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segunda-feira, 23 de julho de 2007

O presente da costureira de colchas - Jeff Brumbeau



Era uma vez uma costureira de colchas que vivia numa casa no cimo das montanhas de bruma azulada. Até o mais idoso dos tetravôs não se lembrava de um tempo em que ela não estivesse lá em cima a coser, dia após dia.
Aqui e ali, e onde quer que o sol aquecesse a terra, dizia-se que ela fazia as colchas mais belas que alguma vez se tinha visto.
Os azuis pareciam vir do mais profundo do oceano; os brancos, das neves mais boreais; os verdes e os púrpuras, das abundantes flores silvestres; os vermelhos, os cor-de-rosa e os cor-de-laranja, do mais maravilhoso dos pores-do-sol.
Algumas pessoas diziam que os seus dedos eram mágicos. Outras murmuravam que as suas agulhas e tecidos eram dádivas do povo das fadas. E outras diziam ainda que as colchas tinham caído de anjos que por ali passavam.
Muita gente subia a montanha, com os bolsos a abarrotar de oiro, na esperança de comprar uma daquelas maravilhosas colchas. Mas a costureira não as vendia.
— Dou as minhas colchas aos que são pobres ou não têm casa – dizia a todos os que lhe batiam à porta. – Não são para os ricos.
Nas noites mais frias e escuras, a costureira descia até à cidade, no sopé da montanha. Percorria as ruas calcetadas até encontrar alguém a dormir ao relento. Então, tirava do saco uma manta acabada de fazer, enrolava-a nos ombros dos que tremiam de frio, aconchegava-os bem, e afastava-se depois em bicos de pés.
No dia seguinte, depois de beber uma chávena fumegante de chá de amoras, começava uma nova manta.
Por esta altura, vivia também um rei, senhor de muito poder e ambição, que, mais do que tudo, gostava de receber prendas.
Os milhares e milhares de lindíssimos presentes que recebia pelo Natal e pelo seu aniversário nunca lhe chegavam. Proclamou, então, uma lei que dizia que o rei passaria a festejar o seu dia de aniversário duas vezes por ano.
Quando isto também deixou de o satisfazer, deu ordens aos seus soldados para procurarem pelo reino as poucas pessoas que ainda não lhe tinham dado prenda alguma.
No decurso dos anos, o rei foi ficando com quase todas as coisas mais bonitas do mundo. Os seus inúmeros bens estavam empilhados um pouco por todo o castelo. Em gavetas ou prateleiras, em caixas e arcas, em armários e sacos.
Coisas que brilhavam, cintilavam e tremeluziam.
Coisas extravagantes e práticas.
Coisas misteriosas e mágicas.
Eram tantas, que o rei tinha uma lista de tudo o que possuía.
Mas, apesar de ser dono de todos estes tesouros maravilhosos de desfrutar, o rei não sorria. Não era nada feliz.
— Deve haver, algures, algo de bonito que me faça, finalmente, sorrir — ouvia-se o rei dizer muitas vezes. — E hei-de tê-lo.
Um dia, um soldado entrou precipitadamente no castelo com a notícia de uma mágica costureira de colchas que vivia nas montanhas.
O rei bateu com o pé no chão.
— E por que razão essa pessoa nunca me deu nenhuma das suas colchas de presente? — perguntou ele.
— Ela só as faz para os pobres, Vossa Majestade — respondeu o soldado. — E não as vende por dinheiro algum.
— Isso é o que vamos ver! — bradou o rei. — Tragam-me um cavalo e mil soldados.
E partiram à procura da costureira de colchas.
Quando chegaram a casa dela, esta limitou-se a rir.
— As minhas colchas são para os pobres e necessitados e vê-se facilmente que não és nem uma coisa nem outra.
— Eu quero uma dessas colchas — exigiu o rei. — Talvez seja o que finalmente me fará feliz.
A mulher pensou por um momento.
— Oferece tudo o que tens — disse — e então far-te-ei uma manta. Por cada prenda que deres, acrescento um quadrado à manta. Quando tiveres dado todas as tuas coisas, a tua manta estará terminada.
— Dar todos os meus maravilhosos tesouros? — gritou o rei. — Eu não dou, eu recebo!
E, dito isto, deu ordem aos soldados para se apoderarem da linda manta de estrelas da costureira.
Mas, quando se precipitaram sobre ela, a mulher lançou a manta pela janela e uma forte rajada de vento levou-a.
O rei ficou muito zangado. Levou a costureira montanha abaixo, atravessou a cidade e subiu outra montanha, onde os seus ferreiros reais fizeram uma grossa pulseira de ferro. Acorrentaram-na a uma rocha na gruta de um urso que estava a dormir.
O rei pediu-lhe novamente uma manta, e uma vez mais ela recusou.
— Muito bem, então — respondeu o rei. — Vou deixar-te aqui. Quando o urso acordar, tenho a certeza de que vai fazer de ti um óptimo pequeno almoço.
Quando, algum tempo mais tarde, o urso abriu os olhos e viu a costureira na gruta, equilibrou-se nas fortes pernas traseiras e soltou um rugido que sacudiu os ossos da mulher. A costureira ergueu os olhos para o urso e abanou tristemente a cabeça.
— Não admira que sejas tão resmungão — disse. — Para além de rochas, não tens nada onde possas à noite descansar a cabeça. Arranja--me um braçado de agulhas de pinheiro e, com o meu xaile, far-te-ei uma almofada grande e fofa.
E foi isso que fez. Nunca ninguém fora antes tão amável para com o urso, que partiu a pulseira de ferro da mulher e lhe pediu que lhe fizesse companhia durante a noite.
Mas, embora o rei desempenhasse bem o papel de homem ambicioso, desempenhava mal o papel de homem malvado. Durante toda a noite não conseguiu dormir a pensar na pobre mulher, na gruta.
— Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? — lamentava-se.
Acordou os soldados e lá marcharam todos em pijama até à gruta para a salvarem. Mas, quando chegaram, o rei encontrou a costureira e o urso a tomarem um pequeno-almoço de frutos silvestres e mel.
Então, o rei esqueceu por completo a pena que sentira e voltou a ficar zangado. Ordenou aos construtores reais de ilhas que construíssem uma ilha tão pequena que a costureira só lá pudesse ficar em bicos de pés.
Novamente o rei lhe pediu uma manta e novamente ela recusou.
— Muito bem — respondeu o rei. — Esta noite, quando estiveres demasiado cansada para te manteres em pé e quiseres deitar-te para dormir, afogar-te-ás.
E o rei deixou-a só na minúscula ilhota.
Pouco depois de ele partir, a costureira viu um pardal atravessar o grande lago. Soprava um vento forte e violento e o pobre pássaro não parecia capaz de chegar a terra. A costureira chamou-o e ele poisou no ombro dela para descansar. Como o pobre e cansado pardal estava a tremer, a senhora fez-lhe uma capa de um pedaço de tecido do seu colete púrpura. Quando a ave se sentiu mais quente e o vento parou de soprar, levantou voo de novo, grato pelo que a costureira lhe tinha feito.
Dali a pouco, o céu escureceu devido a uma enorme nuvem de pardais. Com as asas sempre a bater, milhares deles desceram, pegaram na mulher com os seus pequeninos bicos e levaram-na em segurança para terra.
Novamente nessa noite, o rei não conseguia dormir a pensar na senhora, sozinha na ilha.
— Oh, meu Deus, o que é que eu fui fazer? — lamentava-se.
Voltou a acordar os soldados que estavam a dormir, e lá marcharam em pijama até ao lago, para libertarem a costureira. Mas, quando chegaram, ela estava sentada no ramo de uma árvore a coser minúsculas capas cor de púrpura para todos os pardais.
— Desisto! — gritou o rei. — O que tenho de fazer para me dares uma manta?
— Como já te disse — respondeu ela — oferece tudo o que tens e eu faço-te uma manta. E, por cada prenda que dês, acrescento mais um quadrado à tua manta.
— Não consigo fazer isso! — gritou o rei. — Eu adoro todas as minhas lindas e maravilhosas coisas.
— Mas, se elas não te fazem feliz — retorquiu a costureira — para que servem?
— Lá isso é verdade — suspirou rei.
E pensou muito, muito no que ela dissera. Pensou durante tanto tempo, que as semanas se sucederam umas às outras.
— Pronto, está bem — disse entredentes. — Se tenho de me libertar dos meus tesouros, então que seja!
O rei regressou ao castelo e procurou, de uma ponta a outra, qualquer coisa da qual conseguisse abdicar.
De sobrolho franzido, lá acabou por encontrar um simples berlinde. Só que o rapazinho que o recebeu retribuiu-lhe o gesto com um sorriso tão radiante, que o rei regressou ao castelo para ir buscar mais coisas.
Por fim, pegou num amontoado de casacos aveludados e foi distribuí-los pelas pessoas vestidas de trapos. Ficaram todas tão contentes, que se puseram a desfilar pelas ruas da cidade.
Mas, ainda assim, o rei não sorria.
Em seguida, foi buscar uma centena de gatos siameses azuis, que dançavam valsas, e uma dezena de peixes transparentes como vidro. Depois, deu ordem para que trouxessem para fora o carrocel com os cavalos verdadeiros. As crianças gritaram de entusiasmo e puseram-se a dançar em redor dele.
O rei olhou à sua volta e viu as danças, a felicidade e a alegria que os seus presentes tinham trazido. Uma criança pegou-lhe na mão e puxou-o para dançar. O rei agora sorria e até soltava gargalhadas.
— Como é isto possível? — exclamou. — Como é possível eu sentir-me tão feliz por dar as minhas coisas? Tirem tudo cá para fora! Tirem tudo imediatamente!
Entretanto, a costureira manteve a sua palavra e começou a fazer uma manta especial para o rei. Por cada presente que ele dava, ela acrescentava outro quadrado à manta.
O rei continuou a dar e a dar. Quando, por fim, não havia mais ninguém que não tivesse recebido alguma coisa, o rei decidiu ir pelo mundo e procurar outras pessoas que precisassem das suas prendas.
Antes de partir, o rei prometeu à costureira que lhe enviaria um pardal de todas as vezes que desse alguma coisa.
De manhã, à tarde e à noite, as carroças partiam da cidade, cada uma delas carregada até cima com todos os objectos maravilhosos do rei. E durante anos e anos, os pardais mensageiros foram voando até ao peitoril da janela da costureira, à medida que ele ia esvaziando lentamente os seus carros por onde quer que passasse e trocava os seus tesouros por sorrisos.
A costureira trabalhava sem parar e, pedaço a pedaço, a manta do rei foi crescendo, cada vez maior e mais bonita.
Por fim, certo dia, um pardal cansado entrou-lhe pela janela e poisou na agulha. A costureira compreendeu imediatamente que este era o último mensageiro. Deu o último ponto na manta e desceu a montanha em busca do rei.
Após uma longa busca, encontrou-o finalmente. As suas vestes reais estavam agora em farrapos e os dedos dos pés espreitavam-lhe das botas. Os olhos brilhavam de alegria e o riso era maravilhoso e sonoro. A costureira retirou do saco a manta e desdobrou-a. Era de tal forma bela, que borboletas e colibris esvoaçavam à sua volta. Ergueu-se em bicos de pés e pô-la à volta do rei.
— O que é isto? — exclamou ele.
— Prometi-te há muito tempo — disse ela — que quando fosses pobre, te daria uma manta.
O riso radiante do rei fez cair maçãs e levou as flores a voltarem-se para ele.
— Mas eu não sou pobre — disse. — Posso parecer pobre mas, na verdade o meu coração está cheio a mais não poder, com as recordações de toda a alegria que dei e recebi. Agora sou o homem mais rico.
— Mesmo assim, fiz esta manta só para ti — disse a costureira.
— Obrigado — respondeu o rei. — Mas só fico com ela se aceitares uma prenda minha. Há um último tesouro que ainda não dei. Guardei-o todos estes anos só para ti.
O rei retirou o seu trono do carro velho e frágil.
— É mesmo muito confortável — disse o rei. — E o ideal para quem passa longos dias a coser.
A partir desse dia, o rei voltou muitas vezes à casa da costureira de colchas, que ficava bem lá em cima, perto das nuvens.
Durante o dia, a costureira fazia lindas colchas que não vendia e, à noite, o rei levava-as para a cidade. Procurava, então, os pobres e infelizes, pois nunca se sentia tão feliz como quando dava alguma coisa a alguém.


Jeff Brumbeau
The quiltmaker’s gift
New York, Orchard Books, 2000
Tradução e adaptação

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Joana Jugan

Paul Milcent
Joana Jugan
Publicação das Irmãzinhas dos Pobres
(excertos)

A filha de um pobre marinheiro
(1792-1816)

Uma casinha baixa de tecto de colmo e solo de terra batida; um lugarejo nas alturas que dominam a baía de Cancale, na Bretanha (França) — eis o quadro em que nasceu Joana Jugan, no dia 25 de Outubro de 1792.
1792 — esta data evoca acontecimentos dramáticos. Algum tempo antes, duzentos padres eram massacrados em Paris, porque recusavam prestar o juramento exigido pelo poder revolucionário e, alguns meses depois, o Rei Luís XVI era guilhotinado.
Pressente-se, desde logo, que o Oeste de França irá sublevar-se para defender as suas tradições e haverá, durante sete ou oito anos, uma dura guerra civil. Como muitas outras igrejas, a de Cancale será encerrada e transformada em armazém de forragem. Estes difíceis acontecimentos vão marcar a infância da pequenina Joana, que será também duramente afectada pela morte prematura de seu pai. Tendo saído, por alguns meses, para a pesca no alto mar, não estava presente quando a filha nasceu. Outras vezes, não podia partir, quando o deveria fazer para ganhar algum dinheiro, porque a sua falta de saúde o impedia de embarcar. Então, a mãe tinha de trabalhar, de lavar roupa, durante dias inteiros, para sustentar os filhos — oito ao todo, dos quais, quatro, morreram de tenra idade. E um dia, quando Joana tinha três anos e meio, o pai voltou a embarcar e nunca mais voltou. Esperaram-no durante muito tempo, mas tiveram de aceitar esta quase certeza: ele tinha morrido no mar.
A pequenina Joana aprendeu com a Mãe a fazer os trabalhos domésticos, a tratar dos animais, a rezar. Nessa época não havia catequese organizada, mas muitas crianças aprenderam o catecismo em segredo, com pessoas suas vizinhas que tinham adquirido uma fé pessoal e responsável numa espécie de ordem terceira fundada por S. João Eudes, no século XVII. Nesses anos difíceis, os membros desta Instituição, vivendo a sua vida laica como uma consagração a Cristo, desempenharam um papel considerável na transmissão da Fé. Foi, sem dúvida, graças a eles, que Joana aprendeu a ler e alcançou um conhecimento exacto da Fé Cristã. Mais tarde, ela própria entrará para esse grupo.
Por volta dos 15 ou 16 anos, Joana foi colocada como ajudante de cozinheira numa família dos arredores. A casa, que ainda existe, chamava-se «Mettrie-aux-Chouettes». A rapariguinha chegou lá muito tímida, mas pronta a aprender e a fazer bem o seu novo trabalho. Parece que a Senhora De La Choue a acolheu afectuosamente e a rodeou de simpatia. Com o decorrer dos anos teve mesmo por ela uma grande admiração porque Joana não foi só empregada na cozinha — esteve ligada ao serviço dos pobres. Ia visitar famílias indigentes e velhinhos que viviam isolados e aprendia já a partilha, o respeito, a ternura e quanta delicadeza é necessária para que se não humilhem os que precisam de ser ajudados.
Por essas alturas, um jovem pediu-a em casamento e, segundo o costume, Joana pediu-lhe que esperasse. E continuou o seu serviço que, para ela, era também uma escola onde se aperfeiçoava. Um pouco mais tarde, em 1816, houve em Cancale, uma grande missão a cumprir: depois da terrível tempestade da revolução era preciso reconstruir a Fé e a Igreja. Joana participou nessa tarefa. Foi então que decidiu guardar-se para o serviço de Deus e não se casar, o que fez saber ao seu pretendente.
O futuro era uma incógnita. Existia nela, todavia, um pressentimento indefinido, talvez. Mesmo assim, disse um dia à Mãe:
«Deus quer-me para Ele. Guarda-me para uma obra que não é conhecida, para uma obra que ainda não está fundada.»

Primeiros passos em direcção aos pobres
(1817-1823)

Em 1817, Joana, com 25 anos, deixou Cancale e a Família. As suas duas irmãs eram casadas e, dentro em breve, seriam mães, Mas ela fizera outra escolha. Deixou às irmãs uma parte dos seus fatos «tudo o que tinha de elegante e de bonito» — diz-se; e partiu para Saint-Servan, pondo-se ao serviço dos pobres; queria ser pobre como eles. De facto, a cidade de Saint-Servan estava cheia de pobres, de necessitados. Quase metade da população estava inscrita no serviço de Beneficência e numerosos mendigos assediavam as poucas famílias que viviam mais à vontade.
Joana entrou como enfermeira no hospital «du Rosais», demasiado pequeno para acolher as misérias que lá se refugiavam, porque um hospital, naquela altura, era mais um refúgio para todas as angústias que um importante lugar de ciência médica; e uma enfermeira apenas sabia preparar chás, fazer pensos, pôr cataplasmas...
Durante cerca de sete anos, Joana dedicou-se aos trezentos doentes que aí se amontoavam, com trinta e cinco crianças encontradas ou abandonadas. Entre estes desgraçados «tinhosos, com sarna ou com doenças venéreas» e sem meios suficientes, o trabalho era rude, esgotante! Joana entregou-se a esta tarefa com todo o seu coração. Além disso, contasse, consagrava os seus momentos livres a iniciativas apostólicas; foi assim que teria ajudado um enfermeiro a aprender o catecismo.
Era animada por uma fé viva. Aquando de uma missão que reavivou a vida cristã em Saint-Servan, em 1817, criaram-se congregações destinadas a encorajar uma ajuda espiritual, a estimular a oração e a reflexão cristãs. Joana inscreveu-se na congregação das raparigas.
Um pouco mais tarde, entrou para um grupo mais exigente, a tal «ordem terceira eudista» (ou Sociedade do Coração da Mãe Admirável), que ela conhecera, sem dúvida, desde a infância, através das pessoas de fé que lhe tinham ensinado o catecismo.
As mulheres que compunham esta sociedade levavam uma espécie de vida religiosa em casa e juntavam-se, regularmente, em reuniões de oração e de partilha. Impunham-se uma disciplina de vida e de oração quotidiana. Era sobretudo aí que encontravam uma tradição espiritual forte, herdada de S. João Eudes; o apelo a um cristianismo do coração, a iniciação a uma fé pessoal e livre, relação viva com Jesus Cristo.
Joana foi membro desta ordem terceira durante vinte anos e parece que ficou profundamente marcada por ela. O espírito do grupo encontra-se na primeira regra ou hábitos das Irmãzinhas dos Pobres, principalmente no que respeita à comunhão viva com Jesus e à renúncia de si mesma — caminho para a liberdade interior.
Mas nós tínhamos deixado Joana no «Hospital du Rosais», no meio dos seus pobres doentes, numa extrema pobreza de meios. Ao fim de seis anos, tendo ultrapassado os limites das suas forcas, estava completamente exausta e teve de abandonar o seu trabalho.


Um tempo de pausa e de maturação
(1824-1839)

Joana encontrou, mesmo no momento oportuno, um novo emprego que foi simultaneamente para ela, uma pausa benéfica: uma certa Mlle. Lecoq, vinte anos mais velha do que ela e que era, sem dúvida, também membro da ordem terceira, contratou-a como criada e como amiga. Ambas viveram durante doze anos uma vida comum ocupada pela oração, pelas tarefas domésticas de uma existência modesta, pela presença junto dos pobres e pela catequese às crianças.
Mlle. Lecoq estava atenta à saúde da sua companheira, obrigava-a a arranjar-se, tomava conta dela.
Ambas viviam, com o seu povo, os bons e os maus dias. E houve dias de miséria, particularmente nos anos 1825-1832: em consequência de uma grave crise financeira em Londres, em 1825 e das más colheitas em França, nos anos seguintes, muitas pessoas conheceram a fome. Viu-se aumentar o número de indigentes e mesmo de desempregados que erravam, em bandos, pelos campos. Em S. Servan, o número dos necessitados aumentou ainda mais... Ambas estavam atentas a isso e tomavam, generosamente, parte nos esforços colectivos desenvolvidos para aliviar os miseráveis.
Mas a querida Mlle. Lecoq adoeceu e, em Junho de 1835, morreu, deixando a Joana os móveis e uma pequena quantia em dinheiro.
Para viver, Joana pôs-se a trabalhar a dias em casa de famílias de S. Servan que recorriam a ela: trabalho doméstico, lavagem de roupa, serviço de vigilância a doentes... Laços de amizade foram assim criados com um certo número de pessoas; estas relações foram, mais tarde, muito preciosas para Joana e para aqueles a quem ela ia ligar o seu destino.
Joana tornou-se amiga de uma mulher muito mais velha que ela, Françoise Aubert ou Fanchon. Juntando os seus recursos, alugaram uma casa no centro de S. Servan: duas divisões no andar e duas outras adaptadas nos forros.
Aí, as duas companheiras levaram uma vida ritmada pela oração, muito semelhante à que Joana levava com Mlle. Lecoq. Fanchon fiava em casa e Joana continuava os trabalhos fora.
Mas, daí a pouco tempo, uma terceira foi juntar-se-lhes: uma rapariguinha de 17 anos, órfã, chamada Virgínia Trédaniel. Esta, parece, ter entrado, sem dificuldade, na vida de oração das suas amigas mais velhas. A partir desse ano de 1838, levarão as três — 72, 46 e 17 anos — uma vida regular em comum que só a morte virá interromper.
Joana entregava-se cada vez mais aos pobres que a rodeavam em S. Servan. Mas que fazer? Sentia-se impotente perante estas imensas e múltiplas misérias... Bastaria sentir essa ferida no seu coração? Não seria preciso, com uma espécie de loucura, partilhar mesmo o necessário, mesmo a sua própria casa? Não seria necessário sentir na sua carne?
É esse passo que Joana vai agora dar e não voltará atrás.


Joana dá a sua cama
(1839-1842)

No final de 1839, talvez quando estavam a chegar os primeiros frios do Inverno, Joana tomou uma decisão: de acordo com Fanchon e com Virgínia, trouxe para casa uma mulher idosa, Ana Chauvin (viúva Haneau) cega e doente. Até então, esta velhinha vivia acompanhada pela irmã, mas esta acabava de dar entrada no hospital — situação desesperada.
Conta-se que Joana, para subir com ela a escada estreita de sua casa, a levou às costas... O que é certo é que ela lhe deu a sua própria cama e foi instalar-se no sótão. E «adoptou-a como sua Mãe».
Pouco depois, uma outra mulher idosa, Isabel Coeuru, veio juntar-se a Ana Chauvin. Tinha servido, até ao fim, os seus velhos patrões caídos na miséria; tinha gasto com eles as suas próprias economias; depois, tinha andado a pedir esmola para os manter vivos. Tinham morrido e ela estava exausta e doente. Joana tomou conhecimento desta bela história de fidelidade e de partilha e acolheu a sua protagonista sem demora; desta vez, foi Virgínia que cedeu a sua cama e foi para o sótão.
À noite, depois de terem tratado as suas protegidas e dado as boas-noites à boa Fauchon, Joana e Virgínia subiam a escada que conduzia ao sótão e, descalçando os sapatos para não fazerem barulho, terminavam as suas tarefas e as suas orações antes de se deitarem.
Eram ao todo três a trabalhar (Virgínia era costureira) para manter cinco pessoas, duas das quais, idosas e doentes; às vezes, à noite, depois do trabalho, tinham de fazer serão para coser ou lavar a roupa. Foi, talvez, a partir dessa altura que Joana começou a estender a mão às famílias que ela conhecia bem.
Virgínia tinha uma amiga, mais ou menos da sua idade, Marie Jamet que não tardou a conhecer Joana e toda a gente da casa. Ela própria vivia em casa dos pais e trabalhava com a mãe: mantinham um pequeno negócio.
Marie vinha muitas vezes visitar a sua amiga e também ela dedicava a Joana um grande afecto e admiração. As três — e às vezes Fanchon com elas — falavam de Deus, dos pobres e das questões que a vida lhes punha. Joana fez saber às suas duas jovens amigas que pertencia à ordem terceira eudista. Elas eram ainda muito novas para entrar na Ordem, mas fizeram, com a ajuda de Joana, um pequeno regulamento de vida inspirado no da ordem terceira.
Maria e Virgínia falaram da sua amizade e da sua entrea-juda espiritual, a um jovem vigário de S. Servan, o abade Auguste Le Pailleur, que era o confessor de ambas. Ele concordou com elas e prometeu ajudá-las. Conheceu Joana e interessou-se pelo grupo e pela sua acção benfazeja. Empreendedor, engenhoso, hábil, preocupando-se ele, também, com os pobres, pensou que deveria encorajar o que poderia ser o começo de uma obra. O seu apoio ia ser eficaz, mas também fonte de quantas provações!
A 15 de Outubro de 1840, com a sua ajuda, as três amigas formaram uma associação de caridade que adoptou, como lei, o pequeno regulamento elaborado por Maria e Virgínia.
Assim, à volta das duas velhinhas acolhidas por Joana, nasceu uma pequena célula: era já o embrião duma grande congregação que se chamaria, muito mais tarde, «as Irmãzinhas dos Pobres».
Em 1840, Joana e as suas companheiras não o sabiam. Mas já sonhavam em albergar outras misérias, em oferecer a outras pessoas conforto, segurança e ternura. O dinheiro, Deus não lho recusaria. Mas a casa estava cheia e decidiram mudar.
Um velho «cabaret», ali perto, estava para alugar: era uma grande sala baixa, sombria com duas pequenas divisões contíguas cujo aluguer custaria cem francos por ano. Alugaram-no. E a mudança fez-se no dia de S. Miguel, no ano de 1841. A esta casa se chamou, para a posteridade, «le-grand-en-bas».
Doze mulheres idosas, contando com as que já tinham sido recolhidas, foram ocupá-la. Joana, Fanchon e Virgínia instalaram-se na pequena divisão ao fundo. Maria e Madalena ajudavam e davam algum dinheiro.
E as velhinhas, tanto quanto podiam, fiavam a lã ou o linho; vendiam o fruto do seu trabalho, o que ajudava à subsistência do grupo.
Não ficaram, contudo, por muito tempo no «grand-en-bas»; ainda não era suficientemente grande. Havia um velho convento que estava à venda. Com a ajuda de alguns donativos generosos e na esperança de peditórios abundantes para poderem pagar a dívida, a Casa da Cruz foi comprada em Fevereiro de 1842 e a mudança fez-se, em Setembro do mesmo ano.
A 29 de Maio de 1842, as associadas reuniram-se com o abade Le Pailleur; queriam organizar-se mais solidamente, tendo em vista o futuro. Completaram melhor o regulamento de vida que já seguiam, tomaram o nome oficial de «Servas dos Pobres», escolheram Joana para Superiora e prometeram-lhe obediência. Assim, por um crescimento quase imperceptível, como o de um rebento, a pequena sociedade tomava, pouco a pouco, a aparência de uma comunidade religiosa. Joana deixava-se guiar pelos apelos da vida, os quais identificava como apelos do Espírito.

O peditório
(1842-1852)

«Irmã Joana, substitua-nos! Peça em vez de nós!...». Assim pediam as boas velhinhas que tinham vivido muito tempo a pedir. Acentuavam, deste modo, a essência desta iniciativa do peditório que iria ocupar um lugar tão importante na vida de Joana. Ela própria iria tomar o lugar dos pobres, identificar-se com eles; ou melhor, guiada pelo Espírito de Jesus, ia reconhecer, entre eles a «sua própria carne» (Is. 58,7). A miséria deles, seria a sua própria miséria, o peditório deles, seria o seu próprio peditório.
Aliás, motivos de ordem prática levaram-na a fazer o peditório, ela própria. Se tivesse deixado que as boas mulheres (como eram gentilmente conhecidas) continuassem a andar pelas ruas da cidade, tê-las-ia exposto a muitas desgraças, sobretudo as que se entregavam à bebida. Pediu, então, delicadamente, a todas elas, que lhe dessem a morada dos seus benfeitores e fazia o peditório em vez delas. E explicava: «Desculpe, Senhor, a partir de agora já não será a velhinha que vinha habitualmente pedir, serei eu. Por favor, continue a ajudar-nos com a sua esmola». Repare-se neste «nos»...
Devido à sua maneira de ser, não lhe foi fácil tomar esta decisão. É certo que tinha visto, antigamente, em Cancale, as mulheres de marinheiros ajudarem-se mutuamente, pedindo esmola com dignidade, mas isso não bastava para a fazer entrar de coração alegre, na mendicidade.
Já velhinha, recordar-se-á ainda desta vitória sobre si-mesma que ela teve de alcançar muitas vezes: «Eu ia com o meu cesto pedir para os nossos pobres... Isto custava-me, mas fazia-o por Deus e pelos nossos queridos pobres.»
Ajudou-a nisso um Irmão de S. João de Deus, Claude-Marie Gandet. Os Irmãos tinham, nessa época, em Dinan, uma comunidade activa, zelosa e um hospital; desempenharam um papel importante no peditório de Joana. Aconteceu que, um dia, o Irmão Gandet foi ao «grand-en-bas» pedir esmola para o hospital. Encontrou Joana que ficou perplexa! Compreenderam-se e ele ajudou-a a lançar-se deliberadamente no caminho do peditório. Para a ajudar, prometeu colaborar com ela e anunciar a sua visita a várias famílias onde ele havia de ir também. Diz-se mesmo que lhe ofereceu o seu primeiro cesto de esmolas.
Joana fez-se, portanto, mendiga. Pedia dinheiro, mas também géneros alimentícios: comida, restos de refeições ou sobras serão muitas vezes apreciados, objectos, fatos... «Ficar-lhe-ia muito reconhecida se pudesse dar-me uma colher de sal ou um pouco de manteiga... Precisávamos de uma caldeira para ferver a roupa... Um pouco de lã ou estopa, dava-nos muito jeito...». Nunca tinha receio de confessar a sua fé; se ia pedir madeira para fazer uma cama, muitas vezes, esclarecia: «Eu precisava de um pouco de madeira para aliviar um membro de Jesus Cristo.»
Nem sempre era bem acolhida. Um dia, quando andava a pedir, bateu à porta de um velho rico e avarento. Conseguiu convencê-lo e ele deu-lhe uma boa oferta. Joana voltou no dia seguinte mas, desta vez, ele zangou-se. Ela sorriu e disse: «Meu caro Senhor, as minhas pobres tinham fome ontem; têm fome hoje; e terão amanhã...». Ele tornou a dar e prometeu continuar.
Assim, com um sorriso, ela sabia convidar os ricos à reflexão e à descoberta das suas responsabilidades. Uma das suas frases ficou célebre. Um velho solteirão, irritado, deu-lhe uma bofetada. Ela respondeu: «Obrigada! Isto foi para mim. Agora dê-me alguma coisa para as minhas pobres, se faz favor!»
Joana ia muitas vezes pedir à Comissão de Beneficência da cidade e, nos primeiros tempos, tratavam-na como se fosse da casa; mas um dia, uma empregada tratou-a com aspereza e disse-lhe que tomasse o seu lugar. Quando era muito difícil, Joana encorajava-se a si própria. Dizia à companheira: «Caminhemos para Deus!» ou então, num dia de festa em S. Servan, com um dos tais meios-sorrisos que lhe eram familiares: «Hoje vamos fazer um bom peditório porque os nossos velhinhos tiveram um bom jantar. S. José deve estar contente por ver que os seus protegidos são bem tratados e vai abençoar-nos!»
Parece que a sua presença impressionava favoravelmente as pessoas, pois possuía uma espécie de encanto que agia sobre elas. Um homem que a conheceu bem, teve esta bonita expressão: «Ela tinha um tal dom da palavra, uma maneira tão agradável de pedir... Pedia, louvando a Deus, por assim dizer.»
Vivido assim, o peditório transfigurava-se. Teria podido provocar uma simples atitude de contribuição, de colaboração, pela qual os ricos ficariam com a consciência tranquila; mas Joana transformava-o numa evangelização que interpelava a consciência e convidava a uma mudança de vida.
Graças ao peditório, a acção da pequena comunidade pôde ser ampliada. Instalaram-se sem receio na «Casa da Cruz» e, no mês de Novembro de 1842, havia lá vinte e seis velhinhas, algumas das quais muito doentes. Isto exigia muito trabalho.
Madeleine Bourges veio juntar-se às associadas. Ela e Virgínia Trédaniel abandonaram o seu trabalho profissional para se dedicarem, totalmente, ao serviço das pessoas que tinham acolhido. Pouco depois, Maria Jamet fez o mesmo. Conta-se apenas com o peditório para assegurar a subsistência... e acabar de pagar a casa.
Um médico que tinha conhecido Joana no Hospital de Rosais, ficou contente por encontrá-la à frente da «Casa da Cruz» e aceitou tratar, gratuitamente, os pobres velhinhos e, até 1857, fê-lo com uma grande abnegação.
Deu-se um acontecimento importante durante o Inverno de 42-43: a entrada do primeiro velhinho. Tinham falado a Joana deste velho marinheiro que vivia doente e só numa cave húmida onde ela o encontrou num estado lamentável, em farrapos, deitado na palha apodrecida, extremamente cansado, esgotado. Movida pela mais viva compaixão, Joana foi contar o que tinha visto a um dos seus benfeitores e voltou pouco depois com uma camisa e roupa limpa. Lavou-o, mudou-lhe a roupa e levou-o para casa. Foi lá que ele recuperou as forças. Chamava-se Rodolfo Laisnê. Pouco depois, outros homens vieram juntar-se a ele. Às vezes, uma nova ajuda ou necessidades que surgiam, davam um novo impulso ou alargavam o peditório. Um dia, uma certa Mlle. Dubois ofereceu-se para acompanhar Joana no peditório pelos campos vizinhos. Era uma pessoa respeitada e conhecida que assim se comprometia, mendigando com Joana. A sua presença surpreendeu toda a gente e as bolsas abriram-se mais generosamente. Além do dinheiro, as pedintes receberam trigo, trigo mourisco, batatas e ainda linho, pano... E novas amizades se fizeram.
Fazia-se agora mais assiduamente o peditório das sobras. Às vezes, organizava-se um grande peditório de roupa. Criou-se o peditório dos mercados e também o dos navios, no porto de Saint-Malo. Com a compra da «Casa da Cruz», tinha sido contraída uma pesada dívida de vinte mil francos. Dois anos e meio mais tarde, em fins de 1844 e com sete anos de avanço, Joana tinha tudo pago. De vez em quando chegava um donativo inesperado. Foi o que aconteceu quando o sobrinho de uma vendedeira de peixe, de muito má fama, verificou o prodígio: acolhida na «Casa da Cruz», tinha-se tornado uma outra mulher, tinha reencontrado a sua dignidade. Encantado por isso, o generoso sobrinho legou sete mil francos à Casa; morreu pouco depois. Esta quantia chegou a tempo para pagar o telhado dum novo edifício cuja construção tinha sido iniciada, sem quaisquer reservas de dinheiro: apenas uma moeda de cinquenta cêntimos que puseram aos pés de uma estátua de Nossa Senhora. Todos se entregaram à obra. Uns deram pedras, outros cimento, outros transportavam gratuitamente os materiais, outros, ainda, davam horas de trabalho. As Irmãs trabalhavam com a pá ou com a colher de pedreiro; e para pagarem os três mil francos que faltavam, o Prémio Montyon chegou mesmo em boa altura.
Era um prémio atribuído todos os anos pela Academia Francesa a um francês pobre, autor da acção mais digna de mérito. Os amigos da casa insistiram junto de Joana que acabou por aceitar que o pedissem para ela. O presidente da Câmara de S. Servan e as personagens mais influentes da cidade enviaram um manifesto à Academia e, no dia 11 de Dezembro de 1845, diante de um ilustre auditório no qual figuravam Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, Thiers e muitas outras celebridades, o Sr. Dupin, o mais velho, fez um vibrante elogio da humilde Joana, de que os jornais se fizeram eco. O discurso foi publicado. Joana apercebeu-se de que este discurso poderia ser-lhe muito útil. Para onde fosse pedir, levaria, como ela dizia, «a brochura da Academia», o que seria para ela uma recomendação eficaz. Utilizá-la-ia, de facto, no decurso dos seus peditórios em novas localidades: Dinan, Rennes, Tours, Angers e muitas outras cidades de França.
Durante dez anos, quase sem interrupções, de 1842 a 1852, Joana levou esta vida de mendiga. E nunca foi desiludida por Aquele em Quem tinha posto toda a sua confiança, Ante a admiração de todos, o número de velhinhos pobres aumentava sem cessar; eram bem tratados e felizes. Ampliava-se a casa e iam--se comprando outras... sem nada, sem recursos assegurados. Nenhuma outra explicação a não ser o incansável peditório de Joana, o esforço colectivo de toda uma cidade estimulada por ela e a sua fé no indefectível amor de Deus pelos seus pobres.


As irmãs dos pobres

Pouco a pouco, o pequeno grupo formado por Joana e pelas suas amigas apercebia-se de que estava a seguir uma vida religiosa e organizava-se em conformidade com ela. Tinham feito votos — votos privados, ainda não votos religiosos oficiais — de obediência e de castidade. Usavam já uma espécie de uniforme, inspirado, aliás, nos fatos das camponesas da região. Como os Irmãos de S. João de Deus, as Irmãs traziam com elas um pequeno crucifixo e um cinto de couro; Joana era a Irmã Maria da Cruz.
Em Dezembro de 1843, foi reeleita Superiora. Aconteceu, no entanto, que duas semanas mais tarde, o abade Le Pailleur, por sua autoria, anulou essa eleição e designou como superiora, a tímida Maria Jamet, de 23 anos que era sua penitente; seria mais dócil na sua mão que Joana Jugan, de 51 anos, fortalecida por uma longa experiência, conhecida em S. Servan havia já vinte e seis anos e que não recorria, pessoalmente, a ele.
O sacerdote tinha decidido. Nessa época, face a um padre, que outra coisa teriam podido fazer essas humildes mulheres, senão curvar-se? Mas Joana não o fez sem dor e sem inquietação.
Continuaram, todavia, o seu caminho. Aliás, fora do pequeno grupo, ninguém se apercebeu dessa mudança; Joana mantinha-se aos olhos de todos, responsável pela obra começada.
No início de 1844, a associação mudou de nome oficial: as Irmãs decidiram chamar-se Irmãs dos Pobres, para testemunhar melhor, sem dúvida, a fraternidade evangélica proclamada por Jesus e a intenção de uma partilha total com esses irmãos e irmãs.
Mais tarde, as Irmãs fizeram, por um ano, os votos privados de pobreza e de hospitalidade: este quarto voto — pelo qual se dedicavam ao acolhimento dos velhinhos pobres — era directamente inspirado na regra estabelecida para os Irmãos de S. João de Deus.
Em Janeiro de 1844, Eulália Jamet foi juntar-se a sua irmã mais velha, Maria, na «Casa da Cruz». No fim de 1845, uma nova irmã foi associar-se ao pequeno grupo: Françoise Trévily foi a sexta Irmã dos Pobres. E, no ano seguinte, uma etapa decisiva iria ser ultrapassada: a fundação de uma segunda casa.
Em Janeiro de 1846, Joana partiu para Rennes. Ia pedir para os pobres de S. Servan. Mandou anunciar o seu peditório nos jornais locais que, aliás, tinham falado dela um mês antes, dando a notícia do Prémio Montyon e do discurso de Dupin na Academia Francesa.
Desde os primeiros dias passados em Rennes, Joana verificou que aí, os mendigos eram menos numerosos que em S. Servan; no entanto, os mais velhos precisavam de ajuda. Havia mesmo muita miséria nos bairros pobres da cidade. Imediatamente, um projecto de fundação se esboçou no seu espírito e Joana pediu a autorização da sua Superiora.
A partir deste momento, ela contactou com pessoas importantes e nem sempre bem dispostas, sem olhar a dificuldades. «É verdade, é uma loucura, isto parece impossível... Mas, se Deus está connosco, isto far-se-á!» E como não estaria Ele com os seus pobres?
Maria Jamet veio juntar-se a Joana que já tinha alugado um quarto muito grande e outro mais pequeno, ao lado. Daí a pouco tempo havia dez pensionistas. Era preciso encontrar uma casa maior. As duas Irmãs procuraram, mas em vão. Confiaram-se a S. José (que terá um lugar cada vez mais importante na oração das Irmãzinhas dos Pobres). No dia 19 de Março, dia da sua festa, Maria rezava na Igreja de todos os Santos. Uma pessoa aproximou-se dela: «Já tem casa?» — «Ainda não», respondeu Maria. «Eu tenho o que procuram.» Foram ver; a casa, situada nos subúrbios da Madalena, podia acolher quarenta ou cinquenta pobres e tinha um pavilhão que serviria de capela. De acordo com a casa de S. Servan, o contrato foi assinado a 25 de Março e a instalação fez-se nesse mesmo dia. Alguns soldados ajudaram a fazer a mudança e a transportar velhinhas. E a casa continuou a crescer, na pobreza.
Felizmente, algumas postulantes tinham entrado em S. Servan e outras vieram de Rennes e de outras localidades.
Joana tinha recomeçado os seus peditórios: Vitré, Fougères... Por onde passava, atraía; acontecia muitas vezes que, depois da sua passagem, algumas jovens pediam para entrar no noviciado.
Foi talvez nessa época que Joana foi até Redon. Bateu à porta do colégio dos Eudistas (ela também era um pouco eudista). Um padre contou: «Fui vê-la ao parlatório e ela electrizou-me (...) Sem mais demoras, levei-a à sala de estudo dos nossos pensionistas mais velhos. Eram cerca de cem (...) e Joana Jugan expôs, com simplicidade e clareza, o objectivo da sua missão. Maravilhados e profundamente comovidos, todos esses alunos esvaziaram totalmente os bolsos e as carteiras.»
Um pouco mais tarde, depois de um peditório de Joana, uma nova casa foi aberta em Dinan, numa velha torre das muralhas. Não tardaram, porém, a trocá-la por uma casa menos sinistra e depois por um antigo convento. No capítulo seguinte, tornaremos a falar da velha torre.
E Joana caminhava sempre, «com o alforge a tiracolo e o cesto na mão, pedindo em nome dos pobres velhinhos. Algumas vezes, era para ir socorrer uma das casas recentemente fundadas: Saint-Servan, Rennes, Dinan e mais tarde, Tours (1849). Porque esta obra, de cuja direcção ela tinha sido afastada, foi várias vezes salva do desastre por ela, porque era nela que as pessoas confiavam e porque era ela que sabia o que era preciso fazer-se. Joana vinha, tomava as medidas necessárias, obtinha os fundos que faltavam, encorajava uns e outros e depois desaparecia porque precisavam dela noutro lado. Não tinha onde «descansar a cabeça»; dava a impressão de que não pertencia a nenhuma comunidade local determinada. Desde que os pobres velhinhos estivessem abrigados, cuidados, amados, não se importava de estar sem lar nem lugar certo.


Um turista inglês e um jornalista francês falam de Joana

Voltemos um pouco atrás. No princípio de Agosto de 1846 Joana e Marie Jamet ocuparam, em Dinan, uma velha torre abandonada.
Três semanas mais tarde, um turista inglês bateu à porta; vinha ver Joana Jugan. Publicou, posteriormente, um relato da sua visita do qual damos, a seguir, a tradução parcial: «Para chegarmos ao local que elas ocupavam, era preciso subir uma difícil escada de caracol; o andar era baixo, as paredes nuas e grosseiras as janelas pequeninas e com grades de ferro, de modo que parecia que se estava numa caverna ou numa prisão; no entanto, esta aparência sombria era um pouco alegrada pela claridade da lareira e pelo ar feliz dos que ali habitavam (...).
«Joana recebeu-nos com uma expressão bondosa (...). Vestia um vestido preto, muito simples e muito limpo, uma touca e um lenço brancos; era o uniforme adoptado pela comunidade. Aparenta ter perto de 50 anos, é de estatura média, tem a pele queimada e parece cansada; mas a sua fisionomia é serena e cheia de bondade, não denotando o mais pequeno sintoma de pretensão ou de amor-próprio.
Desenrolou-se, então uma verdadeira entrevista entre este turista — que era também um homem de bem, ocupado na criação de um hospício de velhinhos — e Joana Jugan que respondeu, com simplicidade, às suas perguntas. «Ela não sabia donde lhe viriam as provisões para o dia seguinte, mas perseverava, com a firme convicção de que Deus nunca abandonaria os pobres e agia segundo este princípio certo: que tudo o que se faz por eles, faz-se por Nosso Senhor Jesus Cristo. «Perguntei-lhe como é que ela podia distinguir os que se lhe dirigiam e que pareciam mais miseráveis, mais desamparados; que começava pelos velhinhos e pelos doentes visto serem eles os mais necessitados e que se informava, junto dos vizinhos deles, da sua maneira de ser e dos seus recursos, etc.
Para não deixar ociosos os que ainda podiam fazer qualquer coisa, mandava-os desfiar e cardar velhos bocados de tecido e depois fiar a lã que obtinham; chegavam assim a ganhar seis «liards» (antiga moeda de cobre, francesa, equivalente a um quarto de soldo) por dia. Faziam também outros trabalhos, segundo as suas possibilidades e recebiam um terço do ganho obtido».
«Eu disse-lhe que depois de ter percorrido a França, ela deveria ir a Inglaterra ensinar-nos a tratar dos nossos pobres; Joana respondeu-me que, se Deus ajudasse, iria, se fosse convidada.
«Há nesta mulher qualquer coisa de tão calmo, de tão santo que, ao vê-la, eu pensei que estava na presença de um ser superior. E as suas palavras iam tão direitas ao meu coração que, não sei bem porquê, os meus olhos se encheram de lágrimas. Assim é Joana Jugan, a amiga dos pobres da Bretanha e só o facto de a ver bastaria para me compensar dos horrores de um dia e de uma noite passados num mar encapelado».

Crescimento

A «casa-mãe» e o noviciado encontravam-se, desde as suas humildes origens, no antigo convento da Cruz, em S. Servan. Mas já não havia lugares suficientes, desde o fim do ano de 1847, para albergar, além das pessoas idosas, as quinze postulantes e noviças que tinham iniciado a sua formação.
Como o abade Le Pailleur, o conselheiro de Maria Jamet, tinha tido algumas dificuldades com o bispo de Rennes, foi decidido instalá-las na casa de Tours, recentemente fundada. A partir dessa data, as jovens vão, aliás, afluir cada vez em maior número; no Verão de 1849, haverá já quarenta.
No dia l de Agosto, começou uma nova fundação: uma casa em Paris. Tinha sido pedida pela Conferência de S. Vicente de Paula, que tinha conhecido a obra através do Sr. D’Outremont. No fim do mesmo ano de 1849, duas outras casas começavam a surgir: uma em Besançon e outra em Nantes. Foi em Nantes que se espalhou o nome das «Irmãzinhas dos Pobres», o qual se tornou designação oficial um pouco mais tarde. A intuição popular tinha encontrado o qualificativo que melhor exprimia a intenção de Joana: excluindo toda a espécie de domínio, fazer-se pequenino, amar melhor.
Joana não tinha participado, directamente, na fundação das casas de Paris, de Besançon e de Nantes. Em contrapartida, foi ela que fez nascer a casa de Angers. Vejamos como.
Prosseguindo, incansavelmente o seu peditório, Joana chegou a Angers em Dezembro de 1849, onde já era esperada por várias famílias.
Ia pedir para as outras casas já feitas, mas teve, desde a sua chegada, (como em Rennes) a ideia de dotar a cidade de Angers — que a tinha recebido tão bem — de um asilo para os pobres velhinhos.
Graças a um padre, que era vigário geral em Rennes, encontrou-se rapidamente uma casa que foi inaugurada em Abril de 1850. Entretanto, Joana voltou, provavelmente, a Tours com o produto do seu peditório e, depois, foi pedir para outras cidades.
A 3 de Abril, regressou, então, a Angers em companhia de Maria Jamet e de duas jovens Irmãs. O Bispo Mons. Angebault, recebeu-as de braços abertos. Como acontecia em toda a parte, chegaram de mãos vazias: as quatro apenas tinham seis francos na bolsa, para começar a obra.
Obtiveram as autorizações necessárias, instalaram-se e começaram a pedir. Dois dias depois, Maria Jamet regressava a Tours, «já consolada» e acompanhada de duas postulantes angevinas. No fim de Abril, acolhiam-se os primeiros velhinhos. Os donativos afluíam; um dia, porém, não havia manteiga; Joana viu que os velhinhos comiam o pão seco: «Mas nós estamos na terra da manteiga» disse ela. «Como não se lembraram de a pedir a S. José?» E acendeu uma lamparina diante da estátua do Pai que dá os alimentos; mandou trazer todas as manteigueiras vazias e colocou um letreiro: «Bom S. José mande manteiga para os nossos velhinhos!». Os visitantes ficavam admirados ou achavam graça a esta ingenuidade. Um deles exprimiu a sua desconfiança na eficácia do processo.
Mas sob estas manifestações ingénuas escondia-se uma tal Fé! Alguns dias mais tarde, um benfeitor anónimo mandou entregar uma grande quantidade de manteiga e todas as manteigueiras ficaram cheias.
Joana queria que a casa dos Pobres fosse alegre. Apoiada pela rede angevina de amizade foi um dia ter com o coronel que comandava uma unidade, em guarnição, em Angers e pediu-lhe que mandasse, na tarde de um dia de festa, alguns músicos do regimento para alegrar os seus bons velhinhos. «Minha Irmã, vou mandar-lhe a banda toda para lhe dar prazer e para alegrar os seus queridos velhinhos».
Esta fanfarra de Angers parece acompanhar com alegria o amor que se dá e que suscita o amor.
Joana deixou Angers para ir pedir noutras cidades. Durante o Inverno de 1950-51, assinala-se a sua presença em Dinan, em Lorient e em Brest.
Nesta última cidade, encontrou uma senhora muito empreendedora, que não a encorajou nada. Joana ouviu-a, reflectiu e concluiu: «Pois bem, minha querida Senhora, nós tentaremos!». E pôs-se a pedir acompanhada por uma amiga. Chegaram a uma casa conhecida por ser pouco acolhedora; a sua companheira propôs que seguissem em frente. Mas Joana, puxando o cordão da sineta, respondeu: «Toquemos, pensando em Deus e Deus nos abençoará». A esmola foi generosa. Enquanto despertava nas pessoas o sentido da partilha e recebia os seus donativos, Joana continuava atenta ao desenvolvimento da família que tinha nascido dela.
Depois de Angers, foram as inaugurações de Bordéus, Rouen e Nancy, nas quais, aliás, Joana não tomou parte directamente.
Depois, foi a primeira casa de Inglaterra, nos arredores de Londres.
Charles Dickens tinha ido, havia algum tempo, a Paris e tinha visitado o asilo recentemente fundado pelas Irmãs. Muito impressionado, escreveu um artigo no seu semanário «Household words» (14 de Fevereiro de 1852), onde descrevia a casa da rua Saint-Jacques depois de evocar a sua origem «... Um velhinho tem os pés sobre a braseira e murmura com uma voz fraca, que agora está bem confortável porque tem sempre calor. A recordação do frio dos anos e do frio das ruas, está gravada na sua memória, mas agora sente-se muito, muito confortável...». Este testemunho do romancista contribuiu para facilitar a instalação das Irmãzinhas dos Pobres no seu país.
Paralelamente ao crescimento geográfico e numérico — 1853, haverá quinhentas Irmãs — verifica-se um desenvolvimento da própria Instituição: o regulamento amplifica-se e fixa-se. O Pe. Felix Massot e o abade Le Pailleur trabalharam nele, em conjunto em Lille, em 1851, durante três semanas. Este projecto foi submetido ao Bispo do Rennes e, no dia 29 de Maio de 1852, Monsenhor Brossais Saint-Mare assinou o decreto de aprovação dos estatutos. Desde então, a família das Irmãzinhas dos Pobres será, na Igreja, uma congregação religiosa.
Esta aprovação episcopal fazia do abade Le Pailleur, oficialmente, o superior geral da Congregação, conjuntamente com a Superiora Geral, Maria Jamet. Ele desejava ser confirmado nesta função e o seu desejo foi satisfeito.
Foi em Rennes que ele se fixou. Com efeito, tinham acabado de comprar, na periferia da cidade, uma propriedade bastante grande chamada «La Piletière». Com o asilo de Rennes, instalou-se aí o noviciado e a casa-mãe que, anteriormente, tinham sido transferidos de Tours para Paris. O Bispo foi lá no dia 31 de Maio, presidiu à tomada de hábito de vinte e quatro postulantes e à profissão de dezassete noviças.


«Tirou-me a minha obra»
(1852-1856)

Analisemos, um pouco, o estranho percurso do abade Le Pailleur — que, na verdade, apenas se explica por uma falha subtil, mas sem dúvida profunda, na sua personalidade. Em 1843, tinha impedido a reeleição de Joana Jugan como superiora para confiar esta responsabilidade à sua filha espiritual, Maria Jamet. Nos anos seguintes, a sua influência sobre a obra tornou-se cada vez maior, enquanto Joana pedia, infatigavelmente, para as novas casas, trabalhava directamente na inauguração de outras duas, acorria para apoiar e salvar as que estavam prestes a acabar, garantia, com a sua presença e com o seu nome, o valor e o dinamismo das iniciativas tomadas para bem dos velhinhos desprotegidos.
Uma vez obtida a aprovação episcopal e conseguida a instalação da casa-mãe em Rennes, o abade Le Pailleur tomou uma decisão que ia modificar totalmente a existência de Joana: chamou-a para a casa-mãe. A partir de então, ela nunca mais teria contacto com os benfeitores, nem teria funções importantes na congregação; viveria escondida atrás das paredes de «La Piletière», ocupada em tarefas humildes.
Joana tinha pouco menos de 60 anos e estava em plena actividade, mas obedeceu humildemente. E aí ficou — em Rennes e, depois, em La Tour S. Joseph, em Saint-Pern sem responsabilidades, até à sua morte, quer dizer, durante vinte e sete anos.
Em «La Piletière» ela viverá na pequenez, e será a partir de então, a «Irmã Maria da Cruz». No interior da congregação quase nunca mais se empregou o seu nome de Joana Jugan. Mas lá fora, ele continuou vivo em quantas memórias!
Ao princípio, Joana foi encarregada de dirigir o trabalho manual das postulantes, muito numerosas: sessenta e quatro, em 1853.
Permanecerá para sempre a recordação da sua bondade, da sua doçura para com elas. Amou sempre as jovens e foi amada por elas. Não reivindicava nada, vivia plenamente o seu apagamento. Muito mais tarde, uma Irmã escreveu: «Nunca lhe ouvi dizer a mais pequena palavra que pudesse fazer supor que ela tinha sido a Primeira Superiora Geral.
Joana falava com tanto respeito, tanta deferência das nossas primeiras «boas Madres; (superioras) era tão modesta, tão respeitadora nas suas relações com elas...» Viu morrer, com 32 anos, uma das suas primeiras Irmãs, Virgínia Trédaniel. Terá sido esta morte ou o seu próprio sofrimento ou a recordação das primeiras provas da fundação, o que a levou a dizer um dia às postulantes: «Fomos enxertadas na Cruz».
Este enxerto estava bem vivo. A Igreja reconheceu-o como seu. No dia 9 de Julho de 1854, o Papa Pio IX aprovou a Congregação das «Irmãzinhas dos Pobres», o que constituiu uma profunda alegria para a fé de Joana.
Para se fazer reconhecer como fundador e superior geral deste novo Instituto, o Abade Le Pailleur tinha, pouco a pouco, deturpado a história da sua origem. Durante os 36 anos que se seguiram, as jovens, que entraram para a congregação, apenas aprenderam uma história falsificada, segundo a qual Joana aparecia como a terceira «Irmãzinha dos Pobres». O abade exigia provas de respeito absolutamente excessivas, exercia sobre a congregação uma autoridade total: tudo passava pelas suas mãos; todas as decisões eram tomadas por ele. Em tudo era necessário recorrer-se a ele.
Mas a surpresa e mesmo o escândalo, acabaram por ser conhecidos pelas autoridades. Procedeu-se a um inquérito por decisão da Santa Sé e, em 1890, o abade Le Pailleur foi destituído e chamado a Roma onde terminou os seus dias num convento.
Durante mais de 40 anos, Maria Jamet tinha-lhe sido docilmente submissa, pensando que estava a proceder bem. Mas fora frequentemente atormentada entre o que pensava ser o seu dever de obediência e o respeito pela verdade. Pouco antes de morrer, reconheceu: «Não sou eu a primeira Irmãzinha dos Pobres, nem a fundadora da obra. É Joana Jugan que é a primeira fundadora das «Irmãzinhas dos Pobres».
Joana vivera tudo isto com uma mistura de dor e de confiança; estava lúcida e não podia estar de acordo, mas a sua fé elevava-se acima destas manobras. Mantinha o coração bastante livre para poder dizer, de brincadeira, ao Abade Le Pailleur, o que pensava dele: «O Senhor Padre roubou-me a minha obra, mas eu cedo-lha de boa vontade!».

Sem rendimentos fixos!
(1856-1865)

Na Primavera de 1856, a vida de Joana mudou de quadro: acompanhando o grupo das noviças e das postulantes, foi ocupar, com a casa-mãe, uma enorme propriedade adquirida a trinta e cinco quilómetros de Rennes: A «Tour Saint-Joseph», em Saint-Pern.
Continuou aí a sua existência oculta e as suas humildes tarefas. Ficou durante vários anos em companhia de duas noviças numa divisão chamada «chambre de la cloche» (quarto do sino). Continuava afastada de todas as responsabilidades e de todas as honras; embora nominalmente fizesse parte do conselho geral da congregação, nunca a chamavam para tomar parte nele.
Uma vez, contudo, uma única vez, convidaram-na a tomar parte numa deliberação; e ela foi, como o prova a sua assinatura. Foi no dia 19 de Junho de 1865.
Tratava-se de um problema grave para a vida da Instituição, de uma questão que punha em causa o essencial da vocação das Irmãzinhas: as exigências de pobreza da congregação. O desejo inicial era ser-se pobre com os pobres, estar-se inteiramente dependente da caridade, com eles. Tinham sido excluídas, portanto, todas as fontes fixas de rendimento. A única propriedade eram as casas de habitação que asseguravam a independência e a segurança dos pobres velhinhos.
Na realidade, nenhum texto definia com clareza esta opção. E, nos primeiros anos, a congregação aceitou algumas rendas fixas ou fundações, mas muito esporadicamente. Ora aconteceu que em 1865, um legado de 4000 francos, sob a forma de renda, coube, por herança à congregação. Uma vez mais a questão foi colocada: deveriam ou não aceitar esta oferta? Enquanto o conselho hesitava, um leigo amigo, que ajudava na gestão financeira, recordou o princípio: «Se as Irmãs me permitem que dê humildemente a minha opinião, acho que só deverão aceitar essa renda com a autorização de a transferir para que esse capital possa servir para pagar a vossa casa (de Paris). As Irmãs apenas devem possuir as casas que habitam e, quanto ao resto, devem viver da caridade quotidiana. Se as Irmãzinhas passassem a ter rendas, perderiam os direitos a essa caridade que fazia viver os israelitas no deserto; e se, algum dia, juntassem o maná, ele alterar-se-ia como aconteceu outrora ao Povo de DEUS.»
Esta observação era audaciosa: o capitalismo nascente florescia rapidamente, nasciam os grandes bancos franceses, era criado o livro de cheques; e a própria Condessa de Ségur escrevia a «Fortuna de Gaspar». Apenas se falava de lucro e o dinheiro era objecto de uma espécie de religião.
Mas as Irmãzinhas dos Pobres, sensíveis ao apelo que lhes fora dirigido, iam escolher a pobreza.
Pediram, primeiro, a opinião de vários bispos. O conselho geral reuniu-se. E foi então que se convocou a Irmã Maria da Cruz que ficou muito surpreendida e inquieta mesmo: «Eu apenas sou uma pobre mulher ignorante, que poderei eu dizer?» Insistiram. «Já que assim o desejais vou obedecer.» E foi, portanto, ao conselho onde exprimiu claramente a sua opinião. Deviam continuar a não aceitar rendas fixas, a depender da caridade. Foi esta orientação que foi adoptada. A circular enviada às outras casas dizia, sem ambiguidades: «A congregação não poderá possuir qualquer renda, qualquer rendimento fixo a título perpétuo» e, assim, «nós recusaremos todo o legado ou donativo consistindo em renda ou com a sobrecarga da instituição de camas ou de missas, ou mesmo de qualquer outra obrigação que exija a perpetuidade». E o Conselho escreveu ao «garde-des-sceaux» do Império — ministro da justiça e dos cultos — para lhe dar parte desta decisão. No ano seguinte, o governo tomou nota dela e, na mesma altura, da recusa do legado de 4000 francos.
Algum tempo depois, vemos Joana convidar as jovens Irmãs a rezar «para que não cedamos às instâncias dos que quereriam deixar-nos rendas».
Vemos assim que ela velava por meio da oração, por esta congregação que ela tinha feito nascer e pela opção da pobreza que a entregava ao Amor do Pai do Céu.


Sabedoria da Irmã Maria da Cruz
(1865-1879)

Os longos anos de «La Tour Saint-Joseph» não contêm muitos acontecimentos. Somente, de quando em quando, uma imagem: com o terço na mão, a Irmã Maria da Cruz «direita, apoiada numa bengala (...) percorria os prados e os bosques, agradecendo a Deus (...); quando via velhos amigos que tinham conhecido um pouco o princípio da obra (...) ela cantava o seu «Magnificai». Era verdadeiramente eloquente na sua simplicidade».
E ia desfiando, no decorrer dos dias, palavras de sabedoria, muitas vezes carregadas de imagens, outras vezes com certo espírito. Um dia, por exemplo, explicou às noviças como deveriam comportar-se quando alguém lhes dissesse coisas desagradáveis: «Devemos ser como um saco de lã que recebe a pedra sem ressoar...»
«Fazer penitência», o que é que isso quer dizer? Ela imagina um caso concreto: «Duas Irmãzinhas vão fazer o peditório; estão carregadas, à chuva e ao vento... estão todas encharcadas, etc. ... Se aceitam estes incómodos generosamente, com submissão à vontade de Deus, fazem penitência.» Um dia, Joana chamou uma jovem Irmã para junto da janela aberta e mostrou-lhe os canteiros: «Vê estes operários que talham a pedra branca para a capela e como eles alindam essa pedra? Assim deve a Irmã deixar-se talhar por Nosso Senhor!»
A Irmã Clara corria num corredor. Joana fá-la parar: «A Irmã deixa alguém atrás de si!» A Irmã voltou-se intrigada: «Perdão, minha boa Irmãzinha, mas não vejo ninguém...» «Sim, sim, há Deus! Ele deixa-a correr à frente porque Nosso Senhor não andava tão depressa nem se afadigaria como a Irmãzinha!»
Os anos passavam. Por volta de 1870, Joana abandonou o “quarto do sino” para ir para o quarto da enfermaria que ocupou até à morte, em companhia de três outras irmãs.
«Joana vivia em presença de Deus e falava-nos sempre d’Ele», diz uma noviça desse tempo. Falar da oração, era-lhe familiar. Tinha frases engraçadas para limitar os caminhos da vida espiritual: «Temos de ser muito pequeninos diante de Deus. Quando fizerdes uma oração, começai por aí! Comportai-vos diante de Deus como uma rã pequenina.» Ou então, para as horas difíceis (e vemos aí, sem dúvida, uma espécie de confidência): «Ide procurá-Lo quando estiverdes prestes a perder a paciência e as forças, quando vos sentirdes sós e impotentes; Jesus espera-vos na Capela, dizei-LHE: «Vós bem sabeis o que se passa, meu bom Jesus! Só vós sabeis tudo e eu não tenho senão a Vós! Vinde em meu auxílio!» E, depois, ide, e não vos inquieteis em saber como podereis fazer; basta que o tenhais dito a Deus, pois Ele tem boa memória.»
A propósito de oração, ela convidava também à discrição na recitação das fórmulas. Quando rezava com as noviças, insistia, muitas vezes, «para que mais tarde velemos para não multiplicar estas orações de devoção: Cansaríeis os vossos velhinhos, dizia ela, e eles aborrecer-se-iam e sairiam para fumar... mesmo durante o terço!» Ela gostava, assim, de pôr as jovens ao corrente da sua experiência, ao serviço das pessoas idosas. «Minhas filhas, é preciso estarmos sempre bem dispostas; os nossos velhinhos não gostam de caras tristes!» Quando falava dos pobres, «o seu coração transbordava... «Minhas queridas filhas», dizia ela, «amemos muito Deus e os nossos velhinhos, porque são os porta-vozes de Deus».
Joana dava às Irmãs conselhos muito simples, mas cheios de sabedoria: «Não devemos recear o esforço que é preciso para cozinhar ou para tratar dos velhinhos quando estão doentes, como não há que recear ser como uma mãe para os que são gratos e para os que não sabem reconhecer tudo o que fazeis por eles. Dizei mesmo para convosco: «É por Vós, meu Jesus!» «Olhai o Pobre com compaixão e Jesus olhar-vos-á com bondade, no vosso último dia...»
E voltava a falar do peditório, com muita frequência: «Não tenhais medo de vos sacrificar e de mendigar como eu o fiz pelos pobres, pois eles são os membros doentes de Nosso Senhor.» Joana agira sempre com reflexão e bem sabia quanto isso é importante. «Minhas filhas, é preciso rezar e reflectir antes de agir. Foi o que eu fiz toda a vida. Pesava todas as minhas palavras.» Ela, que falou tão pouco dela própria, deu-nos um dos seus segredos.
Um outro segredo é o amor da pequenez: «Sede pequeninas, pequeninas! Se vos tornásseis grandes e orgulhosas, a congregação cairia! Só os humildes agradam a Deus.» Aos 80 anos, conservava ainda um porte enérgico. Uma jovem senhora inglesa descreveu-a, então, desta maneira: «Andando com um passo firme com uma mão apoiada no ombro de uma jovem Irmã e a outra numa sólida bengala, tão direita e tão alegre pelas formosas avenidas. O que mais nos impressionou foi a grande doçura do seu sorriso...»
Às vezes, com as noviças, comentava, sorrindo, uma leitura. Tratava-se das santas lágrimas. Mandou fechar o livro e disse às Irmãs «há quem tenha, talvez, dificuldade em perceber isto e que diga: «Eu cá não posso chorar...» Eu também não quereria estar sempre a chorar... Não se preocupem com as santas lágrimas! Não é preciso derramá-las, nem molhar os olhos. Mas fazer um sacrifício de boa vontade, receber uma reprimenda em silêncio, isso conta como santas lágrimas. Tenho a certeza de que, assim, já chorastes, hoje, várias vezes...» Sabedoria, equilíbrio, benevo­lência, tudo isto foi Joana Jugan!
Pouco a pouco, Joana ia perdendo a vista; as suas pálpebras paralisaram. Nos últimos anos da sua existência, estava quase cega e dizia: «Quando fordes velhas, já não vereis nada. Eu já só vejo Deus»; ou então: «Deus vê-me e isso basta-me!» Este facto não a impedia de ser alegre, de contar histórias divertidas, recordações engraçadas. Contava, por exemplo, como é que, um dia, um coelho saltara do seu cesto e como é que uns rapazinhos o apanharam na sua corrida; ela deu-lhes dez cêntimos como prémio pelo esforço.
Num dia de Páscoa, Joana aproximou-se de um grupo de Irmãs que ensaiavam cânticos. «Vamos, minhas filhas, cantemos a glória do Nosso Jesus ressuscitado!» E com os braços começou a marcar o ritmo, cantando o Aleluia com tal entusiasmo que parecia querer deixar o seu velho corpo para seguir o seu Jesus!»
Que vivacidade, que juventude! Vivia numa acção de graças contínua: «Em tudo, por toda a parte, em todas as circunstâncias eu repito: Bendito seja Deus!»
Gostou sempre de cantar, mesmo até ao fim da vida; canções ou um género de lenga-lenga que talvez tivessem sido com postas por ela: «O pobre chama-nos / Com a voz e com o coração / Oh! A Boa-Nova / Partamos com alegria!»
Ou então uma outra:
«Mostrai-vos sempre gentis / Não recuseis nada / / Para humildes pedintes de pão / está sempre tudo bem!», ou ainda: «Oh! Jesus / Rei dos Eleitos / Quem Vos amará mais?» Parecia que a união profunda e simples, que ela vivia cada vez mais com Deus, à medida que a idade ia avançando, tinha libertado nela toda a alegria.


Da morte à vida
(1879)

Nos últimos anos de vida, Joana falava bastantes vezes da sua morte e fazia-o com serenidade.
Mas, antes de morrer, iria ter uma grande alegria. Em Novembro de 1878, tinham sido feitas diligências para obter do Papa a aprovação das constituições (a aprovação de 1854 era só «ad experimentum»). No dia l de Março, Leão XIII concedeu a ratificação pedida.
Havia, então, quarenta anos depois dos humildes princípios de Saint-Servan, 2400 Irmãzinhas.
Joana Jugan morreu no mês de Agosto de 1879.


A sua missão continua

«Vão falar-lhe de mim, mas não dê importância, Deus sabe tudo!»: Último conselho de Joana, no dia 19 de Março de 1876, a uma jovem Irmã, que professara havia três dias e que ia deixar «La Tour Saint-Joseph» para ir para Saint-Servan.
Apagar-se, ser esquecida, era a única ambição de Joana. Esta ambição parece realizada com a sua morte.
E, todavia, em 1894, a que foi chamada a dirigir a Congregação depois da morte de Marie-Jamet, toma a iniciativa de mandar escrever a história de Joana Jugan. Este primeiro trabalho de investigação histórica apareceu em 1902. Três anos antes, tinha sido publicada uma breve notícia necrológica de Joana Jugan onde ela é reconhecida como «a primeira Irmãzinha e fundadora».
Com a restituição da «sua obra», começa a missão póstuma de Joana, a qual irá ampliar-se no decorrer dos anos. Em 1935, os numerosos testemunhos dos seus contemporâneos fazem pensar que é chegado o momento de abrir, em Rennes, o processo informativo sobre a sua reputação de santidade. No ano seguinte, os restos de Joana são transportados do cemitério da Comunidade para a Cripta da Capela. A segunda guerra mundial veio interromper o processo. Foi preciso esperar até Julho de 1970 para apresentar a causa em Roma. Todas as testemunhas oculares tinham desaparecido, entretanto. O processo apostólico deverá, portanto, formar um juízo sobre a heroicidade das virtudes de Joana, a partir de um trabalho histórico que foi concluído em Fevereiro de 1979 e apresentado a João Paulo II. O decreto de heroicidade das virtudes foi promulgado a 13 de Julho, seis semanas antes do centenário da morte de Joana.
Três anos mais tarde, é reconhecida como inexplicável pela ciência médica, uma cura: Antoine Schlatter, velhinho residente na Casa das Irmãzinhas dos Pobres, em Toulon, atingido pela doença de Raynaud, em fase adiantada e ameaçado de amputação de uma mão, ficou, subitamente, curado, no decurso de uma novena de oração, pedindo a sua cura pela intercessão de Joana.
Com a sua beatificação, no dia 3 de Outubro de 1982, a Igreja apresenta, agora, Joana Jugan como exemplo para os tempos de hoje.
Qual é, então, a sua mensagem? A cem anos da sua morte, poderá ela ser, ainda, actual?
Precursora, no campo da acção apostólica e social, há cento e cinquenta anos, Joana teve um sentido humano e evangélico da terceira idade, que não ficou limitado à sua época.
Pela sua obra hospitaleira ao serviço das pessoas idosas pobres, estabelecida, hoje, em trinta países, ela convida-nos a estudar, na óptica de Deus, o lugar e o papel dos anciãos na nossa sociedade moderna, a sua inserção na Família e na Igreja, a especificidade desta idade, as suas riquezas, assim como as suas dificuldades. Convida-nos, ainda, a uma atitude essencial de estima, de compreensão mútua, de diálogo, de partilha e de entreajuda que deve unir as gerações.
Mas a mensagem de Joana Jugan não se reduz a isso. Uma pessoa que a conheceu bem, disse que a sua característica particular era «a glorificação de Deus».
Contestada, humilhada, vítima de adversidades, ia sempre glorificando a Deus! Esta glorificação estava enraizada na sua Fé. Pobre com os pobres, feliz por ser assim, Joana tinha uma confiança absoluta na bondade paternal de Deus; abandonava-se aos caminhos da Sua Providência, estava consciente de ser uma serva inútil e proclamava a sua alegria por «esperar tudo de Deus».
Joana Jugan é um apelo a que vivamos as Bem-Aventuranças, hoje. A sua missão continua.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Abbé Pierre

A vida do fundador de Os Companheiros de Emaús ficou marcada pelo combate a favor da justiça e da fraternidade.
Figura emblemática do combate à exclusão e iniciador de Os Companheiros de Emaús, o Abbé Pierre morreu em 2007, aos 94 anos, num hospital de Paris, onde tinha sido internado na sequência de uma bronquite.
A França está de luto, “perturbada” e “tocada no coração”, como afirmou Jacques Chirac, numa declaração logo após a morte daquele que era a personalidade mais querida dos franceses há longos anos. Morreu um “gigante da misericórdia”, disse o arcebispo de Bruxelas, cardeal Godfried Danneels.
“A sua morte fez-me pior que o frio desta manhã”, queixou-se Gilles Vasseur, um sem-abrigo a viver numa tenda num bairro dos arredores de Paris, à reportagem da AFP. “Nós, os sem-abrigo, os sem-nada, estamos hoje todos órfãos.”
À direita como à esquerda, na política mas também entre os responsáveis pelas associações de apoio social e instituições religiosas, o lamento pela morte do Abbé Pierre foi unânime. Roger Etchegaray, ex-presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, afirmou que o fundador de Emaús “nunca se enganou no combate, declarando guerra à miséria e desejando que os primeiros a servir fossem os mais sofredores”.
“Para lá das particularidades religiosas ou filosóficas, ele lembrava a cada um o seu dever de humanidade. Possa ele suscitar em muitas pessoas o desejo de prosseguir o seu combate pela justiça e pela fraternidade.” Conta o Abbé Pierre em Testamento que Jacques Gaillot, ele próprio marginalizado pelo Vaticano na sequência de posições polémicas, lhe perguntou um dia: “Explique-me um mistério: eu, assim que abro a boca, levo uma tareia. Você, em contrapartida, diz dez vezes mais e a mensagem passa sem problemas.” O padre respondeu que não era bispo e que lhe tinha sido dado um “instinto de insolência comedida”, que lhe permitia ver até que ponto poderia “clamar”…

“Antes de te matares…”

Certo é que clamou e fez muito. Resistente à ocupação da França pelos nazis, antigo deputado, Henri Grouès de seu nome de baptismo nasceu em 5 de Agosto de 1912 em Lyon, numa família numerosa – há mais de uma década já tinha 123 sobrinhos. Estudou com os jesuítas mas entrou aos 19 anos nos Franciscanos Capuchinhos. Já no tempo da ocupação nazi, recorda a AFP, entrou na clandestinidade em 1942, ajudando judeus e resistentes. Esteve preso em 1944 às ordens dos alemães, mas conseguiu escapar. Foi depois deputado entre 1945 e 1951.
É precisamente nesse período em que, já dedicado a apoiar mães e crianças em dificuldades, se sente levado a criar Os Companheiros de Emaús. Em Julho de 1995, numa das suas vindas a Portugal, o próprio contava que, perante um homem desesperado que queria suicidar-se, lhe dissera: “Antes de te matares, não queres ajudar-me a acabar algumas destas casas para estas mães que choram?”
Em 1954, durante um Inverno especialmente rigoroso, lançou o apelo à “insurreição da bondade”, como lhe chamou. O apelo foi renovado 40 anos mais tarde, em 1994 (e de novo em 2006, em plena Assembleia Nacional Francesa), para denunciar o “cancro da pobreza”, pedir apoio para os mais de 400 mil sem-abrigo franceses e defender o direito ao alojamento digno para todos. A sua popularidade levou-o a ser convidado há poucos anos para integrar uma candidatura ao Parlamento Europeu.
No livro Testamento, escreve no final: “Se posso transmitir uma certeza aos que vão conduzir a luta para instilar mais humanidade em tudo, será (decididamente, não posso escrever outra coisa): ‘Viver é aprender a amar.’”
Foi esse o seu lema.

“Sartre dizia : « O Inferno, são os outros! ». Estou profundamente convencido do contrário. O Inferno é estarmos desligados dos outros! Tens vivido a acreditar que te bastas a ti próprio. Então, basta-te! No lado oposto, o Paraíso é estar em comunhão ilimitada. É a alegria da partilha, da troca, banhadas pela luz.”
(Mémoires d’un croyant – 1997)

“A vida eterna não começa depois da morte. Começa agora, nesta vida, na escolha que fazemos todos os dias, de só pensarmos em nós próprios ou de partilharmos as alegrias e as tristezas dos outros. Deus não terá de nos julgar. O julgamento será este momento de luz plena onde cada um verá aquilo que fez de si próprio: um ser auto-suficiente ou um ser comungante.”
(Mémoires d’un croyant – 1997)

Raoul Follereau

O amigo dos leprosos

Raoul Follereau nasceu a 17 de Agosto de 1903, em Nevers, França, numa família de industriais. Jovem jornalista e poeta, anti-nazi e defensor de uma França livre, viu-se perseguido, como tantos outros, pela polícia militar nazi.

Em 1936, tinha então 33 anos, Follereau toma contacto com os leprosos durante um safari em África. A partir desse momento, a sua vida mudou. No entanto, não foi fácil começar a manifestar essa amizade pelos leprosos e a curá-los, pois logo surgiu a II Guerra Mundial e teve de se esconder num convento de religiosas em Lyon, onde fazia de jardineiro, embora não soubesse nada de jardinagem.

Um dia, a Madre Maria Eugénia, superiora do convento, visitou uma ilha de leprosos na Costa do Marfim e, impressionada com o que acabava de ver, pensou em construir uma pequena cidade, onde os leprosos pudessem viver e ser curados. Mas era preciso dinheiro. Então Raoul disse à religiosa: «Avance com o projecto, que no dinheiro penso eu».

Decidiu percorrer o mundo inteiro a fazer conferências para sensibilizar as pessoas para o problema da lepra. O sonho das religiosas tornou-se realidade. Em 1953 era inaugurada em Adzopé uma cidade onde os leprosos podiam ser tratados e curados. Quando Raoul se aproximava dos leprosos, estes ficavam inicialmente um pouco desconfiados. Mas depois compreendiam que era apenas o amor dele que o levava junto deles. Então gritavam de alegria: “Pai Raoul”.

Durante as suas viagens, contou sempre com o apoio da sua mulher Madalena, para construir aquilo a que ele chamava “ A civilização do Amor”. Raoul Follereau morreu, em Paris, a 16 de Dezembro de 1977. Dizia muitas vezes:

Ser feliz é fazer os outros felizes.

O tesouro que eu vos deixo é o bem que não fiz, que teria querido fazer e que vós fareis depois de mim.



No último domingo de Janeiro de cada ano celebra-se o Dia Mundial dos Leprosos, instituído pela ONU em 1954, a pedido de Raoul Follereau. É que a lepra, sendo hoje em dia uma doença curável, nem por isso deixou de ser perigosa já que há largos milhares de doentes que, por falta de recursos materiais e humanos, não têm acesso aos tratamentos necessários.

A extrema pobreza e miséria em que muitos vivem justifica que, por dia, surjam ainda 2.000 novos casos de pessoas afectadas pela doença.

Joseph Wresinski (1917-1988)

Joseph Wresinski nasceu a 12 de Fevereiro, filho de pai polaco e de mãe espanhola. Ainda menino, conheceu uma grande pobreza junto da sua mãe e irmãos, vivendo então a família numa casa sem condições, em Angers, França. Assim, a sua maneira de reflectir e de agir ficou marcada pela experiência das humilhações e da vergonha que conheceu, quando menino. O seu pensamento começou então a ser moldado por um profundo conhecimento da maneira como os mais pobres resistem, no dia a dia, para garantirem a sua dignidade.
Em 1956, o Padre Joseph Wresinski foi ao encontro de 252 famílias agrupadas num bairro de lata, em Noisy-le-Grand, perto de Paris. Deste modo, ele, que já tinha encontrado a possibilidade de sair do mundo da miséria, decidiu consagrar-se a ajudar as famílias mais pobres, noite e dia, guardando-lhes uma fidelidade ilimitada.
«Fiquei possuído pela ideia de que estas famílias nunca sairiam da miséria enquanto não fossem acolhidas no seu conjunto, como um povo, nos sítios onde os outros homens se debatem e tomam decisões. Prometi que, se ficasse junto delas, faria tudo para que elas pudessem subir os degraus do Vaticano, do Eliseu, da ONU...»
Opõe-se à sopa dos pobres e propõe às famílias um jardim-escola e uma biblioteca, uma capela, um atelier para jovens e adultos, uma lavandaria..
«Não era tanto de alimentos ou de roupas de que os outros necessitavam, mas sim de dignidade, de nunca mais dependerem do que queriam ou não queriam.»
Com estas famílias da miséria, o Padre Joseph cria, em 1957, uma associação que tem por nome “AIDE À TOUTE DÉTRESSE” (ATD), o que significa ajuda em toda a desgraça, em toda a situação de aflição e de sofrimento. Mais tarde, o nome da associação evoluiu para ATD Quarto Mundo, tendo a noção de Quarto Mundo sido inspirada pela acção de Dufourny de Villiers que, sendo deputado por Paris, se bateu em 1789, nas vésperas da Revolução Francesa, para que os mais pobres de então tivessem uma representação nas Cortes convocadas pelo rei; o mesmo deputado pediu que, para além das três ordens representativas (clero, nobreza e o terceiro estado), uma quarta ordem fosse reconhecida: «A Ordem dos pobres jornaleiros, dos enfermos, dos indigentes, a ordem sagrada dos infortunados.»
No dia 17 de Outubro de 1987, no Adro das Liberdades, dos Direitos do Homem e do Cidadão, em Paris, respondendo ao apelo lançado pelo Movimento ATD Quarto Mundo, cem mil pessoas exprimiram a necessidade de se unirem para fazerem respeitar os Direitos do Homem. Assim puderam exprimir solenemente a necessidade de juntos lutarem para que o respeito dos Direitos Fundamentais se tornasse uma realidade universal. Nesse mesmo dia, inaugurou-se uma LAJE no local onde foi assinada a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a 10 de Dezembro de 1948, lembrando que a presença dos mais pobres no meio de todos nós constitui um apelo à construção de uma humanidade verdadeiramente fraterna. Nela se mandou gravar o seguinte apelo:

Onde os homens
estão condenados a viver na miséria,
aí os Direitos Humanos são violados.
Unir-se para os fazer respeitar é
um dever sagrado.


Este acontecimento deu origem à celebração do dia 17 de Outubro como o Dia Mundial da Luta contra a Pobreza e Exclusão Social. Em 1992, as Nações Unidas reconheceram oficialmente este dia, dando-lhe um alcance universal.

Dom Bosco

Terésio Bosco
D. Bosco
Porto, Edições Salesianas, 2002


Um rapaz. 9 anos e 2 vacas. Todos os dias, depois do almoço, pega na aguilhada e toca os animais para o vale. Na sacola leva um bom pedaço de pão branco para a merenda. Lá em baixo espera-o outro garoto da mesma idade e também guardador de vacas. Só uma diferença: este para a merenda leva um pedaço de pão negro.
Um dia, o primeiro rapaz entrega ao companheiro o seu magnífico pão branco:
— Toma lá, é teu.
— E tu?
— Prefiro o teu pão negro.
Aquele rapaz chama-se Joãozinho Bosco. O pai morreu quando tinha dois anos. A mãe, que coze o pão branco no forno e o ensina a ser generoso, chama-se Margarida.

Um sonho aos 9 anos

Uma noite, talvez aquela que se seguiu à troca do pão branco pelo pão negro, Joãozinho teve um sonho. Contá-lo-á ele mesmo algum tempo depois:

“Aos 9 anos tive um sonho, que me ficou profundamente gravado na memória por toda a vida. No sonho parecia-me estar perto de casa, num terreiro amplo, onde brincava uma chusma de garotos. Uns riam, outros blasfemavam. Ao ouvir aquelas blasfémias, caí sobre eles, tentando fazê-los calar, primeiro com boas razões, e depois ao sopapo.
Nisto, apareceu um personagem misterioso, ricamente vestido.
O seu rosto era tão brilhante que me era impossível fixá-lo. Chamou-me pelo nome e disse-me:
— Não é à pancada, mas com bons modos que deves conquistar-lhes a amizade. Começa imediatamente a falar-lhes do mal que é o pecado e do bem que é a virtude.
Confuso e atónito, respondi que era um rapaz pobre e ignorante.
De repente aqueles garotos, já transformados, juntaram-se à volta daquele personagem que lhes falava. Quase sem saber o que dizia, perguntei:
— Quem sois vós que me pedis coisas impossíveis?
— Eu sou filho d’Aquela que a tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia. O meu nome pergunta-o à minha Mãe.
Naquele momento vi uma Senhora de aspecto majestoso, vestida com um manto resplandecente como o sol. Vendo-me confuso, fez-me sinal para me aproximar. Tomou-me com bondade pela mão e disse-me:
— Olha! — Olhando, verifiquei que aqueles garotos tinham desaparecido todos; e vi então uma chusma de cabritos, cães, gatos, ursos e muitos outros animais.
— Eis o campo em que deverás trabalhar. Torna-te humilde, forte e robusto: e aquilo que neste momento vês acontecer com estes animais, hás-de consegui-lo com os meus filhos.
Olhei de novo, e eis que, em vez de animais bravios, via apenas cordeiros, saltitando e balindo, em ar de festa, em volta daquele Homem e daquela Senhora.
Nisto, sempre em sonho, desatei a chorar e pedi àquela Senhora que falasse mais claro, pois eu não estava a perceber nada. Então ela colocou-me a mão sobre a cabeça e disse-me:
— A seu tempo tudo compreenderás. Ditas estas palavras, acordei com um ruído e tudo desapareceu.
Tinha a cabeça atordoada. Parecia-me sentir as mãos doridas, pelos murros que tinha dado, e a cara a escaldar com os que tinha apanhado daqueles garotos”.

Batem na janela os primeiros raios de sol e já todos lá em casa se levantaram. Joãozinho salta rapidamente da cama, diz uma breve oração e desce a correr para a cozinha, onde estão a mãe, a avó e os dois irmãos José e António. Incapaz de resistir, acaba por contar o sonho com todos os pormenores. Os irmãos dão uma forte gargalhada:
— Virás a ser pastor! — diz o José, em ar de mofa.
— Talvez um chefe de bandidos! — acrescenta o António, com ar escarninho.
A mãe, pelo contrário, fica pensativa. Fita os olhos no filho, inteligente e generoso, e exclama:
— Quem sabe se um dia não teremos aqui um sacerdote!?
A avó, por seu lado, bate impacientemente com a bengala no chão e murmura:
— Os sonhos são sonhos, e não devemos acreditar neles. Agora o importante é irmos comer.

O pequeno saltimbanco

Apesar do parecer da avó, Joãozinho volta ao sonho de vez em quando: pensa nos rapazes que blasfemavam, nos animais bravios transformados em cordeiros, e nas palavras da mãe: “Quem sabe... sacerdote...”.
Conhece já vários desses rapazes: vivem na vizinhança e nas quintas espalhadas pelo campo em redor. Alguns são bons, mas há-os também desordeiros, rudes e desbocados. Porque não começar já a captar a amizade desses rapazes?
Um dia, entra em casa com o rosto a sangrar. Andava a brincar com os companheiros à guerra, e um projéctil de madeira tinha-o atingido violentamente na cara. Margarida faz-lhe o curativo e observa preocupada;
— Qualquer dia voltas para casa sem algum dos olhos. Por que motivo andas com esses rapazes? Tu sabes que há sempre algum atravessado.
— Se é para lhe fazer a vontade, não volto para o meio deles. Mas olhe, que quando estou com eles, portam-se melhor.
Margarida suspira e deixa-o à vontade.

Espectáculo no campo

As cornetas dos saltimbancos ecoam pelas colmas em redor. É a festa do padroeiro da terra. Joãozinho é dos primeiros a chegar. Resolveu “estudar” os truques dos prestidigitadores e os segredos dos equilibristas. Paga dois soldos para poder estar na fila da frente. Volta para casa e faz experiências: caminhar na corda bamba (muitas vezes lá vai ao chão), tirar um frango vivo de uma panela a ferver...
Há que multiplicar os exercícios meses seguidos, ser constante, apesar dos trambolhões.
E numa tarde de Verão, Joãozinho anuncia aos amigos o seu primeiro espectáculo. Sobre um tapete de sacos estendidos no chão, faz prodígios de equilíbrio com latas e caçarolas de cozinha na ponta do nariz. Pede a um pequeno que abra bem a boca e tira-lhe de lá dezenas de bolinhas coloridas. Depois entra em acção a “varinha mágica”. O irmão António chega do trabalho precisamente a meio do espectáculo. Atira para o chão a enxada que trazia às costas e começa a gritar furioso:
— Cá está o palhaço! O mandrião! Eu farto-me de trabalhar, e ele aqui com palhaçadas!
Joãozinho suspende o espectáculo, mas para o recomeçar a duzentos metros dali, debaixo das árvores, longe da vista do irmão. Joãozinho é um palhaço “especial”. Antes do número final, tira o terço do bolso, ajoelha e convida todos os presentes a rezar com ele. Outras vezes repete a prática ouvida na igreja. É a recompensa que ele pede ao seu público, pequenos e grandes, mas os pequenos são a maioria. Depois ata uma corda a duas árvores, salta para cima, e caminha sobre ela de braços estendidos, entre repentinos silêncios e frenéticas ovações dos amigos. Parece que está ali um anjo a ampará-lo, para evitar um brusco trambolhão. Seja como for, o pequeno saltimbanco tem a protecção de Deus, irá crescendo são e forte, e um dia pregará de outros púlpitos, diferentes da corda esticada entre uma pereira e uma cerejeira.

O inimigo de enxada ao ombro

João começa a frequentar a primeira classe primária aos 9 anos, no Inverno de 1824-25 (é seu professor o Pe. Lacqua). Naquele tempo a escola começava a 3 de Novembro e terminava a 25 de Março. Frequenta a 2ª classe primária durante o Inverno de 1825-26. Margarida quer que frequente a terceira no Inverno seguinte, mas António opõe-se ferozmente:
— Que necessidade há de perder tanto tempo? Saber ler e fazer o nome é mais que suficiente. Ele que pegue na enxada como eu. Um dia, por causa de um livro que João colocara sobre a mesa ao lado do prato, levantou-se um escarcéu. João (11 anos) é agredido pelo irmão mais velho (17 anos), que num acesso de fúria o cobre de bofetadas. É impossível continuar assim. E numa manhã de Fevereiro, Margarida disse a João as palavras mais tristes da sua vida:
— É melhor saíres de casa. Qualquer dia António pode cometer um desacato.
João parte à procura de trabalho. Tem 11 anos e meio, e leva consigo uma sacola com duas camisas, dois livros e uma carcaça. Margarida fica a dizer-lhe adeus da soleira da porta, enquanto vê desaparecer por entre o nevoeiro o seu pequeno emigrante.

Moço de lavoura

Caminha até à quinta Moglia. Recolhe-se um instante em silêncio, como que a ganhar fôlego. Entra finalmente. A família dos Monglia está reunida na eira a preparar os vimes para as videiras.
— Que procuras, meu rapaz? — pergunta-lhe um sujeito ainda novo que pelos vistos deve ser o patrão.
— Procuro Luís Moglia
— Sou eu mesmo.
— Venho da parte da minha mãe, para ver se o senhor me aceita a trabalhar em sua casa.
— Mas assim tão pequeno? Quem é a tua mãe?
— Margarida Bosco. O meu irmão António maltrata-me, e é por isso que venho da parte dela à procura de trabalho.
— Olha, meu rapaz, até ao fim de Março não aceitamos ninguém. É melhor voltar para casa.
— Peço-lhe por tudo que me aceite mesmo sem ganhar nada — suplica Joãozinho — e começa a chorar.
A senhora Doroteia, mulher do patrão, comove-se.
— Deixa-o ficar, Luís. Fazemos a experiência por alguns dias.
João mete-se ao trabalho com determinação, para não ser despedido: trabalha de sol a sol. Depois, enquanto os outros vão dormir, acende um toco de vela, e continua a ler os livros que lhe tinha emprestado o seu professor. E enquanto leva os bois para o campo lá vai ele de livro na mão. O patrão não o contraria, mas abana a cabeça:
— Porque é que estás sempre a ler?
— Porque quero ser padre.
No meio dos torrões, estudar torna-se cada vez mais difícil. Assim se vão passando quase três anos.
Em Novembro de 1829 foi visitá-lo o seu tio Miguel, irmão de sua mãe:
— Então, estás contente?
— Não. Tratam-me bem, mas a minha vontade de estudar... e já fiz 14 anos.
O tio Miguel acaba por levá-lo para casa. António fica irritado com tal decisão, mas depois de discussões e mais discussões, concorda em que João estude contanto que isso não venha a prejudicá-lo na herança.

Um encontro decisivo

Naquele mesmo mês de Novembro de 1829 houve umas pregações especiais numa aldeia vizinha, Buttigliera. Entre a multidão que acorria dos montes, lá estava também João. O capelão de Murialdo, Pe. Calosso (um ancião de 70 anos), ao ver aquele rapaz caminhando sozinho, pergunta-lhe:
— Donde és, meu amigo?
— De Bécchi. Fui à pregação dos missionários.
— O que é que terás tu compreendido, com toda aquela dose de latim!
Mas o nosso homem, com toda a desenvoltura, repetiu ali, de cor, a prática inteira como se estivesse a lê-la num livro.
Pouco depois João estava sentado diante da secretária do Pe. Calosso.
— És um prodígio de memória, meu rapaz. Tens de te meter a estudar. Eu estou velho, mas farei tudo o que puder para te ajudar. Olha aqui a gramática latina. Pelo Natal iremos a ela. Agora vamos ao italiano. Este (e passou-lhe para as mãos um pequeno volume) é um livro de meditação. Lê uma página por dia e reflecte sobre ele... Se não compreenderes, pergunta. Repara bem, o Senhor deu-te uma boa inteligência, e tu deves servir-te dela antes de tudo para O conhecer. Se aprenderes muita coisa, mas não aprenderes a amá-Lo, será vão o nosso trabalho.
A partir daquele dia, João Bosco aprendeu a fazer todos os dias um pouco de meditação.
Alguns dias depois, o Pe. Calosso, de acordo com Margarida, recebeu João em sua casa. O rapaz voltava a Bécchi uma vez por semana para mudar de roupa.
Foram magníficos os meses que João passou em casa daquele grande sacerdote.
A gramática latina, manuseada sem descanso, ia chegando ao fim. Porém, numa manhã de Novembro de 1830, o Pe. Calosso teve um enfarte. João acudiu, fixou aqueles olhos agonizantes e das mãos trémulas do seu benfeitor recebeu, sem compreender, uma chave, e foi tudo.
Nada mais lhe resta senão chorar amargamente a perda do seu segundo pai.
A chave era de um pequeno cofre que continha 6 mil liras. João, aterrorizado com o pensamento de que pudessem levantar-se problemas ensombrando os restos mortais do seu amigo, entregou as chaves aos herdeiros. E tudo acabou.
Joãozinho via-se novamente só, sem mestre, sem dinheiro, sem planos para o futuro. Era caso para desesperar.

10 quilómetros por dia

Apesar de tudo, era necessário continuar, custasse o que custasse. Margarida teve que suportar a humilhação de dividir a casa e as terras com António para acabar com o inferno dentro do lar. E João, decididamente, começou a calcorrear duas vezes por dia a distância de cinco quilómetros a que ficava a escola de Castelnuovo.
Botas a tiracolo e pés doridos do longo caminhar, tinha por companheiros: a chuva e o vento, o sol e a poeira, conforme as estações.
Uma noite, enquanto repousava do cansaço, reapareceu-lhe diante dos olhos o terreiro do primeiro sonho. Lá estava o rebanho e a Senhora resplandecente em atitude de lho confiar. “Torna-te humilde, forte e robusto — repetia — e a seu tempo tudo compreenderás”.

A partir de agora, “D. Bosco”

1835. João Bosco tornou-se um jovem robusto. Tinha estudado e trabalhado duramente. Tinha conquistado centenas de amigos. Agora, com vinte anos, toma a resolução mais importante da sua vida: entra no seminário.
Seis anos de estudo aturado. 5 de Junho de 1841. O arcebispo de Turim impõe as mãos sobre a cabeça de João Bosco, e invoca o Espírito Santo que o consagra sacerdote para sempre. A partir deste momento todos passarão a chamar-lhe D. Bosco (“Dom” é o titulo dado aos padres em Itália).
Naquela tarde, ouve da boca de sua mãe: “Até que enfim és padre. Agora estás mais perto do Senhor. Mas lembra-te de que começar a dizer a missa é começar a sofrer. De hoje em diante, pensa só na salvação das almas, e não te preocupes comigo”.

Subterrâneos e muralhas negras

Que fará agora D. Bosco? São-lhe oferecidas boas propostas para capelão mas o seu projecto é outro: os rapazes. Fica em Turim a aperfeiçoar o estudo da teologia, e a estudar a situação social da cidade.
Tem como professor um jovem padre que se tornará seu amigo e conselheiro por toda a vida: o Pe. José Cafasso. Chamam-lhe “o padre da forca”, porque todo o tempo livre o ocupa a visitar as prisões e a confortar os presos, e quando algum deles é condenado à morte, acompanha-o até à forca.
D. Bosco começa a ir com o seu mestre às prisões. Naquelas enxovias escuras, entre paredes negras e húmidas, encontra caras sombrias e ameaçadoras. Sente calafrios, às vezes quase desmaia.
Mas aquilo que mais o faz sofrer é a presença de presos ainda jovens, de olhos revoltos e sorriso trocista.
Um dia vê, atrás das grades, um grupo de rapazes de pouca idade.
E tal o desgosto que as lágrimas lhe humedecem os olhos.
— Porque chora aquele padre? — pergunta um deles.
— Porque nos quer bem — responde um outro. — A minha mãe também era capaz de chorar se me visse aqui dentro...
Naquele dia, ao sair da cadeia, D. Bosco toma uma resolução firme:
“Muitos vêm para aqui porque ninguém se ocupa deles. É necessário assisti-los, instruí-los; é necessário impedir a todo o custo que rapazes ainda tão novos acabem na cadeia. Quero fazer tudo para os salvar”.

“Chamo-me Bartolomeu Garelli”

8 de Dezembro de 1841. D. Bosco prepara-se para a missa na igreja de S. Francisco de Assis. Entra na sacristia um rapazola. O sacristão, julgando tratar-se de algum valdevinos, põe-no na rua à vassourada.
Mas D. Bosco intervém;
— Que modos são esses? Arruma a vassoura!
— Porquê reverendo?
— Porque é um meu amigo.
— Se assim é. — resmungou o sacristão —, e foi chamar o rapaz.
Este volta comprometido. Tem o cabelo rapado e o casaco sujo de cal. Um rapaz da província. Ao sair de casa, os pais tinham-lhe recomendado que em Turim não deixasse de ir à Missa. Mas ele sentia-se envergonhado em ir para o meio das pessoas bem vestidas. D. Bosco dirige-lhe umas palavras amáveis e pede-lhe que espere um pouco depois da Missa, porque tem uma coisa muito importante a dizer-lhe. Terminada a Missa, leva-o a um canto da igreja e, de sorriso nos lábios, pergunta-lhe:
— Meu bom amigo, como te chamas?
— Bartolomeu Garelli, de Asti.
— Ainda tens pai?
— Não, já morreu.
— E mãe?
— Já morreu também.
— Quantos anos tens?
— Dezasseis.
— Sabes ler e escrever?
— Nem uma coisa nem outra.
— Sabes cantar?
— Não.
— E assobiar?
— Isso sei — e sorriu —. D. Bosco continua:
— Já fizeste a primeira comunhão?
— Ainda não.
— E já te confessaste alguma vez?
— Sim, quando era pequeno.
— E vais à doutrina?
— Não me atrevo. Os rapazes mais pequenos fazem troça de mim...
— E se fosse eu a explicar-te a doutrina, vinhas?
— Com todo o gosto.
— Pode ser aqui mesmo?
— Sim, contanto que não me batam!
— Fica descansado, agora és meu amigo, e ninguém te fará mal. Quando vamos começar?
— Quando o senhor quiser.
— Agora mesmo?
— É só o senhor querer.
D. Bosco ajoelha e reza uma Avé-Maria. Naquele momento nasce o Oratório, começa o grande apostolado de D. Bosco entre os jovens.
Quatro dias depois é domingo. Bartolomeu volta acompanhado de mais oito rapazes. Vêm “para falar com D. Bosco”. No domingo seguinte, D. Bosco vê quatro pequenos serventes de pedreiro a dormir encostados uns aos outros durante a homilia, muito difícil para eles. Acorda-os e convida-os a acompanhá-lo à sacristia.
Aqui aparece também Bartolomeu e os seus amigos. O número aumenta.
D. Bosco ajuda-os o rezar, celebra a missa e faz uma pequena prática ao alcance deles, viva, dialogada, salpicada de histórias e de factos interessantes.
Mais outro domingo e é já uma enchente de rapazes, pobremente vestidos mas de olhos vivos. Procuram D. Bosco, a sua palavra e o seu afecto. O exército de rapazes continua a engrossar, mas o Inverno aproxima-se. É necessário pô-los ao abrigo da chuva e da neve. O primeiro lugar de encontro é o Colégio Eclesiástico em que D. Bosco estuda. No pequeno pátio, o recreio; na igreja ao lado, as funções religiosas, o canto e as sessões de catequese. O Pe. Cafasso aprova e colabora mas os outros começam a reclamar: toda aquela barulheira era insuportável!

De um hospital para um cemitério

No Verão de 1844 D. Bosco acaba os estudos e é nomeado capelão de um orfanato para raparigas doentes, fundado na periferia de Turim pela Marquesa Barolo.
Os rapazes que seguem D. Bosco tornam-se multidão. Centenas deles invadem os campos vizinhos e apinham-se nas escadas e no próprio quarto de D. Bosco, para ouvir a sua palavra.
Agora, que tem um quarto independente, D. Bosco pensa em dar um pouco de instrução aos mais inteligentes.
Da parte da tarde vêm ter com ele em pequenos grupos, com o rosto negro da fuligem ou branco da cal, casaco pelos ombros, radiantes por terem a possibilidade de aprender. Encontram muito difícil a aritmética, o que leva D. Bosco a escrever para eles um dos seus primeiros livrinhos:
“O sistema métrico decimal”.
A Marquesa não suporta durante muito tempo todo aquele barulho. Não conseguindo convencer D. Bosco a abandonar aqueles rapazes para se dedicar unicamente à sua obra, pede-lhe para os reunir noutro sítio. D. Bosco descobre um cemitério abandonado (S. Pedro “in vinculis”) com uma capela espaçosa. No cemitério há umas arcadas e um pátio. O capelão é um seu amigo, o Pe. Tésio. A criada do capelão, ao ver chegar aquela chusma rumorosa de garotos, a princípio fica pálida, depois entra em fúria. Grita, agita a vassoura, insulta D. Bosco. Este acha melhor não insistir e lá segue com os seus rapazes à procura de outro paradeiro.
12 de Julho de 1845. Com autorização da Câmara, D. Bosco muda o acampamento para os lados dos Moinhos da cidade, na margem do rio Dora. Mas passado pouco tempo, também ali os vizinhos se queixam do barulho e da gritaria. Com mágoa, D. Bosco dá a triste notícia aos seus amigos:
— Meus amigos, não podemos continuar aqui.
Mas durante aquela breve estadia nos Moinhos, D. Bosco depara com um rapazito pálido, que o observa em silêncio. Tem apenas 8 anos e chama-se Miguel Rua. D. Bosco tinha distribuído umas medalhas aos seus garotos, mas este miúdo pálido não se atreveu a correr como os outros e acabou por ficar sem nada. Então D. Bosco aproxima-se dele. Estende-lhe a mão esquerda, e fazendo sinal de a dividir ao meio com a direita, disse-lhe sorrindo:
— Toma lá, Miguelinho, toma lá.
O rapazito olha e não compreende. Tomar o quê? Acha esquisito ao ver a mão vazia. Então D. Bosco acrescenta:
— Nós dois vamos fazer tudo a meias.
Aquele rapazito virá a ser o seu primeiro sucessor, à frente da Congregação Salesiana.

Um tambor e muitos polícias

Passamos meses e D. Bosco não consegue encontrar um tecto para abrigar os seus rapazes. Mas não desiste. Fala-lhes ao ar livre, reunindo-os nas praças desertas ou no campo. As pessoas observam. Umas riem, outras sentem pena.
— Mas que padre é aquele?
— É D. Bosco com os seus rapazes!
— Coitado, dizem que tem uma ideia fixa. No meio daquele pandemónio ainda perde o juízo.
Durante o Inverno (Novembro 1845 — Março 1846) aluga três divisões em casa do Pe. Moretta.
Na Primavera consegue alugar um terreno na periferia. Um barracão aqui existente, dá para guardar o equipamento desportivo. Há espaço para a rapaziada — várias centenas — poder divertir-se à vontade. Sentado a um canto, num banco tosco, D. Bosco confessa. Por volta das dez ouve-se o rufar de um tambor militar e os rapazes alinham em filas. Depois toca uma corneta, e aí vão eles para os lados da Consolata ou do Monte dos Capuchinhos, onde participam na Missa celebrada por D. Bosco.
Mas a atmosfera que se respira por toda a parte é de revolução, e aqueles 300 rapazes marchando ao som da corneta e do tambor começam a preocupar o governo piemontês.
O Marquês Miguel de Cavour (pai de Camilo), manda chamar D. Bosco e impõe-lhe várias coisas: reduzir o número de rapazes; evitar absolutamente que entrem na cidade em formatura; excluir os maiores por serem os mais perigosos. D. Bosco opõe-se. A conversa com o ministro acaba em tempestade. Cavour vocifera:
— Mas o que você tem a ver com estes maltrapilhos? Deixe-os lá com a sua vida. Não se meta em sarilhos. A coisa pode tornar-se muito séria para todos!
D. Bosco retira-se sem nada ceder, mas a partir daí o campo de jogos dos seus rapazes começa a ser vigiado pelos agentes da ordem. Os donos do terreno aparecem também um dia. Põem-se a observar a terra toda pisada pelo bater desalmado de todos aqueles tamancos e botifarras. Dirigem-se a D. Bosco:
— A continuar assim isto fica reduzido a um deserto! Temos muita pena, caro padre, mas tudo tem limites. Está despedido.
D. Bosco sente-se fulminado. E agora para onde ir? Já foi escorraçado de tanto lugar...
“Ao cair da tarde daquele dia — escreve D. Bosco — olhei para aquelas centenas de rapazes que se divertiam. Sem ninguém que me desse a mão, sem forças, com a saúde abalada. Afastando-me um pouco, pus-me a passear sozinho e não pude conter as lágrimas: “Meu Deus, exclamei, que fazer agora?”
Nisto aparece não um anjo, mas um homenzinho a gaguejar: Pancrácio Soave, fabricante de soda e detergentes.
— É verdade que você anda à procura de um lugar para fazer uma oficina? (laboratório em italiano).
— Não é bem uma oficina (um laboratório), mas um oratório. (Ambiente de formação religiosa e alegre convívio para a juventude).
— Seja lá o que for, o lugar existe. Se quiser ver...
Seguindo aquele homem, D. Bosco percorre, quando muito duzentos metros.
O “lugar” é um telheiro comprido e tosco, pertencente a um certo Francisco Pinardi. Pegada ao telheiro, uma nesga de terra. D. Bosco corre a dar a notícia:
— Alegrai-vos, meus amigos. Já temos Oratório! Vamos ter igreja, escola e pátio para correr e saltar. No próximo domingo lá nos encontraremos. É aqui ao lado, na casa Pinardi!
5 de Abril de 1846. O próximo domingo é domingo de Páscoa.

Dois padres no manicómio

O telheiro que D. Bosco tinha alugado ao sr. Francisco Pinardi media 15 por 6 metros. Ligado à casa Pinardi (pela parte norte), tinha sido construído havia pouco tempo, e ali trabalhava um chapeleiro e as lavadeiras arrecadavam a roupa. (Passava ali perto um canal que ia dar ao Dória, também pouco distante).
— Aqui havemos de construir a igreja — disse D. Bosco. — É preciso contratar já os operários.
Vieram os pedreiros: escavaram, reforçaram as paredes e o tecto. Depois os carpinteiros assentaram um soalho de madeira sobre o pavimento de terra batida. Os próprios rapazes, muito dos quais eram aprendizes de pedreiro, ajudavam nas poucas horas livres.
Sábado à tarde o edifício estava como novo. D. Bosco lá arranjou como pôde as alfaias indispensáveis para a nova capela. E começou a sentir o peso das dívidas. Um peso que o acompanhará até ao fim da vida. Mas a Providência não havia de abandoná-lo.
12 de Abril: dia grande! Na manhã de Páscoa, todos os sinos da cidade tocavam festivos. Junto à casa Pinardi não havia sinos mas havia a pessoa de D. Bosco que atraía os rapazes para a “baixa” de Valdocco.
Agora que Nossa Senhora lhe tinha aberto o caminho, D. Bosco tinha a certeza de chegar muito longe. Com os colegas falava dos projectos como se já fossem realidade:
— Levantarei escolas e oficinas. Tudo isto para mim é como se já existisse.
A princípio ouviam-no curiosos. Mas depois um ou outro começou a abanar a cabeça:
— D. Bosco tem ideias fixas. Vai dar em doido. Precisa de um tratamento, antes que seja demasiado tarde.
Até o seu mais querido amigo, o braço direito na obra do Oratório, o teólogo Borel, começou a ter os seus receios. Um dia falava-lhe D. Bosco com tanto entusiasmo dos seus projectos que ele não se conteve: lançando-lhe os braços ao pescoço exclamou soluçando:
— Meu pobre D. Bosco! Estás perdido.
Dois outros seus amigos, os padres Pontazi e Nasi alugaram em segredo um quarto no manicómio para lá meterem o colega que julgavam transtornado.
Uma tarde, estava D. Bosco a explicar o catecismo a um grupo, quando chegaram os dois padres num coche fechado. Descem e convidam D. Bosco a dar um passeio com eles.
— Sabemos que andas cansado. Não queres vir dar um passeio connosco?
— Com todo o gosto. É só um momento, que vou buscar o chapéu.
Um dos amigos abriu a porta:
— Sobe.
— Os meus amigos primeiro.
Os dois amigos insistiram ainda, depois entreolharam-se e, para não estragar a festa, concordaram em subir primeiro. Imediatamente, D. Bosco fecha a porta, e grita ao cocheiro:
— Rápido para o manicómio! Esperam lá estes dois clientes.
O coche partiu como uma flecha para o manicómio que ficava perto. Os enfermeiros, que estavam informados da vinda de um padre, ficaram desapontados ao verem dois. Teve de intervir o capelão para deslindar o caso. A partir daquele dia, ninguém mais ousou repetir a façanha.

O milagre dos pequenos pedreiros

Durante a semana os pedreiros de Turim começaram a ver um espectáculo fora do vulgar: um padre de batina arregaçada subia os andaimes, entre baldes de cal e montes de tijolo. Era D. Bosco que, terminados os seus afazeres, andava pelas obras para se encontrar com os seus rapazes. Era uma festa para eles. Provenientes da província, tinham vindo parar a Turim em busca de trabalho como serventes de pedreiro, e muitas vezes eram explorados por patrões gananciosos e sem escrúpulos.
Mas ele não se limitava a falar com os rapazes no lugar de trabalho. Abordava também os patrões. Inteirava-se dos salários, do tempo de descanso, da possibilidade de guardar o domingo. Foi ele um dos primeiros na Itália a estabelecer contratos regulares de trabalho para os seus jovens aprendizes, e a bater-se pelo seu cumprimento.
Mas D. Bosco sozinho não podia chegar a tudo: todo o ser humano é limitado.
Um domingo de Julho de 1846, depois de um dia extenuante, passado a confessar, pregar, organizar jogos para os seus quinhentos garotos, enquanto se dirigia para o quarto, desmaiou.
Levaram-no em braços para a cama. Tinha sido atingido por uma grave pleurisia com expectoração de sangue. Durante a noite a febre subiu assustadoramente.
Pelos andaimes dos pequenos pedreiros, pelas oficinas dos jovens mecânicos, a notícia espalhou-se rápida como um relâmpago: “D. Bosco está a morrer”.
Naquela noite, ao quarto onde D. Bosco agonizava, iam chegando grupos de rapazes apavorados. Tinham ainda a roupa suja do trabalho, o rosto branco da cal. Nem tempo tinham tido de jantar para correr até lá. Choravam, rezavam:
— Senhor, não o deixes morrer!
Oito dias esteve D. Bosco entre a vida e a morte. Houve rapazes que, naqueles oito dias, trabalhando sob um sol escaldante, não provaram uma gota de água para arrancar do Senhor a sua cura. No Santuário da Consolata os pequenos serventes de pedreiros revezavam-se na oração: dia e noite havia sempre algum de joelhos diante de Nossa Senhora.
Às vezes o sono era tanto que os olhos se fechavam (depois de 12 horas de trabalho), mas não desistiam, pois D. Bosco não podia morrer. E a graça chegou, arrancada ao céu por aqueles miúdos que não se resignavam a ficar sem pai.
Uma tarde de domingo, pelos fins de Julho, apoiado a uma bengala, D. Bosco aparece no Oratório.
Os seus rapazes voam ao seu encontro. Os mais velhos obrigam-no a sentar-se num cadeirão, levantam-no aos ombros, e levam-no em triunfo até ao pátio. Todos cantam e choram de alegria, incluindo o próprio D. Bosco.
Entram na capela e agradecem ao Senhor. No silêncio absoluto que se fez, D. Bosco disse a todo o custo estas palavras:
— A minha vida é a vós que a devo. Mas podeis ter a certeza de que, de hoje em diante, toda ela será gasta em benefício vosso.
Naqueles dias de calor asfixiante, D. Bosco foi passar alguns meses de convalescença à terra natal. Prometeu que a demora não seria longa: até ao cair da folha.

Uma mãe para 500 rapazes

Era o dia 3 de Novembro de 1846. As folhas caíam com o vento do Outono, e D. Bosco regressou a Turim. Desta vez não vem sozinho: acompanha-o Margarida sua mãe, que tinha concordado em acompanhá-lo para se tornar a mãe de todos aqueles rapazes.
Os dois peregrinos fizeram a longa caminhada a pé. Margarida trazia no braço uma canastra, com todos os seus haveres: alguma roupa branca e um pouco de comida.
Já perto do Oratório um sacerdote amigo de D. Bosco reconhece-o, dá-lhe as boas-vindas e quer saber notícias:
— Então como é que vai a saúde?
— Sinto-me bem, obrigado.
— Onde é que ficas a viver?
— Aqui, na casa Pinardi. Aluguei lá três divisões. Como vês, trouxe comigo a minha mãe.
— Com que meios contas?
— Ainda não sei. Mas a Providência lá está.
— És sempre o mesmo — murmurou o outro abanando a cabeça —. Depois tirou o relógio do bolso e entregou-lho dizendo:
— Gostaria de ter mais recursos para poder ajudar-te.
Margarida foi a primeira a entrar na nova casa: três quartinhos nus e tristes com os respectivos leitos, duas cadeiras e alguns tachos. Esforçou-se por sorrir e disse a D. Bosco:
— Na nossa terra, andava numa roda viva para ter tudo em ordem, limpar os móveis e lavar a louça. Aqui terei menos preocupações...
Ambos, de sorriso nos lábios, meteram mãos à obra.
D. Bosco pôs na parede um crucifixo e um pequeno quadro de Nossa Senhora. Margarida preparou as camas e depois mãe e filho começaram a cantar. A canção dizia assim:
“Guai al mondo — se ci sente,
Forestieri — senza niente”
(Ai se o mundo nos descobre,
Forasteiros, mãos vazias...)
Um dos rapazes, Estêvão Castagno, ouviu-os, e a notícia correu veloz de boca em boca entre todos os rapazes de Valdocco:
— D. Bosco já voltou...

“Sou órfão. Venho de Valsesia”

Agora que tinha a mãe consigo, D. Bosco pensa poder fazer alguma coisa mais pelos seus rapazes. Alguns, à noite, não tinham onde dormir. Ficavam em qualquer canto ou nos miseráveis dormitórios públicos.
Pensou em recolher em casa os mais abandonados.
A primeira experiência saiu-lhe mal. Tinha posto alguns a dormir no palheiro. De manhã, nem um só para amostra: tinham fugido todos levando consigo as mantas que Margarida lhes tinha emprestado. Mas não desanimou.
Uma tarde de Maio. Chove a cântaros. D. Bosco e a mãe tinham acabado de jantar, quando alguém bate à porta. É um rapaz dos seus 15 anos, todo molhado e enregelado.
— Sou órfão. Venho de Valsesia. Sou servente de pedreiro, mas ainda não encontrei trabalho. Tenho frio e não sei para onde ir...
— Entra — disse-lhe D. Bosco —. Vai para a lareira, pois ensopado como estás pode ser perigoso.
Margarida prepara-lhe qualquer coisa para comer. Depois pergunta-lhe:
— E agora, para onde vais?
O rapaz fica pensativo. Depois, de lágrimas nos olhos:
— Não sei. Tinha três liras quando cheguei a Turim, mas já as gastei todas. Por favor, não me mande embora.
Margarida pensa nas mantas que ti¬nham voado:
— Poderias ficar, mas quem nos garante que não foges com as panelas?
— Não senhora. Sou pobre, mas nunca roubei.
D. Bosco acabara de sair debaixo da chuva. Pouco depois entra comuns tijolos, faz com eles quatro suportes sobre os quais coloca umas tábuas. Depois vai à sua própria cama. Tira o colchão e estende-o sobre as tábuas.
— Ficas a dormir aqui, meu caro. E ficarás enquanto for preciso. Ninguém te mandará embora.
É o primeiro órfão que entra na casa de D. Bosco. No fim do ano são sete. Mais tarde serão milhares.
Um dia D. Bosco entra numa barbearia. Aproxima-se um pequeno aprendiz para lhe ensaboar a cara.
— Como te chamas? Quantos anos tens?
— Carlitos. Tenho 11 anos.
— Muito bem, Carlitos, vê lá se fazes esse trabalho bem feito. E teu pai?
-— Morreu. Só tenho mãe.
— Pobre menino, sinto muito.
O rapazito tinha acabado de lhe ensaboar a cara.
— Agora, coragem, pega na navalha como se deve e faz-me a barba. Acode o patrão, alarmado:
— Desculpe, reverendo! O miúdo ainda não é capaz. O trabalho dele é só passar o sabão.
— Mas alguma vez há-de ser a primeira, não é verdade? Por isso pode começar comigo. Força, Carlitos.
Carlitos fez aquela barba tremendo como uma folha. Quando a navalha se movia em volta do queixo, suava em bica. Lanho aqui, lanho ali, conseguiu chegar ao fim.
— Parabéns Carlitos! — Sorriu D. Bosco —. Agora que já somos amigos, tinha muito gosto em que fosses visitar-me de vez em quando.
Um dia de Verão, D. Bosco dá com ele a chorar ao pé da barbearia:
— Que te aconteceu?
— Morreu a minha mãe, e o patrão despediu-me. E não sei para onde ir.
— Vem comigo. Sou pobre, mas ainda que só tenha um pedaço de pão, reparto-o contigo.
Margarida preparou mais uma cama. Carlitos Gastini ficou mais de cinquenta anos com D. Bosco. Alegre, cheio de vida, tornou-se o animador brilhante de todas as festas. Fazia rir toda a gente. Mas quando falava de D. Bosco, chorava como uma criança. “Era tão meu amigo!” exclamava comovido.

Sapateiros no corredor e alfaiates na cozinha

Em 1848 rebentou a primeira e sangrenta guerra da Independência.
Nos campos de batalha caíram milhares de homens, e pelas ruas de Turim começaram a vaguear grupos de órfãos sem casa nem futuro.
D. Bosco ampliou o orfanato. Bateu à porta dos ricos, importunou nobres e damas da aristocracia, conseguindo assim dinheiro para a construção de urna casa mais ampla, para os rapazes abandonados sem eira nem beira.
Muitos destes miúdos eram espertos e inteligentes. No entanto viam-se condenados a trabalhar como serventes de pedreiro para sobreviver e assim ficariam toda a vida.
D. Bosco não se confortava com semelhante situação.
Abriu um curso nocturno, convidou sacerdotes amigos e outras pessoas de boa vontade a ajudá-lo. As aulas eram dadas na cozinha, na sacristia, no coro da capela, onde quer que houvesse um canto livre.
E à noite, enquanto todos descansavam, D. Bosco escrevia livros para os seus rapazes. Eram livros fáceis, económicos, que chegaram a ser adoptados em muitas escolas de Turim.
Mas os rapazes, que enchiam de vida o pátio do Oratório, já não podiam aumentar mais. D. Bosco pensou então em fundar um outro:
— Meus caros amigos, quando as abelhas já não cabem na colmeia, uma parte delas vai em busca de outro lugar. E nós temos de fazer como as abelhas. Vamos formar uma segunda família e abrir outro Oratório.
E o novo oratório surgiu nas proximidades de Porta Nuova, e ficou a chamar-se “Oratório de S. Luís”.
Mas bem depressa também este ficou a transbordar, e D. Bosco fundou um terceiro na zona de Vanchiglia: “Oratório do Anjo da Guarda”.
O dia 2 de Fevereiro foi um dia de grande esperança para D. Bosco. Quatro dos rapazes que tinham vindo da rua, e que ele tinha formado com tanto desvelo, manifestaram-lhe o desejo de “serem como ele”: sacerdotes. Eram eles José Buzzeti, um pequeno servente de pedreiro da Lombardia; Carlos Gastini, o ajudante de barbeiro que lhe tinha feito a barba a tremer; dois outros jovens: Tiago Bellia e Félix Reviglio. Naquele mesmo dia receberam a batina, e começaram a ajudá-lo na assistência aos mais pequenos.
Em 1852 D. Bosco ampliou a velha casa Pinardi, e construiu um novo e grande edifício. Tinha de acolher não só os trabalhadores mas também os estudantes cujo número era cada vez maior.
Com a ajuda dos primeiros clérigos, muito jovens ainda, D. Bosco lançou-se num empreendimento grandioso e arrojado: no espaço de três anos (de 1853 a 1856) abriu as oficinas de sapataria, alfaiataria, encadernação e carpintaria. Começou-se do nada: alguns bancos num pequeno corredor para os sapateiros; duas pequenas mesas para os alfaiates na cozinha. O primeiro mestre-alfaiate foi o próprio D. Bosco, como foi também ele o primeiro a ensinar a bater a sola aos sapateiros aprendizes.
Era a primeira semente que bem depressa viria a trasformar-se numa grande árvore.
Mas onde é que D. Bosco ia buscar o dinheiro para pagar o pão dos seus rapazes e as paredes dos seus edifícios? A esta pergunta o Santo respondia com uma só palavra: “A Providência”. O Senhor despertava benfeitores, inspirava pessoas boas, fazia chegar cartas com ofertas.
E às vezes intervinha directamente de forma prodigiosa.
José Buzzetti viu-o com os seus próprios olhos, em 1849. D. Bosco tinha prometido castanhas cozidas aos seus 400 rapazes. Margarida porém tinha cozido só três ou quatro quilos. O cesto de onde D. Bosco tirava as castanhas com uma grande concha continha uma dúzia de punhados. E no entanto as castanhas chegaram para todos, mesmo para ele, Buzzetti, que recebeu no fim a sua ração como os outros, com olhos arregalados pelo milagre que tinha presenciado ali mesmo.

E Deus mandou um cão

A seita protestante dos Valdenses fazia muitos adeptos entre o povo de Turim, servindo-se inclusivamente do atractivo do dinheiro. Nesse tempo ainda não havia “diálogo”, mas luta aberta entre católicos e protestantes. D. Bosco, embora arrasado de trabalho, fundou em 1853 as “Leituras Católicas”: uma série de pequenos livros de carácter apologético e leitura fácil que avivavam a fé dos católicos.
Quando é que os escrevia? Durante a noite, em que habitualmente só dormia umas horas.
As “Leituras Católicas” provocaram a ira dos Valdenses, que a tudo recorreram para o fazer calar.
Uma tarde, enquanto dava aula aos maiores, um desconhecido disparou-lhe um tiro da janela. A bala passou-lhe rente ao peito e rasgou-lhe a batina. Perante o susto dos alunos, D. Bosco disse apenas sorrindo:
— Nossa Senhora é muito nossa amiga, e aquele sujeito deve ser um fraco atirador.
Depois olhou para o rasgão da batina e acrescentou com tristeza:
— Pouca sorte, era a melhor batina que eu tinha!
Um dia apareceu no pátio um meliante armado de punhal. Procurava D. Bosco para o matar. Como não o conhecia, confundiu-o com um dos clérigos, que fugiu logo pedindo auxílio.
Apesar de a polícia ter sido avisada, o criminoso voltou ainda mais três vezes, enchendo de terror o Oratório.
Uma noite, já muito escuro, chegaram alguns homens a chamar D. Bosco para que fosse confessar uma doente em estado grave.
D. Bosco foi imediatamente. Mas ao ser introduzido num quarto, alguém apagou a luz, e aqueles malvados caíram sobre ele armados de varapaus. D. Bosco mal teve tempo de agarrar numa cadeira e levantá-la para defender a cabeça. Recuando debaixo de uma chuva de pauladas conseguiu dar com a porta e fugir.
Uma noite D. Bosco voltava para casa, quando dois homens lhe barraram o caminho.
Lançaram-lhe uma capa pela cabeça, quando apareceu um grande cão, de cor pardacenta e focinho de lobo, aos urros. Atirando-se com as patas contra o peito de um e depois do outro, pô-los em fuga.
A seguir acompanhou D. Bosco até ao portão do Oratório.
“Todas as noites em que vinha sozinho — conta D. Bosco — ao entrar no arvoredo perto do Oratório, via sempre aparecer o “Pardo”. Os jovens do Oratório viram-no muitas vezes entrar no pátio. Uma vez, espantados, dois rapazes quiseram apedrejá-lo, mas José Buzzetti interveio logo:
— “Não lhe façam mal: é o guarda de D. Bosco”.
Carlos Tomatis, que frequentava então o Oratório, diz a respeito dele: “Era um cão de aparência temível. Muitas vezes Margarida ao vê-lo exclamava: “Oh que animal tão feio”. Fazia lembrar um lobo.
Certa noite D. Bosco tinha de sair para tratar uns assuntos urgentes, mas deu com o “Pardo” deitado na soleira da porta. Procurou afastá-lo, saltar por cima dele. Mas o cão começa a rosnar e empurrava-o para trás. Margarida, que já conhecia o cão, disse a D. Bosco:
— Se não me queres dar ouvidos a mim, obedece pelos menos ao cão: acho que não deves sair.
No dia seguinte D. Bosco soube que um assassino armado de pistola o esperava numa esquina.

A morte na cidade de Turim

Julho de 1854. Uma notícia alarmante percorre as ruas de Turim: grassa a cólera na Ligúria e está a alastrar como uma mancha de óleo nas aldeias do baixo Piemonte. O rei, a rainha e toda a família real fogem em coches fechados, e refugiam-se no castelo de Casellette, onde vivem os condes Cays.
Entretanto, na periferia da cidade, nos dias 30 e 31 de Julho apareciam os primeiros casos da terrível peste.
5 de Agosto. O bairro mais atingido de Turim é Borgo Dora, que confina com Valdocco. Todos os dias mais de cem vítimas jazem pelas diversas casas e nos lazaretos.
O presidente da Câmara dirige um apelo dramático aos sacerdotes, religiosos e religiosas: morrem pessoas nos lazaretos por falta de médicos e enfermeiras. Precisa-se de gente de boa vontade, disposta a arriscar a vida.
Naquela noite D. Bosco falou aos jovens do seu Oratório:
— O presidente da Câmara lançou um apelo. Se entre os maiores alguém se sentir com coragem de vir comigo aos hospitais e às casas particulares a tratar os doentes da cólera, faremos uma obra boa e agradável ao Senhor. Garanto-vos se procurardes viver todos na graça de Deus a cólera não terá aqui entrada.
Catorze dos maiores deram o seu nome. Poucos dias depois, outros trinta conseguiram obter a licença, apesar de serem ainda muito novos.
Foram dias de trabalho árduo, nada convidativo.
Durante mais de um mês aqueles 44 rapazes voluntários não tiveram mãos a medir. D. Bosco dava o exemplo a todos: sempre pronto a acudir, a confortar, a administrar os sacramentos.
Com as primeiras chuvas do Outono, o número de vítimas foi diminuindo. A 21 de Novembro deu-se por fim o estado de “emergência”.
Um caso ou outro, porém, foi ainda detectado no princípio do Inverno. E foi precisamente nesta altura que se manifestou a santidade de Domingos Sávio, um rapazinho de Mondónio recém-chegado ao Oratório (29 de Outubro).
Passando uma noite pela rua Cottolengo, Domingos fixou os olhos na fachada de uma casa, e como uma voz o chamasse enfiou pelas escadas e subiu apressadamente. Sem hesitar bateu à porta e apareceu o dono da casa.
— Desculpe — disse Domingos — não é aqui que mora uma pessoa atingida pela cólera e que precisa de assistência?
O homem arregalou os olhos:
— Não, aqui não há ninguém com essa doença. Era o que faltava!
— Tem a certeza?
— A certeza completa, que diabo!
— Deve estar enganado. Dá-me licença que entre?
O homem ficou fora de si. Ele sabia perfeitamente que na sua família, graças a Deus, estavam todos bem. Mas a insistência daquele rapaz começou a intrigá-lo.
— Entra, entra e verifica com os teus próprios olhos.
Deram voltas aos quartos, à cozinha, ao armazém. Nada.
— Mas não há mais nenhum quarto, algum canto no sótão?
— Ah! sim — disse o homem batendo com a mão na testa —. Vamos lá acima.
Subiram. E o que foram descobrir? Uma pobre mulher, aninhada a um canto, o rosto contraído pela doença, agonizava.
— Chamem depressa um padre! — segredou Domingos.
— Só faltava esta! — resmungava o pobre homem enquanto descia as escadas a chamar um padre. E lembrou-se então de que aquela infeliz lhe tinha pedido para a deixar ficar ali a dormir durante algum tempo. E nunca mais tinha pensado no assunto.
E uma pergunta importuna lhe martelava o cérebro:
— Como é que este rapaz conseguiu saber?
Com o avançar do Inverno os casos de cólera cessaram completamente. A cidade voltou a respirar.

As grandes realizações

O pequeno punhado dos primeiros clérigos (4) tinha-se multiplicado.
E D. Bosco pensou que era chegado o momento das “grandes realizações”.
Os anos seguintes iriam trazer muito trabalho, problemas cada vez mais difíceis, obras que desafiaram o tempo.
18 de Dezembro de 1859: no pequeno quarto de D. Bosco, nasce a família dos “Salesianos”. Os primeiros dezassete rapazes que manifestaram a vontade de seguir D. Bosco decidem viver unidos na “Congregação Salesiana”, com vista a trabalhar sempre a favor dos rapazes pobres.
30 de Julho de 1860: sobe os degraus do altar para celebrar a sua primeira Missa o Pe. Miguel Rua, o rapazinho pálido que D. Bosco encontrou nos moinhos, junto ao Dora, e ao qual tinha oferecido metade da sua mão. Ele vai tornar-se agora um outro D. Bosco, a sua sombra fiel.
Abril de 1864: no campo de Valdocco, D. Bosco lança a primeira pedra do Santuário de Maria Auxiliadora. Põe nas mãos do construtor a primeira soma de dinheiro: oito soldos.
1872: D. Bosco funda a congregação das Filhas de Maria Auxiliadora.
Às primeiras irmãs diz:
— Sois poucas e pobres, mas haveis de ter tantas alunas que nem sabereis onde metê-las.
11 de Novembro de 1875: no Santuário de Maria Auxiliadora, apinhado de gente comovida, D. Bosco entrega o crucifixo aos primeiros dez missionários salesianos que partem para a América do Sul. Chefe da expedição é João Cagliero, um dos primeiros rapazes do Oratório. Nascem assim as Missões Salesianas, que se estenderão por todo o mundo.
9 de Maio de 1876: Pio IX aprova os “Cooperadores Salesianos”, a quem D. Bosco chama “salesianos externos”. São os amigos das suas obras, que trabalham pela juventude e o ajudam com meios financeiros.
Antes de morrer, D. Bosco dir-lhes-á:
— Sem a vossa ajuda eu pouco ou nada teria feito.
1877: D. Bosco funda o “Boletim Salesiano”, órgão de ligação entre os cooperadores (que já eram centenas de milhar). É uma revista mensal que leva, a todos os associados, notícias da Congregação, as cartas dos missionários, a palavra viva de D. Bosco.
Mas quanto mais obras salesianas se estendiam pelo mundo, maiores somas de dinheiro eram precisas. Para sustentar as missões da América, para alimentar milhares de rapazes abandonados, nos últimos anos da sua vida D. Bosco viu-se obrigado a peregrinar pela Itália, pela França e pela Espanha, em busca de meios. Foi um trabalho extenuante.
Nossa Senhora abençoou visivelmente estas viagens: as mãos de D. Bosco restituíam a vista aos cegos, o ouvido aos surdos, a saúde aos enfermos. Por toda a Europa já era conhecido como “o padre que faz milagres”.
Maio de 1887: D. Bosco tinha terminado a sua última viagem à Espanha a pedir ajuda. O Papa incumbira-o de construir em Roma um templo ao Sagrado Coração de Jesus.
Agora, curvado pelos anos e pela fadiga, sobe ao altar do grandioso templo para celebrar a Eucaristia. Os seus olhos arrasam-se de lágrimas. E não consegue contê-las até ao fim da celebração. A seguir é preciso levá-lo à sacristia. O Pe. Viglietti (que estivera junto dele durante toda a Missa) pergunta-lhe ao ouvido:
— O que é que tem, D. Bosco?
E ele, de novo entre lágrimas:
— Representou-se diante de mim, com toda a nitidez, a cena do primeiro sonho, aos nove anos. Estava a ver e ouvir o que a minha mãe e os meus irmãos diziam a respeito do meu sonho...
Naquele sonho distante Nossa Senhora afirmara-lhe:” A seu tempo tudo compreenderás”. Agora, num olhar retrospectivo, parecia-lhe compreender tudo perfeitamente. Tinha valido a pena enfrentar tanto trabalho, tantos sacrifícios, para salvar tantos rapazes.
Morreu na madrugada de 31 de Janeiro de 1888. Aos salesianos, que velavam junto dele, murmurou nos derradeiros momentos:
— O importante é fazer bem a todos, e mal a ninguém!... Dizei aos meus rapazes que os espero no céu.