigaria como a Irmãzinha!»&lt;br /&gt;Os anos passavam. Por volta de 1870, Joana abandonou o “quarto do sino” para ir para o quarto da enfermaria que ocupou até à morte, em companhia de três outras irmãs.&lt;br /&gt;«Joana vivia em presença de Deus e falava-nos sempre d’Ele», diz uma noviça desse tempo. Falar da oração, era-lhe familiar. Tinha frases engraçadas para limitar os caminhos da vida espiritual: «Temos de ser muito pequeninos diante de Deus. Quando fizerdes uma oração, começai por aí! Comportai-vos diante de Deus como uma rã pequenina.» Ou então, para as horas difíceis (e vemos aí, sem dúvida, uma espécie de confidência): «Ide procurá-Lo quando estiverdes prestes a perder a paciência e as forças, quando vos sentirdes sós e impotentes; Jesus espera-vos na Capela, dizei-LHE: «Vós bem sabeis o que se passa, meu bom Jesus! Só vós sabeis tudo e eu não tenho senão a Vós! Vinde em meu auxílio!» E, depois, ide, e não vos inquieteis em saber como podereis fazer; basta que o tenhais dito a Deus, pois Ele tem boa memória.»&lt;br /&gt;A propósito de oração, ela convidava também à discrição na recitação das fórmulas. Quando rezava com as noviças, insistia, muitas vezes, «para que mais tarde velemos para não multiplicar estas orações de devoção: Cansaríeis os vossos velhinhos, dizia ela, e eles aborrecer-se-iam e sairiam para fumar... mesmo durante o terço!» Ela gostava, assim, de pôr as jovens ao corrente da sua experiência, ao serviço das pessoas idosas. «Minhas filhas, é preciso estarmos sempre bem dispostas; os nossos velhinhos não gostam de caras tristes!» Quando falava dos pobres, «o seu coração transbordava... «Minhas queridas filhas», dizia ela, «amemos muito Deus e os nossos velhinhos, porque são os porta-vozes de Deus».&lt;br /&gt;Joana dava às Irmãs conselhos muito simples, mas cheios de sabedoria: «Não devemos recear o esforço que é preciso para cozinhar ou para tratar dos velhinhos quando estão doentes, como não há que recear ser como uma mãe para os que são gratos e para os que não sabem reconhecer tudo o que fazeis por eles. Dizei mesmo para convosco: «É por Vós, meu Jesus!» «Olhai o Pobre com compaixão e Jesus olhar-vos-á com bondade, no vosso último dia...»&lt;br /&gt;E voltava a falar do peditório, com muita frequência: «Não tenhais medo de vos sacrificar e de mendigar como eu o fiz pelos pobres, pois eles são os membros doentes de Nosso Senhor.» Joana agira sempre com reflexão e bem sabia quanto isso é importante. «Minhas filhas, é preciso rezar e reflectir antes de agir. Foi o que eu fiz toda a vida. Pesava todas as minhas palavras.» Ela, que falou tão pouco dela própria, deu-nos um dos seus segredos.&lt;br /&gt;Um outro segredo é o amor da pequenez: «Sede pequeninas, pequeninas! Se vos tornásseis grandes e orgulhosas, a congregação cairia! Só os humildes agradam a Deus.» Aos 80 anos, conservava ainda um porte enérgico. Uma jovem senhora inglesa descreveu-a, então, desta maneira: «Andando com um passo firme com uma mão apoiada no ombro de uma jovem Irmã e a outra numa sólida bengala, tão direita e tão alegre pelas formosas avenidas. O que mais nos impressionou foi a grande doçura do seu sorriso...»&lt;br /&gt;Às vezes, com as noviças, comentava, sorrindo, uma leitura. Tratava-se das santas lágrimas. Mandou fechar o livro e disse às Irmãs «há quem tenha, talvez, dificuldade em perceber isto e que diga: «Eu cá não posso chorar...» Eu também não quereria estar sempre a chorar... Não se preocupem com as santas lágrimas! Não é preciso derramá-las, nem molhar os olhos. Mas fazer um sacrifício de boa vontade, receber uma reprimenda em silêncio, isso conta como santas lágrimas. Tenho a certeza de que, assim, já chorastes, hoje, várias vezes...» Sabedoria, equilíbrio, benevo&amp;shy;lência, tudo isto foi Joana Jugan!&lt;br /&gt;Pouco a pouco, Joana ia perdendo a vista; as suas pálpebras paralisaram. Nos últimos anos da sua existência, estava quase cega e dizia: «Quando fordes velhas, já não vereis nada. Eu já só vejo Deus»; ou então: «Deus vê-me e isso basta-me!» Este facto não a impedia de ser alegre, de contar histórias divertidas, recordações engraçadas. Contava, por exemplo, como é que, um dia, um coelho saltara do seu cesto e como é que uns rapazinhos o apanharam na sua corrida; ela deu-lhes dez cêntimos como prémio pelo esforço.&lt;br /&gt;Num dia de Páscoa, Joana aproximou-se de um grupo de Irmãs que ensaiavam cânticos. «Vamos, minhas filhas, cantemos a glória do Nosso Jesus ressuscitado!» E com os braços começou a marcar o ritmo, cantando o Aleluia com tal entusiasmo que parecia querer deixar o seu velho corpo para seguir o seu Jesus!»&lt;br /&gt;Que vivacidade, que juventude! Vivia numa acção de graças contínua: «Em tudo, por toda a parte, em todas as circunstâncias eu repito: Bendito seja Deus!»&lt;br /&gt;Gostou sempre de cantar, mesmo até ao fim da vida; canções ou um género de lenga-lenga que talvez tivessem sido com postas por ela: «O pobre chama-nos / Com a voz e com o coração / Oh! A Boa-Nova / Partamos com alegria!»&lt;br /&gt;Ou então uma outra:&lt;br /&gt;«Mostrai-vos sempre gentis / Não recuseis nada / / Para humildes pedintes de pão / está sempre tudo bem!», ou ainda: «Oh! Jesus / Rei dos Eleitos / Quem Vos amará mais?» Parecia que a união profunda e simples, que ela vivia cada vez mais com Deus, à medida que a idade ia avançando, tinha libertado nela toda a alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Da morte à vida&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(1879)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos anos de vida, Joana falava bastantes vezes da sua morte e fazia-o com serenidade.&lt;br /&gt;Mas, antes de morrer, iria ter uma grande alegria. Em Novembro de 1878, tinham sido feitas diligências para obter do Papa a aprovação das constituições (a aprovação de 1854 era só «ad experimentum»). No dia l de Março, Leão XIII concedeu a ratificação pedida.&lt;br /&gt;Havia, então, quarenta anos depois dos humildes princípios de Saint-Servan, 2400 Irmãzinhas.&lt;br /&gt;Joana Jugan morreu no mês de Agosto de 1879.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A sua missão continua&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;«Vão falar-lhe de mim, mas não dê importância, Deus sabe tudo!»: Último conselho de Joana, no dia 19 de Março de 1876, a uma jovem Irmã, que professara havia três dias e que ia deixar «La Tour Saint-Joseph» para ir para Saint-Servan.&lt;br /&gt;Apagar-se, ser esquecida, era a única ambição de Joana. Esta ambição parece realizada com a sua morte.&lt;br /&gt;E, todavia, em 1894, a que foi chamada a dirigir a Congregação depois da morte de Marie-Jamet, toma a iniciativa de mandar escrever a história de Joana Jugan. Este primeiro trabalho de investigação histórica apareceu em 1902. Três anos antes, tinha sido publicada uma breve notícia necrológica de Joana Jugan onde ela é reconhecida como «a primeira Irmãzinha e fundadora».&lt;br /&gt;Com a restituição da «sua obra», começa a missão póstuma de Joana, a qual irá ampliar-se no decorrer dos anos. Em 1935, os numerosos testemunhos dos seus contemporâneos fazem pensar que é chegado o momento de abrir, em Rennes, o processo informativo sobre a sua reputação de santidade. No ano seguinte, os restos de Joana são transportados do cemitério da Comunidade para a Cripta da Capela. A segunda guerra mundial veio interromper o processo. Foi preciso esperar até Julho de 1970 para apresentar a causa em Roma. Todas as testemunhas oculares tinham desaparecido, entretanto. O processo apostólico deverá, portanto, formar um juízo sobre a heroicidade das virtudes de Joana, a partir de um trabalho histórico que foi concluído em Fevereiro de 1979 e apresentado a João Paulo II. O decreto de heroicidade das virtudes foi promulgado a 13 de Julho, seis semanas antes do centenário da morte de Joana.&lt;br /&gt;Três anos mais tarde, é reconhecida como inexplicável pela ciência médica, uma cura: Antoine Schlatter, velhinho residente na Casa das Irmãzinhas dos Pobres, em Toulon, atingido pela doença de Raynaud, em fase adiantada e ameaçado de amputação de uma mão, ficou, subitamente, curado, no decurso de uma novena de oração, pedindo a sua cura pela intercessão de Joana.&lt;br /&gt;Com a sua beatificação, no dia 3 de Outubro de 1982, a Igreja apresenta, agora, Joana Jugan como exemplo para os tempos de hoje.&lt;br /&gt;Qual é, então, a sua mensagem? A cem anos da sua morte, poderá ela ser, ainda, actual?&lt;br /&gt;Precursora, no campo da acção apostólica e social, há cento e cinquenta anos, Joana teve um sentido humano e evangélico da terceira idade, que não ficou limitado à sua época.&lt;br /&gt;Pela sua obra hospitaleira ao serviço das pessoas idosas pobres, estabelecida, hoje, em trinta países, ela convida-nos a estudar, na óptica de Deus, o lugar e o papel dos anciãos na nossa sociedade moderna, a sua inserção na Família e na Igreja, a especificidade desta idade, as suas riquezas, assim como as suas dificuldades. Convida-nos, ainda, a uma atitude essencial de estima, de compreensão mútua, de diálogo, de partilha e de entreajuda que deve unir as gerações.&lt;br /&gt;Mas a mensagem de Joana Jugan não se reduz a isso. Uma pessoa que a conheceu bem, disse que a sua característica particular era «a glorificação de Deus».&lt;br /&gt;Contestada, humilhada, vítima de adversidades, ia sempre glorificando a Deus! Esta glorificação estava enraizada na sua Fé. Pobre com os pobres, feliz por ser assim, Joana tinha uma confiança absoluta na bondade paternal de Deus; abandonava-se aos caminhos da Sua Providência, estava consciente de ser uma serva inútil e proclamava a sua alegria por «esperar tudo de Deus».&lt;br /&gt;Joana Jugan é um apelo a que vivamos as Bem-Aventuranças, hoje. A sua missão continua.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-6730157111690120854?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/6730157111690120854/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=6730157111690120854' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/6730157111690120854'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/6730157111690120854'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/joana-jugan.html' title='Joana Jugan'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-2669662258373542556</id><published>2007-06-26T16:42:00.001-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.674-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Abbé Pierre</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;A vida do fundador de &lt;em&gt;Os Companheiros de Emaús&lt;/em&gt; ficou marcada pelo combate a favor da justiça e da fraternidade.&lt;br /&gt;Figura emblemática do combate à exclusão e iniciador de &lt;em&gt;Os Companheiros de Emaús&lt;/em&gt;, o Abbé Pierre morreu em 2007, aos 94 anos, num hospital de Paris, onde tinha sido internado na sequência de uma bronquite.&lt;br /&gt;A França está de luto, “perturbada” e “tocada no coração”, como afirmou Jacques Chirac, numa declaração logo após a morte daquele que era a personalidade mais querida dos franceses há longos anos. Morreu um “gigante da misericórdia”, disse o arcebispo de Bruxelas, cardeal Godfried Danneels.&lt;br /&gt;“A sua morte fez-me pior que o frio desta manhã”, queixou-se Gilles Vasseur, um sem-abrigo a viver numa tenda num bairro dos arredores de Paris, à reportagem da AFP. “Nós, os sem-abrigo, os sem-nada, estamos hoje todos órfãos.”&lt;br /&gt;À direita como à esquerda, na política mas também entre os responsáveis pelas associações de apoio social e instituições religiosas, o lamento pela morte do Abbé Pierre foi unânime. Roger Etchegaray, ex-presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, afirmou que o fundador de &lt;em&gt;Emaús&lt;/em&gt; “nunca se enganou no combate, declarando guerra à miséria e desejando que os primeiros a servir fossem os mais sofredores”.&lt;br /&gt;“Para lá das particularidades religiosas ou filosóficas, ele lembrava a cada um o seu dever de humanidade. Possa ele suscitar em muitas pessoas o desejo de prosseguir o seu combate pela justiça e pela fraternidade.” Conta o Abbé Pierre em &lt;em&gt;Testamento&lt;/em&gt; que Jacques Gaillot, ele próprio marginalizado pelo Vaticano na sequência de posições polémicas, lhe perguntou um dia: “Explique-me um mistério: eu, assim que abro a boca, levo uma tareia. Você, em contrapartida, diz dez vezes mais e a mensagem passa sem problemas.” O padre respondeu que não era bispo e que lhe tinha sido dado um “instinto de insolência comedida”, que lhe permitia ver até que ponto poderia “clamar”…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Antes de te matares…”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo é que clamou e fez muito. Resistente à ocupação da França pelos nazis, antigo deputado, Henri Grouès de seu nome de baptismo nasceu em 5 de Agosto de 1912 em Lyon, numa família numerosa – há mais de uma década já tinha 123 sobrinhos. Estudou com os jesuítas mas entrou aos 19 anos nos Franciscanos Capuchinhos. Já no tempo da ocupação nazi, recorda a AFP, entrou na clandestinidade em 1942, ajudando judeus e resistentes. Esteve preso em 1944 às ordens dos alemães, mas conseguiu escapar. Foi depois deputado entre 1945 e 1951.&lt;br /&gt;É precisamente nesse período em que, já dedicado a apoiar mães e crianças em dificuldades, se sente levado a criar &lt;em&gt;Os Companheiros de Emaús&lt;/em&gt;. Em Julho de 1995, numa das suas vindas a Portugal, o próprio contava que, perante um homem desesperado que queria suicidar-se, lhe dissera: “Antes de te matares, não queres ajudar-me a acabar algumas destas casas para estas mães que choram?”&lt;br /&gt;Em 1954, durante um Inverno especialmente rigoroso, lançou o apelo à “insurreição da bondade”, como lhe chamou. O apelo foi renovado 40 anos mais tarde, em 1994 (e de novo em 2006, em plena Assembleia Nacional Francesa), para denunciar o “cancro da pobreza”, pedir apoio para os mais de 400 mil sem-abrigo franceses e defender o direito ao alojamento digno para todos. A sua popularidade levou-o a ser convidado há poucos anos para integrar uma candidatura ao Parlamento Europeu.&lt;br /&gt;No livro &lt;em&gt;Testamento&lt;/em&gt;, escreve no final: “Se posso transmitir uma certeza aos que vão conduzir a luta para instilar mais humanidade em tudo, será (decididamente, não posso escrever outra coisa): ‘Viver é aprender a amar.’”&lt;br /&gt;Foi esse o seu lema. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;br /&gt;“Sartre dizia : « O Inferno, são os outros! ». Estou profundamente convencido do contrário. O Inferno é estarmos desligados dos outros! Tens vivido a acreditar que te bastas a ti próprio. Então, basta-te! No lado oposto, o Paraíso é estar em comunhão ilimitada. É a alegria da partilha, da troca, banhadas pela luz.”&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Mémoires d’un croyant – &lt;/em&gt;1997)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A vida eterna não começa depois da morte. Começa agora, nesta vida, na escolha que fazemos todos os dias, de só pensarmos em nós próprios ou de partilharmos as alegrias e as tristezas dos outros. Deus não terá de nos julgar. O julgamento será este momento de luz plena onde cada um verá aquilo que fez de si próprio: um ser auto-suficiente ou um ser comungante.”&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Mémoires d’un croyant – &lt;/em&gt;1997)&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-2669662258373542556?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/2669662258373542556/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=2669662258373542556' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/2669662258373542556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/2669662258373542556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/abb-pierre.html' title='Abbé Pierre'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-8340460740759986330</id><published>2007-06-26T16:25:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.675-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Raoul Follereau</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O amigo dos leprosos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raoul Follereau nasceu a 17 de Agosto de 1903, em Nevers, França, numa família de industriais. Jovem jornalista e poeta, anti-nazi e defensor de uma França livre, viu-se perseguido, como tantos outros, pela polícia militar nazi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1936, tinha então 33 anos, Follereau toma contacto com os leprosos durante um safari em África. A partir desse momento, a sua vida mudou. No entanto, não foi fácil começar a manifestar essa amizade pelos leprosos e a curá-los, pois logo surgiu a II Guerra Mundial e teve de se esconder num convento de religiosas em Lyon, onde fazia de jardineiro, embora não soubesse nada de jardinagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, a Madre Maria Eugénia, superiora do convento, visitou uma ilha de leprosos na Costa do Marfim e, impressionada com o que acabava de ver, pensou em construir uma pequena cidade, onde os leprosos pudessem viver e ser curados. Mas era preciso dinheiro. Então Raoul disse à religiosa: «Avance com o projecto, que no dinheiro penso eu».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidiu percorrer o mundo inteiro a fazer conferências para sensibilizar as pessoas para o problema da lepra. O sonho das religiosas tornou-se realidade. Em 1953 era inaugurada em Adzopé uma cidade onde os leprosos podiam ser tratados e curados. Quando Raoul se aproximava dos leprosos, estes ficavam inicialmente um pouco desconfiados. Mas depois compreendiam que era apenas o amor dele que o levava junto deles. Então gritavam de alegria: “Pai Raoul”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante as suas viagens, contou sempre com o apoio da sua mulher Madalena, para construir aquilo a que ele chamava “ A civilização do Amor”. Raoul Follereau morreu, em Paris, a 16 de Dezembro de 1977. Dizia muitas vezes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ser feliz é fazer os outros felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tesouro que eu vos deixo é o bem que não fiz, que teria querido fazer e que vós fareis depois de mim.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No último domingo de Janeiro de cada ano celebra-se o Dia Mundial dos Leprosos, instituído pela ONU em 1954, a pedido de Raoul Follereau. É que a lepra, sendo hoje em dia uma doença curável, nem por isso deixou de ser perigosa já que há largos milhares de doentes que, por falta de recursos materiais e humanos, não têm acesso aos tratamentos necessários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A extrema pobreza e miséria em que muitos vivem justifica que, por dia, surjam ainda 2.000 novos casos de pessoas afectadas pela doença.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-8340460740759986330?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/8340460740759986330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=8340460740759986330' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8340460740759986330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8340460740759986330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/raoul-follereau.html' title='Raoul Follereau'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-6741110381305516564</id><published>2007-06-26T16:23:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.675-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Joseph Wresinski (1917-1988)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Joseph Wresinski nasceu a 12 de Fevereiro, filho de pai polaco e de mãe espanhola. Ainda menino, conheceu uma grande pobreza junto da sua mãe e irmãos, vivendo então a família numa casa sem condições, em Angers, França. Assim, a sua maneira de reflectir e de agir ficou marcada pela experiência das humilhações e da vergonha que conheceu, quando menino. O seu pensamento começou então a ser moldado por um profundo conhecimento da maneira como os mais pobres resistem, no dia a dia, para garantirem a sua dignidade.&lt;br /&gt;Em 1956, o Padre Joseph Wresinski foi ao encontro de 252 famílias agrupadas num bairro de lata, em Noisy-le-Grand, perto de Paris. Deste modo, ele, que já tinha encontrado a possibilidade de sair do mundo da miséria, decidiu consagrar-se a ajudar as famílias mais pobres, noite e dia, guardando-lhes uma fidelidade ilimitada.&lt;br /&gt;«Fiquei possuído pela ideia de que estas famílias nunca sairiam da miséria enquanto não fossem acolhidas no seu conjunto, como um povo, nos sítios onde os outros homens se debatem e tomam decisões. Prometi que, se ficasse junto delas, faria tudo para que elas pudessem subir os degraus do Vaticano, do Eliseu, da ONU...»&lt;br /&gt;Opõe-se à sopa dos pobres e propõe às famílias um jardim-escola e uma biblioteca, uma capela, um &lt;em&gt;atelier&lt;/em&gt; para jovens e adultos, uma lavandaria..&lt;br /&gt;«Não era tanto de alimentos ou de roupas de que os outros necessitavam, mas sim de dignidade, de nunca mais dependerem do que queriam ou não queriam.»&lt;br /&gt;Com estas famílias da miséria, o Padre Joseph cria, em 1957, uma associação que tem por nome “AIDE À TOUTE DÉTRESSE” (ATD), o que significa ajuda em toda a desgraça, em toda a situação de aflição e de sofrimento. Mais tarde, o nome da associação evoluiu para ATD Quarto Mundo, tendo a noção de Quarto Mundo sido inspirada pela acção de Dufourny de Villiers que, sendo deputado por Paris, se bateu em 1789, nas vésperas da Revolução Francesa, para que os mais pobres de então tivessem uma representação nas Cortes convocadas pelo rei; o mesmo deputado pediu que, para além das três ordens representativas (clero, nobreza e o terceiro estado), uma quarta ordem fosse reconhecida: «A Ordem dos pobres jornaleiros, dos enfermos, dos indigentes, a ordem sagrada dos infortunados.»&lt;br /&gt;No dia 17 de Outubro de 1987, no Adro das Liberdades, dos Direitos do Homem e do Cidadão, em Paris, respondendo ao apelo lançado pelo Movimento ATD Quarto Mundo, cem mil pessoas exprimiram a necessidade de se unirem para fazerem respeitar os Direitos do Homem. Assim puderam exprimir solenemente a necessidade de juntos lutarem para que o respeito dos Direitos Fundamentais se tornasse uma realidade universal. Nesse mesmo dia, inaugurou-se uma LAJE no local onde foi assinada a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a 10 de Dezembro de 1948, lembrando que a presença dos mais pobres no meio de todos nós constitui um apelo à construção de uma humanidade verdadeiramente fraterna. Nela se mandou gravar o seguinte apelo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Onde os homens&lt;br /&gt;estão condenados a viver na miséria,&lt;br /&gt;aí os Direitos Humanos são violados.&lt;br /&gt;Unir-se para os fazer respeitar é&lt;br /&gt;um dever sagrado.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este acontecimento deu origem à celebração do dia 17 de Outubro como o Dia Mundial da Luta contra a Pobreza e Exclusão Social. Em 1992, as Nações Unidas reconheceram oficialmente este dia, dando-lhe um alcance universal.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-6741110381305516564?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/6741110381305516564/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=6741110381305516564' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/6741110381305516564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/6741110381305516564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/joseph-wresinski-1917-1988.html' title='Joseph Wresinski (1917-1988)'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-4037293951279773686</id><published>2007-06-26T16:08:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.676-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Dom Bosco</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Terésio Bosco&lt;br /&gt;&lt;em&gt;D. Bosco&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Porto, Edições Salesianas, 2002&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;br /&gt;Um rapaz. 9 anos e 2 vacas. Todos os dias, depois do almoço, pega na aguilhada e toca os animais para o vale. Na sacola leva um bom pedaço de pão branco para a merenda. Lá em baixo espera-o outro garoto da mesma idade e também guardador de vacas. Só uma diferença: este para a merenda leva um pedaço de pão negro.&lt;br /&gt;Um dia, o primeiro rapaz entrega ao companheiro o seu magnífico pão branco:&lt;br /&gt;— Toma lá, é teu.&lt;br /&gt;— E tu?&lt;br /&gt;— Prefiro o teu pão negro.&lt;br /&gt;Aquele rapaz chama-se Joãozinho Bosco. O pai morreu quando tinha dois anos. A mãe, que coze o pão branco no forno e o ensina a ser generoso, chama-se Margarida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um sonho aos 9 anos &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma noite, talvez aquela que se seguiu à troca do pão branco pelo pão negro, Joãozinho teve um sonho. Contá-lo-á ele mesmo algum tempo depois:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Aos 9 anos tive um sonho, que me ficou profundamente gravado na memória por toda a vida. No sonho parecia-me estar perto de casa, num terreiro amplo, onde brincava uma chusma de garotos. Uns riam, outros blasfemavam. Ao ouvir aquelas blasfémias, caí sobre eles, tentando fazê-los calar, primeiro com boas razões, e depois ao sopapo.&lt;br /&gt;Nisto, apareceu um personagem misterioso, ricamente vestido.&lt;br /&gt;O seu rosto era tão brilhante que me era impossível fixá-lo. Chamou-me pelo nome e disse-me:&lt;br /&gt;— Não é à pancada, mas com bons modos que deves conquistar-lhes a amizade. Começa imediatamente a falar-lhes do mal que é o pecado e do bem que é a virtude.&lt;br /&gt;Confuso e atónito, respondi que era um rapaz pobre e ignorante.&lt;br /&gt;De repente aqueles garotos, já transformados, juntaram-se à volta daquele personagem que lhes falava. Quase sem saber o que dizia, perguntei:&lt;br /&gt;— Quem sois vós que me pedis coisas impossíveis?&lt;br /&gt;— Eu sou filho d’Aquela que a tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia. O meu nome pergunta-o à minha Mãe.&lt;br /&gt;Naquele momento vi uma Senhora de aspecto majestoso, vestida com um manto resplandecente como o sol. Vendo-me confuso, fez-me sinal para me aproximar. Tomou-me com bondade pela mão e disse-me:&lt;br /&gt;— Olha! — Olhando, verifiquei que aqueles garotos tinham desaparecido todos; e vi então uma chusma de cabritos, cães, gatos, ursos e muitos outros animais.&lt;br /&gt;— Eis o campo em que deverás trabalhar. Torna-te humilde, forte e robusto: e aquilo que neste momento vês acontecer com estes animais, hás-de consegui-lo com os meus filhos.&lt;br /&gt;Olhei de novo, e eis que, em vez de animais bravios, via apenas cordeiros, saltitando e balindo, em ar de festa, em volta daquele Homem e daquela Senhora.&lt;br /&gt;Nisto, sempre em sonho, desatei a chorar e pedi àquela Senhora que falasse mais claro, pois eu não estava a perceber nada. Então ela colocou-me a mão sobre a cabeça e disse-me:&lt;br /&gt;— A seu tempo tudo compreenderás. Ditas estas palavras, acordei com um ruído e tudo desapareceu.&lt;br /&gt;Tinha a cabeça atordoada. Parecia-me sentir as mãos doridas, pelos murros que tinha dado, e a cara a escaldar com os que tinha apanhado daqueles garotos”.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Batem na janela os primeiros raios de sol e já todos lá em casa se levantaram. Joãozinho salta rapidamente da cama, diz uma breve oração e desce a correr para a cozinha, onde estão a mãe, a avó e os dois irmãos José e António. Incapaz de resistir, acaba por contar o sonho com todos os pormenores. Os irmãos dão uma forte gargalhada:&lt;br /&gt;— Virás a ser pastor! — diz o José, em ar de mofa.&lt;br /&gt;— Talvez um chefe de bandidos! — acrescenta o António, com ar escarninho.&lt;br /&gt;A mãe, pelo contrário, fica pensativa. Fita os olhos no filho, inteligente e generoso, e exclama:&lt;br /&gt;— Quem sabe se um dia não teremos aqui um sacerdote!?&lt;br /&gt;A avó, por seu lado, bate impacientemente com a bengala no chão e murmura:&lt;br /&gt;— Os sonhos são sonhos, e não devemos acreditar neles. Agora o importante é irmos comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O pequeno saltimbanco&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do parecer da avó, Joãozinho volta ao sonho de vez em quando: pensa nos rapazes que blasfemavam, nos animais bravios transformados em cordeiros, e nas palavras da mãe: “Quem sabe... sacerdote...”.&lt;br /&gt;Conhece já vários desses rapazes: vivem na vizinhança e nas quintas espalhadas pelo campo em redor. Alguns são bons, mas há-os também desordeiros, rudes e desbocados. Porque não começar já a captar a amizade desses rapazes?&lt;br /&gt;Um dia, entra em casa com o rosto a sangrar. Andava a brincar com os companheiros à guerra, e um projéctil de madeira tinha-o atingido violentamente na cara. Margarida faz-lhe o curativo e observa preocupada;&lt;br /&gt;— Qualquer dia voltas para casa sem algum dos olhos. Por que motivo andas com esses rapazes? Tu sabes que há sempre algum atravessado.&lt;br /&gt;— Se é para lhe fazer a vontade, não volto para o meio deles. Mas olhe, que quando estou com eles, portam-se melhor.&lt;br /&gt;Margarida suspira e deixa-o à vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Espectáculo no campo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cornetas dos saltimbancos ecoam pelas colmas em redor. É a festa do padroeiro da terra. Joãozinho é dos primeiros a chegar. Resolveu “estudar” os truques dos prestidigitadores e os segredos dos equilibristas. Paga dois soldos para poder estar na fila da frente. Volta para casa e faz experiências: caminhar na corda bamba (muitas vezes lá vai ao chão), tirar um frango vivo de uma panela a ferver...&lt;br /&gt;Há que multiplicar os exercícios meses seguidos, ser constante, apesar dos trambolhões.&lt;br /&gt;E numa tarde de Verão, Joãozinho anuncia aos amigos o seu primeiro espectáculo. Sobre um tapete de sacos estendidos no chão, faz prodígios de equilíbrio com latas e caçarolas de cozinha na ponta do nariz. Pede a um pequeno que abra bem a boca e tira-lhe de lá dezenas de bolinhas coloridas. Depois entra em acção a “varinha mágica”. O irmão António chega do trabalho precisamente a meio do espectáculo. Atira para o chão a enxada que trazia às costas e começa a gritar furioso:&lt;br /&gt;— Cá está o palhaço! O mandrião! Eu farto-me de trabalhar, e ele aqui com palhaçadas!&lt;br /&gt;Joãozinho suspende o espectáculo, mas para o recomeçar a duzentos metros dali, debaixo das árvores, longe da vista do irmão. Joãozinho é um palhaço “especial”. Antes do número final, tira o terço do bolso, ajoelha e convida todos os presentes a rezar com ele. Outras vezes repete a prática ouvida na igreja. É a recompensa que ele pede ao seu público, pequenos e grandes, mas os pequenos são a maioria. Depois ata uma corda a duas árvores, salta para cima, e caminha sobre ela de braços estendidos, entre repentinos silêncios e frenéticas ovações dos amigos. Parece que está ali um anjo a ampará-lo, para evitar um brusco trambolhão. Seja como for, o pequeno saltimbanco tem a protecção de Deus, irá crescendo são e forte, e um dia pregará de outros púlpitos, diferentes da corda esticada entre uma pereira e uma cerejeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O inimigo de enxada ao ombro &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João começa a frequentar a primeira classe primária aos 9 anos, no Inverno de 1824-25 (é seu professor o Pe. Lacqua). Naquele tempo a escola começava a 3 de Novembro e terminava a 25 de Março. Frequenta a 2ª classe primária durante o Inverno de 1825-26. Margarida quer que frequente a terceira no Inverno seguinte, mas António opõe-se ferozmente:&lt;br /&gt;— Que necessidade há de perder tanto tempo? Saber ler e fazer o nome é mais que suficiente. Ele que pegue na enxada como eu. Um dia, por causa de um livro que João colocara sobre a mesa ao lado do prato, levantou-se um escarcéu. João (11 anos) é agredido pelo irmão mais velho (17 anos), que num acesso de fúria o cobre de bofetadas. É impossível continuar assim. E numa manhã de Fevereiro, Margarida disse a João as palavras mais tristes da sua vida:&lt;br /&gt;— É melhor saíres de casa. Qualquer dia António pode cometer um desacato.&lt;br /&gt;João parte à procura de trabalho. Tem 11 anos e meio, e leva consigo uma sacola com duas camisas, dois livros e uma carcaça. Margarida fica a dizer-lhe adeus da soleira da porta, enquanto vê desaparecer por entre o nevoeiro o seu pequeno emigrante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Moço de lavoura&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Caminha até à quinta Moglia. Recolhe-se um instante em silêncio, como que a ganhar fôlego. Entra finalmente. A família dos Monglia está reunida na eira a preparar os vimes para as videiras.&lt;br /&gt;— Que procuras, meu rapaz? — pergunta-lhe um sujeito ainda novo que pelos vistos deve ser o patrão.&lt;br /&gt;— Procuro Luís Moglia&lt;br /&gt;— Sou eu mesmo.&lt;br /&gt;— Venho da parte da minha mãe, para ver se o senhor me aceita a trabalhar em sua casa.&lt;br /&gt;— Mas assim tão pequeno? Quem é a tua mãe?&lt;br /&gt;— Margarida Bosco. O meu irmão António maltrata-me, e é por isso que venho da parte dela à procura de trabalho.&lt;br /&gt;— Olha, meu rapaz, até ao fim de Março não aceitamos ninguém. É melhor voltar para casa.&lt;br /&gt;— Peço-lhe por tudo que me aceite mesmo sem ganhar nada — suplica Joãozinho — e começa a chorar.&lt;br /&gt;A senhora Doroteia, mulher do patrão, comove-se.&lt;br /&gt;— Deixa-o ficar, Luís. Fazemos a experiência por alguns dias.&lt;br /&gt;João mete-se ao trabalho com determinação, para não ser despedido: trabalha de sol a sol. Depois, enquanto os outros vão dormir, acende um toco de vela, e continua a ler os livros que lhe tinha emprestado o seu professor. E enquanto leva os bois para o campo lá vai ele de livro na mão. O patrão não o contraria, mas abana a cabeça:&lt;br /&gt;— Porque é que estás sempre a ler?&lt;br /&gt;— Porque quero ser padre.&lt;br /&gt;No meio dos torrões, estudar torna-se cada vez mais difícil. Assim se vão passando quase três anos.&lt;br /&gt;Em Novembro de 1829 foi visitá-lo o seu tio Miguel, irmão de sua mãe:&lt;br /&gt;— Então, estás contente?&lt;br /&gt;— Não. Tratam-me bem, mas a minha vontade de estudar... e já fiz 14 anos.&lt;br /&gt;O tio Miguel acaba por levá-lo para casa. António fica irritado com tal decisão, mas depois de discussões e mais discussões, concorda em que João estude contanto que isso não venha a prejudicá-lo na herança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um encontro decisivo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele mesmo mês de Novembro de 1829 houve umas pregações especiais numa aldeia vizinha, Buttigliera. Entre a multidão que acorria dos montes, lá estava também João. O capelão de Murialdo, Pe. Calosso (um ancião de 70 anos), ao ver aquele rapaz caminhando sozinho, pergunta-lhe:&lt;br /&gt;— Donde és, meu amigo?&lt;br /&gt;— De Bécchi. Fui à pregação dos missionários.&lt;br /&gt;— O que é que terás tu compreendido, com toda aquela dose de latim!&lt;br /&gt;Mas o nosso homem, com toda a desenvoltura, repetiu ali, de cor, a prática inteira como se estivesse a lê-la num livro.&lt;br /&gt;Pouco depois João estava sentado diante da secretária do Pe. Calosso.&lt;br /&gt;— És um prodígio de memória, meu rapaz. Tens de te meter a estudar. Eu estou velho, mas farei tudo o que puder para te ajudar. Olha aqui a gramática latina. Pelo Natal iremos a ela. Agora vamos ao italiano. Este (e passou-lhe para as mãos um pequeno volume) é um livro de meditação. Lê uma página por dia e reflecte sobre ele... Se não compreenderes, pergunta. Repara bem, o Senhor deu-te uma boa inteligência, e tu deves servir-te dela antes de tudo para O conhecer. Se aprenderes muita coisa, mas não aprenderes a amá-Lo, será vão o nosso trabalho.&lt;br /&gt;A partir daquele dia, João Bosco aprendeu a fazer todos os dias um pouco de meditação.&lt;br /&gt;Alguns dias depois, o Pe. Calosso, de acordo com Margarida, recebeu João em sua casa. O rapaz voltava a Bécchi uma vez por semana para mudar de roupa.&lt;br /&gt;Foram magníficos os meses que João passou em casa daquele grande sacerdote.&lt;br /&gt;A gramática latina, manuseada sem descanso, ia chegando ao fim. Porém, numa manhã de Novembro de 1830, o Pe. Calosso teve um enfarte. João acudiu, fixou aqueles olhos agonizantes e das mãos trémulas do seu benfeitor recebeu, sem compreender, uma chave, e foi tudo.&lt;br /&gt;Nada mais lhe resta senão chorar amargamente a perda do seu segundo pai.&lt;br /&gt;A chave era de um pequeno cofre que continha 6 mil liras. João, aterrorizado com o pensamento de que pudessem levantar-se problemas ensombrando os restos mortais do seu amigo, entregou as chaves aos herdeiros. E tudo acabou.&lt;br /&gt;Joãozinho via-se novamente só, sem mestre, sem dinheiro, sem planos para o futuro. Era caso para desesperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;10 quilómetros por dia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de tudo, era necessário continuar, custasse o que custasse. Margarida teve que suportar a humilhação de dividir a casa e as terras com António para acabar com o inferno dentro do lar. E João, decididamente, começou a calcorrear duas vezes por dia a distância de cinco quilómetros a que ficava a escola de Castelnuovo.&lt;br /&gt;Botas a tiracolo e pés doridos do longo caminhar, tinha por companheiros: a chuva e o vento, o sol e a poeira, conforme as estações.&lt;br /&gt;Uma noite, enquanto repousava do cansaço, reapareceu-lhe diante dos olhos o terreiro do primeiro sonho. Lá estava o rebanho e a Senhora resplandecente em atitude de lho confiar. “Torna-te humilde, forte e robusto — repetia — e a seu tempo tudo compreenderás”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A partir de agora, “D. Bosco”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1835. João Bosco tornou-se um jovem robusto. Tinha estudado e trabalhado duramente. Tinha conquistado centenas de amigos. Agora, com vinte anos, toma a resolução mais importante da sua vida: entra no seminário.&lt;br /&gt;Seis anos de estudo aturado. 5 de Junho de 1841. O arcebispo de Turim impõe as mãos sobre a cabeça de João Bosco, e invoca o Espírito Santo que o consagra sacerdote para sempre. A partir deste momento todos passarão a chamar-lhe D. Bosco (“Dom” é o titulo dado aos padres em Itália).&lt;br /&gt;Naquela tarde, ouve da boca de sua mãe: “Até que enfim és padre. Agora estás mais perto do Senhor. Mas lembra-te de que começar a dizer a missa é começar a sofrer. De hoje em diante, pensa só na salvação das almas, e não te preocupes comigo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Subterrâneos e muralhas negras&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Que fará agora D. Bosco? São-lhe oferecidas boas propostas para capelão mas o seu projecto é outro: os rapazes. Fica em Turim a aperfeiçoar o estudo da teologia, e a estudar a situação social da cidade.&lt;br /&gt;Tem como professor um jovem padre que se tornará seu amigo e conselheiro por toda a vida: o Pe. José Cafasso. Chamam-lhe “o padre da forca”, porque todo o tempo livre o ocupa a visitar as prisões e a confortar os presos, e quando algum deles é condenado à morte, acompanha-o até à forca.&lt;br /&gt;D. Bosco começa a ir com o seu mestre às prisões. Naquelas enxovias escuras, entre paredes negras e húmidas, encontra caras sombrias e ameaçadoras. Sente calafrios, às vezes quase desmaia.&lt;br /&gt;Mas aquilo que mais o faz sofrer é a presença de presos ainda jovens, de olhos revoltos e sorriso trocista.&lt;br /&gt;Um dia vê, atrás das grades, um grupo de rapazes de pouca idade.&lt;br /&gt;E tal o desgosto que as lágrimas lhe humedecem os olhos.&lt;br /&gt;— Porque chora aquele padre? — pergunta um deles.&lt;br /&gt;— Porque nos quer bem — responde um outro. — A minha mãe também era capaz de chorar se me visse aqui dentro...&lt;br /&gt;Naquele dia, ao sair da cadeia, D. Bosco toma uma resolução firme:&lt;br /&gt;“Muitos vêm para aqui porque ninguém se ocupa deles. É necessário assisti-los, instruí-los; é necessário impedir a todo o custo que rapazes ainda tão novos acabem na cadeia. Quero fazer tudo para os salvar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Chamo-me Bartolomeu Garelli”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8 de Dezembro de 1841. D. Bosco prepara-se para a missa na igreja de S. Francisco de Assis. Entra na sacristia um rapazola. O sacristão, julgando tratar-se de algum valdevinos, põe-no na rua à vassourada.&lt;br /&gt;Mas D. Bosco intervém;&lt;br /&gt;— Que modos são esses? Arruma a vassoura!&lt;br /&gt;— Porquê reverendo?&lt;br /&gt;— Porque é um meu amigo.&lt;br /&gt;— Se assim é. — resmungou o sacristão —, e foi chamar o rapaz.&lt;br /&gt;Este volta comprometido. Tem o cabelo rapado e o casaco sujo de cal. Um rapaz da província. Ao sair de casa, os pais tinham-lhe recomendado que em Turim não deixasse de ir à Missa. Mas ele sentia-se envergonhado em ir para o meio das pessoas bem vestidas. D. Bosco dirige-lhe umas palavras amáveis e pede-lhe que espere um pouco depois da Missa, porque tem uma coisa muito importante a dizer-lhe. Terminada a Missa, leva-o a um canto da igreja e, de sorriso nos lábios, pergunta-lhe:&lt;br /&gt;— Meu bom amigo, como te chamas?&lt;br /&gt;— Bartolomeu Garelli, de Asti.&lt;br /&gt;— Ainda tens pai?&lt;br /&gt;— Não, já morreu.&lt;br /&gt;— E mãe?&lt;br /&gt;— Já morreu também.&lt;br /&gt;— Quantos anos tens?&lt;br /&gt;— Dezasseis.&lt;br /&gt;— Sabes ler e escrever?&lt;br /&gt;— Nem uma coisa nem outra.&lt;br /&gt;— Sabes cantar?&lt;br /&gt;— Não.&lt;br /&gt;— E assobiar?&lt;br /&gt;— Isso sei — e sorriu —. D. Bosco continua:&lt;br /&gt;— Já fizeste a primeira comunhão?&lt;br /&gt;— Ainda não.&lt;br /&gt;— E já te confessaste alguma vez?&lt;br /&gt;— Sim, quando era pequeno.&lt;br /&gt;— E vais à doutrina?&lt;br /&gt;— Não me atrevo. Os rapazes mais pequenos fazem troça de mim...&lt;br /&gt;— E se fosse eu a explicar-te a doutrina, vinhas?&lt;br /&gt;— Com todo o gosto.&lt;br /&gt;— Pode ser aqui mesmo?&lt;br /&gt;— Sim, contanto que não me batam!&lt;br /&gt;— Fica descansado, agora és meu amigo, e ninguém te fará mal. Quando vamos começar?&lt;br /&gt;— Quando o senhor quiser.&lt;br /&gt;— Agora mesmo?&lt;br /&gt;— É só o senhor querer.&lt;br /&gt;D. Bosco ajoelha e reza uma Avé-Maria. Naquele momento nasce o Oratório, começa o grande apostolado de D. Bosco entre os jovens.&lt;br /&gt;Quatro dias depois é domingo. Bartolomeu volta acompanhado de mais oito rapazes. Vêm “para falar com D. Bosco”. No domingo seguinte, D. Bosco vê quatro pequenos serventes de pedreiro a dormir encostados uns aos outros durante a homilia, muito difícil para eles. Acorda-os e convida-os a acompanhá-lo à sacristia.&lt;br /&gt;Aqui aparece também Bartolomeu e os seus amigos. O número aumenta.&lt;br /&gt;D. Bosco ajuda-os o rezar, celebra a missa e faz uma pequena prática ao alcance deles, viva, dialogada, salpicada de histórias e de factos interessantes.&lt;br /&gt;Mais outro domingo e é já uma enchente de rapazes, pobremente vestidos mas de olhos vivos. Procuram D. Bosco, a sua palavra e o seu afecto. O exército de rapazes continua a engrossar, mas o Inverno aproxima-se. É necessário pô-los ao abrigo da chuva e da neve. O primeiro lugar de encontro é o Colégio Eclesiástico em que D. Bosco estuda. No pequeno pátio, o recreio; na igreja ao lado, as funções religiosas, o canto e as sessões de catequese. O Pe. Cafasso aprova e colabora mas os outros começam a reclamar: toda aquela barulheira era insuportável!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De um hospital para um cemitério&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No Verão de 1844 D. Bosco acaba os estudos e é nomeado capelão de um orfanato para raparigas doentes, fundado na periferia de Turim pela Marquesa Barolo.&lt;br /&gt;Os rapazes que seguem D. Bosco tornam-se multidão. Centenas deles invadem os campos vizinhos e apinham-se nas escadas e no próprio quarto de D. Bosco, para ouvir a sua palavra.&lt;br /&gt;Agora, que tem um quarto independente, D. Bosco pensa em dar um pouco de instrução aos mais inteligentes.&lt;br /&gt;Da parte da tarde vêm ter com ele em pequenos grupos, com o rosto negro da fuligem ou branco da cal, casaco pelos ombros, radiantes por terem a possibilidade de aprender. Encontram muito difícil a aritmética, o que leva D. Bosco a escrever para eles um dos seus primeiros livrinhos:&lt;br /&gt;“O sistema métrico decimal”.&lt;br /&gt;A Marquesa não suporta durante muito tempo todo aquele barulho. Não conseguindo convencer D. Bosco a abandonar aqueles rapazes para se dedicar unicamente à sua obra, pede-lhe para os reunir noutro sítio. D. Bosco descobre um cemitério abandonado (S. Pedro “in vinculis”) com uma capela espaçosa. No cemitério há umas arcadas e um pátio. O capelão é um seu amigo, o Pe. Tésio. A criada do capelão, ao ver chegar aquela chusma rumorosa de garotos, a princípio fica pálida, depois entra em fúria. Grita, agita a vassoura, insulta D. Bosco. Este acha melhor não insistir e lá segue com os seus rapazes à procura de outro paradeiro.&lt;br /&gt;12 de Julho de 1845. Com autorização da Câmara, D. Bosco muda o acampamento para os lados dos Moinhos da cidade, na margem do rio Dora. Mas passado pouco tempo, também ali os vizinhos se queixam do barulho e da gritaria. Com mágoa, D. Bosco dá a triste notícia aos seus amigos:&lt;br /&gt;— Meus amigos, não podemos continuar aqui.&lt;br /&gt;Mas durante aquela breve estadia nos Moinhos, D. Bosco depara com um rapazito pálido, que o observa em silêncio. Tem apenas 8 anos e chama-se Miguel Rua. D. Bosco tinha distribuído umas medalhas aos seus garotos, mas este miúdo pálido não se atreveu a correr como os outros e acabou por ficar sem nada. Então D. Bosco aproxima-se dele. Estende-lhe a mão esquerda, e fazendo sinal de a dividir ao meio com a direita, disse-lhe sorrindo:&lt;br /&gt;— Toma lá, Miguelinho, toma lá.&lt;br /&gt;O rapazito olha e não compreende. Tomar o quê? Acha esquisito ao ver a mão vazia. Então D. Bosco acrescenta:&lt;br /&gt;— Nós dois vamos fazer tudo a meias.&lt;br /&gt;Aquele rapazito virá a ser o seu primeiro sucessor, à frente da Congregação Salesiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um tambor e muitos polícias&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Passamos meses e D. Bosco não consegue encontrar um tecto para abrigar os seus rapazes. Mas não desiste. Fala-lhes ao ar livre, reunindo-os nas praças desertas ou no campo. As pessoas observam. Umas riem, outras sentem pena.&lt;br /&gt;— Mas que padre é aquele?&lt;br /&gt;— É D. Bosco com os seus rapazes!&lt;br /&gt;— Coitado, dizem que tem uma ideia fixa. No meio daquele pandemónio ainda perde o juízo.&lt;br /&gt;Durante o Inverno (Novembro 1845 — Março 1846) aluga três divisões em casa do Pe. Moretta.&lt;br /&gt;Na Primavera consegue alugar um terreno na periferia. Um barracão aqui existente, dá para guardar o equipamento desportivo. Há espaço para a rapaziada — várias centenas — poder divertir-se à vontade. Sentado a um canto, num banco tosco, D. Bosco confessa. Por volta das dez ouve-se o rufar de um tambor militar e os rapazes alinham em filas. Depois toca uma corneta, e aí vão eles para os lados da Consolata ou do Monte dos Capuchinhos, onde participam na Missa celebrada por D. Bosco.&lt;br /&gt;Mas a atmosfera que se respira por toda a parte é de revolução, e aqueles 300 rapazes marchando ao som da corneta e do tambor começam a preocupar o governo piemontês.&lt;br /&gt;O Marquês Miguel de Cavour (pai de Camilo), manda chamar D. Bosco e impõe-lhe várias coisas: reduzir o número de rapazes; evitar absolutamente que entrem na cidade em formatura; excluir os maiores por serem os mais perigosos. D. Bosco opõe-se. A conversa com o ministro acaba em tempestade. Cavour vocifera:&lt;br /&gt;— Mas o que você tem a ver com estes maltrapilhos? Deixe-os lá com a sua vida. Não se meta em sarilhos. A coisa pode tornar-se muito séria para todos!&lt;br /&gt;D. Bosco retira-se sem nada ceder, mas a partir daí o campo de jogos dos seus rapazes começa a ser vigiado pelos agentes da ordem. Os donos do terreno aparecem também um dia. Põem-se a observar a terra toda pisada pelo bater desalmado de todos aqueles tamancos e botifarras. Dirigem-se a D. Bosco:&lt;br /&gt;— A continuar assim isto fica reduzido a um deserto! Temos muita pena, caro padre, mas tudo tem limites. Está despedido.&lt;br /&gt;D. Bosco sente-se fulminado. E agora para onde ir? Já foi escorraçado de tanto lugar...&lt;br /&gt;“Ao cair da tarde daquele dia — escreve D. Bosco — olhei para aquelas centenas de rapazes que se divertiam. Sem ninguém que me desse a mão, sem forças, com a saúde abalada. Afastando-me um pouco, pus-me a passear sozinho e não pude conter as lágrimas: “Meu Deus, exclamei, que fazer agora?”&lt;br /&gt;Nisto aparece não um anjo, mas um homenzinho a gaguejar: Pancrácio Soave, fabricante de soda e detergentes.&lt;br /&gt;— É verdade que você anda à procura de um lugar para fazer uma oficina? (laboratório em italiano).&lt;br /&gt;— Não é bem uma oficina (um laboratório), mas um oratório. (Ambiente de formação religiosa e alegre convívio para a juventude).&lt;br /&gt;— Seja lá o que for, o lugar existe. Se quiser ver...&lt;br /&gt;Seguindo aquele homem, D. Bosco percorre, quando muito duzentos metros.&lt;br /&gt;O “lugar” é um telheiro comprido e tosco, pertencente a um certo Francisco Pinardi. Pegada ao telheiro, uma nesga de terra. D. Bosco corre a dar a notícia:&lt;br /&gt;— Alegrai-vos, meus amigos. Já temos Oratório! Vamos ter igreja, escola e pátio para correr e saltar. No próximo domingo lá nos encontraremos. É aqui ao lado, na casa Pinardi!&lt;br /&gt;5 de Abril de 1846. O próximo domingo é domingo de Páscoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dois padres no manicómio&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telheiro que D. Bosco tinha alugado ao sr. Francisco Pinardi media 15 por 6 metros. Ligado à casa Pinardi (pela parte norte), tinha sido construído havia pouco tempo, e ali trabalhava um chapeleiro e as lavadeiras arrecadavam a roupa. (Passava ali perto um canal que ia dar ao Dória, também pouco distante).&lt;br /&gt;— Aqui havemos de construir a igreja — disse D. Bosco. — É preciso contratar já os operários.&lt;br /&gt;Vieram os pedreiros: escavaram, reforçaram as paredes e o tecto. Depois os carpinteiros assentaram um soalho de madeira sobre o pavimento de terra batida. Os próprios rapazes, muito dos quais eram aprendizes de pedreiro, ajudavam nas poucas horas livres.&lt;br /&gt;Sábado à tarde o edifício estava como novo. D. Bosco lá arranjou como pôde as alfaias indispensáveis para a nova capela. E começou a sentir o peso das dívidas. Um peso que o acompanhará até ao fim da vida. Mas a Providência não havia de abandoná-lo.&lt;br /&gt;12 de Abril: dia grande! Na manhã de Páscoa, todos os sinos da cidade tocavam festivos. Junto à casa Pinardi não havia sinos mas havia a pessoa de D. Bosco que atraía os rapazes para a “baixa” de Valdocco.&lt;br /&gt;Agora que Nossa Senhora lhe tinha aberto o caminho, D. Bosco tinha a certeza de chegar muito longe. Com os colegas falava dos projectos como se já fossem realidade:&lt;br /&gt;— Levantarei escolas e oficinas. Tudo isto para mim é como se já existisse.&lt;br /&gt;A princípio ouviam-no curiosos. Mas depois um ou outro começou a abanar a cabeça:&lt;br /&gt;— D. Bosco tem ideias fixas. Vai dar em doido. Precisa de um tratamento, antes que seja demasiado tarde.&lt;br /&gt;Até o seu mais querido amigo, o braço direito na obra do Oratório, o teólogo Borel, começou a ter os seus receios. Um dia falava-lhe D. Bosco com tanto entusiasmo dos seus projectos que ele não se conteve: lançando-lhe os braços ao pescoço exclamou soluçando:&lt;br /&gt;— Meu pobre D. Bosco! Estás perdido.&lt;br /&gt;Dois outros seus amigos, os padres Pontazi e Nasi alugaram em segredo um quarto no manicómio para lá meterem o colega que julgavam transtornado.&lt;br /&gt;Uma tarde, estava D. Bosco a explicar o catecismo a um grupo, quando chegaram os dois padres num coche fechado. Descem e convidam D. Bosco a dar um passeio com eles.&lt;br /&gt;— Sabemos que andas cansado. Não queres vir dar um passeio connosco?&lt;br /&gt;— Com todo o gosto. É só um momento, que vou buscar o chapéu.&lt;br /&gt;Um dos amigos abriu a porta:&lt;br /&gt;— Sobe.&lt;br /&gt;— Os meus amigos primeiro.&lt;br /&gt;Os dois amigos insistiram ainda, depois entreolharam-se e, para não estragar a festa, concordaram em subir primeiro. Imediatamente, D. Bosco fecha a porta, e grita ao cocheiro:&lt;br /&gt;— Rápido para o manicómio! Esperam lá estes dois clientes.&lt;br /&gt;O coche partiu como uma flecha para o manicómio que ficava perto. Os enfermeiros, que estavam informados da vinda de um padre, ficaram desapontados ao verem dois. Teve de intervir o capelão para deslindar o caso. A partir daquele dia, ninguém mais ousou repetir a façanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O milagre dos pequenos pedreiros&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a semana os pedreiros de Turim começaram a ver um espectáculo fora do vulgar: um padre de batina arregaçada subia os andaimes, entre baldes de cal e montes de tijolo. Era D. Bosco que, terminados os seus afazeres, andava pelas obras para se encontrar com os seus rapazes. Era uma festa para eles. Provenientes da província, tinham vindo parar a Turim em busca de trabalho como serventes de pedreiro, e muitas vezes eram explorados por patrões gananciosos e sem escrúpulos.&lt;br /&gt;Mas ele não se limitava a falar com os rapazes no lugar de trabalho. Abordava também os patrões. Inteirava-se dos salários, do tempo de descanso, da possibilidade de guardar o domingo. Foi ele um dos primeiros na Itália a estabelecer contratos regulares de trabalho para os seus jovens aprendizes, e a bater-se pelo seu cumprimento.&lt;br /&gt;Mas D. Bosco sozinho não podia chegar a tudo: todo o ser humano é limitado.&lt;br /&gt;Um domingo de Julho de 1846, depois de um dia extenuante, passado a confessar, pregar, organizar jogos para os seus quinhentos garotos, enquanto se dirigia para o quarto, desmaiou.&lt;br /&gt;Levaram-no em braços para a cama. Tinha sido atingido por uma grave pleurisia com expectoração de sangue. Durante a noite a febre subiu assustadoramente.&lt;br /&gt;Pelos andaimes dos pequenos pedreiros, pelas oficinas dos jovens mecânicos, a notícia espalhou-se rápida como um relâmpago: “D. Bosco está a morrer”.&lt;br /&gt;Naquela noite, ao quarto onde D. Bosco agonizava, iam chegando grupos de rapazes apavorados. Tinham ainda a roupa suja do trabalho, o rosto branco da cal. Nem tempo tinham tido de jantar para correr até lá. Choravam, rezavam:&lt;br /&gt;— Senhor, não o deixes morrer!&lt;br /&gt;Oito dias esteve D. Bosco entre a vida e a morte. Houve rapazes que, naqueles oito dias, trabalhando sob um sol escaldante, não provaram uma gota de água para arrancar do Senhor a sua cura. No Santuário da Consolata os pequenos serventes de pedreiros revezavam-se na oração: dia e noite havia sempre algum de joelhos diante de Nossa Senhora.&lt;br /&gt;Às vezes o sono era tanto que os olhos se fechavam (depois de 12 horas de trabalho), mas não desistiam, pois D. Bosco não podia morrer. E a graça chegou, arrancada ao céu por aqueles miúdos que não se resignavam a ficar sem pai.&lt;br /&gt;Uma tarde de domingo, pelos fins de Julho, apoiado a uma bengala, D. Bosco aparece no Oratório.&lt;br /&gt;Os seus rapazes voam ao seu encontro. Os mais velhos obrigam-no a sentar-se num cadeirão, levantam-no aos ombros, e levam-no em triunfo até ao pátio. Todos cantam e choram de alegria, incluindo o próprio D. Bosco.&lt;br /&gt;Entram na capela e agradecem ao Senhor. No silêncio absoluto que se fez, D. Bosco disse a todo o custo estas palavras:&lt;br /&gt;— A minha vida é a vós que a devo. Mas podeis ter a certeza de que, de hoje em diante, toda ela será gasta em benefício vosso.&lt;br /&gt;Naqueles dias de calor asfixiante, D. Bosco foi passar alguns meses de convalescença à terra natal. Prometeu que a demora não seria longa: até ao cair da folha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma mãe para 500 rapazes&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o dia 3 de Novembro de 1846. As folhas caíam com o vento do Outono, e D. Bosco regressou a Turim. Desta vez não vem sozinho: acompanha-o Margarida sua mãe, que tinha concordado em acompanhá-lo para se tornar a mãe de todos aqueles rapazes.&lt;br /&gt;Os dois peregrinos fizeram a longa caminhada a pé. Margarida trazia no braço uma canastra, com todos os seus haveres: alguma roupa branca e um pouco de comida.&lt;br /&gt;Já perto do Oratório um sacerdote amigo de D. Bosco reconhece-o, dá-lhe as boas-vindas e quer saber notícias:&lt;br /&gt;— Então como é que vai a saúde?&lt;br /&gt;— Sinto-me bem, obrigado.&lt;br /&gt;— Onde é que ficas a viver?&lt;br /&gt;— Aqui, na casa Pinardi. Aluguei lá três divisões. Como vês, trouxe comigo a minha mãe.&lt;br /&gt;— Com que meios contas?&lt;br /&gt;— Ainda não sei. Mas a Providência lá está.&lt;br /&gt;— És sempre o mesmo — murmurou o outro abanando a cabeça —. Depois tirou o relógio do bolso e entregou-lho dizendo:&lt;br /&gt;— Gostaria de ter mais recursos para poder ajudar-te.&lt;br /&gt;Margarida foi a primeira a entrar na nova casa: três quartinhos nus e tristes com os respectivos leitos, duas cadeiras e alguns tachos. Esforçou-se por sorrir e disse a D. Bosco:&lt;br /&gt;— Na nossa terra, andava numa roda viva para ter tudo em ordem, limpar os móveis e lavar a louça. Aqui terei menos preocupações...&lt;br /&gt;Ambos, de sorriso nos lábios, meteram mãos à obra.&lt;br /&gt;D. Bosco pôs na parede um crucifixo e um pequeno quadro de Nossa Senhora. Margarida preparou as camas e depois mãe e filho começaram a cantar. A canção dizia assim:&lt;br /&gt;“Guai al mondo — se ci sente,&lt;br /&gt;Forestieri — senza niente”&lt;br /&gt;(Ai se o mundo nos descobre,&lt;br /&gt;Forasteiros, mãos vazias...)&lt;br /&gt;Um dos rapazes, Estêvão Castagno, ouviu-os, e a notícia correu veloz de boca em boca entre todos os rapazes de Valdocco:&lt;br /&gt;— D. Bosco já voltou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Sou órfão. Venho de Valsesia”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora que tinha a mãe consigo, D. Bosco pensa poder fazer alguma coisa mais pelos seus rapazes. Alguns, à noite, não tinham onde dormir. Ficavam em qualquer canto ou nos miseráveis dormitórios públicos.&lt;br /&gt;Pensou em recolher em casa os mais abandonados.&lt;br /&gt;A primeira experiência saiu-lhe mal. Tinha posto alguns a dormir no palheiro. De manhã, nem um só para amostra: tinham fugido todos levando consigo as mantas que Margarida lhes tinha emprestado. Mas não desanimou.&lt;br /&gt;Uma tarde de Maio. Chove a cântaros. D. Bosco e a mãe tinham acabado de jantar, quando alguém bate à porta. É um rapaz dos seus 15 anos, todo molhado e enregelado.&lt;br /&gt;— Sou órfão. Venho de Valsesia. Sou servente de pedreiro, mas ainda não encontrei trabalho. Tenho frio e não sei para onde ir...&lt;br /&gt;— Entra — disse-lhe D. Bosco —. Vai para a lareira, pois ensopado como estás pode ser perigoso.&lt;br /&gt;Margarida prepara-lhe qualquer coisa para comer. Depois pergunta-lhe:&lt;br /&gt;— E agora, para onde vais?&lt;br /&gt;O rapaz fica pensativo. Depois, de lágrimas nos olhos:&lt;br /&gt;— Não sei. Tinha três liras quando cheguei a Turim, mas já as gastei todas. Por favor, não me mande embora.&lt;br /&gt;Margarida pensa nas mantas que ti¬nham voado:&lt;br /&gt;— Poderias ficar, mas quem nos garante que não foges com as panelas?&lt;br /&gt;— Não senhora. Sou pobre, mas nunca roubei.&lt;br /&gt;D. Bosco acabara de sair debaixo da chuva. Pouco depois entra comuns tijolos, faz com eles quatro suportes sobre os quais coloca umas tábuas. Depois vai à sua própria cama. Tira o colchão e estende-o sobre as tábuas.&lt;br /&gt;— Ficas a dormir aqui, meu caro. E ficarás enquanto for preciso. Ninguém te mandará embora.&lt;br /&gt;É o primeiro órfão que entra na casa de D. Bosco. No fim do ano são sete. Mais tarde serão milhares.&lt;br /&gt;Um dia D. Bosco entra numa barbearia. Aproxima-se um pequeno aprendiz para lhe ensaboar a cara.&lt;br /&gt;— Como te chamas? Quantos anos tens?&lt;br /&gt;— Carlitos. Tenho 11 anos.&lt;br /&gt;— Muito bem, Carlitos, vê lá se fazes esse trabalho bem feito. E teu pai?&lt;br /&gt;-— Morreu. Só tenho mãe.&lt;br /&gt;— Pobre menino, sinto muito.&lt;br /&gt;O rapazito tinha acabado de lhe ensaboar a cara.&lt;br /&gt;— Agora, coragem, pega na navalha como se deve e faz-me a barba. Acode o patrão, alarmado:&lt;br /&gt;— Desculpe, reverendo! O miúdo ainda não é capaz. O trabalho dele é só passar o sabão.&lt;br /&gt;— Mas alguma vez há-de ser a primeira, não é verdade? Por isso pode começar comigo. Força, Carlitos.&lt;br /&gt;Carlitos fez aquela barba tremendo como uma folha. Quando a navalha se movia em volta do queixo, suava em bica. Lanho aqui, lanho ali, conseguiu chegar ao fim.&lt;br /&gt;— Parabéns Carlitos! — Sorriu D. Bosco —. Agora que já somos amigos, tinha muito gosto em que fosses visitar-me de vez em quando.&lt;br /&gt;Um dia de Verão, D. Bosco dá com ele a chorar ao pé da barbearia:&lt;br /&gt;— Que te aconteceu?&lt;br /&gt;— Morreu a minha mãe, e o patrão despediu-me. E não sei para onde ir.&lt;br /&gt;— Vem comigo. Sou pobre, mas ainda que só tenha um pedaço de pão, reparto-o contigo.&lt;br /&gt;Margarida preparou mais uma cama. Carlitos Gastini ficou mais de cinquenta anos com D. Bosco. Alegre, cheio de vida, tornou-se o animador brilhante de todas as festas. Fazia rir toda a gente. Mas quando falava de D. Bosco, chorava como uma criança. “Era tão meu amigo!” exclamava comovido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sapateiros no corredor e alfaiates na cozinha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1848 rebentou a primeira e sangrenta guerra da Independência.&lt;br /&gt;Nos campos de batalha caíram milhares de homens, e pelas ruas de Turim começaram a vaguear grupos de órfãos sem casa nem futuro.&lt;br /&gt;D. Bosco ampliou o orfanato. Bateu à porta dos ricos, importunou nobres e damas da aristocracia, conseguindo assim dinheiro para a construção de urna casa mais ampla, para os rapazes abandonados sem eira nem beira.&lt;br /&gt;Muitos destes miúdos eram espertos e inteligentes. No entanto viam-se condenados a trabalhar como serventes de pedreiro para sobreviver e assim ficariam toda a vida.&lt;br /&gt;D. Bosco não se confortava com semelhante situação.&lt;br /&gt;Abriu um curso nocturno, convidou sacerdotes amigos e outras pessoas de boa vontade a ajudá-lo. As aulas eram dadas na cozinha, na sacristia, no coro da capela, onde quer que houvesse um canto livre.&lt;br /&gt;E à noite, enquanto todos descansavam, D. Bosco escrevia livros para os seus rapazes. Eram livros fáceis, económicos, que chegaram a ser adoptados em muitas escolas de Turim.&lt;br /&gt;Mas os rapazes, que enchiam de vida o pátio do Oratório, já não podiam aumentar mais. D. Bosco pensou então em fundar um outro:&lt;br /&gt;— Meus caros amigos, quando as abelhas já não cabem na colmeia, uma parte delas vai em busca de outro lugar. E nós temos de fazer como as abelhas. Vamos formar uma segunda família e abrir outro Oratório.&lt;br /&gt;E o novo oratório surgiu nas proximidades de Porta Nuova, e ficou a chamar-se “Oratório de S. Luís”.&lt;br /&gt;Mas bem depressa também este ficou a transbordar, e D. Bosco fundou um terceiro na zona de Vanchiglia: “Oratório do Anjo da Guarda”.&lt;br /&gt;O dia 2 de Fevereiro foi um dia de grande esperança para D. Bosco. Quatro dos rapazes que tinham vindo da rua, e que ele tinha formado com tanto desvelo, manifestaram-lhe o desejo de “serem como ele”: sacerdotes. Eram eles José Buzzeti, um pequeno servente de pedreiro da Lombardia; Carlos Gastini, o ajudante de barbeiro que lhe tinha feito a barba a tremer; dois outros jovens: Tiago Bellia e Félix Reviglio. Naquele mesmo dia receberam a batina, e começaram a ajudá-lo na assistência aos mais pequenos.&lt;br /&gt;Em 1852 D. Bosco ampliou a velha casa Pinardi, e construiu um novo e grande edifício. Tinha de acolher não só os trabalhadores mas também os estudantes cujo número era cada vez maior.&lt;br /&gt;Com a ajuda dos primeiros clérigos, muito jovens ainda, D. Bosco lançou-se num empreendimento grandioso e arrojado: no espaço de três anos (de 1853 a 1856) abriu as oficinas de sapataria, alfaiataria, encadernação e carpintaria. Começou-se do nada: alguns bancos num pequeno corredor para os sapateiros; duas pequenas mesas para os alfaiates na cozinha. O primeiro mestre-alfaiate foi o próprio D. Bosco, como foi também ele o primeiro a ensinar a bater a sola aos sapateiros aprendizes.&lt;br /&gt;Era a primeira semente que bem depressa viria a trasformar-se numa grande árvore.&lt;br /&gt;Mas onde é que D. Bosco ia buscar o dinheiro para pagar o pão dos seus rapazes e as paredes dos seus edifícios? A esta pergunta o Santo respondia com uma só palavra: “A Providência”. O Senhor despertava benfeitores, inspirava pessoas boas, fazia chegar cartas com ofertas.&lt;br /&gt;E às vezes intervinha directamente de forma prodigiosa.&lt;br /&gt;José Buzzetti viu-o com os seus próprios olhos, em 1849. D. Bosco tinha prometido castanhas cozidas aos seus 400 rapazes. Margarida porém tinha cozido só três ou quatro quilos. O cesto de onde D. Bosco tirava as castanhas com uma grande concha continha uma dúzia de punhados. E no entanto as castanhas chegaram para todos, mesmo para ele, Buzzetti, que recebeu no fim a sua ração como os outros, com olhos arregalados pelo milagre que tinha presenciado ali mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E Deus mandou um cão &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seita protestante dos Valdenses fazia muitos adeptos entre o povo de Turim, servindo-se inclusivamente do atractivo do dinheiro. Nesse tempo ainda não havia “diálogo”, mas luta aberta entre católicos e protestantes. D. Bosco, embora arrasado de trabalho, fundou em 1853 as “Leituras Católicas”: uma série de pequenos livros de carácter apologético e leitura fácil que avivavam a fé dos católicos.&lt;br /&gt;Quando é que os escrevia? Durante a noite, em que habitualmente só dormia umas horas.&lt;br /&gt;As “Leituras Católicas” provocaram a ira dos Valdenses, que a tudo recorreram para o fazer calar.&lt;br /&gt;Uma tarde, enquanto dava aula aos maiores, um desconhecido disparou-lhe um tiro da janela. A bala passou-lhe rente ao peito e rasgou-lhe a batina. Perante o susto dos alunos, D. Bosco disse apenas sorrindo:&lt;br /&gt;— Nossa Senhora é muito nossa amiga, e aquele sujeito deve ser um fraco atirador.&lt;br /&gt;Depois olhou para o rasgão da batina e acrescentou com tristeza:&lt;br /&gt;— Pouca sorte, era a melhor batina que eu tinha!&lt;br /&gt;Um dia apareceu no pátio um meliante armado de punhal. Procurava D. Bosco para o matar. Como não o conhecia, confundiu-o com um dos clérigos, que fugiu logo pedindo auxílio.&lt;br /&gt;Apesar de a polícia ter sido avisada, o criminoso voltou ainda mais três vezes, enchendo de terror o Oratório.&lt;br /&gt;Uma noite, já muito escuro, chegaram alguns homens a chamar D. Bosco para que fosse confessar uma doente em estado grave.&lt;br /&gt;D. Bosco foi imediatamente. Mas ao ser introduzido num quarto, alguém apagou a luz, e aqueles malvados caíram sobre ele armados de varapaus. D. Bosco mal teve tempo de agarrar numa cadeira e levantá-la para defender a cabeça. Recuando debaixo de uma chuva de pauladas conseguiu dar com a porta e fugir.&lt;br /&gt;Uma noite D. Bosco voltava para casa, quando dois homens lhe barraram o caminho.&lt;br /&gt;Lançaram-lhe uma capa pela cabeça, quando apareceu um grande cão, de cor pardacenta e focinho de lobo, aos urros. Atirando-se com as patas contra o peito de um e depois do outro, pô-los em fuga.&lt;br /&gt;A seguir acompanhou D. Bosco até ao portão do Oratório.&lt;br /&gt;“Todas as noites em que vinha sozinho — conta D. Bosco — ao entrar no arvoredo perto do Oratório, via sempre aparecer o “Pardo”. Os jovens do Oratório viram-no muitas vezes entrar no pátio. Uma vez, espantados, dois rapazes quiseram apedrejá-lo, mas José Buzzetti interveio logo:&lt;br /&gt;— “Não lhe façam mal: é o guarda de D. Bosco”.&lt;br /&gt;Carlos Tomatis, que frequentava então o Oratório, diz a respeito dele: “Era um cão de aparência temível. Muitas vezes Margarida ao vê-lo exclamava: “Oh que animal tão feio”. Fazia lembrar um lobo.&lt;br /&gt;Certa noite D. Bosco tinha de sair para tratar uns assuntos urgentes, mas deu com o “Pardo” deitado na soleira da porta. Procurou afastá-lo, saltar por cima dele. Mas o cão começa a rosnar e empurrava-o para trás. Margarida, que já conhecia o cão, disse a D. Bosco:&lt;br /&gt;— Se não me queres dar ouvidos a mim, obedece pelos menos ao cão: acho que não deves sair.&lt;br /&gt;No dia seguinte D. Bosco soube que um assassino armado de pistola o esperava numa esquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A morte na cidade de Turim&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julho de 1854. Uma notícia alarmante percorre as ruas de Turim: grassa a cólera na Ligúria e está a alastrar como uma mancha de óleo nas aldeias do baixo Piemonte. O rei, a rainha e toda a família real fogem em coches fechados, e refugiam-se no castelo de Casellette, onde vivem os condes Cays.&lt;br /&gt;Entretanto, na periferia da cidade, nos dias 30 e 31 de Julho apareciam os primeiros casos da terrível peste.&lt;br /&gt;5 de Agosto. O bairro mais atingido de Turim é Borgo Dora, que confina com Valdocco. Todos os dias mais de cem vítimas jazem pelas diversas casas e nos lazaretos.&lt;br /&gt;O presidente da Câmara dirige um apelo dramático aos sacerdotes, religiosos e religiosas: morrem pessoas nos lazaretos por falta de médicos e enfermeiras. Precisa-se de gente de boa vontade, disposta a arriscar a vida.&lt;br /&gt;Naquela noite D. Bosco falou aos jovens do seu Oratório:&lt;br /&gt;— O presidente da Câmara lançou um apelo. Se entre os maiores alguém se sentir com coragem de vir comigo aos hospitais e às casas particulares a tratar os doentes da cólera, faremos uma obra boa e agradável ao Senhor. Garanto-vos se procurardes viver todos na graça de Deus a cólera não terá aqui entrada.&lt;br /&gt;Catorze dos maiores deram o seu nome. Poucos dias depois, outros trinta conseguiram obter a licença, apesar de serem ainda muito novos.&lt;br /&gt;Foram dias de trabalho árduo, nada convidativo.&lt;br /&gt;Durante mais de um mês aqueles 44 rapazes voluntários não tiveram mãos a medir. D. Bosco dava o exemplo a todos: sempre pronto a acudir, a confortar, a administrar os sacramentos.&lt;br /&gt;Com as primeiras chuvas do Outono, o número de vítimas foi diminuindo. A 21 de Novembro deu-se por fim o estado de “emergência”.&lt;br /&gt;Um caso ou outro, porém, foi ainda detectado no princípio do Inverno. E foi precisamente nesta altura que se manifestou a santidade de Domingos Sávio, um rapazinho de Mondónio recém-chegado ao Oratório (29 de Outubro).&lt;br /&gt;Passando uma noite pela rua Cottolengo, Domingos fixou os olhos na fachada de uma casa, e como uma voz o chamasse enfiou pelas escadas e subiu apressadamente. Sem hesitar bateu à porta e apareceu o dono da casa.&lt;br /&gt;— Desculpe — disse Domingos — não é aqui que mora uma pessoa atingida pela cólera e que precisa de assistência?&lt;br /&gt;O homem arregalou os olhos:&lt;br /&gt;— Não, aqui não há ninguém com essa doença. Era o que faltava!&lt;br /&gt;— Tem a certeza?&lt;br /&gt;— A certeza completa, que diabo!&lt;br /&gt;— Deve estar enganado. Dá-me licença que entre?&lt;br /&gt;O homem ficou fora de si. Ele sabia perfeitamente que na sua família, graças a Deus, estavam todos bem. Mas a insistência daquele rapaz começou a intrigá-lo.&lt;br /&gt;— Entra, entra e verifica com os teus próprios olhos.&lt;br /&gt;Deram voltas aos quartos, à cozinha, ao armazém. Nada.&lt;br /&gt;— Mas não há mais nenhum quarto, algum canto no sótão?&lt;br /&gt;— Ah! sim — disse o homem batendo com a mão na testa —. Vamos lá acima.&lt;br /&gt;Subiram. E o que foram descobrir? Uma pobre mulher, aninhada a um canto, o rosto contraído pela doença, agonizava.&lt;br /&gt;— Chamem depressa um padre! — segredou Domingos.&lt;br /&gt;— Só faltava esta! — resmungava o pobre homem enquanto descia as escadas a chamar um padre. E lembrou-se então de que aquela infeliz lhe tinha pedido para a deixar ficar ali a dormir durante algum tempo. E nunca mais tinha pensado no assunto.&lt;br /&gt;E uma pergunta importuna lhe martelava o cérebro:&lt;br /&gt;— Como é que este rapaz conseguiu saber?&lt;br /&gt;Com o avançar do Inverno os casos de cólera cessaram completamente. A cidade voltou a respirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As grandes realizações&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O pequeno punhado dos primeiros clérigos (4) tinha-se multiplicado.&lt;br /&gt;E D. Bosco pensou que era chegado o momento das “grandes realizações”.&lt;br /&gt;Os anos seguintes iriam trazer muito trabalho, problemas cada vez mais difíceis, obras que desafiaram o tempo.&lt;br /&gt;18 de Dezembro de 1859: no pequeno quarto de D. Bosco, nasce a família dos “Salesianos”. Os primeiros dezassete rapazes que manifestaram a vontade de seguir D. Bosco decidem viver unidos na “Congregação Salesiana”, com vista a trabalhar sempre a favor dos rapazes pobres.&lt;br /&gt;30 de Julho de 1860: sobe os degraus do altar para celebrar a sua primeira Missa o Pe. Miguel Rua, o rapazinho pálido que D. Bosco encontrou nos moinhos, junto ao Dora, e ao qual tinha oferecido metade da sua mão. Ele vai tornar-se agora um outro D. Bosco, a sua sombra fiel.&lt;br /&gt;Abril de 1864: no campo de Valdocco, D. Bosco lança a primeira pedra do Santuário de Maria Auxiliadora. Põe nas mãos do construtor a primeira soma de dinheiro: oito soldos.&lt;br /&gt;1872: D. Bosco funda a congregação das Filhas de Maria Auxiliadora.&lt;br /&gt;Às primeiras irmãs diz:&lt;br /&gt;— Sois poucas e pobres, mas haveis de ter tantas alunas que nem sabereis onde metê-las.&lt;br /&gt;11 de Novembro de 1875: no Santuário de Maria Auxiliadora, apinhado de gente comovida, D. Bosco entrega o crucifixo aos primeiros dez missionários salesianos que partem para a América do Sul. Chefe da expedição é João Cagliero, um dos primeiros rapazes do Oratório. Nascem assim as Missões Salesianas, que se estenderão por todo o mundo.&lt;br /&gt;9 de Maio de 1876: Pio IX aprova os “Cooperadores Salesianos”, a quem D. Bosco chama “salesianos externos”. São os amigos das suas obras, que trabalham pela juventude e o ajudam com meios financeiros.&lt;br /&gt;Antes de morrer, D. Bosco dir-lhes-á:&lt;br /&gt;— Sem a vossa ajuda eu pouco ou nada teria feito.&lt;br /&gt;1877: D. Bosco funda o “Boletim Salesiano”, órgão de ligação entre os cooperadores (que já eram centenas de milhar). É uma revista mensal que leva, a todos os associados, notícias da Congregação, as cartas dos missionários, a palavra viva de D. Bosco.&lt;br /&gt;Mas quanto mais obras salesianas se estendiam pelo mundo, maiores somas de dinheiro eram precisas. Para sustentar as missões da América, para alimentar milhares de rapazes abandonados, nos últimos anos da sua vida D. Bosco viu-se obrigado a peregrinar pela Itália, pela França e pela Espanha, em busca de meios. Foi um trabalho extenuante.&lt;br /&gt;Nossa Senhora abençoou visivelmente estas viagens: as mãos de D. Bosco restituíam a vista aos cegos, o ouvido aos surdos, a saúde aos enfermos. Por toda a Europa já era conhecido como “o padre que faz milagres”.&lt;br /&gt;Maio de 1887: D. Bosco tinha terminado a sua última viagem à Espanha a pedir ajuda. O Papa incumbira-o de construir em Roma um templo ao Sagrado Coração de Jesus.&lt;br /&gt;Agora, curvado pelos anos e pela fadiga, sobe ao altar do grandioso templo para celebrar a Eucaristia. Os seus olhos arrasam-se de lágrimas. E não consegue contê-las até ao fim da celebração. A seguir é preciso levá-lo à sacristia. O Pe. Viglietti (que estivera junto dele durante toda a Missa) pergunta-lhe ao ouvido:&lt;br /&gt;— O que é que tem, D. Bosco?&lt;br /&gt;E ele, de novo entre lágrimas:&lt;br /&gt;— Representou-se diante de mim, com toda a nitidez, a cena do primeiro sonho, aos nove anos. Estava a ver e ouvir o que a minha mãe e os meus irmãos diziam a respeito do meu sonho...&lt;br /&gt;Naquele sonho distante Nossa Senhora afirmara-lhe:” A seu tempo tudo compreenderás”. Agora, num olhar retrospectivo, parecia-lhe compreender tudo perfeitamente. Tinha valido a pena enfrentar tanto trabalho, tantos sacrifícios, para salvar tantos rapazes.&lt;br /&gt;Morreu na madrugada de 31 de Janeiro de 1888. Aos salesianos, que velavam junto dele, murmurou nos derradeiros momentos:&lt;br /&gt;— O importante é fazer bem a todos, e mal a ninguém!... Dizei aos meus rapazes que os espero no céu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-4037293951279773686?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/4037293951279773686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=4037293951279773686' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/4037293951279773686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/4037293951279773686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/dom-bosco.html' title='Dom Bosco'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-4989635433855215946</id><published>2007-06-26T15:37:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.676-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Madre Teresa de Calcutá</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Terésio Bosco&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Madre Teresa de Calcutá&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Porto, Edições Salesianas, 1990&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A religião é o fundamento da vida de Madre Teresa. Ela diz: “A minha vida é dedicada a Cristo. É para ele que respiro e vivo. É para mim uma dor insuportável quando me chamam assistente social. Se tivesse arranjado emprego como funcionária da Segurança Social, há muito que o teria deixado”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma bacia de água limpa&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Desceram-no da carroça e a braços levaram-no para a barraca. Os seus gemidos pareciam o ganir de um cão. Se tivesse mais forças, teria ladrado ou dado urros de dor, porque o cancro já lhe tinha devorado metade do corpo.&lt;br /&gt;Os doentes das barracas vizinhas começaram a resmungar. Alguém levantou a voz:&lt;br /&gt;— Não sentis o cheiro? Levai-o para longe.&lt;br /&gt;Uma mulher magra, vestida com um sari branco, aproximou-se com uma bacia e ligaduras. Mas o cheiro horrível que vinha daquelas chagas fê-la empalidecer. Saiu a correr para não desmaiar. O alarido dos doentes tornou-se ameaçador:&lt;br /&gt;— Levem para longe esse cadáver. Deixem-nos morrer em paz...&lt;br /&gt;Agarrando-o pelas mãos e pelos pés, três irmãs pegaram nele e levaram-no para a barraca situada mais a Norte, num lugar fresco à sombra. Era o depósito dos cadáveres. Pousaram-no no chão. Madre Teresa viu que as outras duas já não podiam mais e disse:&lt;br /&gt;— Trazei-me uma bacia de água limpa e, depois, ide ter com os outros.&lt;br /&gt;Pouco a pouco, começou a lavar as horríveis chagas, acompanhada por um longo gemido, entrecortado somente por sentidos gritos de dor daquele desesperado.&lt;br /&gt;A determinada altura, os olhos, que até então a tinham fixado sem nada ver, pousaram sobre ela. O gemido acabou. O moribundo procurava dizer uma palavra:&lt;br /&gt;— Onde estou?... Quem sois?... Como conseguis suportar este cheiro?&lt;br /&gt;— Isto não é nada — respondeu ela — comparado com o teu sofrimento.&lt;br /&gt;Morreu à tardinha. Madre Teresa ainda lá estava, segurando-lhe a cabeça e dizendo-lhe palavras de esperança. Aquele homem, cujo nome ninguém sabia, ainda conseguiu dizer:&lt;br /&gt;— Tu és diferente das outras. Obrigado!&lt;br /&gt;E ela:&lt;br /&gt;— Sou eu quem te agradeço, pois tu sofres com Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A carroça dos moribundos&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Logo de madrugada, Madre Teresa voltou a sair pelas ruas de Calcutá, acompanhada de duas irmãs. A mais nova puxava a carroça. Nesta “cidade negra” até os passeios das ruas são habitados: homens e mulheres de todas as idades, quando a fome ou a febre os devora, deitam-se nos passeios; ali, esperam a morte. Os transeuntes não se preocupam. É uma coisa normal; sempre assim foi. As crianças pequeninas apertam-se contra a mãe que acaba de morrer e choram durante algum tempo. Depois, também elas ficam sossegadas e tranquilas. A morte passa por todos. As irmãs da Madre Teresa carregam, na carroça, os moribundos e levam-nos para a sua casa “Nirmal Hriday”, que, na antiga língua dos Brâmanes, significa: “Coração Imaculado”. Ali, colocam-nos sobre enxergas limpas, lavam-lhes as chagas, enxotam-lhes do corpo os insectos e cobrem-nos com um lençol limpo.&lt;br /&gt;Madre Teresa passa pelas longas filas de enxergas acariciando mãos, dizendo palavras de esperança. É uma mulher pequena e magra, com um rosto estranho... envelhecido e, ao mesmo tempo, luminoso, belo como uma rocha enrugada pelo vento e pela chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O pobre e o Papa&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No dia 5 de Dezembro de 1964, Paulo VI terminava a sua viagem à Índia e, no aeroporto de Bombaim, saudava a multidão. Também Madre Teresa tinha vindo de Calcutá para receber a bênção do Papa. Tinha escolhido, para pernoitar, o “centro assistencial” que as irmãs tinham posto a funcionar num dos bairros mais pobres da periferia.&lt;br /&gt;No dia anterior, dirigindo-se para o grande recinto oval onde o Papa encerrava o Congresso Eucarístico Internacional, fora atraída por um forte grasnar de corvos num aglomerado de barracas. Encontrara um velho moribundo, encostado a uma árvore. Braços finos como canas de bambu, rosto esquelético e imóvel. Com a ajuda de um rapaz, tinha-o levado para o centro assistencial.&lt;br /&gt;Ora, enquanto Paulo VI saudava a multidão, o velho agonizava e Madre Teresa estava junto dele. Escreveu Curtis Pepper: “Chamava-o pelo seu nome, Onil, e sussurava-lhe, em língua bengali, palavras de conforto. Nenhum hospital tinha querido recebê-lo. Ninguém, naquela cidade de cinco milhões de habitantes, onde estão recenseados oficialmente três mil bairros pobres, tinha tido tempo de estender-lhe a mão enquanto estava para expirar. “Como te sentes, Onil?” — pergunta Madre Teresa. Para o velho já não havia esperança alguma: a denu-trição tinha-o levado ao ponto donde já não é possível voltar atrás. Nem o alimento, nem a ciência, nem nada o podiam salvar. Clinicamente, Onil estava morto, se bem que conseguisse falar ainda: “Vivi como um animal, mas agora morro como um ser humano...” Logo a seguir, expirou nos braços da Irmã que rezava por ele em bengali.&lt;br /&gt;Madre Teresa não sabia que, naquele preciso momento, o Papa falava dela no aeroporto de Bombaim. Dizia à multidão: “Antes de deixar a Índia, desejamos oferecer o nosso automóvel a Madre Teresa, superiora das Missionárias da Caridade, para que o utilize na sua missão de amor”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Recém-nascidos em assentos vermelhos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O automóvel era um Lincoln branco, descapotável e com assentos vermelhos, que os católicos americanos tinham oferecido ao Papa para as suas deslocações na Índia.&lt;br /&gt;Desde o dia 6 de Dezembro, os habitantes da periferia de Bombaim viam o Lincoln branco, guiado por um hindu&lt;br /&gt;esfarrapado, percorrer os bairros miseráveis da cidade. Parava em todos os depósitos de lixo. Saíam duas irmãs, vestidas com sari de algodão branco, que procuravam entre os detritos, e muitas vezes encontravam pequenos embrulhos com alguma coisa viva, palpitante lá dentro: um recém-nascido que uma mãe tinha abandonado porque não podia alimentá-lo. No “Centro” das Missionárias da Caridade já havia mais de cem bebés, bem dispostos, a gritar e a chuchar o leite que vinte cabras produziam cada dia.&lt;br /&gt;Posteriormente, e de improviso, o Lincoln desapareceu. “A oferta do Papa foi muito preciosa e causou-me uma grande emoção” — disse Madre Teresa. — “Mas demo-nos conta que a gasolina era muito cara e decidimos renunciar ao automóvel vendendo-o. Um rico hindu ofereceu-me vinte e sete milhões: um preço de estimação, evidentemente, que eu aceitei. Metade foi-me dado em dinheiro e a outra metade em terrenos, em que começámos a construir a “cidade dos leprosos”.&lt;br /&gt;As irmãs continuaram a percorrer os bairros degradados, à procura de recém-nascidos, de moribundos e de leprosos. Mas levavam a carroça puxada à mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;18 anos: que rumo dar à vida?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em criança, Madre Teresa chamava-se Agnes Gonxha Bojaxhiu. Vivia em Skopje, uma cidade que, muitos anos depois, seria destruída por um terramoto. Quando Agnes nasceu (1910), Skopje pertencia à Albânia, passando depois para a posse da Jugoslávia.&lt;br /&gt;Quando frequentava as escolas da cidade, Agnes começou a fazer parte de um grupo juvenil muito empenhado. O assistente do grupo era um jovem padre jesuíta. Por essa altura, os jesuítas de Skopje abriram uma missão perto de Calcutá.                                &lt;br /&gt;À sua pátria chegavam cartas dramáticas, que descreviam o estado de extremo abandono em que vivia a gente da Índia. Aos 12 anos, Agnes ouviu ler aquelas cartas no seu grupo e começou a pensar: “gostaria de ir para a missão de Calcutá”. Era o começo, simplicíssimo, de uma vocação.&lt;br /&gt;1928. Agnes tem 18 anos. O futuro começa a ser uma preocupação cons&amp;shy;tante: “que rumo dar” à sua vida. A ideia das missões apodera-se dela cada vez mais. Reza, para que aquilo não seja uma fantasia. Pergunta ao confessor: “Como posso saber que Deus me chama?”. Ouve a resposta: “Através da alegria. Se o pensamento de dedicar a vida a Ele e aos irmãos te causa alegria e paz, uma alegria profunda e tranquilizante, há razões sérias para pensar que Deus te chama. A alegria profunda funciona como bússula, mesmo quando aponta um caminho duro e difícil”.&lt;br /&gt;O pensamento de se tornar missionária desperta, de facto, nela uma alegria tranquila e profunda. Consegue a autorização do pai e da mãe, e faz o pedido para entrar nas “Irmãs de Loreto”, que têm a casa-mãe na Irlanda e muitas missões na Índia.&lt;br /&gt;Depois de uma breve estadia em “Loreto Abbey” de Rathfarnham, nas proximidades do Danúbio, foi enviada para Dajeeling, na Índia.&lt;br /&gt;Torna-se professora na “St. Mary High School” de Calcutá. A escola estava situada no bairro mais elegante da cidade e era frequentada pelas raparigas das famílias mais ricas. Durante alguns anos, a Irmã Teresa foi também directora da escola.&lt;br /&gt;Deus chama pela segunda vez&lt;br /&gt;1943. Em plena guerra mundial, uma grande  fome  abate-se   sobre  Bengala. Dois milhões de pessoas morreram de fome nos campos  desolados por uma seca invulgar. O pensamento de todas aquelas vítimas, e de tantos milhares, que morrem nas ruas de Calcutá todos os dias, começa a atormentar a Irmã Teresa. Parece-lhe absurdo continuar a ensinar um pequeno número de privilegiados, enquanto tantos dos seus irmãos morrem a poucos metros ou a poucos quilómetros de distância, no mais completo aban&amp;shy;dono. Embora nunca se tenha limitado a ensinar superfícies e montanhas, mas também procurado sensibilizar as suas alunas para o grave problema dos pobres e marginalizados, parece-lhe que, nesta circunstância trágica, é preciso fazer alguma coisa mais, empenhar-se pes&amp;shy;soalmente.&lt;br /&gt;Um dia, intui que este sentimento bem poderá ser uma segunda chamada de Deus. Para estar segura, dirige-se à Superiora da sua Congregação e, depois, ao arcebispo de Calcutá, D. Perier. Expõe o projecto de deixar o convento e de viver entre os pobres.&lt;br /&gt;A resposta é um “não”. Porém, não se irrita. Continua a ensinar com serenidade na “High School”. Se aquele sentimento for verdadeiramente a vontade de Deus, Ele vai mostrar-lhe o caminho. “Os bispos — diz — não podem certamente permitir às irmãs que formem grupos separados cada vez que vima delas imagina que Deus lhe falou”.&lt;br /&gt;Mesmo depois da recusa seca, D. Perier não rasgou a carta da Irmã Teresa.&lt;br /&gt;Tem-na à mão sobre a sua mesa de trabalho e, de quando em quando, toma a lê-la. Esta Irmã Teresa não pede para abandonar a vida religiosa, mas para vivê-la de maneira diferente, mais em contacto com a gente pobre que morre no maior abandono. Quer seguir urn caminho que grandes santos já antes dela traçaram na Igreja, de Vicente de Paulo ao Cottolengo. Não é, pois, uma coisa estranha.&lt;br /&gt;Ela, no entanto, conclui que será melhor apresentar o assunto ao Papa. Será ele quem vai decidir.&lt;br /&gt;A resposta de Roma chega a 7 de Agosto de 1948. Pio XII está de acordo. A Irmã Teresa pode sair do convento e fazer a sua experiência de viver entre os pobres, sob a responsabilidade do arcebispo.&lt;br /&gt;Teresa deixa o hábito de religiosa e veste um sari branco, como as mulheres pobres da Índia. Com um par de sandálias nos pés nus, algumas rupias no bolso e uma grande fé no coração, deixa o centro de Calcutá e dirige-se para as barracas da imensa periferia.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cidade branca e cidade negra&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quem quer fazer uma ideia de Calcutá sobe à torre chamada Ochterlony Monument. Lá de cima, aquela imensa cidade, a que Nerhu chamou “Cidade pesadelo”, aparece nitidamente com as suas duas faces: bairros elegantes, ruas amplas, soberbos arranha-céus na “cidade branca”; inumeráveis pequenas barracas, casebres pardacentos que se estendem até se perderem com o horizonte nebuloso na “cidade negra”.&lt;br /&gt;A primeira foi construída pelos comerciantes ingleses e é hoje habitada pelos hindus ricos.&lt;br /&gt;A segunda é um imenso formigueiro humano aonde chegam todos os dias multidões de pessoas anónimas, que abandonam o campo devastado pela terrível seca ou pelas chuvas diluvianas. A enchente de miseráveis lança-se para o interior da cidade chegando a infiltrar-se na grande estação ferroviária de Hwrah, a maior estação dos caminhos-de-ferro da Índia. Mendigos reduzidos a esqueletos vivos, crianças famintas e sujas, leprosos refugiados nos montes de lixo, voo baixo de corvos e abutres. Para quem visite Calcutá, a fome e a morte são o cartão de visita desta imensa e babélica “cidade negra”.&lt;br /&gt;Teresa conhecia muito bem Calcutá. Deixando a “cidade branca”, passou a viver na “cidade negra”.&lt;br /&gt;Depois de uma sumária preparação médico-sanitária recebida na “Missão médica americana”, começou a sua missão reunindo as primeiras crianças abandonadas que encontrou. Cinco no primeiro dia, vinte e uma no segundo, quarenta no terceiro... Ensinou-as a lavar-se. Depois, como não tinha um quadro preto, começou a ensinar a ler e a escrever, fazendo riscos no chão.&lt;br /&gt;Passava o resto do tempo ao lado dos moribundos, estendidos ao longo das ruas. Sentava-se junto ao primeiro leproso que encontrava, desinfectava-lhe as chagas e ligava-lhas. “Tinha apenas cinco rupias no bolso — recorda. — Não podia fazer mais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Quero trabalhar contigo em favor dos pobres”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escassez de alimentos que tem à sua disposição e a imensidão da miséria abalam a sua saúde logo nos primeiros dias. “Tenho a impressão — escreve — de naufragar num oceano de dor e de desolação”. A fome e o cansaço obrigam-na a pensar seriamente num possível regresso à “St. Mary High School”. Mas recompõe-se.&lt;br /&gt;Michael Gomes, um funcionário governamental, oferece-lhe duas salas na sua casa. Teresa enche-as de doentes. As antigas alunas vêm dos bairros ricos de Calcutá visitá-la. Levam-lhe arroz e algum dinheiro. Duas delas pedem-lhe que as deixe cuidar das crianças enquanto ela se ocupa dos doentes. “É tão belo não se sentir só! — escreve. — É belo poder oferecer aos doentes uma tigela de arroz, quente e reconfortante!”.&lt;br /&gt;No dia 19 de Março, chega àqueles dois aposentos Shubashini Das, uma linda rapariga de 19 anos. Foi sua aluna e pertence a uma rica família católica. “Quero trabalhar contigo em favor dos pobres” — diz-lhe. “Mas não só durante algumas horas. Para sempre, como tu”.&lt;br /&gt;Teresa procura desencorajá-la, falando-lhe das imensas dificuldades que irá encontrar. Das, porém, está irredutível. Deixa o belíssimo sari de seda, veste um de algodão branco como o de Teresa e fica. É ela a primeira a chamá-la “Madre Teresa”.&lt;br /&gt;Depois dela, outras virão: cerca de novecentas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No templo de Kalì&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, numa viela lamacenta, Madre Teresa encontra uma mulher roída pelos ratos. Está quase a morrer. As duas salas da casa Gomes estão superlotadas, não há possibilidade de meter lá mais ninguém, nem esta pobre mulher que está quase a morrer. Madre Teresa carrega com ela nos braços e leva-a ao hospital mais próximo. Não a aceitam, “não há lugar”. Enquanto se dirige a outro hospital mais distante, a mulher morre-lhe nos braços.&lt;br /&gt;Madre Teresa não se dá por vencida. Tem de encontrar um lugar espaçoso para hospedar todos aqueles que estão a morrer de fome, para doenças que não são mortais mas que matam os mais fracos, para as terríveis chagas que a falta de alimento e de higiene abrem nos corpos.&lt;br /&gt;Não muito longe dali, ergue as suas cúpulas e as suas grandes colunas o Kalìghat, templo da deusa Kalì, protectora de Calcutá. No recinto do templo, há duas salas enormes, destinadas a dormitório para os peregrinos que, no mês de Outubro, chegavam de todos os pontos da região. As duas salas, uma para os homens e a outra para as mulheres, estão vazias onze meses por ano. Madre Teresa pede, às autoridades da cidade, licença para poder utilizar as salas para recolher os moribundos. É um pedido muito arriscado, mas as autoridades, que estão fazendo todo o esforço para pôr um dique a tanta miséria na periferia, concedem-lhe a licença.&lt;br /&gt;Os hindus fanáticos, logo que sabem do caso, organizam motins. “É uma contaminação do templo!”, dizem. “Uma freira católica que abre um asilo no recinto sagrado é uma profanação!”&lt;br /&gt;“De acordo — respondem as autoridades. — Mandai vossa mãe ou vossa irmã a tratar dos moribundos e dos leprosos para o lugar da Madre Teresa, e nós mandá-la-emos embora”. É claro que ninguém se apresentou. E a Irmã foi deixada em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um brâmane vestido de garça&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O jornalista Francisco Rosso, que foi visitar o templo de Kalì e o asilo da Madre Teresa, escreveu:&lt;br /&gt;“Entre casas arruinadas, o templo de Kalì, deusa da destruição, eleva-se, terrível, sobre as multidões exaltadas, sobre os desprezados que correm a aplacar a deusa malvada com ofertas de flores, dinheiro e sangue. Kalì zomba do alto da sua estátua, toda negra, com horrorosos olhos brancos e língua vermelha, disposta a sugar o sangue dos sacrifícios que lhe são oferecidos. Todas as manhãs, um cabrito negro é levado à força até ao templo, um sacerdote encaixa-lhe a cabeça numa picota e degola-o. Parte do sangue, recolhido num recipiente, é levado em procissão até à estátua da deusa... Mulheres, vestidas com elegantíssimos saris e um enorme brilhante na narina direita, compravam colares de cor escarlate, velas de incenso, punhados de arroz que em seguida depunham diante da estátua de Kalì. Era meu guia um pequeno Brâmane vestido de garça, com os sinais cabalísticos da casta na testa: traços de gesso branco e estrias de bosta de vaca. Saí do templo agoniado pela náusea, fui procurar Madre Teresa na casa onde se refugiam os recusados da sociedade, homens e mulheres que, pelo menos, não morrem sem terem ouvido uma palavra de piedade, talvez a única em toda a sua desesperada existência.&lt;br /&gt;“Madre Teresa não estava lá. Estava no convento que serve de quartel general na luta contra a fome e a lepra, em Lower Circular Road. Mas encontrei um engenheiro alemão, de Colónia, ainda jovem, que tinha deixado a sua brilhante carreira e tinha vindo para Calcutá. Quando o jornalista entrou, o jovem alemão estava inclinado sobre um homem mirrado pela fome e falava-lhe em voz baixa numa língua que o pobrezinho não compreendia. “Acabam de trazê-lo — disse — e ainda não tivemos tempo de lavá-lo, nem de vesti-lo. Não deve viver muito tempo”. Expirou poucos minutos depois. Não teve sequer energia para exalar o último suspiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Por que o faz?”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu olhava à minha volta, para aqueles pobres exangues — escreve Francisco Rosso —, oitenta homens e setenta mulheres, uns destruídos pela subnutrição, outros devorados pela lepra. Olhando para o jovem engenheiro, perguntei-lhe: «Por que o faz? Não tem medo da lepra?». «São Francisco beijou o leproso» — respondeu. «Eu apenas os trato».&lt;br /&gt;“Fomos ao encontro da Madre Teresa no cinzento convento central. Daqui dirige novecentas irmãs e uma centena de “pequenos irmãos”. Entre outras coisas, controlam e tomam conta de oito mil leprosos, que continuam a ficar nos passeios de Calcutá, com sulfamidas e vitaminas. “O difícil é tomar conta deles” — diz um dos pequenos irmãos. “Mudam de um passeio para o outro, e os tratamentos tomam-se ocasionais, portanto, infrutíferos”. “É uma gota de água no mar o que fazemos”, diz Madre Teresa. “Pense que só em Calcutá há sessenta mil leprosos e quatro milhões na Índia”.&lt;br /&gt;Ao Nirmal Hriday não se vai só para morrer. Desde a sua abertura, em 1972, já foram hospitalizados 27 mil moribundos; 14 mil foram salvos e puderam, apesar de tudo, retomar a vida.&lt;br /&gt;Num dia de calor tórrido e sufocante de Maio — conta Maria Dainotti — é levada, de ambulância, ao Nirmal, uma mulher, reduzida a um pequeno montão informe e malcheiroso. Madre Teresa levanta aquele corpo descarnado, mais semelhante a uma radiografia do que a uma pessoa. As chagas abertas narram bem uma longa história de sofrimentos. Enquanto lava delicadamente todo o corpo com água e desinfectante, convida uma outra irmã a aplicar-lhe tónicos cardíacos, e uma terceira a trazer uma sopa morna. A mulher reanima-se, os olhos que fixa&amp;shy;vam o vazio retomam vida. Murmura:&lt;br /&gt;— Por que fazes isto?&lt;br /&gt;— Porque te quero bem — disse em voz baixa Madre Teresa.&lt;br /&gt;A mulher, fazendo um grande esforço, pega-lhe na mão:&lt;br /&gt;— Torna a dizê-lo.&lt;br /&gt;— Quero-te bem! — repete com doçura.&lt;br /&gt;— Torna a dizê-lo, torna a dizê-lo... A mulher aperta-lhe as mãos, puxa-as para si. Nos seus lábios aparece uma sombra de sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Foi meu filho que me lançou”&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas há outras chagas profundas que não se conseguem curar, nem sequer diminuir-lhes a dor.&lt;br /&gt;Duas irmãs da Madre Teresa, passando junto a uma montanha de lixo, ouvem um lamento quase contínuo. Abrem caminho através dos desperdícios e encontram uma velha deitada de bruços entre o lixo. Enquanto a transportam ao Nirmal Hriday o lamento continua, como uma débil buzina bloqueada. Somente depois de a terem reanimado e curado, o lamento se transforma numa cantilena de palavras cheias de desolação: “Foi o meu filho que me lançou para aqui”.&lt;br /&gt;A Índia, que ama e respeita os animais, conta, cada ano, centenas de milhares de recém-nascidos e de velhos lançados nas lixeiras.&lt;br /&gt;Nove décimos dos moribundos recolhidos pela Madre Teresa são “párias”, imundos e intocáveis. Na Índia, a religião hindu impôs a desumana divisão em “castas”. A casta mais baixa, os “párias”, é uma classe de gente infeliz e desprezível, destinada aos trabalhos mais repelentes. Os das castas superiores não lhes podem tocar nem mesmo com, o olhar. Gandhi lutou com jejuns extenuantes para que a sociedade indiana reabilitasse os “párias”, rebaptizados por ele “filhos de Deus”. Mas quase nada conseguiu.&lt;br /&gt;Ao Nirmal Hriday, chegam um dia os estudantes de medicina da Universidade. Começam a servir e a medicar os miseráveis da Madre Teresa sem olhar a distinção de casta. Prometem voltar todos os sábados. Senhores de castas elevadas vêm, regularmente, a lavar as chagas dos moribundos. É uma coisa pequena. Mas, na Índia das castas, é um milagre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Para mais uma criança&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Metade da população indiana tem menos de 17 anos. As crianças, na Índia, são multidões, encontram-se por toda a parte, como as formigas. Hillary, o conquistador do Everest, escreve: “Chegados à Índia, viajámos dias e dias de comboio. Dúzias de crianças, carregadas de sacos de arroz, viajavam connosco sem bilhete. Iam agarrados da parte de fora do comboio, apertados sobre os tejadilhos e até sob as carruagens. Em cada paragem, a polícia afasta-os a golpe de bastão, mas, por cada criança afastada, outras duas subiam nas costas dos polícias. Com surpreendente coragem, estas crianças permaneciam agarradas no exterior das carruagens quase 80 quilómetros de percurso sem paragens. Fizemos entrar algumas para dentro da carruagem; aí se sentavam no pavimento com tão paciente resignação que me chocou. Quando se chegava às aldeias, as crianças esgueiravam-se logo para se defenderem das bastonadas dos polícias que esperavam a chegada do comboio”.&lt;br /&gt;Logo que pôde dispor de algumas colaboradoras, Madre Teresa abriu centros de assistência primária para as crianças. Eram asilos, escolas elementares dotadas de poucos meios mas suficientes: pequenas casas em terra batida, cabanas com tecto de folhas de palmeira, às vezes apenas uma simples árvore para se poderem sentar à sombra dos seus ramos.&lt;br /&gt;Depois, surgem as “Shishu Bhavans” (cidade das crianças) para as crianças doentes, os recém-nascidos lançados para a lixeira, os doentes mentais. “Até agora não recusamos nenhum — diz. — Há sempre uma caminha pronta para mais uma criança”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma lampadazinha para aquecer os recém-nascidos&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pensa-se também nas incubadoras, necessárias para as crianças nascidas prematuras e lançadas fora como lixo. Não há dinheiro para as modernas máquinas médicas, niqueladas e assépticas, e as primeiras incubadoras são toscas caixas de madeira. Nelas são colocados cinco recém-nascidos, lado a lado. Uma redezinha serve para ventilação, uma lampadazinha acesa, e apagada oportunamente, mantém a temperatura constante. Mais tarde, um artesão chinês ofereceu-se para arranjar uma coisa mais funcional.&lt;br /&gt;As vitaminas, as glucoses e o leite de cabra vão enchendo aquelas faces desnutridas. E o amor das irmãs ajuda-as a sorrir. Quem visita a “Shishu Bhavans” fica impressionado com a algazarra festiva que as crianças fazem nos corredores. Tomam o visitante pela mão, abraçam-no, convidam-no a correr e a brincar com elas. Uma mulher, que passava no corredor, fez uma carícia a uma criança muito pequenina que estava a comer; e ela, enchendo a mão de arroz, estendeu-a para a senhora, com um sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os pequeninos colaboradores dos ladrões&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Um dia — conta Madre Teresa — veio ter comigo um polícia com uns rapazitos dos seus dez/onze anos que tinham sido apanhados a roubar nas proximidades da estação de Howrah. Aquele polícia era uma pessoa boa e hesitava metê-los na prisão: em contacto com os criminosos, arruinar-se-iam para sempre. Perguntou-me se eu podia tomar conta deles.&lt;br /&gt;Falei um pouco com aqueles rapazes e descobri que faziam de receptadores e colaboradores de uma quadrilha de ladrões que, em troca, lhes dava todos os dias uma boa refeição. Propus: “E se eu vos desse todos os dias uma boa sopa quente, e mais qualquer coisa, deixaríeis essa quadrilha?.&lt;br /&gt;“Olharam-me indecisos. O que os convenceu, provavelmente, não foi a sopa, mas o interesse e o afecto que demonstrava por eles. Vieram comigo”. Madre Teresa procurou para eles uma casa, o alimento necessário e organizou uma escola. Depois, um rico hindu doou outras casas e agora os rapazes, paupérrimos, que as irmãs da Madre Teresa alimentam e preparam para a vida, são 2.500.&lt;br /&gt;À medida que crescem, Madre Teresa arranja-lhes um trabalho. Para as raparigas, procura arranjar um modesto dote que as ajude a encontrar um marido.&lt;br /&gt;Um dia, enquanto caminhava por uma rua de Calcutá, juntamente com a senhora Ann Blaikie, um jovem hindu deitou-se-lhe aos pés e beijou-lhos. Madre Teresa levantou-o rapidamente, reconheceu-o e abraçou-o. Uns anos antes, aquele rapaz tinha sido levado, moribundo, para o Nirmal Hriday. A tuberculose e a fome crónica tinham-no prostrado. Trataram-no com amor e salvaram-no. O rapaz frequentou a escola e Madre Teresa tratou de arranjar-lhe o necessário para que tivesse um modesto ofício, engraxador. Agora, aquele rapaz tinha conseguido uma boa posição, estava para casar e sentia-se feliz por poder abraçar a sua benfeitora.&lt;br /&gt;“Isto é maravilhoso! — sussurrou Madre Teresa à senhora Blaikie. — É pena que, tantas vezes, não aconteça assim”. O desemprego é uma doença tão grande na sociedade indiana que, muitas vezes, os rapazes recolhidos e curados pela Madre Teresa voltam a cair na maior miséria. “Nós somos uma gota de água no oceano — diz com seriedade a pequena Irmã. — Fazemos o que podemos mas é pouquíssimo em relação àquilo que deveríamos fazer todos em conjunto”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O quarto voto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os religiosos da Igreja católica fazem a Deus três votos: de viver em castidade, de ser pobres e de obedecer aos seus superiores. As irmãs da Madre Teresa acrescentam um quarto: dedicar-se única e completamente à ajuda e à salvação dos pobres.&lt;br /&gt;“Nós não aceitamos presentes daqueles a quem vamos visitar — diz com energia Madre Teresa, — nem sequer uma fatia de pão. Porque os verdadeiros pobres não a podem dividir connosco. Cada uma das irmãs tem um prato de esmalte no qual come, uma colher, dois saris de pouco valor (um dos quais é lavado todos os dias), um par de sandálias e um colchão. Nada mais. A nossa casa são as casas dos pobres e as ruas onde morrem os esfomeados. O convento serve-nos apenas para repousar algumas horas e rezar. Porque temos necessidade de rezar. Sem a força da oração a nossa vida é insuportável”.&lt;br /&gt;Se lhe perguntardes: “Onde arranja o dinheiro de que precisa?”, Madre Teresa sorri e mostra o último pacote de cartas recebidas da Europa. Escrevem-lhe de todo o mundo e mandam-lhe ajudas. Os alunos ingleses enviam-lhe pão, os dinamarqueses leite, os alemães vitaminas. Ela resume tudo em três palavras: “Deus ajuda-nos”.&lt;br /&gt;E que seja Deus a intervir, demonstram-no acontecimentos estranhos que perturbam o nosso espírito ocidental de “planificadores”. Acontecimentos que se lêem também nas crónicas do Cottolengo de Turim.&lt;br /&gt;“Estava para chegar uma postulante — conta com simplicidade Madre Tere&amp;shy;sa — e não havia um colchão para ela em todo o convento. Tínhamos o forro, mas não tínhamos nada com que enchê-lo. Estava a descoser a minha almofada para lhe tirar o algodão e usá-lo, quando toca a campainha da entrada. Vou abrir. É um inglês com uma almofada debaixo do braço: “Estou para deixar Calcutá — disse — e pensei que talvez vos pudesse servir”. Ajudo-o a tirar de dentro do carro um colchão muito cheio, pesado, que servirá para encher pelo menos quatro dos nossos pequenos colchões vazios”. No centro de assistência, em Calcutá, um dia foram recebidos mais vinte rapazes. Ao almoço, o seu enorme apetite acabou com o arroz da casa. Não há mais nada para a refeição da tarde. É hora de acender o fogão, mas que se vai meter na panela? Madre Teresa sorri. Talvez pense nas palavras que, em circunstâncias semelhantes, dizia o Cottolengo: “Agora se verá se a casa é minha ou é da Providência”. Pela porta, entram três pessoas: uma mulher e dois homens curvados sob o peso de dois sacos. Aquela mulher, desconhecida, dirige-se à primeira irmã que encontra: “Pensei em trazer-vos um pouco de arroz. Quereis aceitá-lo?”.&lt;br /&gt;Setembro 1963. Em Agra, as irmãs da Madre Teresa abriram um outro “centro de caridade”. Lá de longe, uma irmã telefona em termos dramáticos:&lt;br /&gt;— Temos de abrir a todo custo uma casa para as crianças abandonadas. Nesta zona, morrem às dezenas todos os dias.&lt;br /&gt;— E quanto é preciso para abri-la?&lt;br /&gt;— Podemos construí-la com 50 mil rupias (cerca de quatrocentos mil escudos).&lt;br /&gt;— Compreendo muito bem, irmã — murmura Madre Teresa. — Mas eu não sei onde ir buscar cinquenta mil rupias.&lt;br /&gt;Poucos minutos depois, o telefone toca de novo. É da redacção de um jornal diário de Calcutá. Comunicam à Madre Teresa que o governo das Filipinas lhe tinha concedido o prémio Magsaysay, que a reconhece como a “mulher mais benemérita da Ásia”. Teresa não faz a mais pequena ideia do que seja aquele prémio. Pergunta:&lt;br /&gt;— Trata-se de dinheiro?&lt;br /&gt;— Sim, cerca de 50 mil rupias.&lt;br /&gt;O redactor do jornal fica estupefacto quando ouve a Irmã murmurar ao microfone:&lt;br /&gt;— Então sempre é verdade que Deus quer a casa para as crianças abandonadas de Agra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alegria para os pobres&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando uma rapariga pede para se juntar à família da Madre Teresa, a preparação é dura e avança por graus. Durante seis meses, a “postulante” vai observando o trabalho que a espera, e é observada para ver se nela existem sinais de uma autêntica vocação.&lt;br /&gt;Perguntaram à Madre Teresa quais eram estes “sinais” que ela queria ver em cada “missionária da caridade”. Respondeu: “Saúde de mente e de corpo. Capacidade de aprender. Uma grande dose de bom senso. Um carácter alegre”.&lt;br /&gt;Insiste sobre a necessidade da alegria: “A alegria do Senhor é a nossa força, como está escrito na Bíblia. Por isso, não temos razão para nos sentirmos tristes e infelizes, mas temos muitos motivos para sermos felizes e levar esta alegria ao mundo. Todos nós, se temos Jesus connosco, devemos levar a alegria ao mundo”. A uma irmã que lhe pedia um dia para ir para as barracas dos pobres, mas que se apresentava de rosto triste, respondeu: “Não vai. Volte para a cama. Não se pode ir ao encontro dos pobres com a cara triste”.&lt;br /&gt;Depois, refere a qualidade base, que toda a missionária da caridade deve possuir em grau absoluto: a capacidade de amar a Deus nos pobres. “Os pobres são a nossa oração — diz; — neles está Deus e nós encontramo-lo neles. A oração é fazer tudo por Cristo, rezar em qualquer lugar, rezar no trabalho. Começamos cada dia com a Santa Missa e a Comunhão, e terminamo-lo com uma hora de adoração ao Santíssimo. Nós procuramos descobrir Cristo nas aparências do pão da Eucaristia e, ao longo do dia, conti&amp;shy;nuamos a vê-lo nas aparências dos corpos desfeitos dos nossos pobres.&lt;br /&gt;“Que consolações teríamos se isto se não realizasse nas nossas vidas? Nós encontramos o Senhor que tem fome e sede: esta é a grandíssima consolação de uma irmã. Isto enche a nossa vida”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Irmã com bigodes postiços&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meses de preparação, a postulante aprende o inglês e faz uma séria aprendizagem no campo médico-sociológico.&lt;br /&gt;O dia em que uma nova irmã pronuncia os quatro votos, é dia de festa. Uma irmãzinha confiou ao microfone de um jornalista: “Vós não fazeis festa quando um de vós acaba um Curso? Para nós, este dia representa muito mais: fazer os votos quer dizer seguir a Cristo mais de perto, juntamente com a Madre Teresa. Nesse dia, cantamos e dançamos. Ouviu a voz da irmã Josefina: era professora de música antes de vir para nós e toca o piano maravilhosamente. Pois bem, algumas de nós pintam-se e colocam uns grandes bigodes postiços, tocamos tam&amp;shy;bor nas caixas da carne congelada...”&lt;br /&gt;A casa central das irmãs é o número 54A de Lower Circular Road, em Calcutá. Foi um muçulmano que a ofereceu à Madre Teresa.&lt;br /&gt;— Quanto queres pela casa? — perguntou-lhe a Irmã.&lt;br /&gt;— Quero que tu habites esta casa com as tuas filhas. Se aceitas, a casa é tua.&lt;br /&gt;Quem quiser entrar, puxa pela corda de uma sineta. No pequeno pátio, ladra um cão manso e brincalhão, também ele salvo de um lamaçal para onde tinha sido atirado para morrer. Para encontrar as irmãs, normalmente, tem de se ir à capela: uma sala pobre, sem bancos, com esteiras nas quais se podem acocorar à oriental. Na parede do fundo, sobre o altar, um grande e escuro crucifixo, com uma inscrição a caracteres brancos: “I THIRST!” (Tenho sede).&lt;br /&gt;Na capela, alternam-se, por grupos, as irmãs que residem em Calcutá. Cada grupo dedica um dia por semana à meditação. Os livros de oração são escritos à máquina “porque os livros são caros”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A oração da Madre Teresa&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Terminada a meditação, todas recitam em coro uma oração que aprenderam com a Madre Teresa:&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Tornai-nos dignas, Senhor, de servir os nossos semelhantes que morrem de miséria e de fome em todo o mundo.&lt;br /&gt;Dai-lhes hoje, por meio das nossas mãos, o pão de cada dia e dai-lhes alegria e paz através do nosso amor inteligente.&lt;br /&gt;Faz de mim, Senhor, um instrumento da tua paz, para que onde reina o ódio, eu leve amor;&lt;br /&gt;Onde há a maldade, eu leve o espírito do perdão;&lt;br /&gt;Onde há discórdia, eu leve a harmonia;&lt;br /&gt;Onde há erro, eu leve a verdade;&lt;br /&gt;Onde há dúvida, eu leve a fé;&lt;br /&gt;Onde há desespero, eu leve a esperança;&lt;br /&gt;Onde há trevas, eu leve a luz;&lt;br /&gt;Onde há tristeza, eu leve a alegria.&lt;br /&gt;Senhor, concede-me que eu procure mais consolar que ser consolada; Compreender mais que ser compreendida;&lt;br /&gt;Amar mais que ser amada;&lt;br /&gt;Porque é esquecendo-se de si própria que cada qual se encontra;&lt;br /&gt;E morrendo que se acorda para a vida eterna.&lt;br /&gt;Amen”.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Onde a lepra é de casa&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A norte de Calcutá, perto da cidade de Asansol, ergue-se a obra mais querida da Madre Teresa. Chama-se Shanti Nagar, Cidade de Paz. É uma verdadeira cidadezinha, com casas, piscina, jardins, escolas. Ali habitam duas mil pessoas. Há apenas uma diferença em relação às outras pequenas cidades: aqui, os habitantes são leprosos.&lt;br /&gt;Esta doença tão antiga suscitou sempre repulsa. Mesmo quando a ciência demonstrou que a lepra é menos contagiosa que as outras doenças, o leproso continua a ser marginalizado, com violência, pela sociedade.&lt;br /&gt;O bacilo da lepra não ataca órgãos vitais, mas corrói a pele, apodrece os dedos, transforma o rosto numa máscara trágica. O leproso, além de ser um doente, sente-se aviltado, desprezado, humilhado.&lt;br /&gt;Madre Teresa pensou: “Farei uma cidade só para eles, onde ninguém os humilhará. Lá procuraremos curá-los com os remédios mais modernos, inventados pela ciência — as sulfamidas. Não são muito caros, são fáceis de administrar e o efeito é seguro, se o tratamento for prolongado e constante”.&lt;br /&gt;O terreno para a “Cidade da Paz” (17 hectares) deu-lho o rico hindu que comprou o Lincoln branco do Papa. O resto do dinheiro serviu para começar a construção das casas.&lt;br /&gt;Hoje, a “cidade” é habitada por quatrocentas famílias de leprosos. Têm à sua disposição médicos e enfermeiros fixos. Foram escavados catorze poços, que fornecem água de nascente às casas e ao hospital. As escolas, bibliotecas, oficinas de tipografia, mecânica, marcenaria, fábricas de calçado, fiação e cestaria funcionam em pleno. Jardins, hortas, pomares, arrozais e aviários tornam a cidade praticamente auto-suficiente.&lt;br /&gt;A toda a volta, um grande parque circunda de verde e de paz a cidade.&lt;br /&gt;Não é um “grande convento governado por irmãs, mas uma pequena aldeia indiana” que se governa por si própria, segundo os antigos costumes da Índia: todos elegem os próprios representantes, escolhendo-os entre os mais velhos.&lt;br /&gt;Os leprosos que se curam voltam para a sociedade com um emprego que lhes dá boas perspectivas de sustentar a sua família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O prémio “João XXIII”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a construção se encontrava quase a meio, os dinheiros recebidos da venda do Lincoln do Papa tinham acabado. Estávamos em finais de 1970. No dia 22 de Dezembro, o Papa Paulo VI anunciou que, pela primeira vez, seria atribuído o prémio internacional “João XXIII”: “atribuímos este prémio a uma religiosa muito modesta e silenciosa, mas bem conhecida por aqueles que estão atentos e admiram os heroísmos da caridade no mundo dos pobres: chama-se Madre Teresa. De há vinte anos para cá, nas ruas da Índia, vem desenvolvendo uma obra maravilhosa de amor e dedicação em favor dos leprosos, dos velhos e das crianças abandonadas. Propomos à admiração de todos esta intrépida mensageira do amor de Cristo”.&lt;br /&gt;Madre Teresa foi a Roma, no dia 6 de Janeiro de 1971, e recebeu das mãos do Papa uma imagem de Jesus e um cheque de quinze milhões de escudos. O diploma, que documentava a atribuição do prémio, dizia assim: “É belo e significativo que nesta nossa civilização de consumo o prémio da paz seja dado a quem se consagra aos seres mais inúteis e improdutivos da humanidade: os leprosos, os moribundos, os diminuídos”.&lt;br /&gt;Os quinze milhões, fechados num envelope azul que o Papa lhe deu, chegaram para concluir Shanti Nagar, a cidade dos leprosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O silencioso e rápido desenvolvimento&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obra da Madre Teresa tem já 29 anos de vida na Índia. 29 anos desde aquele dia em que tirou o hábito religioso da sua congregação, vestiu o sari branco e começou a juntar as primeiras crianças abandonadas nas ruas. A sua obra estendeu-se rápida e silenciosamente por todo o mundo. Deitemos um rápido olhar a este desenvolvimento.&lt;br /&gt;Em Calcutá, foram abertos 59 centros de caridade. Na Índia, funcionam outras 30 obras de assistência aos mais pobres. Como prova de reconhecimento, o governo indiano conferiu-lhe uma medalha de ouro — a Padmashri Medal. Madre Teresa pô-la ao pescoço de uma pequena estátua da Virgem Maria, que se ergue numa parede do Nirmal Hriday.&lt;br /&gt;1965. Um pequeno grupo de irmãs, guiadas pela Madre Teresa, abre uma obra na Venezuela, na América Latina. Ao sul de Caracas, a região de Yaracuy é habitada por descendentes de escravos africanos, mergulhados numa apatia e pobreza que dilaceram o coração. “Pelos caminhos poeirentos das aldeias — escreve Maria Dainotti — grupos indiferentes passam as horas fumando e bebendo; as crianças, sujas, esgravatam com as galinhas entre os detritos ou misturam-se entre os cães vadios e cabras negras, enquanto nas cabanas todas sujas, reino de maus cheiros e de desordens, as mulheres passam o tempo tagarelando”. As Missionárias da Caridade ajudam as mulheres em casa, ensinam a fazer pequenos trabalhos caseiros, ensinam a coser à máquina, tratam os doentes, procuram interessar as crianças pelos jogos. 1967. O governo budista da ilha de Ceilão expulsou, há mais de 20 anos, quase todos os missionários católicos. Agora, pede à Madre Teresa que envie para aquela ilha as suas irmãs, para que construam dispensários para os mais pobres, organizem clínicas móveis, abram casas para as crianças abandonadas.&lt;br /&gt;Madre Teresa chega à capital da ilha com um pequeno grupo de missionárias. A suprema autoridade da ilha recebe-a à chegada, aperta-lhe as mãos e diz-lhe: “Nós trabalhamos para o mesmo Deus. Atrás do nosso templo existem alguns barracões que não nos servem para nada. Usai-os para o vosso primeiro dispensário e peço-vos que me considereis, aqui na cidade, o primeiro entre os vossos cooperadores”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Missionárias em Roma&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1968. Vindas de Calcutá, chegam à Tanzânia a irmã Shanti e sete missionárias, pedidas pelo Bispo de Tabora à Madre Teresa, para que se ocupem dos pobres acampados nos arredores da cidade. Dez anos depois, nos subúrbios da cidade de Tabora dirigem seis dispensários (a irmã Shanti é licenciada em medicina), ajudam os leprosos e os cegos a construir cabanas à sua volta. Sete jovens tanzanianas vestiram já o mesmo sari das irmãs indianas.&lt;br /&gt;Entretanto, nascem os “Irmãos Missionários da Caridade”, que são já uma centena. Orienta-os o padre Andrea, um jesuíta que recebeu também ele licença para deixar o seu convento na Austrália, para se dedicar aos mais pobres. Os “Irmãos” apoiam a obra das missionárias e executam os trabalhos mais duros e pesados.&lt;br /&gt;Em 1969, as missionárias abrem um centro em Bourke, na Austrália, entre as tribos aborígenas. Em 1970, surgem casas em Melbourne (Austrália), em Amman (Jordânia), em Londres e em Roma. Na capital da cristandade, onde vivem 22 mil irmãs de 1200 ordens diversas, estão, a pedido de Paulo VI, no bairro das barracas do Aqueduto Felice.&lt;br /&gt;Vão passando de casebre em casebre, visitando velhos e doentes, fazem-lhes os curativos, arrumam ambientes, ocupam-se dos mais pequeninos que ainda não são aceites nos asilos, cozinham para as famílias cujas mães estão ausentes por motivo de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ciclone de fogo no Bangla Desh&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Março de 1971. A tragédia abate-se de improviso sobre o Bangla Desh (o Paquistão Oriental que confina com a Índia, a poucos quilómetros de Calcutá). Como os seus habitantes exigiram a separação política do Paquistão Ocidental e a independência, os soldados desencadeiam uma repressão com um massacre horrível... O terror da carnificina leva as pessoas a fugir.&lt;br /&gt;Abril, Maio, Junho 1971. Começa o horroroso êxodo. Perseguidas pelas tropas paquistanesas que disparam à queima-roupa, as populações do Bangla Desh fogem para as florestas e para os pântanos. O seu fim é alcançar a fronteira e pôr-se a salvo na Índia. O governo indiano pede ajuda internacional e organiza campos para os refugiados. Estes atingem a cifra de nove milhões. Os campos transformam-se em enormes formigueiros. A cólera alastra.&lt;br /&gt;Outubro, Novembro 1971. Chegam os ventos ciclónicos e as chuvas torrenciais. A situação torna-se cada vez mais trágica.&lt;br /&gt;Dezembro 1971. Para desbloquear a situação na única direcção possível (derrubar o governo paquistanês e declarar a independência do Bangla Desh), a Índia declara guerra ao Paquistão. Multidões de bengalis, horrorizadas pela situação, fogem espavoridas. Vagueiam pelos pântanos, atravessam florestas espessas e insidiosas. Levam consigo, ao colo, as crianças que tremem de febre, os velhos e os doentes. Dormem no chão, comem raízes, sempre com medo de se encontrarem com alguma patrulha de soldados paquistaneses que os liquidariam a todos.&lt;br /&gt;“Calcutá — afirma um médico naqueles dias — está a rebentar, literalmente falando, sob a pressão de oito milhões de pessoas.&lt;br /&gt;Falta a água na cidade. A maior parte dos habitantes sofre de desnutrição. Faltam estruturas hospitalares. Se entrarem na cidade mais dois ou três milhões de fugitivos, será o fim. Quem se poderá salvar das epidemias?”.&lt;br /&gt;“Visitei dezenas de campos de refugiados — escreve um enviado especial. — São todos iguais, montados por vezes em terrenos alagados pela chuvas acompanhadas de ventos ciclónicos. Tendas de todo o tipo, cabanas e barracas. As famílias vão morrendo no meio da lama, da humidade e da promiscuidade. Por todos os lados o espectáculo é o mesmo: crianças nuas devoradas pelas moscas e pelos mosquitos, pequenos regatos de líquidos amarelos e pestilentos, pequenos fogos acesos pelas mulheres com o fumo acre que seca a garganta, pessoas acocoradas nas fossas, os urros, as rixas, o nojo, os rostos desesperados, os corpos esqueléticos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De novo o êxodo por entre os campos minados&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, a guerra dura apenas catorze dias. O Paquistão é derrotado. É proclamada a independência do Bangla Desh. Inicia-se o êxodo ao contrário, igualmente incómodo, igualmente trágico, mas mantido pela esperança de “voltar a casa”. Nove milhões de pessoas caminham através dos campos, pelas estradas, pelos atalhos. Os enormes problemas de assistência transferem-se para o território do Bangla Desh incendiado e devastado, semeado de minas.&lt;br /&gt;As irmãs da Madre Teresa sentem-se submersas neste mar de sofrimento. Trabalharam até ao esgotamento, andando de campo em campo, recolhendo, ao longo dos caminhos, os extenuados, as crianças perdidas e quase enlouquecidas no caos geral. O governo reconhece a sua acção com a atribuição do “Prémio Nerhu”. O documento diz: “Madre Teresa deu ao mundo uma das mais surpreendentes provas de caridade, inspirando um grande número de pessoas a dedicar-se ao serviço dos pobres, dos abandonados e dos fracos”. Agora é o Bangla Desh a chamá-las, com urgência. Para socorrer, de qualquer maneira, a massa de refugiados que regressa, o governo chama as Missionárias da Caridade para seis cidades-chave. E elas vão. Abrem, em pouco tempo, uma vintena de obras, pobres mas funcionais: dispensários médicos, asilos para crianças órfãs ou abandonadas, casas para os moribundos, institutos para os mutilados pelo rebentamento de minas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os pobres do Ocidente&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;1972. As Missionárias da Caridade entram no Yemen a pedido do governo (há anos que o Yemen não admite a presença dos cristãos). Abrem uma casa no bairro de Ballymurphy, em Belfast (Irlanda do norte), palco de uma guerrilha impiedosa entre protestantes e católicos. Vão também habitar em Harlem, no bairro negro de New York, entre os viciados e drogados. É aqui que a Madre Teresa descobre doenças mais terríveis ainda do que a lepra e a fome, que estão minando o nosso farto mundo ocidental. “Na Índia — disse — nós temos casas para os moribundos privados de tudo. Mas, na Europa e na América, encontramos gente ainda mais pobre: os não-amados, os não-queridos, os não-confortados. Hoje no mundo, a doença mais grave não é a lepra mas a solidão, o não sentir-se amado por ninguém. É esta a doença mais grave”. Em 1973, a Madre Teresa abriu cinco novas casas na Índia, e fundou centros de assistência em Óstia, Palermo, Addis Abeba, Taiz (Yemen), Lima (Peru), Gaza (Israel), Katherine (Austrália), Saigão (Vietname).&lt;br /&gt;As suas irmãs, ao terminar o ano de 1975, eram 870.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A dança do menino&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Há um episódio, na vida da Madre Teresa, que perturba muita gente e faz pensar. Talvez seja um dos episódios-chave para compreender esta figura.&lt;br /&gt;Passou-se na estação de Howrad, em Calcutá. Perto da meia-noite, quando os comboios ficam parados durante algumas horas, chegou uma família muito pobre que costumava vir dormir na estação. Eram mãe e quatro filhos, dos cinco aos onze anos. A mãe apresenta-se num estado burlesco, pequena, vestida com um sari branco de algodão, demasiado frio para uma noite fria de Novembro, com os cabelos cortados a zero, coisa estranha para uma mulher. Levava consigo recipientes de lata, alguns farrapos e pedaços de pão, tudo o que possuía para si e para os seus filhos. Eram pedintes. A estação era a sua casa.&lt;br /&gt;As crianças, três meninas e um menino, o mais pequeno, eram todas como a mãe, cheias de vivacidade. Àquela hora, em plena noite, sentaram-se todos num dos passeios da estação, junto à linha do comboio, pertinho de muitas outras famílias e mendigos solitários que já dormiam à sua volta. Tomaram a sua refeição da noite, de pão seco, provavelmente o que tinha sobrado de algum revendedor e que, ao cair da tarde, lho tinha cedido por um preço irrisório... Mas não foi uma ceia triste. Eles falavam, riam e diziam graças. Seria difícil encontrar uma família mais feliz do que aquela.&lt;br /&gt;Quando acabaram a mísera ceia, dirigiram-se todos a uma torneira, com muita alegria; lavaram-se, beberam e lavaram também os recipientes de lata. Depois, desdobraram com cuidado os seus trapos, para dormirem juntos, e um pedaço de lençol para se cobrirem.&lt;br /&gt;E foi então que o mais pequenino fez qualquer coisa absolutamente maravilhosa: pôs-se a dançar.&lt;br /&gt;Saltava e ria entre as linhas do comboio; ria e cantava docemente, com irresistível alegria.&lt;br /&gt;Que dança aquela, em tão absoluta miséria!&lt;br /&gt;Madre Teresa já disse várias vezes que para nós, ocidentais, tristes no meio da nossa riqueza, encerrados dentro das nossas luxuosas vivendas, o pobre é um “profeta”. Mesmo na miséria em que a nossa habilidosa economia os marginalizou, eles dão-nos lições de valores que nós já esquecemos: o amor para com os outros, a alegria que provém das pequenas coisas, a amizade, a capacidade de entusiasmar-se por alguma coisa.&lt;br /&gt;“Nós ajudamo-lo a sair da miséria. Mas ele dá-nos alguma coisa mais: ensina-nos uma maneira diferente de viver: servir-se das coisas, mas não tornar-se prisioneiros delas; acreditar que há valores bem mais preciosos que o dinheiro: o amor, o calor da família, o sorriso das crianças, a amizade, a alegria...”.&lt;br /&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-4989635433855215946?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/4989635433855215946/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=4989635433855215946' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/4989635433855215946'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/4989635433855215946'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/madre-teresa-de-calcut.html' title='Madre Teresa de Calcutá'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-7239091132438253240</id><published>2007-06-26T14:09:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.676-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Alberto Schweitzer</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Terésio Bosco&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Alberto Schweitzer&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto, Edições Salesianas, 1990&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;“Ao observarmos a sociedade contemporânea, uma coisa nos impressiona: discutimos mas não fazemos progressos. Porque os povos não confiam uns nos outros”.&lt;br /&gt;“Os homens querem chegar à lua, mas não vêm as flores que desabrocham a seus pés”.&lt;br /&gt;“Assim como a luz branca é a resultante de raios coloridos, assim o respeito pela vida supõe todas as componentes da ética: amor, benevolência, simpatia, empatia, paz, capacidade de perdoar”.&lt;br /&gt;“O homem não pode viver para si. Devemos tomar consciência de que toda a vida é preciosa e que estamos unidos a todas as formas de vida”. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Alberto Schweitzer&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ao saírem da escola, dançavam no ar os primeiros flocos de neve. O espectáculo provocou uma alegria esfuziante naquela multidão de estudantes, que se atropelavam e envolviam em lutas rumorosas, acaloradas e felizes. Só um se mantinha à parte: Alberto.&lt;br /&gt;Há três anos que frequentava a escola, mas era sempre posto de lado. Porquê? Por ter pouca vida, mas sobretudo por ser o filho do pastor, isto é, um “fidalguete”, e vestir melhor que todos os filhos dos camponeses. Aquele cerco de solidão enchia de amargura o coração de Alberto. Naquele dia, vencido pela alegria da neve a esvoaçar, decidiu acabar com esse isolamento. Aproximou-se de George Nitschelm, um latagão de rosto rubicundo e forte musculatura. Apesar disso, pondo a pasta no chão Alberto disse-lhe:&lt;br /&gt;— Vamos à luta. Tenho a certeza que te venço.&lt;br /&gt;Aquelas palavras eram uma declaração de guerra. Mas Alberto não sabia o que era a guerra nem tão-pouco como se declarava: dizia aquilo com um sorriso aberto e cordial, olhos luminosos e serenos, como se tivesse convidado Jorge a comer bolos. Jorge aceitou a guerra. Desatou numa gritaria triunfante como se há muito tempo esperasse aquela ocasião; cuspiu nas mãos, e dirigindo um olhar significativo aos colegas que se aglomeravam em volta deles gritou:&lt;br /&gt;— Vamos a isso, meu anjinho. E prepara-te para o que der e vier!&lt;br /&gt;Alberto olhou para ele desolado, pois o que desejava era apenas um encontro de amigos. Jorge pelo contrário queria a guerra total. Mas Alberto não podia continuar a viver à margem. E embora a contragosto lançou-se, de cabeça em riste. Era por demais evidente que Alberto, um barra em aritmética, de luta livre não percebia nada. Caiu por terra duas ou três vezes com as fintas e as rasteiras de Jorge. Em volta deles os companheiros gritavam de entusiasmo. Mas o pálido “fidalguete”, com as lágrimas nos olhos, a cada passo voltava a cair. Para ele, agora era uma questão de vida ou de morte. Finalmente, evitando uma nova rasteira, Alberto conseguiu deitar as mãos a Jorge. Agarraram-se fortemente, dentes cerrados pelo esforço, procurando cada qual dominar o adversário. Jorge nunca pensou que aqueles braços tão franzinhos tivessem tanta força. A certa altura começou a fraquejar. Não podia mais. A um novo esticão perdeu o equilíbrio, e caiu de costas. Alberto, olhando-o, lançou-se sobre ele. No seu rosto tinha aparecido de novo o sorriso cordial, e agora estendia a mão ao “inimigo” vencido, para ajudá-lo a levantar-se. Mas Jorge recusou. Levantou-se sozinho, e com lágrimas de raiva gritou-lhe:&lt;br /&gt;— Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua, havia de malhar-te até dar cabo de ti.&lt;br /&gt;E desapareceu. Alberto sentiu-se atingido por aquelas palavras como se fossem pedradas. Olhou em volta. O silêncio dos colegas exprimia o mesmo pesar. Então, num repente, agarra na sacola e soluçando corre para casa. Não quis jantar: parecia-lhe ver os companheiros, sentados à volta das suas mesas sem nada para comer. Naquele dia tinha descoberto uma coisa que o enchia de amargura: a miséria.&lt;br /&gt;No domingo seguinte, quando fosse à igreja com o seu pai para a reunião dos fiéis, Alberto devia vestir o sobretudo novo.&lt;br /&gt;Pela primeira vez cedeu à teimosia: não quis. O pai tinha pressa e começava a perder a paciência:&lt;br /&gt;— Então, acabas ou não acabas com esses caprichos?&lt;br /&gt;— Mas eu não quero o sobretudo.&lt;br /&gt;— É porque foi aproveitado do meu sobretudo velho?&lt;br /&gt;— Não, papá, não é por isso.&lt;br /&gt;— Então?&lt;br /&gt;— Porque os meus colegas também o não têm.&lt;br /&gt;— Essa é uma razão nobre. Mas eu sou o pastor, e não quero que as pessoas pensem que não tenho dinheiro para comprar um sobretudo ao meu filho. Veste-o.&lt;br /&gt;Foi como se tivesse falado com as paredes.&lt;br /&gt;— Então recusas obedecer ao teu pai?&lt;br /&gt;— Eu não recuso obedecer-te, papá. É que eu não posso levar o sobretudo.&lt;br /&gt;— Sabes então o que sou obrigado a dar-te?&lt;br /&gt;— Sim.&lt;br /&gt;Alberto apanhou então um tabefe, mas foi para a igreja sem o sobretudo, como os outros rapazes. Em todos os domingos daquele Inverno, mesmo que tivesse de apanhar de novo, Alberto não mudou de ideia. Mas o pai tinha compreendido a bondade do seu filho, e nos últimos domingos de Inverno o tabefe tinha-se transformado em carícia.&lt;br /&gt;Ao chegar o Verão, Alberto acompanhou o pai pela primeira vez a Colmar. Caminhando por uma rua junto aos jardins públicos, a certa altura parou e apontou ao pai uma estátua. Era a “cabeça de um jovem negro” de Bartholdy, o autor da &lt;em&gt;Estátua da Liberdade&lt;/em&gt; de Nova Iorque. Representava um negro forte e distinto, mas de olhos aterrorizados.&lt;br /&gt;— Porque é que tem medo daquele negro, pai?&lt;br /&gt;— É um negro do Gabão, o país mais pobre do mundo. Os que lá nascem são pessoas condenadas à miséria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um livrinho verde indica o caminho&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando aos 14 anos Alberto Schweitzer abandonou Günsbach, a aldeia onde seu pai era pastor, para prosseguir os estudos em Mulhausen, manifestava já uma extraordinária vocação musical. Desde os nove anos que todos os domingos se sentava ao órgão da igreja para acompanhar as funções que o pai dirigia.&lt;br /&gt;Em Mulhausen, quando os estudos liceais lhe deixavam algum tempo livre, Alberto dirigia-se para a igreja de Santo Estêvão e sentava-se ao órgão. Foi ali que descobriu Bach, o grande músico alemão que na primeira metade do século XVIII tinha oferecido ao mundo um rio caudaloso de música, que até então permanecera esquecida nas estantes das bibliotecas. Quando Alberto Schweitzer tocou no órgão de Santo Estêvão as primeiras peças daquele grande músico, Bach era quase desconhecido. Será ele, Schweitzer, que o dará a conhecer à Europa e ao mundo com os seus admiráveis concertos e com os seus livros.&lt;br /&gt;Aos 18 anos inscreve-se na Universidade de Estrasburgo e simultaneamente inicia uma série de concertos de órgão na Alemanha, na França e na Espanha.&lt;br /&gt;Aos 22 anos laureou-se em teologia pela Universidade de Estrasburgo. Um ano depois conseguiu a láurea em filosofia. Entretanto tinha-se tornado um dos organistas mais célebres da Europa. Vendia saúde e a sua força de vontade era enorme: conseguia brilhar nos estudos e dedicar várias horas por dia ao órgão, para preparar os concertos. Dormia três a quatro horas por noite, e apesar disso a sua capacidade intelectual era fora do comum. Um ano depois da sua segunda láurea, Schweitzer foi convidado a ficar na Universidade de Estrasburgo: professor universitário aos 24 anos.&lt;br /&gt;Na manhã de Pentecostes, Alberto Schweitzer foi acordado pelo toque dos sinos.&lt;br /&gt;“Imóvel, escutei aqueles sons juntamente com a voz da minha felicidade íntima — escreveu. — Os meus sonhos mais radiosos tinham-se concretizado. A vida abria-se maravilhosa diante de mim. Mas de repente o meu pensamento voltou-se para uma multidão de homens, homens sem conta que nada possuíam... Vieram-me à mente as palavras de Jorge Nitschelm: “Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua...”, e as palavras do meu pai diante da estátua do negro: “a gente mais pobre e miserável do mundo...”. Dentro de mim ressoavam insistentes as palavras do Evangelho: “Àquele que muito recebeu muito será pedido... Recebestes de graça, pois dai de graça... Pregai a palavra... Curai os enfermos...”. Naquela manhã Alberto Schweitzer, com calma e lucidez, tomou uma decisão: continuaria a dedicar-se à ciência por mais seis anos. Depois deixaria tudo, e iria para um país miserável a fim de dedicar a vida aos seus irmãos mais desgraçados. Durante aqueles seis anos tomaria conhecimento do país onde a miséria fosse maior, e esse país seria a sua futura pátria. Era o dia de Pentecostes de 1899.&lt;br /&gt;“Uma manhã de Outono (1904) — conta Schweitzer — encontrei sobre a minha mesa de trabalho um daqueles livrinhos de cor verde nos quais a Sociedade das Missões Evangélicas de Paris publicava os relatórios mensais das suas actividades. Pu-lo de lado para retomar o meu trabalho. Mas depois peguei nele e abri-o mecanicamente. O meu olhar caiu sobre um artigo intitulado: As necessidades das missões no Gabão. Aquela região era ali apresentada como “o ponto mais doentio do mundo”, e o director da Sociedade das Missões lamentava que a missão carecesse de homens para continuar a obra. Exprimia a esperança de que o seu apelo fosse ouvido pelos que “vivem sob o olhar do Senhor” e os levasse a ir trabalhar naquela obra urgente. O artigo terminava com estas palavras “Precisam-se homens que à chamada do patrão respondam generosamente: Senhor, aqui estou! Deus tem necessidade destes homens”. Terminada a leitura, recomecei com toda a tranquilidade o meu trabalho. Fiquei a saber naquele momento a que actividade dedicaria a minha vida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um maço de cartas para começar desde o princípio&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O professor Schweitzer estava noivo de Hélène Bresslau. Logo que pôde estar com ela, disse-lhe:&lt;br /&gt;— Hélène, já encontrei a finalidade da minha vida: servir os negros do Gabão. Eles necessitam sobretudo de médico. Vou pôr de parte todas as outras ocupações para me inscrever na faculdade de medicina. Dentro de oito anos estarei apto para partir. Sentes-te com coragem de esperar por mim durante tanto tempo? E especialmente, sentes-te com coragem para vires sepultar-te comigo no meio das florestas? Eu não tenho direito de expor-te aos perigos e à miséria.&lt;br /&gt;Hélène reflectiu um pouco, muito séria. Depois sorriu:&lt;br /&gt;— Vou frequentar um curso de enfermagem — disse-lhe. — Assim sentir-te-ás mais ligado à tua Hélène.&lt;br /&gt;No dia 13 de Outubro Alberto Schweitzer deitou na caixa do correio um maço de cartas. Em algumas delas anunciava aos parentes e amigos a decisão tomada. Noutras pedia a demissão da Universidade e de todos os outros encargos para poder iniciar os estudos de medicina.&lt;br /&gt;Aquelas cartas tiveram o efeito de uma bomba. Em Paris, em Estrasburgo, na sua terra natal muitos pensaram que se tratava de uma loucura passageira. Escreveram-lhe cartas a lamentar a decisão, disseram-lhe claramente que o que tencionava fazer era o maior disparate da sua vida. “Nenhum deles pode compreender — escreveu entristecido Schweitzer — que a atitude de servir o próximo recomendada por Jesus possa levar alguém a mudar o rumo à sua vida. Todavia todos lêem o Evangelho, e todos acreditam em Jesus Cristo...”.&lt;br /&gt;Mas Alberto Schweitzer, quando tomava calmamente uma decisão, não voltava atrás. Quando começaram os cursos de medicina, os estudantes do primeiro ano ficaram admirados de ver a seu lado alguém que até há pouco pertencia ao corpo de professores. Foram oito anos de trabalho aturado: seis para a láurea, um de trabalhos práticos no hospital, e outro em Paris, dedicado à medicina tropical. Neste último ano Schweitzer realizou também uma série de concertos. Nas catedrais de França, Espanha, Inglaterra, Alemanha foi aplaudido pelas admiráveis execuções de Bach. Com o dinheiro recebido encheu sessenta e nove caixotes de medicamentos. Depois casou com Hélène, e com ela partiu. Os amigos de Paris quiseram oferecer-lhe um piano.&lt;br /&gt;— Assim lá longe não perderás o exercício. E se um dia te cansares da floresta, poderás voltar às nossas catedrais.&lt;br /&gt;O piano estava revestido de fortes chapas de ferro para o defender das formigas brancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pirogas no rio Ogové&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abril de 1913. Há cinco horas que o barco &lt;em&gt;Alembe&lt;/em&gt; sobe o rio Ogové, na zona zero equatorial. Ao longe avistavam-se as colinas de Lambaréné, uma aldeia perdida do Gabão. A sereia do &lt;em&gt;Alembe&lt;/em&gt; lança silvos prolongados. O pequeno vapor só atracará dentro de meia hora. Mas a sereia adverte os habitantes das fazendas das vizinhanças, para que cheguem a tempo com as pirogas para levantarem as encomendas e o correio.&lt;br /&gt;Alberto Schweitzer, um homem robusto de 38 anos, está sentado no convés junto de Hélène, sua jovem esposa. Tem na cabeça um chapéu branco colonial, e toma uns breves apontamentos no seu bloco de notas: “Água e florestas primitivas... Parece sonhar... A floresta é uma muralha gigantesca donde emana um calor insuportável... Penso no comércio dos escravos que durante séculos despovoou estas regiões...”.&lt;br /&gt;Da plataforma, onde atracou o Alembe, à estação missionária de Lambaréné à qual se dirigem os Schweitzer ainda era uma boa hora de piroga. “Não havia ningém a receber-nos — escreve Schweitzer. — Mas durante o desembarque (eram as quatro e o sol queimava), descubro de repente uma piroga comprida e estreita. É conduzida por jovens que cantam alegremente. Chega com a velocidade de uma flecha e gira à volta do vapor com tanta rapidez que, junto da amarra que prende o barco ao ancoradouro, o branco que vem a bordo mal tem tempo de se desviar para não ficar sem cabeça. O branco é o missionário protestante Christol, e os remadores são jovens da missão. Logo atrás aparece também, muito veloz, a piroga com o missionário Ellenberger. Esta é conduzida por adultos. Entraram num desafio de velocidade, e os mais novos, por terem vencido, troçam agora dos “mais velhos”. Os vencedores têm direito de transportar o doutor e a mulher, os outros encarregam-se da bagagem. Esplêndidos rapazes! — O começo da viagem em piroga atrapalha-nos um pouco. Estas embarcações estreitíssimas são escavadas num único tronco de árvore, e perdem o equilíbrio ao mínimo movimento. Os remadores remam de pé, o que de maneira nenhuma favorece a estabilidade. Fustigam a água com as longas pás e cantam num ritmo veloz. Se algum deles perde o lance, vamos todos ao charco... Meia hora depois o nosso medo tinha desaparecido, e podíamos dizer que a travessia fora agradável. Os rapazes fazem um desafio de velocidade com o pequeno vapor, e por pouco não fazem virar uma piroga ocupada por três velhas indígenas, que nos gritam imprecações num dificílimo dialecto gutural...”.&lt;br /&gt;Já na missão, Alberto e Hélène são recebidos com grandes grinaldas de flores e de ramos de palmeira, e apertam dezenas de mãos negras. Depois sobem à sua pequena casa situada na colina: uma construção em madeira assente numa estacaria de ferro. Mal tinham acabado de chegar, caiu a noite. Nos trópicos a noite cai subitamente, como um fio-de-prumo, logo o último raio de sol desaparece, sem o repousante intervalo do crepúsculo.&lt;br /&gt;E Schweitzer, assomando à varanda, sentiu-se envolvido por uma colossal sinfonia de grilos, entrecortada aqui e ali por uns ruídos surdos e ritmados do tanta que anunciava a toda a imensa floresta a chegada do &lt;em&gt;Oganga, o feiticeiro branco&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A África chega aos bandos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao reentrar no quarto, Alberto viu uma sombra impressionante que descia ao longo da parede: era uma aranha peluda e enorme. Espantado, Schweitzer agarra num pau, a única coisa que tinha à mão, e descarrega fortes pancadas na parede. Quando Hélène apareceu, preocupada com as pancadas, Alberto enxuga o suor após a sua primeira “caçada” africana.&lt;br /&gt;Às seis da manhã foram acordados pelo toque do sino da missão e pelo brilho ardente do sol. Desceram apressados para verem “o barracão de chapas” que seria o núcleo inicial do hospital. Não deram com ele.&lt;br /&gt;Os missionários explicaram-lhes que, infelizmente, tinha faltado a mão-de-obra. A única coisa disponível era um velho galinheiro de tecto esburacado e com as paredes todas sujas. Schweitzer pediu vassouras e um balde de cal, e ele mais Hélène limparam como puderam aquele galinheiro, durante três horas de trabalho fatigante.&lt;br /&gt;Depois, exaustos, puseram-se a descansar à sombra de uma palmeira, quando, pelas dez horas, ouviram na direcção do rio um barulho de vozes que aumentava cada vez mais. Levantando-se, Alberto viu no rio um grande número de canoas apinhadas de indígenas, e na colina um formigueiro de gente: pessoas coxeando, amparando-se umas às outras, doentes transportados nos braços. Desta vez Schweitzer perdeu a paciência:&lt;br /&gt;— Assim não! É impossível! Eu disse que nas três primeiras semanas não atendia ninguém, a não ser casos urgentes! Ainda não chegaram os caixotes dos medicamentos, e aqui nem uma palhota existe para atendimento dos doentes!&lt;br /&gt;Na verdade a estação missionária tinha avisado que o &lt;em&gt;Oganga&lt;/em&gt; branco nas primeiras três semanas não atendia ninguém a não ser os casos urgentes. Mas os que naquele momento subiam a colina eram todos infelizmente casos urgentíssimos. Em poucos minutos Alberto e Hélène viram-se cercados por uma multidão de pobres seres humanos atingidos pelas mais variadas doenças: lepra, malária, doença do sono, febre amarela, úlceras tropicais, pneumonias, hérnias inguinais... Eram acompanhados de familiares e amigos. Impossível compreender uma só palavra no meio de toda aquela confusão e gritaria, mas em cada rosto Alberto leu aquele terror que, num dia distante, descobrira na “cabeça do jovem negro” de Bartholdy.&lt;br /&gt;O doutor Schweitzer tratou primeiro de separar os doentes contagiosos dos outros. Depois começou a observá-los ali mesmo, ao ar livre, diante do velho galinheiro e sob um sol de fogo. Hélène correu a casa e voltou com a mala de pronto socorro que tinham trazido na bagagem em vista de eventuais casos de emergência. Utilizando ligaduras, álcool e outros desinfectantes, trabalharam lado a lado durante todo dia.&lt;br /&gt;Quando tombou a noite, e começaram a zumbir por todo o lado os terríveis mosquitos da malária e da febre amarela, ainda eles lá estavam a fazer pensos, a desinfectar e a ligar. Tiveram de interromper, mortos de cansaço, o corpo alagado em suor. E no entanto a fila dos “casos urgentes” era agora maior que da parte da manhã. E aqueles pobres infelizes acocoraram-se na terra nua: vítimas de variadas doenças teriam de passar a noite lado a lado, esperando a sua vez para serem tratados pelo &lt;em&gt;oganga&lt;/em&gt; branco, se a morte os não surpreendesse. Os dez dias que se seguiram foram um pesadelo para o doutor Schweitzer.Todos os medicamentos de que a estação missionária dispunha ficaram esgotados. E os doentes, alguns gravíssimos, aumentavam a olhos vistos. Parecia ao jovem médico que todas as florestas da África vinham despejar as suas vítimas ali na esplanada frente ao “galinheiro”. Mais tarde viria a saber que os feiticeiros lhe tinham enviado naqueles dias todos os doentes, por eles julgados incuráveis, para o desencorajar.&lt;br /&gt;Enquanto espera a chegada dos seus setenta caixotes de medicamentos, que estão a ser transportados rio acima, Schweitzer realiza verdadeiros milagres de cirurgia. Apesar de tudo, alguns doentes morrem sob os seus olhos. Com esses nada a fazer. Aumentava o seu pesadelo ao saber que os indígenas têm um medo terrível dos mortos. Alberto e Hélène vêem-se obrigados a pegar nas pás para enterrar os cadáveres.&lt;br /&gt;Mas na noite de 26 para 27 de Abril foram acordados por um silvo prolongado. “Era o silvo da ressurreição — escreve Alberto. — O vapor carrega com os meus setenta caixotes estava chegar. Terminara o grande pesadelo”&lt;br /&gt;Numas estantes rústicas, o &lt;em&gt;oganga&lt;/em&gt; branco lá foi alinhando a aparelhagem cirúrgica e empilhando as reservas médicas. O caixote número setenta era maior de todos: continha o piano que os amigos de Paris lhe tinham oferecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma barreira de olhos brancos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia Schweitzer pôde fazer sua primeira operação de vulto, debato do tecto do velho galinheiro preparado c melhor maneira possível. Um negro robusto, de uns trinta anos, tinha sido transportado pelos familiares de uma distância de mais de 150 quilómetros. Uma viagem horrível. A cada passo, negro soltava-se das mãos dos que amparavam e rebolava-se no chão, gritando desesperadamente. Tinha uma hérnia dupla prestes a degenerar em peritonite. Schweitzer conta assim o caso: “Logo que o pobre doente chegou ao hospital, coloquei-lhe a mão na testa e disse-lhe:&lt;br /&gt;— Não tenhas medo. Agora vais dormir, e quando acordares já não vais sentir nada. Dei-lhe uma injecção de omnipon, chamei a minha mulher e preparei tudo para a operação. Ao retalhar aquele ventre inchado e duro, à minha volta havia um silêncio de morte. Uma barreira de olhos brancos, vindos da penumbra da cabana, seguiam todos os meus gestos. Lia neles uma decisão firme: se com o meu bisturi viesse a causar a morte ao negro também seria liquidado. Mas a operação correu bem. Depois, observei o acordar daquele homem. Recobrados os sentidos, olhou em volta e gritou com entusiasmo:&lt;br /&gt;— Já não tenho nada! Já não tenho nada!&lt;br /&gt;A sua mão procurou a minha e não a largou mais. Agora a barreira de olhos brancos olhava-me com veneração, e naquelas bocas rolava um alegre murmúrio. O sol africano brilhava entre os arbustos do café, enquanto nós ambos, o homem branco e o homem negro, um ao lado do outro, compreendíamos plenamente o significado das palavras: somos todos irmãos”.&lt;br /&gt;Ao cair da noite, o tantã da floresta transmitiu aos quatro ventos um boletim médico triunfal: “O oganga branco tem uma faca que cura todos os males... O &lt;em&gt;oganga&lt;/em&gt; branco é poderoso...”. Naquela noite, pela primeira vez, com o ressoar do tantã, ecoaram pela floresta os sublimes acordes da “tocata e fuga em ré menor” de Bach. Alberto Schweitzer, um dos maiores organistas do mundo, dava o seu primeiro concerto na floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os canibais à porta de casa&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os doentes sem conta que Schweitzer curou nos dias seguintes, estava Joseph Azvawami, um negro sensível e inteligente da tribo dos Galaos. Uma malária crónica tinha-o reduzido a pele e ossos. Schweitzer fez o impossível para o salvar. Acompanhado por Hélène, passou noites inteiras à sua cabeceira. E Joseph ficou-lhes muito reconhecido. Ele tinha já trabalhado às ordens de alguns comerciantes franceses, e conhecia um pouco a sua língua. Depois de curado ficou com Schweitzer, e depressa se tornou o seu valioso intérprete.&lt;br /&gt;Através dele o doutor veio a saber coisas da maior utilidade para a sua missão. A tribo dos Galaos, pacata e pacífica, ocupava no passado toda a região do rio Ogové. Mas depois, vinda do interior, tinha aparecido a tribo dos Panins, ferozes e canibais, provocando guerras e saques. Agora as duas tribos viviam em territórios fronteiriços, e a missão estava na linha de fronteira. A pouca distância da casa de Schweitzer, os cambais continuavam a alimentar-se de carne humana. Durante meses de trabalho extenuante e contínuo, Schweitzer combateu contra todas as doenças e sofrimentos. Mas havia uma força que o ultrapassava, uma força que dominava muitíssimos negros e os trazia fora de si: essa força era o medo. E o medo, vinha do &lt;em&gt;tabu&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;“Na zona do rio Ogové — escreve Joseph Golomb — mesmo entre as tribos que praticavam o canibalismo, era tabu tapar com terra um buraco, pisar um carreiro de formigas, tocar num camaleão e fazer mil outras coisas. Além disso, havia inúmeros tabus pessoais para homens, mulheres e crianças. A uma criança dizia-se que para ela era tabu contar os dedos. Um rapaz não devia permitir que ninguém lhe tocasse no ombro direito. Uma mulher, para quem era tabu uma vassoura, limpava a casa com as mãos nuas. A um rapaz, que frequentava desde há pouco a escola da missão, tinham dito que morreria se comesse qualquer alimento tirado de um recipiente em que tivessem cozido grama. Em ar de troça, alguns companheiros disseram-lhe (e não era verdade) que tinham acabado de comer peixe cozido numa panela contaminada pela erva impura. O efeito foi terrífico mesmo para os autores da brincadeira. O pobre rapaz começou a contorcer-se com as cãibras e morreu no meio de dores atrozes.&lt;br /&gt;Obcecados com os mais variados e estranhos tabus, muitos indígenas enlouqueciam. Então os familiares ou os deitavam ao rio, ligados de pés e mãos, ou os abandonavam no meio da floresta, onde os seus gritos frenéticos se misturavam com os rugidos de feras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os feiticeiros, senhores da floresta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas a maior fonte de terror para os indígenas — escreve Golomb — eram os feiticeiros. Nas aldeias eram senhores da vida e da morte. Incorrer na sua cólera significava estar condenado à morte, porque o feiticeiro tinha à sua disposição infinitos meios de matar um inimigo. Por vezes fingia-se amigo da sua vítima, para mais fácil e eficazmente poder utilizar o veneno. Outras vezes servia-se de algum débil mental, metendo-lhe na cabeça que a sua vida corria perigo enquanto não liquidasse determinada pessoa”.&lt;br /&gt;A arma do veneno era usada com a perícia de criminosos profissionais: administravam-no por turnos aos habitantes das aldeias de maneira a terem sempre doentes para curar “miraculosamente”. Aos pobres diabos condenados à morte aplicavam-no em doses fortíssimas, anunciando de antemão que os deuses estavam para desafogar a sua cólera sobre o desgraçado.&lt;br /&gt;Tinham passado dois meses desde que chegara, quando Schweitzer foi solicitado a ir ao rio: estava lá uma piroga com um moribundo.&lt;br /&gt;Acompanhavam-no como de costume familiares e amigos. Mas o doutor viu também, ao fundo da piroga, um rapazito atado, com os olhos aterrorizados. Põe-se a observar o doente, ali mesmo à beira do rio, e encarrega alguém de ir chamar Joseph. A infecção estava muita adiantada: não havia nada a fazer. Enquanto Joseph ia traduzindo aos indígenas as palavras do doutor, o rapazito começou a gritar cheio de medo. Schweitzer exigiu com energia que o soltassem, e perguntando a Joseph o que é que se estava a passar. Depois de uma violenta troca de palavras com os familiares, o intérprete disse ao doutor que aquele rapaz tinha sido designado pelo feiticeiro como responsável de o “espírito mau” se ter apoderado do moribundo. Se o doente morresse, o rapaz teria de pagar com a sua vida. Schweitzer sabia aliás que procurar convencer os indígenas era tempo perdido. Limitou-se pois a dizer àquela gente que, se acontecesse alguma coisa ao rapaz, os denunciaria ao governador da província como homicidas.&lt;br /&gt;Entretanto Schweitzer foi chamado com urgência à “secção cirúrgica” e teve de se retirar. Quando voltou, chamado pelos gritos de Joseph, a piroga estava a afastar-se a toda a velocidade. A bordo, o rapaz ligado de pés e mãos gritava desesperado. Schweitzer deu algumas ordens secas e decididas. Em poucos minutos duas pirogas da missão estavam prontas a perseguir os fugitivos. Mas era tarde demais. Metendo por um braço secundário do rio, a piroga com o rapaz desapareceu da vista deles, num labirinto intricado de trepadeiras e plantas aquáticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A hora da amargura&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite Schweitzer tinha o coração cheio de amargura. Nisto Hélène chama-o em voz baixa e aponta para a janela. No céu havia um luar pálido, mas a claridade permitia descortinar umas sombras rastejando silenciosamente para fora da floresta e dirigindo-se para a “secção cirúrgica”. Eram os canibais em busca de carne humana. O doutor foi ao armeiro, pegou na espingarda, abriu a porta com um pontapé e gritando disparou para o ar um carregador inteiro. As sombras desapareceram rapidamente. Voltando para o quarto, Schweitzer tremia dos pés à cabeça, e a testa estava inundada de suor. Compreendia agora perfeitamente o que em tempos lhe dissera com tristeza um velho chefe dos Pauins:&lt;br /&gt;— A nossa terra devora os seus filhos.&lt;br /&gt;Naquela noite o pesar, a repugnância, o desânimo atingiram profundamente a alma de Schweitzer. Não conseguiu pregar olho. Revia um a um os anos de vida que tinha passado na Europa, e perguntava-se com amargura:&lt;br /&gt;— Terei feito bem deixar tudo? Não serei um iludido?&lt;br /&gt;Mas naquela noite amarga, Alberto Schweitzer sentiu Hélène junto de si.&lt;br /&gt;— A vida é muito dura, Alberto — disse-lhe ela enquanto lá fora os uivos das feras rasgavam o silêncio. — Mas não foi para isto que viemos? Os indígenas são perigosos, mentirosos e ladrões, e assassinos às vezes. Mas quem os fez chegar a este estado? A floresta, os feiticeiros, os negociantes de escravos. De certeza que não foi a má vontade. E se nós nos vamos embora, se os abandonamos, também Joseph, também os melhores voltam a ser ladrões e assassinos. Porque só assim é possível sobreviver na selva do Gabão. “Quem perder a vida por meu amor, há-de encontrá-la”. Recordas quem disse estas palavras, Alberto?&lt;br /&gt;Às seis da manhã, Schweitzer estava, como de costume, na “secção cirúrgica”. A seu lado, silenciosa e sorridente, Hélène chegava-lhe a seringa, o bisturi, as gazes. Lá fora, a fila dos novos doentes esperaya cheia de esperança os “milagres” do &lt;em&gt;oganga&lt;/em&gt; branco, que não os abandonaria até a morte.&lt;br /&gt;No dia 15 de cada mês fazia-se ouvir no rio a sirene do &lt;em&gt;Alembe&lt;/em&gt;. Schweitzer largava os ferros de cirurgia e descia a buscar o correio. Chegavam sempre dezenas de cartas dos seus amigos da Europa, juntamente com medicamentos, víveres e dinheiro para o hospital. Depois de as ler, passava duas noites à mesa para responder e agradecer. Quando, dois dias depois, o &lt;em&gt;Alembe&lt;/em&gt; partia de regresso ao mar, Schweitzer subia a bordo para entregar o seu maço de cartas e ter dois dedos de conversa com o capitão, um dos poucos europeus que conseguia ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A guerra anda no ar&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros meses de 1914, Schweitzer começa a ler, nas cartas que lhe chegavam, notícias alarmantes. Alemanha, França e Inglaterra estavam a armar-se a toda a pressa. Nos estaleiros fabricavam-se colossais vasos de guerra. Eram instalados nas fronteiras intermináveis filas de canhões e grandes contingentes de tropas. Também nas conversas com o capitão do &lt;em&gt;Alembe&lt;/em&gt;, Schweitzer começa a notar um certo mal-estar, como que uma expectativa angustiada. Aproximava-se o dia em que a grande avalanche da guerra iria abater-se sobre a Europa. Schweitzer escreveu por aqueles dias no seu diário: “Se a guerra for declarada, a selva do Gabão, comparada com a Europa, será um paraíso. Aqui o homicídio é uma questão de homem para homem. Numa guerra europeia o massacre será em moldes modernos, automático. Atingirá tão larga escala que se terá a impressão de que todas as outras guerras da história foram quase inofensivas e antiquadas...”. As suas previsões eram infelizmente certeiras.&lt;br /&gt;Em Abril, Schweitzer traçou o seu plano de acção. Ele e a sua mulher, nascidos na Alsácia, eram cidadãos alemães. Não havia dúvida de que em caso de guerra as autoridades do Gabão os internariam num campo de concentração. No pouco tempo que faltava, era necessário dar o máximo desenvolvimento ao hospital. Só diante de um hospital bem equipado as autoridades hesitariam em mandá-lo encerrar. Alberto e Hélène, com a ajuda dos missionários e de operários recrutados entre os que tinham sido curados pelo doutor, trabalhavam até ao limite das suas forças. Foi ganho à floresta um pedaço de terreno e nele construído um barracão de chapas. Mudou-se para ali o bloco operatório. Depois Schweitzer desenhou na terra nua, com um pau afiado, dezasseis rectângulos: o lugar onde ficariam as primeiras dezasseis camas para os doentes, quando se construísse o segundo barracão. Mas já naquela tarde, antes que este se levantasse, dezasseis doentes vieram ocupar aqueles rectângulos de terra.&lt;br /&gt;Um dia de Agosto, Schweitzer tinha subido o rio numa piroga, para ir tratar os habitantes atingidos pela disenteria. No regresso, Joseph esperava por ele com um bilhete na mão e com o rosto desolado. O bilhete era do capitão do barco. Dizia assim: “Rebentou a guerra na Europa. Recebi ordens de colocar o barco à disposição das autoridades. Por isso não sei quando poderemos voltar a ver-nos. Boa sorte”.&lt;br /&gt;Na mesma tarde chegou a Lambaréné um grupo de indígenas armados. Ordenaram a Schweitzer para suspender todos os contactos com brancos e negros. As autoridades centrais em breve mandariam novas instruções.&lt;br /&gt;Com uma tristeza infinita, Schweitzer juntou os doentes e disse-lhes que tinham de voltar para suas casas. Então, antes que Schweitzer acrescentasse outras palavras, deu-se uma cena repentina. Todos os doentes se atiraram ao mesmo tempo contra os indígenas armados. Encheram-nos de escarros e insultos. Estavam a chegar a vias de facto (e já os militares tinham apontado as armas) quando Schweitzer, Hélène e Joseph intervieram para os deter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Seladas as portas do hospital&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite Schweitzer fechou os dois pavilhões e os militares selaram-nos com os selos do governo.&lt;br /&gt;Mal o tantã acabara de lançar na floresta a notícia da guerra, do encerramento do hospital e da prisão do &lt;em&gt;oganga&lt;/em&gt; branco, muitos indígenas curados por Schweitzer acorreram incrédulos. Uma mulher perguntou-lhe:&lt;br /&gt;— Tu disseste-nos que os brancos adoram Cristo, e que Cristo pregou o amor. Porque é que então os brancos se guerreiam?&lt;br /&gt;Schweitzer não soube responder. O velho chefe canibal da tribo dos Pauins, que um dia lhe tinha dito “a nossa terra devora os seus filhos”, não conseguia acreditar na guerra.&lt;br /&gt;— Então os brancos dispararão uns contra os outros?&lt;br /&gt;— Infelizmente, sim.&lt;br /&gt;— E haverá muitos mortos?&lt;br /&gt;— Penso que sim.&lt;br /&gt;O velho canibal abanou a cabeça:&lt;br /&gt;— Mas porque não se reúnem e não discutem para porem fim à guerra? Os europeus não comem os inimigos mortos, disseste-me tu. Mas então matam-se por crueldade. Eu julgava que os europeus tinham melhores sentimentos.&lt;br /&gt;Antes de findar o mês, também os indígenas do Gabão foram chamados às armas pelo exército francês. Schweitzer, com os missionários, desceu até ao rio para se despedir de alguns alistados que partiam para a Europa. Um mês antes aqueles rapazolas não sabiam sequer pegar numa espingarda. Não sabiam até este momento que havia uma nação chamada Alemanha. No entanto, dentro de trinta dias, seriam empurrados para as trincheiras, nas fronteiras da França, e receberiam ordens para disparar contra o inimigo completamente desconhecido. E muitos não mais voltariam. “Quem são os selvagens? — intrigava-se Schweitzer naquele momento. — Estes homens que vivem na selva e matam por necessidade, ou aqueles que organizam um massacre de proporções apocalípticas e perfeitamente inúteis no centro da Europa?&lt;br /&gt;“A multidão tinha-se dispersado — escreveu Schweitzer, — mas na margem do rio uma mulher já idosa, que tinha visto partir o filho, estava acocorada no chão em silêncio. Tomei-a pela mão. Tentei consolá-la. Ela continuou a chorar como se me não tivesse ouvido. Então, vencido pela amargura, também chorei junto daquela mãe, na margem do rio”.&lt;br /&gt;Depois chegou a ordem: “Todos os cidadãos alemães residentes no Gabão devem ser embarcados e transportados para a França”. Antes de partir Schweitzer viu por entre o capim um par de cobras maravilhosamente coloridas, com a ninhada recém-nascida ali perto. A pouca distância, absolutamente estranhas ao que se passava, brincavam algumas crianças negras. Schweitzer pede uma espingarda, e mata os répteis com dois tiros. As crianças, espantadas com os tiros, fogem aos gritos. Do convés do pequeno vapor, Schweitzer despediu-se de Lambaréné. Deixava os seus negros, aquelas crianças: sem defesa contra tantos perigos.&lt;br /&gt;Mas voltaria, custasse o que custasse.&lt;br /&gt;Os Schweitzer foram internados num campo de concentração junto aos Pirinéus. Depois, numa troca de prisioneiros, voltaram à Alemanha passando entre mortos e escombros. Quando, a 11 de Novembro de 1918, chegou finalmente a paz, a Europa fazia lembrar um imenso cemitério. Com a paz, chegaram de Lambaréné as primeiras notícias. Os missionários escreviam a Schweitzer cartas lancinantes: “O hospital está em ruínas... Esta gente precisa de vós... Doutor, sentimos terrivelmente a vossa falta. Na região do Ogové, num raio de cem milhas, não existe um só médico. Tudo recaiu nas mãos dos feiticeiros...”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Respeitai a vida&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Schweitzer estava decidido a voltar, mas também na Europa havia quem precisasse dele. Hélène adoecera gravemente. No dia 14 de Janeiro nasce a sua filha, Rhena. Mas os meios mais necessitados de ajuda pareciam-lhe ser os seus irmãos europeus. Profundamente traumatizados pela guerra, eles tinham necessidade de ouvir uma palavra de esperança, como que uma palavra de ordem que lhes permitisse cobrar ânimo e construir de novo. E Schweitzer parecia-lhe ter descoberto esta palavra de ordem. Junto à floresta compreendera que na raiz de qualquer civilização tinha de estar o mandamento: “respeitar a vida”. Naqueles difíceis anos do pós-guerra escreveu o livro &lt;em&gt;Decadência e restauração da civilização.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Programara entretanto uma longa série de concertos de órgão e de conferências, na Suíça, Dinamarca, Suécia, Espanha, Alemanha, França. A Europa ouviu pela primeira vez, juntamente com a música de Bach, o nome de Lambaréné, e as aventuras do oganga branco na margem do Ogové despeitam imenso entusiasmo em muitos jovens.&lt;br /&gt;A 21 de Fevereiro de 1924, em Bordéus, Schweitzer embarca no vapor Orestes de regresso ao Gabão. Hélène não o acompanha: não estava ainda refeita, e tinha de pensar na pequenina Rhena. Mas ia com ele um jovem estudante de medicina, Noèl Gillespie, o primeiro jovem europeu que aceitara o convite de condividir com Schweitzer as fadigas de Lambaréné.&lt;br /&gt;Era a vigília de Páscoa quando o &lt;em&gt;Alembe&lt;/em&gt; atracou próximo da missão de Lambaréné. Schweitzer viu centenas de negros que das margens agitavam ramos de palmeira e flores. Mas o seu olhar correu veloz para o “seu” hospital. E ao vê-lo ficou desolado: o terreno desbravado, tinha sido novamente engolido pela floresta. Os barracões, destelhados, tinham sido invadidos pela vegetação tropical. Nem sequer as paredes de chapas tinham resistido à força da floresta. Schweitzer (contava agora cinquenta anos) disse uma só palavra: “temos de recomeçar”.&lt;br /&gt;O tantã esteve a transmitir a notícia do regresso do &lt;em&gt;oganga&lt;/em&gt; branco durante o dia de Páscoa. E na segunda-feira repetiram-se cenas já recuadas no tempo: canoas apinhadas no rio, o fervilhar de gente colina acima, doentes levados em padiolas ou nos braços, filas intermináveis de “casos urgentes”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os homens-leopardos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O começo, desta vez, ficou assinalado por um luto e por uma descoberta macabra. Enquanto Gillespie trabalhava freneticamente durante toda a noite, Schweitzer velou um negro doente de coração, tentando em vão salvá-lo. Na madrugada de terça-feira, o negro morria. Enquanto o cadáver era transportado para fora, uma menina começou a gritar desesperadamente, e fugiu em direcção à missão. A quem procurava acalmá-la a menina disse, com os olhos esbogalhados de terror, que o &lt;em&gt;oganga&lt;/em&gt; branco era um homem-leopardo: no seu quarto tinha entrado um homem vivo e tinha saído um homem morto.&lt;br /&gt;— Porque é que deixam vir um homem-leopardo matar os pobres negros? — continuava a perguntar entre soluços aquela menina.&lt;br /&gt;Schweitzer, impressionado, perguntou:&lt;br /&gt;— Mas quem são esses homens-leopardos?&lt;br /&gt;A resposta deixou-o atónito. Durante os anos da sua ausência, tinha-se espalhado no Gabão como uma mancha de óleo uma associação secreta de selvagens, que circulavam munidos de garras de leopardo. Com estas garras esganavam as suas vítimas. A seita conseguia penetrar entre os negros através da astúcia: convidavam um indígena a beber na sua companhia, depois diziam-lhe que lhe tinham feito beber sangue humano fervido numa caveira. Nesta altura, o negro tinha de escolher: ou entrar na seita ou ser degolado. Vencidas pelo terror, as vítimas cediam quase sempre. A primeira incumbência que lhes era imposta era atrair um seu parente para a floresta, onde a seita estava emboscada para o matar. Com aquele delito o novo adepto ficava automaticamente fora da lei. Se fosse denunciado às autoridades era condenado à morte. Não tinha, por conseguinte, outro remédio senão entrar na seita e entregar-se definitivamente ao banditismo.&lt;br /&gt;A única maneira de vencer este mal que vinha juntar-se a tantos outros, era arrancar os negros à ignorância e à miséria.&lt;br /&gt;Schweitzer e Gillespie trabalhavam como médicos, pedreiros e lenhadores. E bem depressa o hospital foi restaurado. Dois meses depois, chegou da Inglaterra Mathilde Kottman, enfermeira voluntária. Uma mulher alta, robusta, enérgica e sorridente. Tinha ouvido falar do hospital de Lambaréné, e vinha dar uma ajuda. Schweitzer anotou no seu diário: “Não acreditava que uma mulher aguentasse por muito tempo no nosso hospital. Mas, decorrida uma semana, começámos a notar que os candeeiros de petróleo estavam sempre em ordem, que a água fervida nunca faltava na secção cirúrgica, que a roupa limpa enchia as prateleiras, que os ovos das nossas galinhas eram recolhidos antes que alguém os roubasse e começavam a alimentar convenientemente os nossos doentes. A continuar assim, nunca mais se daria o caso de encontrar as camas feitas com toalhas em vez de lençóis...”.&lt;br /&gt;Depois de Mathilde apareceu Joseph, que deixou o negócio de madeiras para retomar o seu lugar junto do &lt;em&gt;oganga&lt;/em&gt; branco, com o título de “primeiro assistente do doutor de Lambaréné”. Poucos dias depois Schweitzer recebeu a mais agradável notícia que lhe podiam dar: tinha partido da Europa um médico que vinha trabalhar com ele. Ao entrar no cais de desembarque para lhe dar as boas-vindas, Schweitzer viu no convés do navio um jovem, com cara de adolescente, que lhe gritou logo:&lt;br /&gt;— Agora pode descansar, doutor! Eu tratarei de tudo!&lt;br /&gt;Era o doutor Vítor Nessmann, que não tardou a revelar-se um homem afável, inteligente e enérgico. Naquela tarde, escreveu Schweitzer no seu diário: “É uma bênção poder finalmente confessar a mim próprio que de facto me encontro cansado!”&lt;br /&gt;Depois foi a vez de a doce Hélène voltar a Lambaréné, acompanhada de Rhena que se tinha tornado uma rapariguinha cheia de vida e de força. E chegou o doutor Mark Lauterburg, “um homem esbelto com a elegância e a desenvoltura dos oficiais de cavalaria”. Chegou juntamente com uma esplêndida oferta dos “Amigos de Lambaréné” da Suécia: uma lancha a motor com nove metros de comprimento, de grande solidez e brilho, apta para a navegação fluvial e dotada de um poderoso motor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alastra a epidemia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Com a ajuda de Lauterburg e daquela potente lancha, Schweitzer enfrentou a crise mais grave de quantas terão atingido a região do &lt;em&gt;Ogové&lt;/em&gt;: uma larga e violenta epidemia de disenteria que ameaçou despovoar completamente aquelas terras. Foram dias de horror em que uma ou outra vez a coragem de Schweitzer pareceu vacilar. “Estávamos todos cansados e desmoralizados — escreve Schweitzer. — Em vão tentávamos deter o contágio avassalador... No hospital, alguns doentes, convalescendo da operação, foram atacados pela disenteria e não conseguimos salvá-los...”.&lt;br /&gt;A coisa mais difícil era convencer os negros a precaver-se do contágio, a na© tocar nos doentes, a não se servir dos recipientes por onde eles comiam.&lt;br /&gt;Cansado e desesperado, Schweitzer desabafou um dia com amargura:&lt;br /&gt;— Que idiota que eu fui, quando me decidi a vir para aqui cuidar destes selvagens!&lt;br /&gt;E Joseph, que estava ao pé dele, repondeu:&lt;br /&gt;— Na terra, talvez seja idiota. Mas no céu, não.&lt;br /&gt;Atrás da epidemia veio a fome. Os homens mais fortes tinham morrido com a epidemia. Muitas famílias, muitos órfãos, morriam literalmente de fome nas aldeias da floresta. Schweitzer pediu enormes quantidades de mantimentos às autoridades, aos seus amigos da Europa: “É um povo inteiro que está a morrer por não ter um punhado de arroz. É preciso ajudá-lo imediatamente, sem perder um minuto de tempo”. A sua lancha carregada de víveres salvou naqueles dias milhares de pessoas sumidas nos cantos mais escondidos da selva.&lt;br /&gt;Mas de novo o céu se obscureceu sobre a Europa. As notícias que chegavam vinham carregadas de angústia. Os “homens-leopardos” não os havia só no Gabão. Na Alemanha Hitler, o louco e feroz ditador, tinha posto em pé de guerra o mais poderoso exército da história. Os seus carros armados e os seus canhões estavam prontos a desencadear a segunda e terrível guerra mundial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A segunda guerra mundial&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Em Setembro de 1939 chegou a tristíssima notícia: os exércitos de Hitler tinham invadido a Polónia. O mundo estava de novo em guerra.&lt;br /&gt;Agora que a Alsácia pertencia à França, Schweitzer não foi considerado estrangeiro, e o hospital pôde continuar aberto. Mas bem depressa os medicamentos começaram a escassear, e o fornecimento dos víveres ficou suspenso. Os submarinos alemães dominavam os mares, e Lambaréné ficou isolada do resto do mundo. A lancha &lt;em&gt;Brazza&lt;/em&gt; que transportava a bordo uma grande quantidade de víveres e medicamentos para o hospital de Schweitzer foi torpeada e afundou-se. Entretanto chegavam notícias apocalípticas: cidades que ardiam sob os bombardeamentos aéreos, campos onde eram exterminados milhões de pessoas, armas cada vez mais sofisticadas que provocavam nódoas de horror na humanidade.&lt;br /&gt;No dia em que Schweitzer completava setenta anos, no dia 14 de Janeiro de 1945, Londres como que desaparecia sob a chuva de bombas-foguetes de Hitler, as chamadas VI e as V2. Em Agosto daquele ano, o velho de Lambaréné foi abalado por uma notícia horrorosa: duas cidades japonesas tinham sido varridas do mapa por uma nova arma e terrível, a bomba atómica. “Que valem os nossos pobres esforços — escreveu nessa altura — de que serve ter vindo salvar algum milhar de negros, quando cidades inteiras, populosas, civilizadas desapareceram como se por cima delas passasse uma esponja?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O “Nobel” da paz&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Em 1948, Schweitzer voltou à Europa. Passou mais uma vez pelas cidades reduzidas a escombros, por entre os sobreviventes destroçados. Tocou Bach “que é um acto de oração e adoração”, falou de Lambaréné e do “respeito pela vida”. E foi então que o mundo “descobriu” Schweitzer. Os homens que durante cinco anos tinham pensado em suicidar-se, ficaram sacudidos e encantados diante daquele velho que no mesmo espaço de tempo tinha pensado em curar e salvar vidas humanas numa terra desconhecida e longínqua. A Universidade americana de Harvard convida-o para um ciclo de conferências, e no final Albert Einstein define-o “o maior dos homens vivos”. Em 1949, a célebre revista americana “Life”, dedicava-lhe a primeira capa do ano, considerando-o “o maior homem do mundo”. Em 1952 foi-lhe atribuído o Nobel da Paz. Daquele dia em diante, são incontáveis as condecorações, os prémios, os doutoramentos “honoris causa” que Schweitzer recebe. Mas o que mais o conforta é o aparecimento contínuo de jovens europeus e americanos que vêm a oferecer dois, três, cinco anos da sua vida aos seus leprosos e aos seus doentes. Agora sentia-se velho. Deixara de operar. Mas passava pelos barracões, que se tinham multiplicado, entre os 3.500 doentes que habitavam o seu hospital em aumento crescente, a sorrir, a dizer uma palavra de conforto, a fazer uma carícia. Passava horas esquecidas junto dos animais que circulavam em plena liberdade nas cercanias do hospital. Os pequenos antílopes empurravam-no delicadamente com o focinho, reclamando as suas carícias. Os gatos saltavam para cima da sua secretária, farejando o tinteiro e os maços de cartas. Um velho pelicano saudava-o com guinchos estridentes, e esperava pelas seis da tarde para se pôr de guarda à sua porta.&lt;br /&gt;Agora Lambaréné era conhecida em todo o mundo; tornara-se por assim dizer uma meta turística. Aqueles que desembarcavam dos jactos surpersónicos, no aeroporto construído nas vizinhanças, vinham ver um patriarca, que tinha vivido unicamente para o seu próximo mais pobre e mais desamparado.&lt;br /&gt;Morreu assim a 4 de Setembro de 1965, entre os seus doentes, as suas crianças, os seus animais. Schweitzer tinha então noventa anos. E tinha ensinado os homens a ter estima pelos outros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-7239091132438253240?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/7239091132438253240/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=7239091132438253240' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7239091132438253240'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7239091132438253240'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/albert-schweitzer.html' title='Alberto Schweitzer'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-7591918938396707465</id><published>2007-06-26T03:05:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.677-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Um justo português - Esther Mucznik</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; Esther Mucznik&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Público, 10 de Novembro de 2006&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 190%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A perseguição e a destruição dos judeus produziu atitudes diametralmente opostas: o mal absoluto e a compaixão humana. Hoje, dia em que se celebram 68 anos da chamada “Noite de Cristal”, prefiro lembrar a compaixão humana na pessoa de José de Brito Mendes, um “justo” português.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Espero que um dia, quando nos voltarmos a ver, o meu marido e eu reencontremos a nossa filha e voltemos a estar de novo juntos e felizes.” É assim que termina uma carta escrita em 1942 por Fojgel (Fanny) Berkovic a Marie-Louise e José Brito Mendes, a quem ela confiara a guarda da sua filha Cécile, para a proteger das rusgas da polícia francesa às ordens da Gestapo. Fojgel Berkovic não realizou o seu sonho. Apenas voltou a ver a filha, de cinco anos, quando estava já por detrás do arame farpado do campo de Drancy, a caminho de Auschwitz de onde nunca voltou. Mas Cécile sobreviveu. Graças à coragem da família do português Brito Mendes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Brito Mendes emigrou para França em 1926, onde casou com uma francesa, Marie-Louise, e de quem teve um filho, Jacques. Viviam em St. Ouen, nos arredores operários de Paris. Mesmo em frente à sua casa vivia um casal de judeus polacos, Aron e Fojgel Berkovic, com a filha Cécile, nascida em 1937. Aron era sapateiro e tinha uma pequena oficina na mesma rua onde moravam. Daí assistia às brincadeiras de Cécile e Jacques, praticamente criados juntos naquele bairro onde se aglomeravam, na época, imigrantes espanhóis e italianos, portugueses e polacos.&lt;br /&gt;Mas em 1942, a 15 de Junho, Aron é deportado e morre em Auschwitz. A sua mulher Fojgel esconde-se algures em Paris, mas antes confia Cécile à guarda da família Brito Mendes, numa tentativa desesperada de a salvar. E com efeito, meses depois, apesar de escondida, Fojgel é presa e levada para o campo de trânsito de Drancy, de onde partiam os transportes para os campos de extermínio. Antes da sua partida, José Brito leva Cécile ver a mãe uma última vez: tem já cinco anos, mas já sabe que não a pode chamar de mãe. Pela sua segurança e pela segurança de José. Tem de esconder que é judia, fingir que é prima de Jacques e que o seu nome é Bellouin – nome de solteira de M. Louise. Mas as crianças aprendem depressa…&lt;br /&gt;A família Brito toma conta de Cécile, como uma filha – apesar dos cartões de racionamento e do perigo sempre iminente de uma rusga policial, porque quem esconde judeus corre o risco de ser deportado. Esta acontece efectivamente em 1943 devido a uma denúncia, mas a Gestapo não encontra Cécile, momentaneamente ausente. Para José Brito é o sinal de alarme: Cécile e Jacques são enviados para a província, onde ficam em casa de familiares do casal.&lt;br /&gt;O tempo passa, a guerra acaba, os pais de Cécile não voltam e o casal Brito prepara-se para adoptar a criança. Mas do campo de concentração de Dachau chega um sobrevivente da família: um tio de Cécile, que obtém a sua guarda e a leva para os Estados Unidos, para bem longe das sombras da Europa… e dos Brito Mendes que nunca se consolarão verdadeiramente da dor da sua perda. Cécile nunca mais viu a família que a salvou. Nos Estados Unidos, mudou de nome, estudou, exerceu advocacia, casou e teve duas filhas. Voltou a França em 1987 à procura dos Brito Mendes, mas não os encontrou. Morreu sem os rever.&lt;br /&gt;Jacques continuou sempre à procura da irmã perdida. Não a encontrou mas, em 2002, graças à Internet e às associações das Crianças Escondidas, descobriu as filhas de Cécile, que, embora ao corrente de que ela nascera em França e que os avós tinham sido mortos em Auschwitz, nada mais sabiam sobre o passado francês da sua mãe. “Ela não falava nunca”, explica Cara, filha de Cécile. “Era a época em que ficou órfã e o sofrimento permaneceu muito vivo.” Para Jacques, encontrar as filhas de Cécile foi “um vazio que se encheu com o que se tornou Cécile, a sua vida”. “O tempo passou, muitos actores desta história estão mortos, mas, se os nossos filhos se conhecerem, a história continua”.&lt;br /&gt;Em 2004, devido aos esforços de Cara, a filha americana de Cécile, o Yad Vashem, Autoridade Nacional para a memória dos Mártires e Heróis do Holocausto, de Jerusalém, atribuiu a José e a Marie-Louise Brito Mendes o titulo de “Justo entre as Nações” – já desde 1967 também atribuído a outro português, Aristides de Sousa Mendes – por, “arriscando a própria vida, terem salvo judeus perseguidos durante o período da Shoah na Europa”. O diploma de honra a eles atribuído refere ainda que “o seu nome será homenageado para todo o sempre, e gravado no Muro dos Justos das Nações no memorial Yad Vashem em Jerusalém”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porquê contar hoje e aqui esta história? Em primeiro lugar, porque é uma história bonita que trata da bondade humana. Numa época em que esta era um acto demasiado solitário, em que grassava o medo ou a indiferença, a denúncia e a colaboração, não é demais lembrar que a bondade também existiu. Os Brito Mendes eram certamente pessoas simples, não foram heróis da Resistência, mas à sua maneira foram dos poucos a praticar o lema do Yad Vashem retirado do Talmude: “Quem salva uma vida salva toda a humanidade.”&lt;br /&gt;No memorial de Jerusalém estão gravados os nomes de dois portugueses. Mas muitos mais foram sensíveis ao sofrimento de judeus e não judeus que fugiam das garras do nazismo. Segundo Avraham Milgram, historiador do Yad Vashem – a quem devo o conhecimento da história que hoje divulgo entre os leitores portugueses –, em Fevereiro de 1941, a PVDE (Policia de Vigilância e Defesa do Estado) comunicou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que “os consulados de Portugal em Milão, Budapeste, Bucareste e Antuérpia estão a conceder vistos em passaportes de estrangeiros, fora das instruções superiormente recebidas”.&lt;br /&gt;O que, do ponto de vista de Milgram, mostra que o desrespeito às ordens recebidas era um fenómeno amplamente difundido nos meios consulares. Em geral, as representações consulares portuguesas eram sensíveis ao destino dos judeus. Não encontramos no arquivo histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros documentos que testemunhem preconceitos ou atitudes anti-semitas da parte de cônsules portugueses no exterior, da mesma forma que não havia denominador comum – ideológico ou político – entre os diplomatas portugueses que ajudaram judeus a sair da Europa via Portugal.&lt;br /&gt;“A compaixão pelo sofrimento alheio, no caso dos judeus, era comum ao monárquico Aristides de Sousa Mendes, ao antimarxista Alfredo Casanova, ao republicano Alberto da Veiga Simões, ao liberal Giuseppe Agenore Magno”, escreve A. Milgram. Poder-se-ia acrescentar Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho em Budapeste, entre outros dos serviços consulares de Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A perseguição e a destruição dos judeus produziu atitudes diametralmente opostas: o mal absoluto e a compaixão humana. Hoje, dia em que se celebram 68 anos da chamada “Noite de Cristal” – pogrom que na noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 estilhaçou não só as montras de 7 mil comércios judaicos e sinagogas, mas também as vidas dos judeus alemães –, neste dia prefiro, apesar de tudo, lembrar a compaixão humana na pessoa de José de Brito Mendes, um “justo” português.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-7591918938396707465?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/7591918938396707465/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=7591918938396707465' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7591918938396707465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7591918938396707465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/um-justo-portugus-esther-mucznik.html' title='Um justo português - Esther Mucznik'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-5007846713631159178</id><published>2007-06-17T00:56:00.000-07:00</published><updated>2007-07-28T23:51:05.905-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>O Primeiro Natal em Portugal - Luísa Ducla Soares</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.&lt;br /&gt;A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.&lt;br /&gt;O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas.&lt;br /&gt;Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ОЛiВЕДЬ — lápis&lt;br /&gt;ЗОШИТ — caderno&lt;br /&gt;КИГА — livro&lt;br /&gt;ШКОЛА — escola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?&lt;br /&gt;Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...&lt;br /&gt;Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;em&gt;Irina, Irina, Irina,&lt;br /&gt;Que menina tão fina!&lt;br /&gt;Tem cara cor de sal,&lt;br /&gt;Olhos cor de piscina.&lt;br /&gt;Cabelos cor de margarina.&lt;br /&gt;Ai, doem-te as saudades?&lt;br /&gt;Vai tomar aspirina.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Na Ucrânia deixou tantos amigos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.&lt;br /&gt;Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?&lt;br /&gt;Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:&lt;br /&gt;— Pareces uma fada!&lt;br /&gt;E foge logo a correr.&lt;br /&gt;Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.&lt;br /&gt;— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?&lt;br /&gt;Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?&lt;br /&gt;Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.&lt;br /&gt;É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.&lt;br /&gt;Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!&lt;br /&gt;De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...&lt;br /&gt;Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!&lt;br /&gt;— Acudam! Acudam!&lt;br /&gt;Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.&lt;br /&gt;Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.&lt;br /&gt;Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.&lt;br /&gt;Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.&lt;br /&gt;— Ladrão atacar tu? Estar doente?&lt;br /&gt;Tremendo, a outra responde:&lt;br /&gt;— Chama o 112. O bebé vai nascer.&lt;br /&gt;Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.&lt;br /&gt;Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.&lt;br /&gt;— Pai, pai! — grita ela.&lt;br /&gt;Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.&lt;br /&gt;— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?&lt;br /&gt;Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.&lt;br /&gt;Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.&lt;br /&gt;— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.&lt;br /&gt;A miúda obedece, confusa.&lt;br /&gt;— Traz-me roupa lavada, para me mudar!&lt;br /&gt;O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.&lt;br /&gt;— Irina, a água já ferve?&lt;br /&gt;De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.&lt;br /&gt;— Força! Coragem! Está quase...&lt;br /&gt;De súbito ouve-se o choro de um bebé.&lt;br /&gt;— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.&lt;br /&gt;Entrega-lhe o recém-nascido.&lt;br /&gt;A rapariga, na cama desalinhada, sorri.&lt;br /&gt;— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.&lt;br /&gt;Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.&lt;br /&gt;O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.&lt;br /&gt;— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.&lt;br /&gt;— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...&lt;br /&gt;As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.&lt;br /&gt;— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.&lt;br /&gt;A mãe olha para o homem e pergunta:&lt;br /&gt;— Como é que o doutor se chama?&lt;br /&gt;— Anton.&lt;br /&gt;— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.&lt;br /&gt;As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.&lt;br /&gt;— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.&lt;br /&gt;— Manhã nós visitar! — exclama a garota.&lt;br /&gt;Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.&lt;br /&gt;— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.&lt;br /&gt;Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;em&gt;Para uma fada loura.&lt;br /&gt;com amizade&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.&lt;br /&gt;— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.&lt;br /&gt;— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.&lt;br /&gt;Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OЗНАКА — fada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Luísa Ducla Soares&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Há sempre uma estrela no Natal&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Porto, Civilização Editora, 2006&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-5007846713631159178?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/5007846713631159178/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=5007846713631159178' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/5007846713631159178'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/5007846713631159178'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/o-primeiro-natal-em-portugal-lusa.html' title='O Primeiro Natal em Portugal - Luísa Ducla Soares'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-3686830674786386803</id><published>2007-06-16T11:25:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.677-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Aristides Sousa Mendes</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 150%"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O homem que ficou sem sono&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;ou&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;a História de um herói contada em português&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 150%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez um homem que um dia ficou sem sono. Queria dormir, mas não conseguia, apesar de sempre ter dormido bem. Quando fechava os olhos, não lhe saía da cabeça a tristeza que havia no olhar das crianças que se apinhavam junto da porta da casa onde morava e trabalhava. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era um homem bom que gostava do que fazia e que fora educado para obedecer às ordens dos seus superiores, estivesse onde estivesse. Nunca lhe passara sequer pela cabeça a possibilidade de um dia vir a infringir essa regra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Esta história é verdadeira e aconteceu poucos dias antes de começar o Verão do ano de 1940. Ainda há muita gente viva que se lembra bem desse homem e daquilo que ele fez, deixando de pensar em si e pensando nos outros e na sua salvação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O homem era diplomata e nascera no norte de Portugal. Chamava-se Aristides de Sousa Mendes, era casado e tinha vários filhos. A sua carreira como cônsul levou-o até à cidade francesa de Bordéus, onde lhe chegaram as primeiras notícias do começo da Segunda Guerra Mundial quando as tropas alemãs atacaram a Polónia e a Inglaterra se opôs a essa agressão, em defesa da liberdade e da democracia, declarando que faria frente, pelas armas, aos agressores. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O homem era pessoa de bem e defensor da paz. Não podia aceitar a ideia de que alguém pudesse ser perseguido, torturado e morto só por ter ideias políticas diferentes ou outra religião. Fora educado para a tolerância e por isso respeitava os direitos dos outros. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;À medida que as tropas alemãs invadiam países como a Bélgica ou a Holanda e se aproximavam da fronteira francesa, iam chegando a Bordéus refugiados das nações ocupadas, em busca de um visto no passaporte que lhes permitisse chegar a Espanha e depois a Portugal, apanhando mais tarde, em Lisboa, um barco ou um avião que os levasse para países como os Estados Unidos da América, o Brasil ou a Argentina, onde não havia guerra. Portugal e Espanha, governados por ditadores como Hitler, o senhor da Alemanha, não tinham entrado na guerra e iriam manter-se à margem dela, embora durante muito tempo tenham estado ao lado dos alemães e do que eles representavam. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O homem queria dormir, mas não era capaz. Ecoavam-lhe na cabeça as vozes das crianças que sofriam de fome e de sede e que, lembrando-lhe os seus filhos, tinham o direito de viver e de crescer em liberdade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De Lisboa, o cônsul português recebera ordens muito rigorosas no sentido de não deixar chegar refugiados a Portugal. Pensou e voltou a pensar, consultou a mulher e escreveu uma longa carta aos filhos explicando o que tencionava fazer e as razões dessa opção. Espreitou pela janela e viu nos olhos das crianças um sorriso fugidio que representava a última réstia de esperança. Por elas valeria a pena arriscar. Por elas e pelos princípios que defendia. Foi assim que a palavra «desobediência» entrou definitivamente no seu vocabulário. Mandou abrir as portas do Consulado de Portugal e forneceu aos funcionários carimbos e selos brancos para poderem emitir o maior número de vistos possível. A partir desse momento seria uma batalha sem tréguas contra o tempo. Cada minuto contava. Cada dia parecia uma eternidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Durante três dias não houve descanso para ninguém dentro do Consulado, e ainda sobrou tempo para se dar água e comida àqueles que esperavam à porta em intermináveis filas, com a esperança de que o pesadelo por fim terminasse. Pela rádio chegavam notícias da rendição da França, o que significava que já faltava muito pouco para que as tropas de Hitler chegassem também a Bordéus, perseguindo e prendendo judeus e opositores políticos ao regime nazi. Era preciso actuar ainda mais depressa. O cônsul conseguiu arranjar tempo para ir às cidades de Bayonne e Hendaye onde havia um grande número de refugiados tentando passar a fronteira em direcção a Espanha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aristides de Sousa Mendes sabia que o desrespeito pelas ordens de Lisboa teria consequências dramáticas para o seu futuro e da sua família. Ainda assim, não recuou. Sabia que a razão estava do seu lado e não estava disposto a abdicar dessa razão, que correspondia à salvação de milhares de vidas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Mãe, tenho fome e sede e quero sair deste sítio — dizia a menina austríaca para a mãe pálida e exausta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Talvez amanhã de manhã já possamos estar a caminho da liberdade, porque há ali dentro um homem bom que nos quer ajudar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O homem não se deixou vencer pelo cansaço, pelo sono, pela fome ou pela sede. A vida dos outros estava primeiro. Se eles tinham pressa, a sua conseguia ser ainda maior. No Consulado, houve quem o avisasse: «O senhor bem sabe o que lhe pode acontecer!» Mas ele não quis saber e continuou a passar vistos, perdendo a conta às pessoas que já tinha conseguido salvar. Terão sido dez mil, quinze mil ou trinta mil? Não se sabe ao certo. Sabe-se sim que chegaram a Lisboa e que depois foram encaminhados para o Estoril, para a Ericeira, para a Figueira da Foz ou para as Caldas da Rainha. Mais tarde, a maioria conseguiu partir para países onde havia liberdade. Alguns voltaram depois do final da guerra às suas terras, outros nunca mais as quiseram ver porque não conseguiram esquecer as horas de sofrimento e perda. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Três dias bastaram para que o cônsul Aristides de Sousa Mendes abrisse a milhares de refugiados as portas para a liberdade, desobedecendo a Salazar e ao regime que ele dirigia. Por isso foi prontamente banido da carreira diplomática e proibido de exercer qualquer actividade profissional, morrendo na miséria em 1954, com os filhos dispersos por países como os Estados Unidos, onde puderam estudar e seguir as suas carreiras. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Num dia quente de Junho de 1940, no Rossio, em Lisboa, um menino de cabelo loiro perguntou aos pais, enquanto estes procuravam uma pensão ou um hotel onde se pudessem instalar até conseguirem arranjar bilhetes num barco ou num avião para Nova Iorque:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Como é que se chama aquele senhor que, em Bordéus, nos passou os vistos para podermos chegar a este país? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O pai, não contendo uma lágrima comovida, respondeu-lhe: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Chama-se herói, filho. Quem faz o que ele fez por nós só pode ter esse nome. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ainda não houve um grande realizador de cinema que fizesse um filme sobre esta história verdadeira, à semelhança do que Steven Spielberg fez com Oskar Schindler, mas pode ser que ainda venha a ser feito. Nunca é tarde para celebrar os feitos dos heróis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Naquelas noites quentes de Junho de 1940, havia em Bordéus um português que não conseguia dormir. Não lhe saía da memória a aflição das crianças que queriam ver abrir-se a porta que as deixasse seguir o caminho até à liberdade. Essa porta abriu-se e por ela passou uma réstia de luz, desenhando no cetim negro do céu, entre as estrelas, a linda palavra «Esperança», escrita em português como esta história verdadeira que é sempre bom contar e recontar. Porquê? Porque é sempre possível que a tragédia volte a acontecer, onde e quando menos se espera. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;José Jorge Letria&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;AAVV &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Contos de um Mundo com Esperança &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Lisboa, Texto Editora, 2003 &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Excertos adaptados&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-3686830674786386803?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/3686830674786386803/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=3686830674786386803' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/3686830674786386803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/3686830674786386803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/aristides-sousa-mendes-uma-histria-para.html' title='Aristides Sousa Mendes'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-4323042662377904532</id><published>2007-06-16T08:05:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.678-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Célia e a água doce da infância - Katherine Paterson</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Há muito, muito tempo, viviam, numa pequena casa no campo, uma mulher chamada Mara, a sua filha Célia, e um cão grande, peludo e extremamente mal-humorado, chamado Brumble. Tal como a maioria dos cães que vivem com famílias, Brumble falava sem cessar. Às vezes, Mara e Célia prestavam atenção; outras vezes, não.&lt;br /&gt;Ao contrário de Brumble, que era um lamuriento nato, Célia estava quase sempre feliz. Daí que ficasse surpreendida quando, às vezes, via lágrimas nos olhos belos de sua mãe.&lt;br /&gt;Mara lembrava-se da guerra, que lhe roubara tanto a casa da sua infância como o marido. Nunca falava à filha desses tempos, nem de como tinha fugido com ela e com o cão para escapar ao conflito. Na cabana isolada que encontrara, há já dez anos, tinha-se sempre sentido segura e confortável. Quando Célia a via chorar, Mara apressava-se a limpar as lágrimas e tocava uma melodia alegre na sua flauta de madeira, até se sentirem ambas felizes de novo.&lt;br /&gt;Só que Célia não era nem uma criança mimada, nem uma filha inconsciente. Amava muito a mãe e, quando um dia esta ficou doente, tratou de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para a ajudar a recuperar. Fez chá de casca de árvore, esfregou os pés frios da mãe e tocou-lhe melodias na flauta de madeira. Em vão. Mara virava-se e revirava-se na cama com febre, e parecia já nem reconhecer a filha. Célia estava a ficar desesperada.&lt;br /&gt;— Que hei-de fazer?&lt;br /&gt;— Eu digo-te o que deves fazer — resmungou Brumble. — Sossega e deixa este cão honesto descansar.&lt;br /&gt;A menina não lhe prestou atenção. Estava habituada ao seu  mau    génio e aos seus ainda piores modos. Além disso, estava demasiado preocupada com a mãe para se maçar com os resmungos de Brumble.&lt;br /&gt;Foi então que ouviu a mãe. Parecia uma pessoa a falar durante o sono e dizia qualquer coisa como: — Se pudesse voltar a beber a água doce da minha infância, ficaria de novo boa.&lt;br /&gt;Célia sabia que a mãe tinha nascido a muitos quilómetros dali, numa aldeia que a filha nunca conhecera. No entanto, corajosa como era, estava disposta a encontrar esse lugar. Tinha de trazer à mãe a água milagrosa do poço.&lt;br /&gt;Encontrou uma garrafa de vidro com uma rolha de cortiça e atou-a à cinta. Arranjou um pequeno cesto com pão e queijo, porque sabia que a viagem seria longa. Enrolou-se na capa de lã da mãe, por causa do ar fresco da Primavera, e pôs a flauta à cinta, caso viesse a necessitar de música para a alegrar na viagem.&lt;br /&gt;Debruçou-se sobre a mãe e sussurrou-lhe:&lt;br /&gt;— Vou buscar a água doce da tua infância. Tens algo para comer e beber na mesinha de cabeceira. Voltarei em breve.&lt;br /&gt;Brumble abriu um olho.&lt;br /&gt;— O que estás a dizer? Uma criança da tua idade não pode andar por aí sozinha, sem saber por onde ir.&lt;br /&gt;— Não há outra hipótese — retorquiu Célia. — Se eu não for, a minha mãe morre.&lt;br /&gt;Brumble pôs-se de pé, a resmungar:&lt;br /&gt;— Bem, acho que tenho de ir contigo.&lt;br /&gt;Célia ficou contente por ter companhia para a viagem, mesmo tratando-se de alguém tão rabugento como Brumble.&lt;br /&gt;Puseram-se a caminho a meio da manhã. O sol já ia alto, e o cheiro das folhas novas e das flores silvestres enchia o ar de Abril.&lt;br /&gt;— Que dia maravilhoso! – exclamou Célia.&lt;br /&gt;— Espera para ver – aconselhou Brumble.&lt;br /&gt;Tinha razão, porque em breve chegavam à orla de uma floresta. As árvores eram tão cerradas que, mesmo ao meio-dia, o sol mal penetrava entre os ramos entrelaçados. Célia caminhou em frente, não fosse Brumble pensar que estava com medo.&lt;br /&gt;De repente, ouviu um grito tão agudo que parecia cortar as folhas das árvores.&lt;br /&gt;— O que foi aquilo? – perguntou, assustada, já esquecida de que queria parecer corajosa.&lt;br /&gt;O canzarrão afilou as orelhas.&lt;br /&gt;— Ou me engano muito, ou é a criança selvagem da floresta.&lt;br /&gt;“Se for apenas uma criança”, pensou Célia, “não me importa que seja selvagem. De certeza que não há nada a temer.”&lt;br /&gt;Surgiu, então, uma criatura, que veio das árvores mesmo de encontro a ela. Tinha o cabelo todo espetado e lançava gritos estridentes.&lt;br /&gt;Célia engoliu em seco.&lt;br /&gt;— Rapazinho – conseguiu dizer, num tom gentil – não sabes que é mal-educado não cumprimentar as visitas? O Brumble e eu gostávamos de ser teus amigos. Se parares de gritar e nos contares o teu problema, podemos tentar ajudar-te.&lt;br /&gt;Mas o rapaz rosnou-lhe e continuou a coçar a cabeça com as unhas compridas e sujas.&lt;br /&gt;— Vá lá – disse Célia, tentando empregar o mesmo tom da mãe. — Do que precisas é de um bom almoço. Acontece que o trouxe comigo, e que o partilharei contigo se te portares bem.&lt;br /&gt;A criança selvagem ficou atónita. Nunca ninguém lhe tinha falado de forma tão doce. As outras pessoas que encontrava na floresta lançavam-lhe um olhar rápido e saíam dali ainda mais rapidamente. O rapaz sentou-se no chão e apontou o lugar à sua beira com a mão suja.&lt;br /&gt;— Lá se vai o nosso almoço – resmungou Brumble.&lt;br /&gt;E foi-se mesmo. Célia deu quase todo o pão e queijo ao rapaz, que os comeu avidamente e sem maneiras.&lt;br /&gt;— Se voltarem a passar por aqui – disse a criança a Célia – não se esqueçam de parar para me cumprimentarem.&lt;br /&gt;Célia prometeu que o fariam.&lt;br /&gt;— Porque haveríamos de o fazer? – interrogou-se Brumble. — Já não há mais nada para comer.&lt;br /&gt;Quando chegaram ao outro lado da floresta, sentiam um pouco de fome. Mas Célia estava contente. Isto até ver um lago enorme e verde diante de si.&lt;br /&gt;— Ora bolas, esqueci-me da água – resmungou Brumble.&lt;br /&gt;— Escuta – instou Célia, que tinha ouvido um som estranho. Alguém estava a chorar sem cessar, com se tivesse o coração despedaçado.&lt;br /&gt;— Também me esqueci da mulher infeliz do lago – suspirou Brumble. — Devo estar a ficar velho.&lt;br /&gt;Logo que Brumble se calou, Célia viu um barco no lago. Dentro dele, estava uma mulher a chorar tanto que nem se detinha para enxugar as lágrimas.&lt;br /&gt;Célia era uma menina bondosa e condoeu-se da velha. Também era suficientemente esperta para perceber que o barco lhes seria útil.&lt;br /&gt;— Minha senhora, o que a faz sentir tão infeliz? – perguntou Célia.&lt;br /&gt;Os olhos da mulher abriram-se, surpresos. Ninguém lhe tinha perguntado isso antes. Habitualmente, as pessoas ficavam muito embaraçadas e iam-se embora.&lt;br /&gt;— Tenho frio e estou só – lamentou-se. — Não tenho um único amigo no mundo.&lt;br /&gt;— Tenho mesmo aquilo de que necessita. Uma capa quente e confortável e dois companheiros de viagem que atravessarão o lago consigo e lhe contarão histórias – disse Célia, olhando Brumble de soslaio.&lt;br /&gt;Brumble suspirou, desagradado, mas ficou contente por não ter de molhar as patas.&lt;br /&gt;A mulher já não se sentia infeliz quando os deixou do outro lado do lago. Estava embrulhada na capa quente de Mara e sorria. — Obrigada – disse. — Quando regressarem, não se esqueçam de me chamar para voltarmos atravessar o lago juntos.&lt;br /&gt;— Fá-lo-emos com prazer – disse Célia. Brumble não resmungou, ao contrário do que costumava fazer.&lt;br /&gt;Na praia coberta de seixos onde aportaram, depararam-se com uma montanha enorme. O coração de Célia apertou-se perante este obstáculo.&lt;br /&gt;— Com os diabos – resmungou Brumble. — Tinha-me esquecido da montanha.&lt;br /&gt;— Quem se atreve a pisar a minha praia? – gritou uma voz furiosa.&lt;br /&gt;Célia ergueu os olhos e viu o mais alto e mais irado homem de toda a sua vida. Brandia um machado enorme, como se tivesse a intenção de o atirar à cabeça da menina.&lt;br /&gt;— Meu Deus, como está zangado! – exclamou Célia, com a voz a tremer ligeiramente.&lt;br /&gt;— Também me tinha esquecido do louco da montanha – murmurou Brumble entredentes.&lt;br /&gt;— Sabe o que me acalma quando estou zangada? – perguntou Célia, sentindo-se mais corajosa a cada palavra que proferia. — Música. Quer que toque para si?&lt;br /&gt;Sem esperar pela resposta, tirou a flauta da cintura e começou a tocar.&lt;br /&gt;Junto à água, a música ainda soa melhor do que num quarto fechado. O homem pôs-se a escutar. Em breve pousava o machado e sentava-se nos rochedos, sem qualquer vestígio de fúria no rosto.&lt;br /&gt;Quando Célia parou de tocar, o gigante ficou tão triste que Célia lhe deu a flauta para a mão. — É para si. Para que possa tocar quando quiser.&lt;br /&gt;— Podes ficar comigo e ensinar-me a tocar? – pediu o homem.&lt;br /&gt;— Posso ficar um pouco. Mas estou com muita pressa. Tenho de ir à aldeia que fica por detrás desta montanha buscar água do poço para salvar a minha mãe.&lt;br /&gt;— Eu levo-te e podes ir-me ensinando enquanto caminhamos.&lt;br /&gt;Embora Brumble tivesse dificuldade em subir, o homem não fez qualquer menção de o carregar.&lt;br /&gt;— Que vida de cão! – resmungou Brumble.&lt;br /&gt;Ao subir a montanha, Célia tocou uma melodia tão alegre que o homem riu alto. Quando atingiram o cume, a menina mostrou-lhe como se colocavam os dedos e se soprava para extrair sons da flauta. Quando desceram a montanha, Célia agarrou-se aos cabelos do homem para ele poder praticar.&lt;br /&gt;Depois de a colocar no chão com suavidade, o gigante tocou uma pequena melodia para demonstrar quão bom aluno era.&lt;br /&gt;— Chama-me quando regressares, e atravesso a montanha contigo de novo.&lt;br /&gt;Célia prometeu fazê-lo, embora Brumble rosnasse disfarçadamente.&lt;br /&gt;Quando se deu conta de que a aldeia estava perto, Célia esqueceu a fome e o cansaço e correu.&lt;br /&gt;— Lá está o poço, Brumble. O poço com a água doce da infância da minha mãe.&lt;br /&gt;O seu grito ecoou na rua deserta. A erva crescera entre as pedras e, pelos telhados e paredes das casas, via-se que a aldeia estava há muito em ruínas.&lt;br /&gt;— Não faz mal – disse Célia. — Só viemos buscar a água. Deve haver água no fundo do poço.&lt;br /&gt;Debruçou-se sobre a borda, mas não conseguia ver nada.&lt;br /&gt;Brumble pegou num seixo com a boca e deixou-o cair. Imediatamente se ouviu o ruído da água a ser tocada.&lt;br /&gt;— Hurra! Temos água! – exclamou Célia.&lt;br /&gt;— Que frustração – queixou-se o cão. — Temos água mas não temos balde para a tirar.&lt;br /&gt;Sem dizer palavra, a menina subiu para a borda do poço, enrolou o que restava da corda à cinta e pediu ao cão que a baixasse devagar.&lt;br /&gt;— Quando te chamar, segura bem a manivela, de forma a eu poder encher a garrafa. Depois, iças-me novamente.&lt;br /&gt;Brumble não parecia satisfeito com o plano. E se a manivela se soltasse? Mas, embora se sentisse receosa, Célia estava disposta a ir até ao fim. Nada a deteria agora.&lt;br /&gt;Desceu o poço de cabeça para baixo. Não conseguia ver a água, mas via o rosto da mãe e isso deu-lhe coragem. Sentiu, finalmente, a água fresca na sua mão.&lt;br /&gt;— Pára! – ordenou a Brumble, que segurava com firmeza a manivela, enquanto Célia enchia a garrafa. — Já podes içar-me! – pediu a menina.&lt;br /&gt;Brumble assim fez e só respirou quando viu Célia sã e salva fora do poço.&lt;br /&gt;— Não foi difícil, pois não? – perguntou a menina.&lt;br /&gt;— Estou a ficar velho para aventuras – lamentou-se o cão, e lambeu a cara suja da menina com a sua língua vermelha e áspera.&lt;br /&gt;A viagem de regresso a casa foi bem mais rápida do que a ida. O gigante, que já não estava irado, levou Célia aos ombros e tocou-lhe uma linda melodia, enquanto esperavam que o ofegante Brumble os apanhasse. A mulher, que já não se sentia infeliz, levou-os novamente à outra margem do lago e desejou-lhes boa sorte. A criança, que já não era tão selvagem, ia  de  árvore  em  árvore  a  cumprimentá-los, o que  fazia Célia rir, os pássaros grasnar e Brumble resmungar.&lt;br /&gt;Quando avistaram a sua querida casa, Célia desatou a correr.&lt;br /&gt;— Chegámos – gritou, tirando a garrafa preciosa da cintura. — Coragem, mãe! Estou de volta e trago-te a água doce da tua infância!&lt;br /&gt;— Cuidado e atenção – murmurou Brumble. — Uma viagem só está completa quando chega ao fim.&lt;br /&gt;O cão tinha razão, porque Célia, com a pressa, tropeçou nas escadas, a garrafa voou-lhe da mão, indo partir-se contra a parede da cabana.&lt;br /&gt;A água preciosa escorreu para o chão.&lt;br /&gt;Célia nem conseguia olhar. Correu para dentro de casa e abraçou-se à mãe, cujo corpo estava hirto como a morte.&lt;br /&gt;— Oh, mãe, como pude ser tão descuidada e estúpida? Não fui capaz de te ajudar.&lt;br /&gt;Célia sentia-se tão selvagem como a criança, tão zangada como o homem, e muito mais infeliz do que a mulher. Chorou como se o seu coração se tivesse partido em mil bocados, e as suas lágrimas cairam sobre o rosto da mãe como se de uma nascente se tratasse.&lt;br /&gt;Foi então que os lábios da mãe se entreabriram e que esta provou um pouco das lágrimas que escorriam da face da filha. Sorriu, lentamente.&lt;br /&gt;— Que água tão doce – murmurou, abrindo os olhos. — É tal e qual a água de que me lembro da minha infância. E foste tu, minha querida Célia, que a trouxeste até mim.&lt;br /&gt;Durante todos os anos das suas ainda longas vidas, Mara e Célia conheceram uma alegria que muitos não chegam a conhecer. Uma alegria que nenhuma delas conhecera até então, e que consiste em dar-se conta de que só quando partilhamos as lágrimas de alguém é que partilhamos também a sua felicidade.&lt;br /&gt;Quanto a Brumble, foi ficando cada vez mais velho, nunca se sentindo tão feliz como quando se podia queixar de alguma coisa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;Katherine Paterson&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Celia and the Sweet, Sweet Water&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;New York, Clarion Books, 1998&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Texto traduzido e adaptado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-4323042662377904532?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/4323042662377904532/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=4323042662377904532' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/4323042662377904532'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/4323042662377904532'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/h-muito-muito-tempo-viviam-numa-pequena.html' title='Célia e a água doce da infância - Katherine Paterson'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-669234851554064292</id><published>2007-06-16T07:55:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.678-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Passa-boné e belos bolinhos - Bénédicte Laferté</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Todos os dias, às quatro horas, abre-se a porta da casa branca: é a hora do passeio do Leonel e da sua irmã Maria. Fecham a porta, atravessam o jardim e vão-se embora. O Leonel põe um boné que enterra até às orelhas e a Maria leva no braço um grande cesto. Caminham devagar, não estão com pressa. Quando passam por um vizinho, a Maria sorri e o Leonel tira o boné.&lt;br /&gt;Às quatro e meia chegam diante da escola; toca a campainha, é a hora da saída. Quando vêem o Leonel, os rapazes largam as pastas e correm para ele.&lt;br /&gt;— Passa, Leonel, passa! — gritam eles, empurrando-se uns aos outros.&lt;br /&gt;Com um movimento da cabeça, o Leonel faz saltar o boné e atira-o aos garotos.&lt;br /&gt;— Aqui, dá-me a mim o boné — grita o Joaquim.&lt;br /&gt;Zum, o boné rodopia no ar. Cai no chão e quatro mãos se lançam para o apanhar.&lt;br /&gt;— Apanhei-o — grita o Joaquim; e corre até ao caixote do lixo, deita-o lá para dentro e berra: – Golo!&lt;br /&gt;Então o Leonel vai buscar o boné, sacode-o no joelho e finge que volta a pô-lo.&lt;br /&gt;— Toma — grita ele de repente a um rapazinho — apanha.&lt;br /&gt;E o boné lá volta a rodopiar no ar.&lt;br /&gt;Os rapazes gostam muito do Leonel; inventou um jogo muito giro: o passa-boné!&lt;br /&gt;Entretanto, a Maria sentou-se num banco e meteu a mão no cesto.&lt;br /&gt;— O que é isto? — pergunta ela tirando um engraçado bolinho redondo.&lt;br /&gt;— É uma argola de guardanapo — sugere a Gabriela.&lt;br /&gt;— É um O — diz a Manuela.&lt;br /&gt;Outra menina avança e grita:&lt;br /&gt;— Não, isso conheço eu bem. É um zero, e eu cá como os zeros!&lt;br /&gt;Agarra no bolinho e come-o de uma só vez. Do cesto a Maria tira ainda borboletas folhadas, broinhas em forma de lápis e ratinhos de chocolate. Os gulosos gostam muito dela; com a Maria o lanche é um encanto!&lt;br /&gt;Ao voltarem para casa, o Leonel e a Maria vão às compras. Lá no bairro todos dizem:&lt;br /&gt;— Como eles são amáveis e simpáticos!&lt;br /&gt;Mas, quando chegam a casa, o Leonel e a Maria já não sorriem nem são nada delicados. O Leonel diz à Maria:&lt;br /&gt;— Quando deixas de empanturrar os miúdos com os teus horríveis bolos cheios de açúcar? Vão ficar gordalhufos que nem conseguem correr!&lt;br /&gt;E a Maria responde:&lt;br /&gt;— Quando é que deixas de fazer de palhaço com o boné? Por tua causa a saída da escola parece um campo de batalha!&lt;br /&gt;Ao jantar a discussão continua:&lt;br /&gt;— Maria, este guisado não presta, parece comida do gato!&lt;br /&gt;Furiosa, a Maria diz para o Leonel:&lt;br /&gt;— Vou cortar o teu boné às rodelas para cozer com as batatas!&lt;br /&gt;— Velha dos tachos! — grita o Leonel.&lt;br /&gt;— Palhaço velho! — grita a Maria.&lt;br /&gt;À noite, sobem a escada lentamente; estão muito cansados de terem passado o dia a discutir! O Leonel fecha a porta do quarto dele.&lt;br /&gt;A Maria fecha a porta do quarto dela. Não se ouve mais nada.&lt;br /&gt;Então, com muito cuidado, o Leonel abre as gavetas. Tira de lá belas taças de prata, jornais velhos e fotografias; são fotografias de uma equipa de futebol. O que está de cócoras com a bola é o Leonel. Então, o Leonel recorda os gritos e os “vivas” dos espectadores quando marcava um golo.&lt;br /&gt;No seu quarto, a Maria também abre as gavetas. Tira grandes livros de cozinha e fotografias onde ela está diante de um grande fogão. Então a Maria recorda as pirâmides de bolos de creme e os noivos de açúcar que sabia fazer tão bem. Recorda também todas as pessoas que vinham felicitá-la. À noite, o Leonel sonha com a bola; a Maria só vê bolos.&lt;br /&gt;O Leonel e a Maria vivem tristes no meio das suas recordações. Só gostam do passeio; o Leonel imagina que os rapazes são jogadores de futebol e a Maria olha os gulosos a devorarem os seus engraçados bolinhos.&lt;br /&gt;Um dia, o Leonel e a Maria não estão na saída da escola.&lt;br /&gt;— Se calhar estão doentes — diz o Joaquim.&lt;br /&gt;E, com os outros meninos e meninas, vai bater à porta da casa branca.&lt;br /&gt;O Leonel e a Maria estão lá dentro; afinal não estão doentes! Só que discutiram tanto que se esqueceram do passeio!&lt;br /&gt;Ao vê-los, os meninos e meninas não dizem nada, ficam a olhar espantados.&lt;br /&gt;Então a Maria vira-se para o Leonel: ele também faz uma cara esquisita.&lt;br /&gt;“Que palermice”, pensa a Maria, “hoje não houve jogo de passa-boné”.&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, o Leonel pensa:&lt;br /&gt;“Que pena, não houve bolinhos para ninguém!”&lt;br /&gt;Então, o Leonel corre para as crianças e agarra-lhes nas pastas.&lt;br /&gt;— Vão depressa ter com a Maria, ela vai fazer-lhes biscoitos e caramelos.&lt;br /&gt;— Vão antes para o jardim — diz a Maria.&lt;br /&gt;— De certeza que não conhecem o passe de cabeça do Leonel!&lt;br /&gt;Diante da porta, as crianças não se mexem; hesitam. Os jogadores de passa-boné pensam: “O passa-boné é óptimo, mas os biscoitos e os caramelos também não são nada maus!” E os gulosos pensam: “O lanche é bom, mas o passe de cabeça do Leonel deve ser formidável!”&lt;br /&gt;A Gabriela pergunta timidamente:&lt;br /&gt;— Não podemos fazer as duas coisas?&lt;br /&gt;— Que bela ideia — exclama o Leonel. — Vá, todos lá para fora. Primeiro jogamos e depois lanchamos.&lt;br /&gt;Depois pergunta baixinho à Maria:&lt;br /&gt;— Vens connosco?&lt;br /&gt;— Claro — responde a Maria. — Mas não me obriguem a correr como um coelho!&lt;br /&gt;E todos os meninos e meninas jogaram ao passa-boné e comeram bolinhos engraçados. Depois foram-se embora.&lt;br /&gt;O Leonel e a Maria fecharam a porta; estavam um bocadinho cansados de todo aquele barulho.&lt;br /&gt;— Como a casa está calma – diz o Leonel.&lt;br /&gt;— E como se está bem aqui — diz a Maria.&lt;br /&gt;Nessa noite o Leonel e a Maria conversaram muito tempo. Quando o Leonel lhe contou os jogos de antigamente, a Maria disse-lhe com delicadeza:&lt;br /&gt;— Estás a exagerar um bocadinho Leonel. Naquele dia não marcaste os dez golos sozinho!&lt;br /&gt;Quando a Maria contou como fazia as pirâmides de bolos de creme, o Leonel disse-lhe:&lt;br /&gt;— Achas mesmo que precisavas de um banco para pôr o último bolo lá no cimo?&lt;br /&gt;O Leonel e a Maria olharam um para o outro e riram-se das suas recordações.&lt;br /&gt;Nessa noite aconteceu-lhes uma coisa estranha: a Maria sonhou que fazia bolos mas que no cimo da pirâmide dos bolos de creme punha uma bola muito redondinha!&lt;br /&gt;E o Leonel sonhou que jogava futebol; mas, quando correu para marcar um golo, foi num bolo de creme que deu o pontapé.&lt;br /&gt;Ah! Que confusão vai nos sonhos da Maria e do Leonel!&lt;br /&gt;Desde esse dia, todos os meninos e meninas vêm jogar e lanchar depois da escola. A Maria aplaude os jogos de passa-boné e o Leonel felicita a Maria pelos seus bolos tão bons. Quando chega a noite, o Leonel instala-se na poltrona e a Maria puxa a cadeira para perto do candeeiro. Estão os dois contentes; agora as recordações já não dormem dentro das gavetas; passeiam pela casa e misturam-se com os gritos das crianças.&lt;br /&gt;Quando está a ficar tarde, o Leonel levanta-se e diz:&lt;br /&gt;— Vamos, Maria, agora temos de ir dormir.&lt;br /&gt;E sobem lentamente a escada e vão para a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#660000;"&gt;Bénédicte Laferté&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Passa-boné e belos bolinhos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Editorial Caminho, 1991&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-669234851554064292?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/669234851554064292/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=669234851554064292' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/669234851554064292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/669234851554064292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/passa-bon-e-belos-bolinhos-bndicte.html' title='Passa-boné e belos bolinhos - Bénédicte Laferté'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-8806935321914105478</id><published>2007-06-16T07:41:00.000-07:00</published><updated>2007-07-28T23:52:47.620-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><title type='text'>O desejo do pastor - Max Bolliger</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:150;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;Era uma vez um pastor que, para além de algumas ovelhas, nada mais possuía, a não ser uma flauta que ele mesmo fizera com um ramo de sabugueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não passava um dia que ele não a tocasse, às vezes alto, outras vezes baixinho, às vezes alegre, outras, triste, conforme se sentia no momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao tocar, sentia o desejo da perfeita beleza. E a esperança de vir a encontrá-la inspirava-lhe novas melodias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, quando voltara a tocar na sua flauta, descobriu um pássaro. Estava pousado no sabugueiro, a escutá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As suas penas brilhavam com todas as cores do arco-íris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oh!”, pensou o pastor fascinado. “Aqui está finalmente a beleza que eu procuro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproximou-se devagarinho do sabugueiro para apanhar o pássaro. Mas quando ia agarrá-lo com as mãos, o pássaro levantou voo e foi sentar-se no ramo de um pinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desejo de o apanhar era tão grande, que o pastor seguiu-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, quando chegou junto do pinheiro, o pássaro ergueu-se nos ares e partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seu lugar, o pastor encontrou um melro ameaçado por um gato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal acabara de afugentar o gato, descobriu o pássaro parado na margem de um regato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando o pastor chegou junto do regato, o pássaro levantou voo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seu lugar, o pastor encontrou um peixe preso numa rede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal o pastor acabara de libertar o peixe, descobriu o pássaro no cume de um monte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar ao cume, o pássaro elevou-se nos ares e voou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No lugar do pássaro, o pastor encontrou uma flor murcha pelo calor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal o pastor acabara de regar a flor, descobriu o pássaro à beira-mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, quando o pastor chegou à beira-mar, o pássaro elevou-se nos ares e voou por sobre a água, em direcção ao pôr-do-sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah”, pensou o pastor, “a beleza estava a fazer troça de mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desapontado, fez-se ao caminho de regresso a casa e às suas ovelhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, quando chegou ao cimo do monte, diante dos seus olhos abria-se uma flor maravilhosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No regato, esperava-o um peixe. E, no pinheiro, um melro saudou-o com o seu canto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, o pastor pensou que, afinal, fazia sentido ansiar pela beleza, mesmo que não fosse possível agarrá-la com as mãos, e continuar, até ao fim da sua vida, tocando as suas melodias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5076674765645201794" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_qDtliBBhWpU/RnP4zU54wYI/AAAAAAAAAA0/AE9RUJdYOfA/s320/Violeta.JPG" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#663366;"&gt;Max Bolliger/Jindra Čapek&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Der Wunsch des Hirten&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Zürich, bohem press, 2001&lt;br /&gt;Texto traduzido e adptado&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-8806935321914105478?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/8806935321914105478/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=8806935321914105478' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8806935321914105478'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8806935321914105478'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/o-desejo-do-pastor-max-bolliger.html' title='O desejo do pastor - Max Bolliger'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_qDtliBBhWpU/RnP4zU54wYI/AAAAAAAAAA0/AE9RUJdYOfA/s72-c/Violeta.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-556536649700220321</id><published>2007-06-16T07:30:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.678-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>A casa que o amor construiu - William W. Price</title><content type='html'>&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5076671518649926002" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="161" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_qDtliBBhWpU/RnP12U54wXI/AAAAAAAAAAs/-eU3QwgNFrQ/s320/a+casa+que+copy.jpg" width="344" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Esta história é verdadeira. Passou-se em França depois da Primeira Guerra Mundial, durante a qual uma aldeia inteira foi destruída pelos combates. &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 210%"&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;Marie acordou sobressaltada na escuridão cerrada e sentiu o cheiro familiar da sujidade. O seu pequeno corpo estremeceu com o frio húmido. Enquanto se levantava para arranjar a cama feita de trapos e de serapilheira no chão sujo, o pesadelo que lhe tinha abalado o sono pairava sobre ela como uma nuvem negra. Era todas as noites o mesmo pesadelo.&lt;br /&gt;Começava sempre com um sonho agradável. Via a sua aldeia francesa muito amada. Depois via-se a sair com a Mãe e a Avó da casa velha e aconchegante, e a passar pela rua estreita. Debaixo de quase todas as janelas, havia floreiras garridas cujas flores se agitavam ao vento. O Sol resplandecia no campanário da igreja. Mas havia uma reverberação assustadora que vinha na direcção da aldeia: a reverberação das armas. Marie estremeceu de novo, à medida que sentia que o sonho feliz se tornava um terrível pesadelo. Vinham-lhe à cabeça recordações assustadoras. Aterrorizadas, a Mãe e a Avó tinham-na arrastado para as árvores. Aí, deitaram-se por terra. Soldados de uniforme azul passavam em colunas. Armas! Lutas! Explosões e gritos! Fogo! Quando tudo acabou, a aldeia deixara de existir.&lt;br /&gt;À medida que a guerra se afastava, Marie, a Mãe e a Avó vasculharam, em lágrimas, o cascalho em que a sua casa se transformara. A pequena família mudou-se para uma antiga cave. “Como toupeiras nos buracos do chão”, pensara Marie com tristeza.&lt;br /&gt;Enfiou-se nos trapos e voltou a cair num sono irregular. Na sua cabeça, os soldados continuavam a marchar. Depois dos soldados franceses em uniformes azuis, tinham vindo os soldados alemães em uniformes verdes. Para alívio de todos, depressa se foram embora. Depois vieram os uniformes caqui dos americanos. Os americanos riam-se e entregavam moedas francesas aos miúdos ávidos. Mas, quando partiram, a aldeia continuou em ruínas.&lt;br /&gt;Quando Marie acordou de novo, o Sol brilhava através das fendas nas tábuas velhas que serviam de tecto. Ao ouvir sons estranhos, sentou-se num ápice. Algo de diferente estava a passar-se naquela manhã. Perguntava-se que sons seriam aqueles.&lt;br /&gt;― Mãe, será que os soldados voltaram? ― perguntou ansiosamente.&lt;br /&gt;― Não, minha querida. Vai lá acima ver quem chegou.&lt;br /&gt;A Mãe parecia estranhamente contente.&lt;br /&gt;Marie atirou com os trapos e subiu os degraus periclitantes da cave. Viu de imediato que outros homens, de uniforme cinzento, tinham vindo para a aldeia.&lt;br /&gt;― Oh, Mãe! ― gritou excitada depois de os observar por algum tempo. ― Os soldados trazem serras e martelos, em vez de armas. Estão a construir casas.&lt;br /&gt;Marie pensou que eram soldados porque traziam uniformes. Mas não eram soldados. Eram trabalhadores britânicos e americanos.&lt;br /&gt;Marie pensou depressa. Desceu os velhos degraus a correr e pegou numa meia velha onde estavam seis cêntimos franceses que os soldados americanos lhe tinham dado. Era o único dinheiro que a sua família tinha. Enquanto voltava a subir as escadas, um misto de esperança e ansiedade fazia-a tremer a cada degrau. Correu para o chefe dos homens vestidos de cinzento.&lt;br /&gt;Timidamente, estendeu a meia e mostrou-lhe os seis cêntimos.&lt;br /&gt;― O senhor pode construir-me uma casa por seis cêntimos? O homem pareceu surpreendido e pediu-lhe para repetir a pergunta. Quando finalmente compreendeu, não se riu nem sorriu, mas respondeu muito seriamente:&lt;br /&gt;― Bem, Menina, veremos o que se pode fazer. Não disse “Sim”, mas também não disse “Não”. Marie montou guarda todos os dias para ver o que aconteceria.&lt;br /&gt;Uma por uma, foram-se construindo casas pequenas para outras pessoas. As casas eram pequenas e simples mas, para Marie, eram bonitas. Como ansiava por um chão de madeira limpo para varrer e um belo telhado de telhas vermelhas para impedir a chuva de entrar!&lt;br /&gt;Será que se iriam embora sem construir uma casa para a família dela? Enquanto esperava e observava, a cave parecia-lhe mais escura e húmida do que nunca.&lt;br /&gt;Quando estava quase a desistir de esperar, Marie obteve a sua resposta. A resposta era “Sim”. A casa de Marie, tal como as outras, foi construída em apenas três dias. Para Marie era a casa mais bela do mundo.&lt;br /&gt;No dia em que acabaram de a construir, o chefe dos homens de cinzento entregou, com muita cerimónia, a chave da porta de entrada a Marie, dizendo: ― Menina, a sua chave.&lt;br /&gt;Marie pegou nela e abriu oficialmente a porta, enquanto a Mãe, a Avó e toda a aldeia a observavam.&lt;br /&gt;Parou de repente, como se se recordasse de algo. Prometera-lhes os seis cêntimos pela casa, por isso esta ainda não era propriedade sua.&lt;br /&gt;Voltou rapidamente a descer os velhos degraus da cave e, quando voltou, dirigiu-se ao chefe dos homens de cinzento. Agora que estava acabada, a casa parecia grande e os seis cêntimos pareciam pouco. Mas era tudo o que ela tinha, e foi-os contando à medida que os colocava na mão do chefe.&lt;br /&gt;Será que chegava? Quase nem se atrevia a olhar para o homem.&lt;br /&gt;Ele sorriu-lhe e disse solenemente (em Francês, claro):&lt;br /&gt;― Obrigado, Menina, mas quatro cêntimos são suficientes. E devolveu-lhe dois cêntimos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;William W. Price (Texto adaptado)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lightning candles in the dark&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Philadelphia, FGC, 2001&lt;br /&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-556536649700220321?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/556536649700220321/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=556536649700220321' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/556536649700220321'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/556536649700220321'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/casa-que-o-amor-construiu.html' title='A casa que o amor construiu - William W. Price'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_qDtliBBhWpU/RnP12U54wXI/AAAAAAAAAAs/-eU3QwgNFrQ/s72-c/a+casa+que+copy.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-7935378806061220472</id><published>2007-06-16T07:12:00.000-07:00</published><updated>2007-07-29T07:05:46.402-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>A porta verde - Ron Holt</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 190%"&gt;&lt;strong&gt;A Chave &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:130;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;A D. Sónia Black é uma senhora muito velhinha. Tem oitenta anos e gosta muito de histórias. Os seus netos, Susan e Tom, adoram as histórias da avó. Vêm sempre vê-la depois da escola.&lt;br /&gt;― Conte-nos uma história, avozinha ― dizem.&lt;br /&gt;Sentados no chão, bebem um pouco de limonada e comem bolo enquanto a avó, sentada no cadeirão, conta a sua história.&lt;br /&gt;“Quando eu era menina, vivia numa casa grande. Tinha um jardim enorme onde havia árvores e flores. Ao fundo do jardim, havia uma porta verde.&lt;br /&gt;Como eu era muito pequena, não chegava à maçaneta. Mas, mesmo quando cresci, não conseguia abri-la porque não tinha a chave.&lt;br /&gt;Um dia, quando estava na cozinha, reparei num grande armário que tinha muitas gavetas. Pus-me em cima de uma cadeira e abri-as, uma por uma.&lt;br /&gt;Havia uma grande chave numa das gavetas. Era uma chave muito antiga. Que porta abriria?&lt;br /&gt;Fui ao jardim. Estava um dia radioso, cheio de sol. Caminhei até à porta verde. Meti a chave antiga na fechadura e rodei-a. A porta abriu-se.&lt;br /&gt;O que estaria por detrás?&lt;br /&gt;Entrei. Estava num grande jardim mas havia muitas nuvens e vento, e senti frio. No meu jardim estava sol e calor. Mas aqui estava escuro e frio.&lt;br /&gt;Foi então que vi o castelo. Tinha torres altas. Havia algumas árvores. Era Verão mas as árvores não tinham muitas folhas. Não havia pássaros nas árvores. Neste jardim, era Inverno.&lt;br /&gt;Apareceu uma mulher pequena e velha que vestia de preto e tinha um chapéu alto e também preto.&lt;br /&gt;― O que estás aqui a fazer? ― perguntou. ― Este é o meu jardim. Não podes ficar aqui.&lt;br /&gt;― Peço desculpa ― disse eu. ― Há uma porta ao fundo do jardim. É uma grande porta verde. Foi por lá que entrei.&lt;br /&gt;― Não se abre a porta verde ― disse a velha senhora. ― Vai-te embora!&lt;br /&gt;A porta do castelo rangeu e saiu de lá uma menina.&lt;br /&gt;― Avó, quem está aí? Quem é essa rapariga?&lt;br /&gt;― Entrou pela porta verde ― disse a velha senhora. ― Não pode ficar cá.&lt;br /&gt;A pequena, triste, olhou para mim.&lt;br /&gt;― Ela podia brincar comigo. Deixa-a ficar, avó, deixas? ― pediu.&lt;br /&gt;A velha senhora ficou zangada.&lt;br /&gt;― Está bem ― disse. E entrou no castelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Às escondidas &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;― Eu sou a Sónia ― disse eu. ― Como te chamas?&lt;br /&gt;― Leila ― disse a menina triste.&lt;br /&gt;― Quantos anos tens? ― perguntei-lhe.&lt;br /&gt;― Não sei ― disse Leila.&lt;br /&gt;― Quando fazes anos?&lt;br /&gt;― Não sei.&lt;br /&gt;― Pergunta à tua avó.&lt;br /&gt;― Ela não sabe.&lt;br /&gt;― Pergunta à tua mãe e ao teu pai.&lt;br /&gt;― Não tenho mãe nem pai ― disse Leila com tristeza.&lt;br /&gt;O céu estava nublado e escuro. Estava frio e não havia folhas nas árvores. O castelo tinha um aspecto muito triste.&lt;br /&gt;― A que é que vamos jogar? ― perguntou Leila.&lt;br /&gt;― Às escondidas ― disse eu.&lt;br /&gt;― O que é isso? Não conheço esse jogo.&lt;br /&gt;― Tu fechas os olhos e eu escondo-me. Contas até vinte e abres os olhos. E vais à minha procura ― expliquei.&lt;br /&gt;Escondi-me atrás de uma árvore mas a Leila encontrou-me.&lt;br /&gt;― Estás atrás da árvore ― gritou.&lt;br /&gt;Leila estava contente. Quando olhei para a árvore, reparei que já tinha algumas folhas verdes.&lt;br /&gt;Jogámos às escondidas. Depois veio a velha senhora. Estava zangada.&lt;br /&gt;― Vocês estão a fazer muito barulho ― disse. ― Não gosto de barulho. Estejam caladas.&lt;br /&gt;― Desculpe, avó ― disse Leila.&lt;br /&gt;A velha senhora olhou para mim.&lt;br /&gt;― Como te chamas? ― perguntou.&lt;br /&gt;― Sónia.&lt;br /&gt;― Vai-te embora, Sónia ― disse.&lt;br /&gt;― A Sónia pode vir amanhã? ― perguntou Leila.&lt;br /&gt;― Pode. Pode vir amanhã. Mas não façam demasiado barulho.&lt;br /&gt;Saí pela porta verde e fechei-a. No meu jardim estava sol e calor. Havia muitas flores e as árvores estavam em flor. Subi à árvore mais alta do meu jardim e consegui ver por cima do muro. Observei o castelo, que estava escuro, e o jardim silencioso. Voltei para casa e pus a chave na gaveta.&lt;br /&gt;No dia seguinte, estava sol. Peguei na chave e abri novamente a porta verde. Leila já se encontrava no jardim do castelo. Mas, embora o jardim estivesse frio e escuro, Leila não estava triste. Sentia-se contente. Tinha um vestido novo, vermelho e branco.&lt;br /&gt;― Leila ― disse eu ― no meu jardim há sol e está quente. Por que é que aqui o tempo está nublado e frio?&lt;br /&gt;― Não sei ― disse Leila.&lt;br /&gt;― Anda. Vamos brincar às escondidas.&lt;br /&gt;Brincámos às escondidas. Depois, Leila sugeriu: ― Vamos até ao castelo.&lt;br /&gt;― O que é que a tua avó vai dizer?&lt;br /&gt;― Não vai dizer nada.&lt;br /&gt;― Porquê?&lt;br /&gt;― Porque está a dormir no quarto. O quarto dela é no cimo da torre mais alta.&lt;br /&gt;Fomos até ao castelo e entrámos numa grande sala. Também lá estava frio e escuro.&lt;br /&gt;― Anda comigo até à cozinha ― disse Leila. ― Há lá uma lareira.&lt;br /&gt;A cozinha estava escura mas havia uma lareira pequena. Um homem pequeno, velhinho, estava sentado à lareira.&lt;br /&gt;― Este é o Ben ― disse Leila. ― É o nosso cozinheiro.&lt;br /&gt;― Sou o cozinheiro, mas não gosto de cozinhar ― disse Ben.&lt;br /&gt;― Queres almoçar? ― perguntou Leila.&lt;br /&gt;― Sim, por favor ― respondi.&lt;br /&gt;― O que há para o almoço, Ben?&lt;br /&gt;― Batatas.&lt;br /&gt;― Com…?&lt;br /&gt;― Batatas com batatas ― disse Ben.&lt;br /&gt;― Não gosto de batatas ― disse Leila. ― Posso comer uma omeleta?&lt;br /&gt;― &lt;em&gt;Omeleta, pateta&lt;/em&gt; ― disse Ben. ― Fá-la tu.&lt;br /&gt;― Não sei cozinhar ― disse Leila.&lt;br /&gt;― Eu sei cozinhar ― disse eu. ― Vou fazer uma omeleta.&lt;br /&gt;― Como é que se faz uma omeleta? ― perguntou Leila.&lt;br /&gt;― É fácil. Põe-se quatro ovos numa tigela… um pouco de leite… uma pitada de sal e de pimenta… mistura-se… põe-se um pouco de óleo numa frigideira… põe-se a frigideira ao lume… põe-se tudo na frigideira. E aqui temos… uma omeleta!&lt;br /&gt;― Posso comer um bocadinho? ― perguntou Ben.&lt;br /&gt;― Claro que sim. ― disse eu. ― Vamos comer todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os brinquedos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comemos a omeleta.&lt;br /&gt;― Estava muito bom ― disse Ben, a rir. ― Amanhã também podes cozinhar, Sónia.&lt;br /&gt;O Sol brilhou através da janela. Brilhou sobre Ben.&lt;br /&gt;― O Sol não pode brilhar aqui dentro ― disse Ben. ― Vou correr as cortinas.&lt;br /&gt;― Não corras as cortinas ― pedi. ― Olha, vê-se que a cozinha não está nada limpa.&lt;br /&gt;― Vamos limpar a cozinha. O Ben é muito preguiçoso ― disse Leila.&lt;br /&gt;― Não sou preguiçoso. Não sei cozinhar, mas consigo limpar a cozinha.&lt;br /&gt;O Sol brilhou através da janela. Limpámos a cozinha, que ficou a brilhar.&lt;br /&gt;Voltámos para a sala grande.&lt;br /&gt;― Leila, sabes por que é que está escuro aqui dentro? ― perguntei.&lt;br /&gt;― Porquê?&lt;br /&gt;― Porque as cortinas estão corridas. Podemos abri-las?&lt;br /&gt;― A avó não quer abri-las. Vai ficar zangada. Vamos para a torre. Vou mostrar-te o meu quarto.&lt;br /&gt;Subimos algumas escadas e chegámos ao quarto de Leila. Era um quarto grande mas só tinha uma cama, uma mesa e um armário.&lt;br /&gt;― Onde estão os teus brinquedos? ― perguntei-lhe.&lt;br /&gt;― Não tenho nenhuns brinquedos ― disse Leila.&lt;br /&gt;― Quantos quartos há no castelo?&lt;br /&gt;― Não sei.&lt;br /&gt;― O que há dentro deles?&lt;br /&gt;― Não sei. Não vou lá.&lt;br /&gt;― Vamos ver.&lt;br /&gt;― A minha avó vai ficar zangada.&lt;br /&gt;― Ela está a dormir. Não nos vai ouvir.&lt;br /&gt;Fomos até ao primeiro compartimento. Era um quarto de dormir. Fomos ao segundo. Era uma sala de estar. Havia um piano. Fomos ao terceiro. Estava cheio de brinquedos.&lt;br /&gt;Havia um grande cavalo de baloiço.&lt;br /&gt;― Posso andar nele? ― perguntei.&lt;br /&gt;― Claro ― disse Leila. ― Mas não faças barulho.&lt;br /&gt;Sentei-me no cavalo. Havia igualmente uma casa de bonecas com a qual brincámos. Tinha algumas bonecas e livros.&lt;br /&gt;― Vamos pôr estes brinquedos no teu quarto ― disse eu.&lt;br /&gt;― Está bem.&lt;br /&gt;Levámos os brinquedos para o quarto de Leila.&lt;br /&gt;― Agora, o teu quarto está muito mais bonito.&lt;br /&gt;― Sim, mas a avó vai ficar zangada.&lt;br /&gt;Apareceu uma mulher alta e magra.&lt;br /&gt;― Olá ― disse Leila. ― Sónia, esta é a Sra. Grime. Ela é empregada de limpeza no castelo.&lt;br /&gt;― Eu não faço limpeza. São as minhas raparigas que fazem limpeza.&lt;br /&gt;― Mas não há nenhumas outras raparigas ― disse Leila.&lt;br /&gt;― Vai haver e elas limparão o castelo.&lt;br /&gt;― Nós seremos as suas raparigas ― disse eu. ― Vamos nós limpar o castelo.&lt;br /&gt;A Sra. Grime sorriu. Já tinha algumas raparigas e estava radiante.&lt;br /&gt;Limpámos o castelo. Corremos as cortinas, lavámos as janelas, limpámos os móveis e lavámos o chão. Trabalhámos toda a tarde. O castelo ficou limpo e a Sra. Grime muito contente.&lt;br /&gt;Quando me vim embora, estava escuro. Atravessei a porta verde. Fechei-a e dei a volta à chave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Castelo Encantado&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte estava soalheiro e quente. No meu jardim, as flores eram belas e as árvores tinham rebentos cor-de-rosa e brancos. Fui até à porta verde e abri-a.&lt;br /&gt;Desta vez, o jardim do castelo não estava frio nem escuro mas quente, e o Sol brilhava. Havia folhas e rebentos nas árvores e flores. Os pássaros cantavam nas árvores. O castelo resplandecia. As janelas e as torres brilhavam.&lt;br /&gt;Leila saiu do castelo.&lt;br /&gt;― Olá, Sónia ― disse. ― Olha para o jardim. Está bonito, não está? Ontem não havia flores, mas hoje há muitas. Não havia folhas nas árvores, mas hoje há muitas. Não havia pássaros, mas hoje há muitos. O jardim está bonito e o Sol brilha.&lt;br /&gt;Fomos até ao castelo. As cortinas estavam corridas para os lados, os quartos cheios de luz e de sol e as janelas e o chão limpos. Fomos até à cozinha, que estava limpa e resplandecente. O velho Ben estava lá.&lt;br /&gt;― Entrem ― disse. ― Estou a fazer um bolo. Comam um bocadinho.&lt;br /&gt;A velha senhora entrou. Tinha um vestido azul.&lt;br /&gt;― Avó! ― exclamou Leila. ― O teu vestido é muito bonito.&lt;br /&gt;― Obrigada, Leila. Estava sol quando me levantei de manhã. Olhei pela janela e vi o jardim. Então apeteceu-me pôr o meu vestido azul e andei pelo castelo. Vi os quartos limpos e radiosos. Fui também ao teu quarto e vi os brinquedos. Eram os meus brinquedos.&lt;br /&gt;― Desculpa, avó. Fomos buscá-los.&lt;br /&gt;― Não há problema nenhum. Agora são os teus brinquedos.&lt;br /&gt;― Obrigada, avó ― disse Leila.&lt;br /&gt;― Olha o bolo que o Ben fez! Vamos prová-lo ― disse a avó.&lt;br /&gt;Estava escuro quando vim embora. Parei no jardim e olhei para o castelo. Havia luzes nos quartos. A Lua reflectia-se nas torres altas. Era como um castelo encantado. Fechei a porta verde, fui para casa e pus a chave na gaveta.&lt;br /&gt;A minha mãe estava na cozinha.&lt;br /&gt;― Onde foste, Sónia? ― perguntou.&lt;br /&gt;― Olá, mãe. Estive no castelo.&lt;br /&gt;― Que castelo?&lt;br /&gt;― O castelo que fica para lá da porta verde.&lt;br /&gt;A minha mãe riu. ― Não há nenhum castelo para lá da porta verde.&lt;br /&gt;― Vem comigo. Eu mostro-to.&lt;br /&gt;Peguei na chave e fomos na direcção da porta verde. Abri-a.&lt;br /&gt;― Estás a ver? ― disse a minha mãe. ― Não há nenhum castelo, mas há muitas casinhas. Houve aqui em tempos um castelo, mas isso foi há muito tempo. Não há nenhum castelo agora.”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:comic sans ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-family:comic sans ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ron Holt&lt;br /&gt;&lt;em&gt;The Green Door&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;London, Macmillan Education, 1992&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tradução e adaptação&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-7935378806061220472?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/7935378806061220472/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=7935378806061220472' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7935378806061220472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7935378806061220472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/porta-verde.html' title='A porta verde - Ron Holt'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-1981524337499201530</id><published>2007-06-16T06:57:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:13:33.759-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><title type='text'>Partilhar - Marie de Hennezel</title><content type='html'>&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;span style="font-size:130;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Marie de Hennezel &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Diálogo com a morte&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Lisboa, Editorial Notícias, 2002 &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Excertos&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 190%;font-size:100%;color:#000066;"  &gt;Nove horas. A equipa de cuidados paliativos encontra-se na copa para beber o café matinal. Da ementa constam croissants e pãezinhos com chocolate. Foi o Dr. Clément que os trouxe. Acontece-lhe de manhã, ao sair de casa para se dirigir ao hospital, pensar nas enfermeiras. Algumas estão presentes desde as sete da manhã para acompanhar o despertar dos doentes. Ao passar pela padaria da Rua Coquillière, faz uma paragem. É certo que, quando ele chega com o seu largo sorriso e carregado daqueles pães a cheirar bem, uma lufada de calor e de bem-estar espalha-se pelo serviço.&lt;br /&gt;A equipa está então reunida para uma dessas numerosas ocasiões de convívio e troca de experiências profissionais.&lt;br /&gt;Há alguns anos que integro essa equipa. Fui a primeira, em França, a apresentar-me como voluntária para confortar e cuidar daqueles que vivem os seus últimos instantes.&lt;br /&gt;Não sabia, ao fazer essa escolha, o quanto a proximidade do sofrimento e da morte dos outros iria ensinar-me a viver e outra maneira, mais consciente e intensamente. Não sabia que um local destinado a acolher os moribundos pode ser o inverso de uma antecâmara da morte, um lugar onde a vida se manifesta com toda a sua força. Não sabia que ali ia descobrir a minha própria humanidade, que ia, de certo modo, mergulhar no coração humano.&lt;br /&gt;Atraída pelo cheiro do café a ferver e pelo ar festivo do Dr. Clément, Chantal, a enfermeira do turno da noite, decide-se a ficar mais uns momentos. Acabou o serviço, mas tem vontade de partilhar com os outros os frutos da sua noite. O serviço nocturno é uma tarefa solitária, por isso ela raramente perde a oportunidade de se juntar à equipa diurna para se sentir menos só. À sua maneira volúvel, ei-la que se põe a descrever o seu turno.&lt;br /&gt;Patrícia, a jovem que entrou na véspera, tocou várias vezes a campainha sob os mais variados pretextos.&lt;br /&gt;Chantal sentiu-a angustiada. Disse ter hesitado em ministrar-lhe um calmante, mas depois teve uma ideia luminosa. Pegando numa travessa, cobriu-a com um guardanapo branco e colocou-lhe em cima duas bonitas chávenas, um raminho de flores e uma vela acesa. Após ter enchido as chávenas com uma verbena a fumegar, entrou no quarto de Patrícia. Eram duas horas da madrugada: Descreve-nos o ar de surpresa e de satisfação da jovem, o ambiente de festa íntima que a sua ideia soubera criar.&lt;br /&gt;Criar uma ambiência calorosa e calma em volta de um doente angustiado é, sem dúvida alguma, o melhor que podemos fazer por ele. Há muito tempo que Chantal percebeu isso. Aliás, os médicos ficam sempre muito admirados por haver tão poucos calmantes ou ansiolíticos ministrados aos doentes nas noites em que ela está de serviço. É verdade, ela prefere fazer-lhes massagens, contar-lhes histórias, ou pura e simplesmente deixá-los falar, enquanto fica calmamente instalada à cabeceira. Foi o que fez esta noite, diz-nos ela, com a Patrícia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 250%"&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#000066;"&gt;** **&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 250%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#000066;"&gt;Sentada numa das poltronas confortáveis, concedo-me este momento de solidão, em que deixo o pensamento divagar; é a minha maneira de me recompor. A súplica de Patrícia, de não morrer antes de estar preparada, faz-me pensar em Xavier, um amigo que morreu de sida há poucas semanas. Um ano antes de morrer, quando se encontrava na reanimação após uma pneumocistose aguda, ele dissera-me: «Não tenho medo de morrer, mas não queria morrer sem estar pronto.» De noite, sonhara que devia partir para o «novo mundo», a América, sem dúvida, mas não queriam dar-lhe ainda o bilhete. «Lá o terá, a seu tempo», responderam-lhe. Lembro-me de me ter maravilhado com a maneira como o seu sonho o incitava a ter confiança no tempo. Partiria «a seu tempo». Ele pedira tempo para se preparar para a morte, a vida dera-lhe um ano. Eu sei, por tê-lo encontrado várias vezes nesse ano, que, para além das questões materiais a resolver, preparar para morrer significa, na realidade, cavar o mais profundamente possível o leito da sua relação com os outros, aprender a entregar-se.&lt;br /&gt;Perguntam-me com frequência que razão me levou a vir trabalhar num sítio como este, a conviver com o sofrimento e a morte. Parece-me que, desde a infância, dois impulsos me trouxeram até aqui. Um deles, mais espiritual, nasceu no meio da angústia familiar em face da morte, questão sem resposta em que medito quotidianamente e que me faz avançar. O outro é a minha curiosidade infinita em relação à alma humana, que me levou a ser psicóloga, a explorar o campo da psicanálise e, mais recentemente, o da haptonomia, ciência do contacto afectivo.&lt;br /&gt;A vida ensinou-me três coisas: a primeira é que não poderei impedir nem a minha morte nem a dos meus próximos. A segunda, é que o ser humano não se reduz àquilo que vemos, ou julgamos ver. É sempre infinitamente maior, mais profundo do que os nossos estreitos julgamentos podem exprimir. E, finalmente, ele nunca disse a última palavra, estando sempre a transformar-se, a realizar-se em potência, capaz de se modificar através das crises e das provações da sua existência.&lt;br /&gt;A proximidade da morte desperta, por vezes, os medos, as inseguranças antigas. Podemos entender que, ao perdermos as nossas defesas, os nossos meios de protecção, ficamos extremamente vulneráveis. Vemos, por vezes, surgir dores ou terrores que remontam à mais tenra infância. Não será o ser humano à procura dessa protecção, dessa segurança que lhe falta?&lt;br /&gt;No quarto 775, Christine passa por momentos semelhantes de terror, incontroláveis e de todo imprevisíveis. Esta rapariga de apenas trinta anos, que está a morrer de um cancro generalizado no útero, fica por vezes transida de pânico. Vê no seu quarto uma multidão de serpentes que lhe assaltam a cama. Nessas alturas, salta da cama em grandes gritos. Esta cena reproduziu-se já várias vezes. O serviço fica petrificado, os doentes dos quartos vizinhos, desnorteados: que se passa?&lt;br /&gt;Mau grado um tratamento adaptado a este género de alucinações, os terrores persistem, e só cedem, em geral, passado um bom bocado. Durante o resto do tempo, Christine mostra-se bastante serena, eu diria mesmo que dá, por vezes, provas de uma maturidade surpreendente, no modo como vive esta derradeira fase da sua existência. Uma maturidade em grande contraste com os seus pânicos infantis. Fala abertamente da sua morte e preocupa-se com o futuro do noivo, repetindo-lhe com frequência que deseja que ele refaça rapidamente a sua vida com outra mulher.&lt;br /&gt;Esta manhã, ao chegar ao serviço, dou com Christine esgazeada, no meio do vestíbulo, a gritar a plenos pulmões, dificilmente dominada pelo Dr. Clément e por Simone, que, pegando-lhe cada um num braço, tentam impedi-la de se evadir do serviço. Porque é isso que ela quer fazer.&lt;br /&gt;Vou, naturalmente, ajudá-los. Christine grita que as serpentes a perseguem, suplica que a protejam. Sem reflectir demasiado, prendo-a nos meus braços. De resto, ela pesa tão pouco que não tenho a menor dificuldade em levá-la até à saleta anexa. Aí chegando, deixo-me cair num sofá e, mantendo-a bem apertada ao peito, começo a embalá-la suavemente, cantando-lhe o nome. O Dr. Clément, após ter-se certificado de que já não precisava dele, fechou a porta, pois Christine continua a gritar com a mesma força, embora já não procure fugir. Sinto que aceita ficar sentada nos meus joelhos, penso mesmo que se sente em segurança, com os meus braços em sua volta, a protegê-la contra esse medo invisível.&lt;br /&gt;Enquanto ela não pára de gritar, continuo a embalá-la ao peito, e a cantarolar o seu nome, com doçura.&lt;br /&gt;Agora, deixou de gritar, mas soluça aflitivamente, com a cabeça enterrada no meu pescoço, como uma criança. Dali a pouco, com uma voz de menina pequenina, entrecortada de choro, conta-me os terrores da sua infância. A mãe dela coleccionava serpentes vivas em grandes frascos de vidro, e deixava-as sair de cada vez que Christine fazia uma asneira. Custa-me a crer em semelhante crueldade, a crer que uma mãe possa ser tão louca. Pouco importa, de resto, qual é a parte de efabulação ou de realidade! Esses medos fazem, sem qualquer dúvida, parte da infância de Christine. Não posso fazer outra coisa senão dar-lhe a entender que também existem lugares onde nos podemos sentir em segurança. Também para ela existe um espaço seguro. De momento, é este dos meus braços, daqui a pouco será noutro lugar. Que posso eu senão fazê-la experimentar esta sensação de segurança?&lt;br /&gt;Agora, já não chora mais. Está a brincar com o colar de borboletas de contas azuis, enfiadas por crianças leucémicas, que trago por dentro da minha bata branca, sempre com a cabeça inclinada no meu ombro. Faço-lhe festinhas nos longos cabelos louros que lhe chegam a meio das costas.&lt;br /&gt;— Se quiseres, dou-to — digo-lhe. — As borboletas não se deixam apanhar pelas serpentes. Vão proteger-te.&lt;br /&gt;O meu colar vai, pois, servir de objecto transicional. O psiquiatra inglês Winnicott denomina assim o objecto que a criança às vezes guarda consigo, e que lhe permite suportar a ausência da mãe, na medida em que está investido das suas qualidades.&lt;br /&gt;Antes de acompanhar ao seu quarto Christine, que recuperou a calma, digo-lhe ainda que a borboleta simboliza a alma, essa verdadeira essência do humano que escapa às leis da biologia, aquilo que eu julgo ser a parte de eternidade do homem. Christine não tem qualquer dificuldade em entender a interpretação que lhe proponho: também ela acredita na eternidade da sua alma.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;** **&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 250%;color:#000066;" &gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Montreal. Termina o congresso «processo de cura para além do sofrimento e da morte». O Dalai-Lama veio presidir à sessão plenária de encerramento. Estou sentada na primeira fila, ao lado de Luc Bessette. O audacioso organizador deste imenso congresso propôs-me amavelmente este lugar. Mais de mil e quinhentas pessoas vieram aqui para reflectir durante dois dias sobre as questões que colocam a doença e a morte. Pela primeira vez, um congresso científico internacional dá um lugar de destaque à contribuição das tradições orientais e às técnicas meditativas.&lt;br /&gt;O sussurro esvaiu-se na imensa sala dos congressos, pois Sua Santidade o Dalai-Lama chegou ao estrado. Vemos subir pela escada lateral um jovem muito frágil, de cabeça rapada, quase diáfano. Vemos que se trata de um menino doente, apesar de se manter de pé, muito direito. Uma mulher guia-o até junto do Dalai-Lama, pronuncia algumas palavras, e vemos o santo homem inclinar-se para o menino. As duas cabeças calvas, uma bronzeada e castanha, a outra de uma brancura quase transparente, estão agora frente a frente. Há algo de infinitamente comovedor neste encontro de um velho sábio e este menino doente. Um homem, ao microfone, explica-nos que o menino sofre de leucemia e que a sua vida está em perigo, pois todos os tratamentos falharam. O maior desejo do menino era encontrar um dia o Dalai-Lama. Esse desejo foi hoje satisfeito.&lt;br /&gt;O velho monge instala o menino à sua direita, na mesa de conferências, e as últimas intervenções do colóquio vão-se sucedendo ao microfone. É altura, finalmente, das perguntas a fazer pela assistência. Luc Bessette dirige-se ao menino doente e pergunta-lhe:&lt;br /&gt;— Podes dizer-nos aquilo de que tens mais necessidade, neste ponto que a tua doença atingiu? Podes dizer-nos, ainda, o que significa a morte para ti?&lt;br /&gt;Vemos então o menino pegar no microfone e, com uma firme autoridade interior, responder numa voz calma e prodigiosamente comedida:&lt;br /&gt;— Tenho necessidade de que estejam comigo, como se eu não estivesse doente. Que se riam, que se divirtam comigo, que sejam naturais! Sei que estou na terra por um tempo limitado, para aprender alguma coisa. Quando tiver aprendido o que cá me trouxe, partirei. Mas, no meu cérebro, não consigo imaginar que a vida se acabe!&lt;br /&gt;Foi assim que, nessa tarde, mil e quinhentas pessoas cultas receberam a mais bela lição de sabedoria e de simplicidade que possa existir. Uma palavra de ouro nos lábios de uma criança condenada pela medicina. Um enorme estremecimento percorreu a sala, seguido por um profundo silêncio. Em muitos olhos viam-se lágrimas. O velho monge levantou-se e inclinou-se perante o menino, como se teria inclinado perante um mestre. Colocou-lhe uma estola branca sobre os ombros e abençoou-o. Uma ovação interminável fez erguer a assistência, que não sabia dizer de outra maneira a intensa emoção que sentia. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;** **&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 250%;color:#000066;" &gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Embora conviva quotidianamente com a morte há vários anos, recuso-me a banalizá-la. Vivi a seu lado os momentos mais intensos da minha vida. Conheci a dor de me separar de quem amava, a impotência perante os progressos da doença, momentos de revolta em face da lenta degradação física daqueles a quem assistia, momentos de esgotamento, com a tentação de parar com tudo: mas não posso negar o sofrimento e, por vezes, o horror que rodeiam a morte. Fui testemunha de imensas solidões, senti a dor de não poder participar de certos desamparos, pois há níveis de desespero tão fundos que não podem ser partilhados.&lt;br /&gt;Conjuntamente com este sofrimento, tenho, mesmo assim, a sensação de me ter enriquecido. De ter conhecido momentos de uma densidade humana incomparável, de uma profundidade que não trocaria por nada deste mundo, momentos de alegria e de doçura, por incrível que isso pareça. Sei que não fui a única a tê-los vivido.&lt;br /&gt;Há alguns anos, tive este sonho: estava na cozinha de uma velha casa, em presença de um homem, que era, sem dúvida, o hospedeiro daquele lugar. O homem apontava para a parede, por cima da lareira. Nesse sítio havia um buraco. Como ele parecia insistir em que eu fosse ver de mais perto, peguei numa cadeira, subi e olhei para o interior da chaminé. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que, ao longo das paredes cobertas de uma fuligem negra e espessa, escorria algo semelhante a mel. Intrigada, estendi a mão para me certificar: era mesmo mel!&lt;br /&gt;Lembro-me de que, no sonho, eu estava profundamente abalada por essa descoberta, e tinha a sensação de que precisava, absolutamente, de prevenir os outros. Como se detivesse um segredo que era urgente partilhar.&lt;br /&gt;Sabia que teriam dificuldade em acreditar em mim, e que a coisa levaria o seu tempo.&lt;br /&gt;Irão encontrar neste sonho várias outras interpretações óbvias, estou consciente disso, mas, na altura em que o vivi, liguei-o, de propósito, ao que ia descobrindo de dia para dia, naquela proximidade do sofrimento e da morte! Existia dor, é certo, mas também doçura, muitas vezes uma infinita ternura. Eu descobria, assim, que o espaço-tempo da morte é, para os que querem penetrar nele e ver para além do horror, uma ocasião inesquecível de intimidade.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;span style="font-size:130;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-1981524337499201530?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/1981524337499201530/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=1981524337499201530' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/1981524337499201530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/1981524337499201530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/partilha-marie-de-hennezel.html' title='Partilhar - Marie de Hennezel'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-2971991142210053074</id><published>2007-06-16T06:52:00.000-07:00</published><updated>2007-07-29T07:54:29.506-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><title type='text'>Inês - Hannelore Bürstmayr</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_qDtliBBhWpU/RqypWeslzEI/AAAAAAAAAA8/k01-c9K4Sbo/s1600-h/gladÃ&amp;shy;olo+peq+peq.+2.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#003333;"&gt;uma história da América Central&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;span style="color:#003333;"&gt;A cidade chama-se Marcala. Mar-ca-la, um nome tão bonito como os gladíolos que aqui nascem espontaneamente nos prados.&lt;br /&gt;Mas a casa onde me encontro sentada é cinzenta por fora e cinzenta por dentro porque é feita de adobe que não foi rebocado. Tem uma porta de tábuas e taipais de madeira. Quando se fecham, fica tudo completamente às escuras. Inclino a cabeça para trás e vejo brilhar o céu, através do telhado, em tiras azuis claras.&lt;br /&gt;Quando chover, vai pingar aqui dentro! — penso eu. — O chão de terra vai ficar enlameado e a cama e a mobília molhadas.&lt;br /&gt;A mobília: uma cama para toda a família, uma cadeira, dois escabelos, um banco, e uns pregos na parede onde estão penduradas algumas peças de roupa.&lt;br /&gt;Hoje o sol está a brilhar. Estamos em meados de Agosto, altura em que, nas Honduras, a estação das chuvas faz uma pausa.&lt;br /&gt;— É o Verão pequenino! — costumam dizer as pessoas.&lt;br /&gt;Como há duas semanas que não chove, já torna a haver muito pó, mas também flores entre os tufos de erva. Juntamente com o céu azul e as galinhas brancas, formam um quadro muito bonito que vejo pela porta aberta.&lt;br /&gt;Só que a casa cinzenta deprime-me. Cinzento não é uma cor. Cinzento é como estar triste. Tenho a impressão de que olho para isto tudo com um olhar de repreensão. Porque sou rica e nem penso nisso.&lt;br /&gt;Na Áustria tenho uma casa sem buracos no telhado, uma banheira, uma máquina de lavar roupa, comprimidos para a dor de cabeça no armário dos medicamentos, férias todos os anos…&lt;br /&gt;À minha volta estão sentadas uma dezena de mulheres e de raparigas que não possuem nada disto. Têm preocupações com os filhos doentes, não têm dinheiro para medicamentos nem para roupas e sapatos. Muitas delas há muito que não recebem notícias dos maridos, que moram noutras cidades, porque em Marcala há pouco trabalho.&lt;br /&gt;Nesta tarde, reuniram-se para falarem dos seus problemas e para lerem, em conjunto, a Sagrada Escritura. Tive autorização para vir também. Trouxe-me uma amiga que trabalha numa organização de ajuda ao desenvolvimento.&lt;br /&gt;O que as mulheres contam quase me parece impossível: acordar todos os dias às quatro da manhã, comer unicamente tortilhas de milho e moê-lo à mão; apanhar lenha para o fogão e cortá-la em pedaços pequenos; trabalhar arduamente no campo, ir buscar água para a família toda. À noite, remendar a roupa junto ao fogão de lenha, porque não há outra luz. Em seguida, cair morta de cansaço na cama — ou em cima de uma pele de vaca, pois nem todos têm cama.&lt;br /&gt;— Os meus filhos não podem ir todos à escola — diz uma mulher. — Não têm roupa para se vestirem todos ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;— A minha filha tem doze anos e já trabalha numa plantação, se não, não podíamos viver — diz uma outra, já só com um dente na boca.&lt;br /&gt;Uma menina que parece ainda ir à escola, conta:&lt;br /&gt;— Eu fico sentada das seis da manhã às seis da tarde diante da máquina de costura. Trabalho em casa. Faço oito vestidos por dia e tenho de os entregar pontualmente. Até como sentada à máquina.&lt;br /&gt;À minha frente está sentada a filha da dona da casa. Deve ter uns oito anos.&lt;br /&gt;— Inês! — diz a mãe, esticando o queixo na direcção das galinhas que andam pelo quarto. Inês corre atrás das galinhas batendo palmas, e enxota-as para fora de casa. O irmãozinho, sempre agarrado ao seu vestido, deixou-o encostado ao banco, como um guarda-chuva. Parece ser um pouco parado. Enfiou a mão na boca e fica imóvel a chuchar nos dedos.&lt;br /&gt;Inês senta-se novamente. Põe os braços à volta do irmão e, com o dedo grande do pé, espalma um monte de dejectos de galinha.&lt;br /&gt;Sorrio-lhe. Inês retribui-me o sorriso. Levanta-se e vem sentar-se ao meu lado. O banquito é suficientemente largo para as duas.&lt;br /&gt;Inês põe o irmão ao colo. Sinto-me lisonjeada, porque Inês é muito meiga. A sua cabeça fica à altura do meu ombro. Vejo os piolhos passearem-lhe na cabeça uns atrás uns dos outros. Deixei de sentir-me lisonjeada e começo a pensar como afastar-me de Inês.&lt;br /&gt;A alguns metros de mim há uma cadeira vazia. Sento-me nela e fico contente por ninguém poder chegar-se agora à minha beira. Mas, ao mesmo tempo, envergonho-me. Então como é?! Falo de “amor ao próximo” e tenho medo de piolhos?&lt;br /&gt;Talvez tenha magoado Inês. Ao lado dela, está agora sentado o irmão, ainda com a mão na boca.&lt;br /&gt;Uma das mulheres lê em voz alta uma passagem da Bíblia, o Sermão da Montanha: Bem aventurados os que são pobres ao olhos de Deus... Reflecti muitas vezes nesta frase. Como compreendê-la para que também eu possa ser “bem-aventurada”? De cada vez que ouço o Sermão da Montanha, também tenho vontade de ser pobre, mas pobre de uma forma que não doa. Parece-me agora que Jesus, ao proferir esta frase, quis dizer exactamente o que ela diz: “… os que são pobres aos olhos de Deus.” Tal como estas mulheres são pobres, mas não se esquecem de Deus. Acreditam que o Seu reino há-de vir e que elas hão-de poder trabalhar nele.&lt;br /&gt;E é disso que estão a falar.&lt;br /&gt;— Mesmo quando estou cansada, levanto-me de noite, se alguém precisar de mim — está a dizer uma delas. — Não queremos usar de violência, principalmente porque sabemos a dor que causa.&lt;br /&gt;— Devemos lutar pelos nossos direitos com meios pacíficos, mesmo que seja perigoso. Como os líderes dos agricultores de Orlanjo.&lt;br /&gt;— Não devo desviar os olhos quando alguém é tratado com injustiça. Apesar disso, eu faço que, ignoro porque tenho medo.&lt;br /&gt;As mulheres lembram-se de muitos exemplos das suas vidas. Nas suas vozes não há fingimento.&lt;br /&gt;— A nossa horta comum também faz parte do reino de Deus, e também o sustentarmos os nossos filhos quando uma de nós adoece.&lt;br /&gt;Enquanto isso, Inês fizera três tranças ao irmão. Remexe-se no escabelo para cá e para lá e por fim diz também:&lt;br /&gt;— Eu fico a tomar conta do António, mas gostava mais de ir brincar…&lt;br /&gt;Em cima da mesa está um gladíolo dentro de uma lata. Uma alegre mancha de cor, e só agora é que eu reparo nele. Será que foi Inês que o pôs lá?&lt;br /&gt;Para terminar, as mulheres cantam uma canção “Yo tengo fé…” (Eu tenho fé)&lt;br /&gt;Inês deita um olhar admirado à mãe. Talvez raramente a ouça cantar. Depois, Inês também canta. Não soa lá muito bem, mais parece uma galinha a cacarejar, mas canta entusiasmada.&lt;br /&gt;As mulheres despedem-se.&lt;br /&gt;— Anda comigo! — diz-me Inês. — Vou mostrar-te as nossas mangas!&lt;br /&gt;Atrás da casa, há uma ladeira íngreme. A terra está fendida e esboroa-se sob os nossos pés. No cimo, está uma árvore cheia de frutos.&lt;br /&gt;Inês abana um ramo. Segura na minha camisola, de forma a fazer uma bolsa, e põe as mangas lá dentro.&lt;br /&gt;— Toma, são para ti!&lt;br /&gt;Perdoa, Inês, por ter tido medo dos teus piolhos. E por, durante tanto tempo, não ter reparado no teu gladíolo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;span style="color:#003333;"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;&lt;span style="color:#003333;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5092631976232733778" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="205" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_qDtliBBhWpU/RqypzOslzFI/AAAAAAAAABE/Q8PiKtrtnzo/s200/glad%C3%ADolo+peq.jpg" width="205" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#003333;"&gt;Hannelore Bürstmayr&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#003333;"&gt;Lene Mayer-Skumanz (org.)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Hoffentlich bald&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Wien, Herder Verlag, 1986&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tradução e adaptação&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-2971991142210053074?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/2971991142210053074/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=2971991142210053074' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/2971991142210053074'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/2971991142210053074'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/ins-hannelore-brstmayr.html' title='Inês - Hannelore Bürstmayr'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qDtliBBhWpU/RqypzOslzFI/AAAAAAAAABE/Q8PiKtrtnzo/s72-c/glad%C3%ADolo+peq.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-7921087438603408138</id><published>2007-06-16T06:49:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.679-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Morangos para o pequeno-almoço</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;em&gt;Nos anos que antecederam a libertação dos escravos nos Estados Unidos da América, existiam várias rotas de fuga para os escravos que tentavam chegar ao Canadá, onde estariam a salvo. Muitas famílias, ao longo dessas rotas, ajudavam os escravos a esconder-se, alimentando-os e enviando-os para a próxima família da cadeia de solidariedade. Uma lei proibia a ajuda aos escravos e as famílias que o fizessem arriscavam-se a ser presas e obrigadas a pagar multas avultadas caso fossem descobertas. Mesmo assim, muitas famílias continuavam a ajudar, e muitos milhares de pessoas conseguiram, desta forma, alcançar a liberdade. Esta é uma de muitas histórias sobre o&lt;/em&gt; Underground Railroad&lt;em&gt;, (Caminho-de-Ferro Clandestino) que consistia num grupo de pessoas que, de forma ilegal, ajudava os escravos a conseguir a liberdade antes da Guerra Civil Americana. Desta organização faziam parte os quakers, um grupo religioso originário do cristianismo, com uma forte implantação nos Estados Unidos da América.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%"&gt;Por volta das cinco e meia de uma manhã de Verão no sul do Ohio, a luz já forte do sol acordara Lucinda Wilson, uma rapariga de treze anos. Sentou-se imediatamente e, de seguida, ao sair da cama, lembrou-se: “Os morangos na colina já devem estar prontos para serem colhidos.” Lucinda tinha vindo a observar com ansiedade a colina coberta de morangos silvestres. Era com grande alegria que planeava agora surpreender a família com um cesto cheio de morangos maduros e deliciosos para comerem ao pequeno-almoço.&lt;br /&gt;Vestiu-se rápida mas silenciosamente para não acordar a irmã. Lucinda tinha dormido nessa noite na cama grande, uma vez que a sua irmã Mary, de dezassete anos, estava a passar alguns dias com uma amiga numa quinta vizinha, e Ruth, de quinze anos, dormia numa pequena alcova no enorme quarto do andar de cima.&lt;br /&gt;A casa da família Wilson ficava a alguma distância da estrada principal, e havia um caminho longo e estreito desde o portão até à porta de entrada da casa. Como este caminho parecia demasiado longo, Lucinda decidiu seguir por um atalho em direcção à colina dos morangos, que se estendia ao longo da estrada principal. Este atalho, que começava junto à capoeira, era praticamente invisível devido ao crescimento emaranhado dos arbustos. Lucinda correu até à rua e começou a subir a colina. Ali estavam os morangos, vermelhos e deliciosos. Começou a colhê-los rapidamente, mas o fundo do cesto não estava ainda coberto quando ouviu uma voz a chamá-la da estrada principal.&lt;br /&gt;Sobressaltada, olhou para baixo e viu dois homens a cavalo. Não os conhecia e a sua primeira reacção foi pôr-se em alerta, pois a sua casa pertencia ao Underground Railroad. Estava certa de que estes homens eram caçadores de escravos.&lt;br /&gt;No momento seguinte, Lucinda viu que tinha razão.&lt;br /&gt;O homem que a chamara, de tez morena e mal-humorado, voltou a dirigir-lhe a palavra:&lt;br /&gt;— Viste duas raparigas negras a passar por aqui? Duas raparigas de dezassete ou dezoito anos? Temos a certeza de que elas levam apenas alguns minutos de avanço.&lt;br /&gt;Lucinda acenou com a cabeça. Respondeu-lhes honestamente que tinha chegado nesse instante e que não tinha visto ninguém para além deles. Os cavaleiros seguiram caminho. Mas Lucinda não pensou mais nos morangos. Tinha a certeza de que as duas raparigas iriam para sua casa e de que aqueles homens as apanhariam mesmo à sua porta, a não ser que conseguisse avisá-las antes. Discretamente, olhou para os caçadores de escravos para se certificar de que nenhum deles estava a olhar para trás. Então, precipitou-se para a estrada e desatou a correr para casa.&lt;br /&gt;Em poucos instantes, estava no terreiro da quinta e entrou em casa de rompante. Mal abriu a porta das traseiras, ouviu a voz da mãe na parte da frente da casa. As raparigas já lá estavam, e os homens chegariam dentro de breves instantes. Sem fôlego, foi ter com a mãe e as raparigas ao vestíbulo. A porta ainda estava aberta.&lt;br /&gt;— Fechem a porta! Fechem a porta rapidamente! Eles vêm aí! — disse, ofegante.&lt;br /&gt;No momento em que proferia estas palavras, viu um cavalo a aparecer. A mãe fechou a porta, trancou-a e olhou desesperadamente em volta, à procura de um esconderijo para as duas raparigas. Estas choravam apavoradas, pois tinham a certeza de que seriam arrastadas de volta e de que nunca mais seriam livres.&lt;br /&gt;— Rápido! Vão lá para cima! — disse Emily Wilson.&lt;br /&gt;Correram pelas escadas acima e entraram no quarto onde Ruth já estava a vestir-se. Esta, espantada, olhou para as quatro pessoas que tinham entrado de rompante.&lt;br /&gt;— Lucinda, veste a camisa de noite, põe a touca e mete-te na cama outra vez — disse a mãe.&lt;br /&gt;A mãe pegou nas roupas de Mary que estavam debaixo da almofada, e atirou-as a uma das fugitivas.&lt;br /&gt;— Veste isto e deita-te na cama com a minha filha. Fica do lado da parede, de costas para a porta. Cobre bem a cara com a touca.&lt;br /&gt;As raparigas obedeceram imediatamente, e Emily Wilson levantou a tampa de uma arca grande feita de verga, que estava encostada à parede. Felizmente, estava quase vazia.&lt;br /&gt;— Mete-te aí dentro — disse ela à outra rapariga, que obedeceu de imediato e se encolheu de modo a que a arca pudesse ser fechada.&lt;br /&gt;Fez-se ouvir uma forte pancada na porta da frente.&lt;br /&gt;— Ruth, veste o roupão, senta-te em cima da arca e tapa-a o mais possível. Os caçadores de escravos estão quase a chegar.&lt;br /&gt;A mãe olhou de relance o quarto, para se certificar de que não havia indícios da presença das raparigas negras, e apressou-se a descer as escadas para abrir a porta.&lt;br /&gt;— Bom dia, minha senhora! Nós andamos à procura das duas escravas que estão aqui — disse um dos homens.&lt;br /&gt;— A sério!? Como sabe que temos duas escravas aqui escondidas? — retorquiu ela.&lt;br /&gt;— Porque estávamos mesmo no seu encalço e temos a certeza de que não passaram daqui. Por isso, vai ter de nos deixar revistar a casa.&lt;br /&gt;— Estejam à vontade! Mas garanto-vos que vai ser uma perda de tempo.&lt;br /&gt;— Veremos! — respondeu o homem.&lt;br /&gt;Começaram a revistar todas as divisões da casa. Emily Wilson deixou-os abrir as portas e procurar à vontade até chegarem ao quarto das raparigas. Aí, pôs-se à frente deles.&lt;br /&gt;— As minhas três filhas dormem aqui e ainda é muito cedo. Meus senhores, peço-lhes que não entrem no quarto.&lt;br /&gt;— Podem estar tanto aqui como em qualquer outro lugar — disse um dos homens. De seguida, abriu a porta e entrou.&lt;br /&gt;Ali estavam as três raparigas, duas na cama, tapadas até às orelhas, a outra sentada na arca com um roupão sobre a arca como se fosse apanhada de surpresa. No entanto, lá dentro, a fugitiva aterrorizada tremia de tal modo que Ruth tinha a impressão de que os homens deviam ver a arca a abanar. Ela sentou-se o mais pesado que conseguiu e cobriu a arca com o roupão.&lt;br /&gt;Um pouco embaraçados, os homens deram uma vista de olhos rápida pelo quarto, abriram o guarda-vestidos e, como não encontrassem nada, saíram novamente, balbuciando um pedido de desculpas.&lt;br /&gt;— Bem — disse um deles quando saíram do último quarto — parece que aquelas raparigas, afinal, já passaram por aqui. É melhor apressarmo-nos e talvez ainda as possamos apanhar.&lt;br /&gt;— Eu avisei-vos de que seria uma perda de tempo — disse Emily Wilson calmamente.&lt;br /&gt;De forma hospitaleira, ofereceu-lhes o pequeno-almoço, o que eles recusaram de imediato, pois estavam com pressa. Partiram a cavalo, e as raparigas sentiram-se então livres para poderem sair dos seus esconderijos.&lt;br /&gt;— Ainda bem que decidi ir apanhar morangos para o pequeno-almoço. Ainda há tempo de voltar lá e encher o meu cesto. Afinal, vamos mesmo ter morangos para o pequeno-almoço — disse Lucinda.&lt;br /&gt;As duas raparigas ficaram tranquilamente em casa durante todo o dia. De madrugada, uma carroça coberta levou-as para outra casa de quakers. Daqui, sem grandes riscos, foram levadas no dia seguinte, pois soube-se que os dois caçadores de escravos tinham perdido o seu rasto e declararam que as duas escravas fugitivas haviam desaparecido.&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Anna Curtis&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lighting candles in the dark&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Philadelphia, FGC, 2001&lt;br /&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-7921087438603408138?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/7921087438603408138/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=7921087438603408138' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7921087438603408138'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/7921087438603408138'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/morangos-para-o-pequeno-almoo.html' title='Morangos para o pequeno-almoço'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-8344541798580860044</id><published>2007-06-16T06:34:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:13:33.760-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><title type='text'>O Senhor Palha - Conto japonês</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:115;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha.&lt;br /&gt;Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:&lt;br /&gt;— A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há-de trazer-te uma grande fortuna.&lt;br /&gt;O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha.&lt;br /&gt;“Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu a apanhasse, é melhor guardá-la.”&lt;br /&gt;E lá foi ele, com a palha na mão.&lt;br /&gt;Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se.&lt;br /&gt;— Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor!&lt;br /&gt;“Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que pode ficar mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha.&lt;br /&gt;— É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita?&lt;br /&gt;O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que havia acontecido.&lt;br /&gt;— Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer.&lt;br /&gt;— Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor, mas se quiser dar-lhe esta rosa, é sua.&lt;br /&gt;O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa.&lt;br /&gt;— Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca.&lt;br /&gt;O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante puxando uma pequena carroça.&lt;br /&gt;— Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água.&lt;br /&gt;— Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas.&lt;br /&gt;O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo:&lt;br /&gt;— O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca.&lt;br /&gt;E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço.&lt;br /&gt;Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha.&lt;br /&gt;— Onde arranjou essa seda? — gritou ela. — É justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real.&lt;br /&gt;— Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha.&lt;br /&gt;A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte.&lt;br /&gt;— O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca.&lt;br /&gt;A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.&lt;br /&gt;“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.”&lt;br /&gt;Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico.&lt;br /&gt;Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#660000;"&gt;William J. Bennett&lt;br /&gt;O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral&lt;br /&gt;Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#660000;"&gt;adaptação&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-8344541798580860044?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/8344541798580860044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=8344541798580860044' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8344541798580860044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8344541798580860044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/o-senhor-palha-conto-japons.html' title='O Senhor Palha - Conto japonês'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-8414053783721197126</id><published>2007-06-16T02:24:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:14:20.679-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='voluntariado'/><title type='text'>Gandhi - Demi</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:125;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 190%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mohandas Karamchand Gandhi nasceu em Porbandar, na Índia, a 2 de Outubro de 1869. O pai era primeiro-ministro na corte do príncipe local. A mãe, mulher devota, deu aos filhos uma educação religiosa. A religião da família era uma combinação de Hinduísmo e de Jainismo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Gandhi cresceu a acreditar na doutrina do karma, segundo a qual devemos rezar, ser disciplinados, honestos e parcimoniosos, a fim de conservarmos a alma pura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tinha treze anos, casou-se, segundo a tradição hindu, com Kasturbai Makanji, uma linda rapariga da mesma idade, dotada de grandes qualidades, como a paciência, a força e a coragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a Gandhi, era de baixa estatura, tímido, e tinha medo de várias coisas, entre as quais as serpentes, os fantasmas e a escuridão. Kasturbai ria-se com ternura do marido, por este ter de dormir com a luz acesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gandhi sentia-se diferente das outras pessoas. Aluno fraco: terminou o liceu com dificuldade e teve más notas na faculdade. Em 1888, instado pelo tio, deixou a mulher na Índia e foi para Londres estudar Direito. Durante muito tempo, sentiu-se completamente só, um estrangeiro em terra alheia. A fim de se sentir mais confiante, decidiu transformar-se num autêntico cavalheiro inglês. Vivia num apartamento selecto e vestia roupas elegantes. Aprendeu a falar um inglês perfeito, teve aulas de violino e aprendeu até a dançar o &lt;em&gt;fox-trot&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era feliz. Sentia que um fosso enorme separava o seu ser interior da sua aparência exterior. Tentou então recuperar a sua herança jainista: abandonou o apartamento selecto, passou a cozinhar as suas próprias refeições, a andar a pé em vez de tomar transportes, e aderiu à Sociedade Vegetariana de Londres. A sua nova independência fê-lo sentir-se mais feliz, embora continuasse desajeitado e tímido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tirou finalmente o curso e regressou à Índia, três anos depois de ter chegado a Londres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De regresso a casa, soube que a mãe tinha morrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gandhi abriu um escritório de advocacia em Bombaim, decidido a triunfar na vida profissional. Mas a sua timidez desajeitada impedia-o de falar em público e foi humilhado com frequência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o irmão de Gandhi conhecia uma firma de advogados na África do Sul que precisava de um sócio, Gandhi, acompanhado pela mulher, deixou a Índia em 1893. De novo estrangeiro em terra alheia, experimentou o racismo na própria pele. A sua cor fazia dele um alvo de desprezo e de maus-tratos físicos por parte dos brancos sul-africanos. O trabalho no escritório era duro mas, em vez de desistir e de abandonar aquele país hostil, Gandhi decidiu mudar-se a SI MESMO, a fim de enfrentar os desafios que lhe eram colocados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através da auto-disciplina e da concentração, conseguiu atingir os seus objectivos e compreendeu que &lt;em&gt;o verdadeiro exercício do Direito consiste em procurar o lado melhor da natureza humana e penetrar nos corações dos homens&lt;/em&gt;. Começou a encarar todas as dificuldades como formas de melhor servir os outros, atitude que viria a tornar-se o segredo do seu sucesso durante o resto da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite de Inverno, Gandhi viajava de comboio, em negócios, numa carruagem de primeira classe. Um passageiro branco insistiu que Gandhi viajasse em terceira classe. Gandhi recusou, e o revisor atirou-o para fora do comboio. No meio de parte alguma, rodeado de escuridão e cheio de frio, Gandhi reflectiu sobre a profunda e dolorosa doença do preconceito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois da sua experiência no comboio, criou a teoria da &lt;em&gt;satyagraha&lt;/em&gt;, que quer dizer “a força do amor”. Escreveu: &lt;em&gt;A força do amor exercida através da paz triunfa sempre sobre a violência.&lt;/em&gt; Empenhou-se em extirpar a doença do preconceito, sem nunca ceder à violência e sem nunca exercer violência sobre os outros, e prometeu trazer a paz do Céu para a Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início do século XX, a África do Sul estava dividida em quatro colónias britânicas distintas: a Colónia do Cabo, o Natal, o Estado Livre de Orange e o Transval. A 22 de Agosto de 1906, o governo do Transval promulgou a Lei dos Negros, que privava os negros e os indianos dos seus direitos cívicos. Em resposta a esta lei, Gandhi formou o primeiro movimento não-violento de resistência de massas. Mais de quinhentas pessoas participaram neste movimento de desobediência civil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gandhi e os seus apoiantes lutaram pelos direitos de negros e indianos, bem como pelos direitos das mulheres. Prestou apoio jurídico gratuito e ajudou pessoas que viviam em condições desesperadas. Tratou de pessoas doentes, que tinham sido abandonadas durante uma epidemia, fez curativos a leprosos e reconfortou os moribundos. Costumava dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Estas pessoas são meus irmãos e irmãs. O seu sofrimento é o meu sofrimento. A minha família é o mundo inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gandhi acreditava profundamente nos ensinamentos de um dos livros sagrados hindus, o &lt;em&gt;Bhagavad-Gītā&lt;/em&gt;. Meditava várias vezes ao dia e tentava enfraquecer os seus desejos egoístas através do amor aos outros e do amor ao “Senhor do Amor”. Tentava não sentir raiva, para que esta não tolhesse o seu discernimento. Ao acreditar no poder do amor e ao tratar todas as pessoas como se fossem membros da sua própria família, Gandhi descobriu que deixara de sentir timidez e que não tinha medo de coisa alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto ele como os seus seguidores agiam no sentido de aceitar de igual maneira as coisas boas e más da vida, de receber os desafios com humildade e mansidão, e de trazer a harmonia ao mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gandhi regressou à Índia em 1915, acompanhado pela mulher e pelos quatro filhos. Começou a lutar para libertar a Índia do sistema preconceituoso de castas que dividia a sociedade em quatro classes. Os sacerdotes ocupavam o topo da pirâmide social, seguidos pelos príncipes e pelos militares que, por sua vez, se encontravam no patamar acima dos trabalhadores. Os pobres ─ os “intocáveis” ─ ocupavam o nível mais baixo da pirâmide. Gandhi chamava-lhes “filhos de Deus” e estava decidido a libertá-los do seu estigma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também se empenhou em libertar a Índia do domínio britânico. Durante trezentos anos, vários milhares de Britânicos tinham governado mais de trezentos milhões de Indianos. Gandhi dirigia-se às multidões e pedia-lhes que pusessem a &lt;em&gt;satyagraha&lt;/em&gt; em prática, ou seja, o amor altruísta pelos outros. Os Indianos deixaram de colaborar com os Britânicos e muitos foram presos. Muitos outros começaram a confeccionar as suas próprias roupas, para não terem de comprar tecidos britânicos. A túnica branca de fiação caseira chamada khadi começou a ser usada por milhões de pessoas, tornando-se o símbolo da independência indiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O governo britânico ficou furioso com a não-cooperação da Índia e, em 1919, durante o massacre de Amritsar, soldados britânicos mataram 379 inocentes, tendo ferido mais de um milhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gandhi liderou então um &lt;em&gt;hartal&lt;/em&gt;, ou greve nacional, que paralisou a Índia inteira. A campanha não-violenta baseada na teoria da &lt;em&gt;satyagraha&lt;/em&gt; continuou, encorajada pelas palavras do próprio Gandhi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A não-violência actua de forma contínua, silenciosa e incessante, até transformar o mal em bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Em 1922, os Britânicos prenderam Gandhi por pregar a não-violência, por desafiar a autoridade britânica e por escrever panfletos anti-governo. Esteve preso durante dois anos, mas o movimento da não-violência manteve-se forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O imperialismo britânico na Índia estava sob ameaça e Gandhi sentia-se feliz. Não achava que o facto de estar preso fosse uma tribulação; pelo contrário, via-o como um motivo de orgulho. Considerava que sofrer corajosamente por um ideal era a força motriz que transformaria cada homem e cada mulher da Índia em seres livres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em países quentes e tropicais como a Índia, o sal é uma parte essencial da alimentação das pessoas. A lei britânica proibia os Indianos de fazerem o seu próprio sal e obrigava-os a pagar um pesado imposto sobre este produto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1930, Gandhi liderou os seus compatriotas na chamada Marcha do Sal. Acompanhado por setenta e oito pessoas, empreendeu a caminhada de Sabarmati até Dandi, uma cidade costeira que ficava a mais de 200 quilómetros. Quando Gandhi chegou a Dandi e pegou num punhado de sal, num gesto simbólico de desafio do domínio britânico, as pessoas que o acompanhavam excediam já as centenas de milhar. O governo britânico foi forçado a reconhecer que estava a perder o controlo da Índia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de liderar a Marcha do Sal e outras iniciativas igualmente desafiadoras, Gandhi sentiu que o jugo imperialista sobre os seus compatriotas estava a diminuir de intensidade, o que, para ele, constituía um motivo de grande júbilo. Os seus seguidores deram-lhe o cognome de “Mahatma”, que significa “alma grande”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o governo britânico não desistia facilmente da Índia e Gandhi foi preso depois da Marcha do Sal. Decidiu então jejuar, a fim de pressionar as autoridades. Foi uma forma poderosa e não-violenta de ameaçar o governo. Como este não queria ser responsável pela morte de Gandhi, após seis dias de greve de fome, acordou em proteger os direitos cívicos dos “intocáveis”. Conseguir mudanças sociais através de meios pacíficos foi o grande contributo de Gandhi para a humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a Segunda Guerra Mundial, os indianos de religião hindu e os indianos de religião muçulmana travaram uma guerra civil motivada pelas suas diferenças religiosas e culturais. Massacres e actos de destruição devastaram o país inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante todo este período de grande anarquia e sofrimento, Gandhi percorreu, descalço, aldeias remotas que tinham sido destruídas e continuou a pregar a sua mensagem de não-violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 12 de Agosto de 1947, a Índia conseguiu, finalmente, libertar-se do domínio britânico. Mas o país estava separado em duas partes: a sul ficava a Índia, de maioria hindu, liderada pelo Primeiro-Ministro Jawaharlal Nehru e, a norte, o Paquistão muçulmano, liderado pelo Governador-Geral do Paquistão e Presidente da Liga Muçulmana, Muhammad Ali Jinnah.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gandhi não comemorou a independência da Índia. Encetou um período de jejum para lembrar a Hindus e Muçulmanos a importância da paciência, da compreensão e do perdão, face à intransigência. Ansiava que o seu povo vencesse o ódio através do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o movimento da &lt;em&gt;satyagraha&lt;/em&gt; conseguira vencer o domínio britânico, Gandhi confiava que ele pudesse também unificar as facções que agora dividiam a Índia. Mas tal unificação nunca viria a consumar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora extremamente debilitado devido ao jejum, Gandhi, agora com 78 anos, continuou a dirigir-se aos seus seguidores. Como ensinava e professava a irmandade de todas as pessoas e religiões, era odiado pelos Hindus e Muçulmanos, que acreditavam que a sua própria religião era a única verdadeira.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;No dia 30 de Janeiro de 1948, ao cair da tarde, quando Gandhi se dirigia para um encontro de oração, no qual era aguardado por milhares de pessoas, um Hindu, de nome Nathuram Godse, disparou sobre ele, atingindo-o mortalmente no coração. Gandhi caiu. As suas últimas palavras foram palavras de compaixão e amor:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Rama, rama, rama.&lt;/em&gt; (Perdoo-te, amo-te, abençoo-te.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi cremado em Nova Deli. Milhões de pessoas, vindas de toda a Índia e de todos os cantos do mundo, choraram a perda deste extraordinário mensageiro da paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando morreu, Gandhi tinha poucos bens: duas colheres, duas panelas, três macacos, três livros, um relógio de bolso, um par de óculos, uma tigela de alumínio (recordação da prisão), um conjunto de secretária, dois pares de sandálias, e a sua &lt;em&gt;khadi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;As suas cinzas foram misturadas com pétalas de rosa e espalhadas pela família na confluência dos três grandes rios indianos: o Ganges, o Jumna e o Sarasvati.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O &lt;em&gt;Bhagavad-Gītā&lt;/em&gt; diz que &lt;em&gt;sermos unos com o Senhor do Amor é o estado supremo de ventura. Se conseguirmos atingir esse estado, passaremos da morte à imortalidade.&lt;/em&gt; O amor ilimitado de Mahatma Gandhi pela humanidade guiou a sua vida, mudou a vida de milhões de pessoas, e tornou-o imortal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Demi&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Gandhi&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;New York, Margaret K. McElderry Books, 2001&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tradução e adaptação&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-8414053783721197126?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/8414053783721197126/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=8414053783721197126' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8414053783721197126'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8414053783721197126'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/gandhi.html' title='Gandhi - Demi'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7129102270154184458.post-8191172382444265865</id><published>2007-06-16T02:16:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:13:33.760-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='generosidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidariedade'/><title type='text'>O pão dos outros - Michèle Lochak</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:125;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%;"&gt;Remi está a conversar com a avó.&lt;br /&gt;Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.&lt;br /&gt;— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.&lt;br /&gt;Remi lança palpites:&lt;br /&gt;— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso ter muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?&lt;br /&gt;A avó riu-se:&lt;br /&gt;— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.&lt;br /&gt;— Então faziam as prendas?&lt;br /&gt;— Não propriamente!&lt;br /&gt;— Então como é que faziam?&lt;br /&gt;— Era muito simples. Ora ouve…&lt;br /&gt;Antigamente, cada família fazia o seu pão. Não havia água corrente nas casas. Então íamos buscá-la à fonte, no largo da aldeia.&lt;br /&gt;E, no dia um de Janeiro, de manhã muito cedo, a primeira pessoa que saía de casa, colocava um pão fresco no bordo da fonte, enquanto enchia a bilha de água. Quem chegava a seguir pegava no pão e punha outro no mesmo lugar para a pessoa seguinte, e assim por diante…&lt;br /&gt;Desta forma, em todas as casas, se comia um pão fresco oferecido por outra pessoa. Nem sempre se sabia por quem, mas garanto-te que o pão nos parecia muito bom porque era como se fosse um presente de amizade.&lt;br /&gt;As pessoas que estavam zangadas pensavam que talvez estivessem a comer o pão do seu inimigo e isso era uma espécie de reconciliação…&lt;br /&gt;Durante alguns dias, esta história andou a martelar na cabeça de Remi.&lt;br /&gt;Uma manhã, teve uma ideia.&lt;br /&gt;Meteu no bolso uma fatia de pão de lavrador. É o pão que se come na casa de Remi.&lt;br /&gt;E na escola, um pouco antes do recreio, Remi pousou o pão bem à vista, em cima da carteira de Filipe, o seu vizinho.&lt;br /&gt;Filipe está sempre com fome e repete sem cessar a Remi:&lt;br /&gt;— Oh! Que fome, que fome eu tenho! Bem comia agora qualquer coisa!&lt;br /&gt;Quando Filipe viu a fatia de pão, que rica surpresa! Sabia muito bem quem lha tinha dado, mas fingiu que não sabia.&lt;br /&gt;No recreio, todo contente, comeu o pão sem dizer nada a Remi, mas…&lt;br /&gt;No dia seguinte, sabem o que é que Remi encontrou em cima da carteira, mesmo antes do recreio? … Um pedaço de cacete!&lt;br /&gt;Um grande pedaço bem estaladiço! Um verdadeiro regalo!&lt;br /&gt;Filipe ria-se.&lt;br /&gt;E assim continuaram a dar um ao outro presentes de pão.&lt;br /&gt;Na aula, a Carlota e a Sílvia estão sentadas logo atrás de Filipe e de Remi. Rapidamente souberam da história do pão e quiseram também participar nas surpresas.&lt;br /&gt;No dia seguinte, Sílvia levou uma fatia de cacetinho e Carlota uma fatia de pão centeio.&lt;br /&gt;Outras crianças quiseram participar nas prendas de pão.&lt;br /&gt;Apareceu pão grosseiro, pão de noz, pão de sêmea, pão sem côdea, pão caseiro, pão fino, pão russo, negro e um pouco ácido, que Vladimir levou, pedaços de pão árabe, que a mãe de Ahmed cozera no forno, e ainda muitos outros tipos de pão.&lt;br /&gt;Desta forma, quase toda a turma se pôs a trocar pedaços de pão durante o recreio.&lt;br /&gt;A professora apercebeu-se das trocas e perguntou:&lt;br /&gt;— Mas o que é que vocês estão aí a fazer?&lt;br /&gt;Carlota e Remi contaram-lhe toda a história do pão dos outros.&lt;br /&gt;E logo após o recreio, o que é que estava em cima da secretária da professora? …um pedaço de pão!&lt;br /&gt;Toda a classe tinha os olhos postos na professora. Ela sorriu e comeu o pão.&lt;br /&gt;E, no domingo seguinte, quando Remi viu a avó, era ele que tinha uma história para lhe contar:&lt;br /&gt;— Sabes, avó? Olha, na minha turma…&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Michèle Lochak&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Le pain des autres&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Paris, Flammarion, 1980&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;traduzido e adaptado&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7129102270154184458-8191172382444265865?l=caminhos-de-solidariedade.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/feeds/8191172382444265865/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7129102270154184458&amp;postID=8191172382444265865' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8191172382444265865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7129102270154184458/posts/default/8191172382444265865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://caminhos-de-solidariedade.blogspot.com/2007/06/o-po-dos-outros-michle-lochak.html' title='O pão dos outros - Michèle Lochak'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
