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terça-feira, 26 de junho de 2007

Madre Teresa de Calcutá

Terésio Bosco
Madre Teresa de Calcutá
Porto, Edições Salesianas, 1990




A religião é o fundamento da vida de Madre Teresa. Ela diz: “A minha vida é dedicada a Cristo. É para ele que respiro e vivo. É para mim uma dor insuportável quando me chamam assistente social. Se tivesse arranjado emprego como funcionária da Segurança Social, há muito que o teria deixado”.


Uma bacia de água limpa


Desceram-no da carroça e a braços levaram-no para a barraca. Os seus gemidos pareciam o ganir de um cão. Se tivesse mais forças, teria ladrado ou dado urros de dor, porque o cancro já lhe tinha devorado metade do corpo.
Os doentes das barracas vizinhas começaram a resmungar. Alguém levantou a voz:
— Não sentis o cheiro? Levai-o para longe.
Uma mulher magra, vestida com um sari branco, aproximou-se com uma bacia e ligaduras. Mas o cheiro horrível que vinha daquelas chagas fê-la empalidecer. Saiu a correr para não desmaiar. O alarido dos doentes tornou-se ameaçador:
— Levem para longe esse cadáver. Deixem-nos morrer em paz...
Agarrando-o pelas mãos e pelos pés, três irmãs pegaram nele e levaram-no para a barraca situada mais a Norte, num lugar fresco à sombra. Era o depósito dos cadáveres. Pousaram-no no chão. Madre Teresa viu que as outras duas já não podiam mais e disse:
— Trazei-me uma bacia de água limpa e, depois, ide ter com os outros.
Pouco a pouco, começou a lavar as horríveis chagas, acompanhada por um longo gemido, entrecortado somente por sentidos gritos de dor daquele desesperado.
A determinada altura, os olhos, que até então a tinham fixado sem nada ver, pousaram sobre ela. O gemido acabou. O moribundo procurava dizer uma palavra:
— Onde estou?... Quem sois?... Como conseguis suportar este cheiro?
— Isto não é nada — respondeu ela — comparado com o teu sofrimento.
Morreu à tardinha. Madre Teresa ainda lá estava, segurando-lhe a cabeça e dizendo-lhe palavras de esperança. Aquele homem, cujo nome ninguém sabia, ainda conseguiu dizer:
— Tu és diferente das outras. Obrigado!
E ela:
— Sou eu quem te agradeço, pois tu sofres com Cristo.

A carroça dos moribundos

Logo de madrugada, Madre Teresa voltou a sair pelas ruas de Calcutá, acompanhada de duas irmãs. A mais nova puxava a carroça. Nesta “cidade negra” até os passeios das ruas são habitados: homens e mulheres de todas as idades, quando a fome ou a febre os devora, deitam-se nos passeios; ali, esperam a morte. Os transeuntes não se preocupam. É uma coisa normal; sempre assim foi. As crianças pequeninas apertam-se contra a mãe que acaba de morrer e choram durante algum tempo. Depois, também elas ficam sossegadas e tranquilas. A morte passa por todos. As irmãs da Madre Teresa carregam, na carroça, os moribundos e levam-nos para a sua casa “Nirmal Hriday”, que, na antiga língua dos Brâmanes, significa: “Coração Imaculado”. Ali, colocam-nos sobre enxergas limpas, lavam-lhes as chagas, enxotam-lhes do corpo os insectos e cobrem-nos com um lençol limpo.
Madre Teresa passa pelas longas filas de enxergas acariciando mãos, dizendo palavras de esperança. É uma mulher pequena e magra, com um rosto estranho... envelhecido e, ao mesmo tempo, luminoso, belo como uma rocha enrugada pelo vento e pela chuva.

O pobre e o Papa


No dia 5 de Dezembro de 1964, Paulo VI terminava a sua viagem à Índia e, no aeroporto de Bombaim, saudava a multidão. Também Madre Teresa tinha vindo de Calcutá para receber a bênção do Papa. Tinha escolhido, para pernoitar, o “centro assistencial” que as irmãs tinham posto a funcionar num dos bairros mais pobres da periferia.
No dia anterior, dirigindo-se para o grande recinto oval onde o Papa encerrava o Congresso Eucarístico Internacional, fora atraída por um forte grasnar de corvos num aglomerado de barracas. Encontrara um velho moribundo, encostado a uma árvore. Braços finos como canas de bambu, rosto esquelético e imóvel. Com a ajuda de um rapaz, tinha-o levado para o centro assistencial.
Ora, enquanto Paulo VI saudava a multidão, o velho agonizava e Madre Teresa estava junto dele. Escreveu Curtis Pepper: “Chamava-o pelo seu nome, Onil, e sussurava-lhe, em língua bengali, palavras de conforto. Nenhum hospital tinha querido recebê-lo. Ninguém, naquela cidade de cinco milhões de habitantes, onde estão recenseados oficialmente três mil bairros pobres, tinha tido tempo de estender-lhe a mão enquanto estava para expirar. “Como te sentes, Onil?” — pergunta Madre Teresa. Para o velho já não havia esperança alguma: a denu-trição tinha-o levado ao ponto donde já não é possível voltar atrás. Nem o alimento, nem a ciência, nem nada o podiam salvar. Clinicamente, Onil estava morto, se bem que conseguisse falar ainda: “Vivi como um animal, mas agora morro como um ser humano...” Logo a seguir, expirou nos braços da Irmã que rezava por ele em bengali.
Madre Teresa não sabia que, naquele preciso momento, o Papa falava dela no aeroporto de Bombaim. Dizia à multidão: “Antes de deixar a Índia, desejamos oferecer o nosso automóvel a Madre Teresa, superiora das Missionárias da Caridade, para que o utilize na sua missão de amor”.

Recém-nascidos em assentos vermelhos

O automóvel era um Lincoln branco, descapotável e com assentos vermelhos, que os católicos americanos tinham oferecido ao Papa para as suas deslocações na Índia.
Desde o dia 6 de Dezembro, os habitantes da periferia de Bombaim viam o Lincoln branco, guiado por um hindu
esfarrapado, percorrer os bairros miseráveis da cidade. Parava em todos os depósitos de lixo. Saíam duas irmãs, vestidas com sari de algodão branco, que procuravam entre os detritos, e muitas vezes encontravam pequenos embrulhos com alguma coisa viva, palpitante lá dentro: um recém-nascido que uma mãe tinha abandonado porque não podia alimentá-lo. No “Centro” das Missionárias da Caridade já havia mais de cem bebés, bem dispostos, a gritar e a chuchar o leite que vinte cabras produziam cada dia.
Posteriormente, e de improviso, o Lincoln desapareceu. “A oferta do Papa foi muito preciosa e causou-me uma grande emoção” — disse Madre Teresa. — “Mas demo-nos conta que a gasolina era muito cara e decidimos renunciar ao automóvel vendendo-o. Um rico hindu ofereceu-me vinte e sete milhões: um preço de estimação, evidentemente, que eu aceitei. Metade foi-me dado em dinheiro e a outra metade em terrenos, em que começámos a construir a “cidade dos leprosos”.
As irmãs continuaram a percorrer os bairros degradados, à procura de recém-nascidos, de moribundos e de leprosos. Mas levavam a carroça puxada à mão.

18 anos: que rumo dar à vida?

Em criança, Madre Teresa chamava-se Agnes Gonxha Bojaxhiu. Vivia em Skopje, uma cidade que, muitos anos depois, seria destruída por um terramoto. Quando Agnes nasceu (1910), Skopje pertencia à Albânia, passando depois para a posse da Jugoslávia.
Quando frequentava as escolas da cidade, Agnes começou a fazer parte de um grupo juvenil muito empenhado. O assistente do grupo era um jovem padre jesuíta. Por essa altura, os jesuítas de Skopje abriram uma missão perto de Calcutá.
À sua pátria chegavam cartas dramáticas, que descreviam o estado de extremo abandono em que vivia a gente da Índia. Aos 12 anos, Agnes ouviu ler aquelas cartas no seu grupo e começou a pensar: “gostaria de ir para a missão de Calcutá”. Era o começo, simplicíssimo, de uma vocação.
1928. Agnes tem 18 anos. O futuro começa a ser uma preocupação cons­tante: “que rumo dar” à sua vida. A ideia das missões apodera-se dela cada vez mais. Reza, para que aquilo não seja uma fantasia. Pergunta ao confessor: “Como posso saber que Deus me chama?”. Ouve a resposta: “Através da alegria. Se o pensamento de dedicar a vida a Ele e aos irmãos te causa alegria e paz, uma alegria profunda e tranquilizante, há razões sérias para pensar que Deus te chama. A alegria profunda funciona como bússula, mesmo quando aponta um caminho duro e difícil”.
O pensamento de se tornar missionária desperta, de facto, nela uma alegria tranquila e profunda. Consegue a autorização do pai e da mãe, e faz o pedido para entrar nas “Irmãs de Loreto”, que têm a casa-mãe na Irlanda e muitas missões na Índia.
Depois de uma breve estadia em “Loreto Abbey” de Rathfarnham, nas proximidades do Danúbio, foi enviada para Dajeeling, na Índia.
Torna-se professora na “St. Mary High School” de Calcutá. A escola estava situada no bairro mais elegante da cidade e era frequentada pelas raparigas das famílias mais ricas. Durante alguns anos, a Irmã Teresa foi também directora da escola.
Deus chama pela segunda vez
1943. Em plena guerra mundial, uma grande fome abate-se sobre Bengala. Dois milhões de pessoas morreram de fome nos campos desolados por uma seca invulgar. O pensamento de todas aquelas vítimas, e de tantos milhares, que morrem nas ruas de Calcutá todos os dias, começa a atormentar a Irmã Teresa. Parece-lhe absurdo continuar a ensinar um pequeno número de privilegiados, enquanto tantos dos seus irmãos morrem a poucos metros ou a poucos quilómetros de distância, no mais completo aban­dono. Embora nunca se tenha limitado a ensinar superfícies e montanhas, mas também procurado sensibilizar as suas alunas para o grave problema dos pobres e marginalizados, parece-lhe que, nesta circunstância trágica, é preciso fazer alguma coisa mais, empenhar-se pes­soalmente.
Um dia, intui que este sentimento bem poderá ser uma segunda chamada de Deus. Para estar segura, dirige-se à Superiora da sua Congregação e, depois, ao arcebispo de Calcutá, D. Perier. Expõe o projecto de deixar o convento e de viver entre os pobres.
A resposta é um “não”. Porém, não se irrita. Continua a ensinar com serenidade na “High School”. Se aquele sentimento for verdadeiramente a vontade de Deus, Ele vai mostrar-lhe o caminho. “Os bispos — diz — não podem certamente permitir às irmãs que formem grupos separados cada vez que vima delas imagina que Deus lhe falou”.
Mesmo depois da recusa seca, D. Perier não rasgou a carta da Irmã Teresa.
Tem-na à mão sobre a sua mesa de trabalho e, de quando em quando, toma a lê-la. Esta Irmã Teresa não pede para abandonar a vida religiosa, mas para vivê-la de maneira diferente, mais em contacto com a gente pobre que morre no maior abandono. Quer seguir urn caminho que grandes santos já antes dela traçaram na Igreja, de Vicente de Paulo ao Cottolengo. Não é, pois, uma coisa estranha.
Ela, no entanto, conclui que será melhor apresentar o assunto ao Papa. Será ele quem vai decidir.
A resposta de Roma chega a 7 de Agosto de 1948. Pio XII está de acordo. A Irmã Teresa pode sair do convento e fazer a sua experiência de viver entre os pobres, sob a responsabilidade do arcebispo.
Teresa deixa o hábito de religiosa e veste um sari branco, como as mulheres pobres da Índia. Com um par de sandálias nos pés nus, algumas rupias no bolso e uma grande fé no coração, deixa o centro de Calcutá e dirige-se para as barracas da imensa periferia.


Cidade branca e cidade negra


Quem quer fazer uma ideia de Calcutá sobe à torre chamada Ochterlony Monument. Lá de cima, aquela imensa cidade, a que Nerhu chamou “Cidade pesadelo”, aparece nitidamente com as suas duas faces: bairros elegantes, ruas amplas, soberbos arranha-céus na “cidade branca”; inumeráveis pequenas barracas, casebres pardacentos que se estendem até se perderem com o horizonte nebuloso na “cidade negra”.
A primeira foi construída pelos comerciantes ingleses e é hoje habitada pelos hindus ricos.
A segunda é um imenso formigueiro humano aonde chegam todos os dias multidões de pessoas anónimas, que abandonam o campo devastado pela terrível seca ou pelas chuvas diluvianas. A enchente de miseráveis lança-se para o interior da cidade chegando a infiltrar-se na grande estação ferroviária de Hwrah, a maior estação dos caminhos-de-ferro da Índia. Mendigos reduzidos a esqueletos vivos, crianças famintas e sujas, leprosos refugiados nos montes de lixo, voo baixo de corvos e abutres. Para quem visite Calcutá, a fome e a morte são o cartão de visita desta imensa e babélica “cidade negra”.
Teresa conhecia muito bem Calcutá. Deixando a “cidade branca”, passou a viver na “cidade negra”.
Depois de uma sumária preparação médico-sanitária recebida na “Missão médica americana”, começou a sua missão reunindo as primeiras crianças abandonadas que encontrou. Cinco no primeiro dia, vinte e uma no segundo, quarenta no terceiro... Ensinou-as a lavar-se. Depois, como não tinha um quadro preto, começou a ensinar a ler e a escrever, fazendo riscos no chão.
Passava o resto do tempo ao lado dos moribundos, estendidos ao longo das ruas. Sentava-se junto ao primeiro leproso que encontrava, desinfectava-lhe as chagas e ligava-lhas. “Tinha apenas cinco rupias no bolso — recorda. — Não podia fazer mais”.

“Quero trabalhar contigo em favor dos pobres”

A escassez de alimentos que tem à sua disposição e a imensidão da miséria abalam a sua saúde logo nos primeiros dias. “Tenho a impressão — escreve — de naufragar num oceano de dor e de desolação”. A fome e o cansaço obrigam-na a pensar seriamente num possível regresso à “St. Mary High School”. Mas recompõe-se.
Michael Gomes, um funcionário governamental, oferece-lhe duas salas na sua casa. Teresa enche-as de doentes. As antigas alunas vêm dos bairros ricos de Calcutá visitá-la. Levam-lhe arroz e algum dinheiro. Duas delas pedem-lhe que as deixe cuidar das crianças enquanto ela se ocupa dos doentes. “É tão belo não se sentir só! — escreve. — É belo poder oferecer aos doentes uma tigela de arroz, quente e reconfortante!”.
No dia 19 de Março, chega àqueles dois aposentos Shubashini Das, uma linda rapariga de 19 anos. Foi sua aluna e pertence a uma rica família católica. “Quero trabalhar contigo em favor dos pobres” — diz-lhe. “Mas não só durante algumas horas. Para sempre, como tu”.
Teresa procura desencorajá-la, falando-lhe das imensas dificuldades que irá encontrar. Das, porém, está irredutível. Deixa o belíssimo sari de seda, veste um de algodão branco como o de Teresa e fica. É ela a primeira a chamá-la “Madre Teresa”.
Depois dela, outras virão: cerca de novecentas.

No templo de Kalì

Um dia, numa viela lamacenta, Madre Teresa encontra uma mulher roída pelos ratos. Está quase a morrer. As duas salas da casa Gomes estão superlotadas, não há possibilidade de meter lá mais ninguém, nem esta pobre mulher que está quase a morrer. Madre Teresa carrega com ela nos braços e leva-a ao hospital mais próximo. Não a aceitam, “não há lugar”. Enquanto se dirige a outro hospital mais distante, a mulher morre-lhe nos braços.
Madre Teresa não se dá por vencida. Tem de encontrar um lugar espaçoso para hospedar todos aqueles que estão a morrer de fome, para doenças que não são mortais mas que matam os mais fracos, para as terríveis chagas que a falta de alimento e de higiene abrem nos corpos.
Não muito longe dali, ergue as suas cúpulas e as suas grandes colunas o Kalìghat, templo da deusa Kalì, protectora de Calcutá. No recinto do templo, há duas salas enormes, destinadas a dormitório para os peregrinos que, no mês de Outubro, chegavam de todos os pontos da região. As duas salas, uma para os homens e a outra para as mulheres, estão vazias onze meses por ano. Madre Teresa pede, às autoridades da cidade, licença para poder utilizar as salas para recolher os moribundos. É um pedido muito arriscado, mas as autoridades, que estão fazendo todo o esforço para pôr um dique a tanta miséria na periferia, concedem-lhe a licença.
Os hindus fanáticos, logo que sabem do caso, organizam motins. “É uma contaminação do templo!”, dizem. “Uma freira católica que abre um asilo no recinto sagrado é uma profanação!”
“De acordo — respondem as autoridades. — Mandai vossa mãe ou vossa irmã a tratar dos moribundos e dos leprosos para o lugar da Madre Teresa, e nós mandá-la-emos embora”. É claro que ninguém se apresentou. E a Irmã foi deixada em paz.

Um brâmane vestido de garça

O jornalista Francisco Rosso, que foi visitar o templo de Kalì e o asilo da Madre Teresa, escreveu:
“Entre casas arruinadas, o templo de Kalì, deusa da destruição, eleva-se, terrível, sobre as multidões exaltadas, sobre os desprezados que correm a aplacar a deusa malvada com ofertas de flores, dinheiro e sangue. Kalì zomba do alto da sua estátua, toda negra, com horrorosos olhos brancos e língua vermelha, disposta a sugar o sangue dos sacrifícios que lhe são oferecidos. Todas as manhãs, um cabrito negro é levado à força até ao templo, um sacerdote encaixa-lhe a cabeça numa picota e degola-o. Parte do sangue, recolhido num recipiente, é levado em procissão até à estátua da deusa... Mulheres, vestidas com elegantíssimos saris e um enorme brilhante na narina direita, compravam colares de cor escarlate, velas de incenso, punhados de arroz que em seguida depunham diante da estátua de Kalì. Era meu guia um pequeno Brâmane vestido de garça, com os sinais cabalísticos da casta na testa: traços de gesso branco e estrias de bosta de vaca. Saí do templo agoniado pela náusea, fui procurar Madre Teresa na casa onde se refugiam os recusados da sociedade, homens e mulheres que, pelo menos, não morrem sem terem ouvido uma palavra de piedade, talvez a única em toda a sua desesperada existência.
“Madre Teresa não estava lá. Estava no convento que serve de quartel general na luta contra a fome e a lepra, em Lower Circular Road. Mas encontrei um engenheiro alemão, de Colónia, ainda jovem, que tinha deixado a sua brilhante carreira e tinha vindo para Calcutá. Quando o jornalista entrou, o jovem alemão estava inclinado sobre um homem mirrado pela fome e falava-lhe em voz baixa numa língua que o pobrezinho não compreendia. “Acabam de trazê-lo — disse — e ainda não tivemos tempo de lavá-lo, nem de vesti-lo. Não deve viver muito tempo”. Expirou poucos minutos depois. Não teve sequer energia para exalar o último suspiro.

“Por que o faz?”

“Eu olhava à minha volta, para aqueles pobres exangues — escreve Francisco Rosso —, oitenta homens e setenta mulheres, uns destruídos pela subnutrição, outros devorados pela lepra. Olhando para o jovem engenheiro, perguntei-lhe: «Por que o faz? Não tem medo da lepra?». «São Francisco beijou o leproso» — respondeu. «Eu apenas os trato».
“Fomos ao encontro da Madre Teresa no cinzento convento central. Daqui dirige novecentas irmãs e uma centena de “pequenos irmãos”. Entre outras coisas, controlam e tomam conta de oito mil leprosos, que continuam a ficar nos passeios de Calcutá, com sulfamidas e vitaminas. “O difícil é tomar conta deles” — diz um dos pequenos irmãos. “Mudam de um passeio para o outro, e os tratamentos tomam-se ocasionais, portanto, infrutíferos”. “É uma gota de água no mar o que fazemos”, diz Madre Teresa. “Pense que só em Calcutá há sessenta mil leprosos e quatro milhões na Índia”.
Ao Nirmal Hriday não se vai só para morrer. Desde a sua abertura, em 1972, já foram hospitalizados 27 mil moribundos; 14 mil foram salvos e puderam, apesar de tudo, retomar a vida.
Num dia de calor tórrido e sufocante de Maio — conta Maria Dainotti — é levada, de ambulância, ao Nirmal, uma mulher, reduzida a um pequeno montão informe e malcheiroso. Madre Teresa levanta aquele corpo descarnado, mais semelhante a uma radiografia do que a uma pessoa. As chagas abertas narram bem uma longa história de sofrimentos. Enquanto lava delicadamente todo o corpo com água e desinfectante, convida uma outra irmã a aplicar-lhe tónicos cardíacos, e uma terceira a trazer uma sopa morna. A mulher reanima-se, os olhos que fixa­vam o vazio retomam vida. Murmura:
— Por que fazes isto?
— Porque te quero bem — disse em voz baixa Madre Teresa.
A mulher, fazendo um grande esforço, pega-lhe na mão:
— Torna a dizê-lo.
— Quero-te bem! — repete com doçura.
— Torna a dizê-lo, torna a dizê-lo... A mulher aperta-lhe as mãos, puxa-as para si. Nos seus lábios aparece uma sombra de sorriso.

“Foi meu filho que me lançou”


Mas há outras chagas profundas que não se conseguem curar, nem sequer diminuir-lhes a dor.
Duas irmãs da Madre Teresa, passando junto a uma montanha de lixo, ouvem um lamento quase contínuo. Abrem caminho através dos desperdícios e encontram uma velha deitada de bruços entre o lixo. Enquanto a transportam ao Nirmal Hriday o lamento continua, como uma débil buzina bloqueada. Somente depois de a terem reanimado e curado, o lamento se transforma numa cantilena de palavras cheias de desolação: “Foi o meu filho que me lançou para aqui”.
A Índia, que ama e respeita os animais, conta, cada ano, centenas de milhares de recém-nascidos e de velhos lançados nas lixeiras.
Nove décimos dos moribundos recolhidos pela Madre Teresa são “párias”, imundos e intocáveis. Na Índia, a religião hindu impôs a desumana divisão em “castas”. A casta mais baixa, os “párias”, é uma classe de gente infeliz e desprezível, destinada aos trabalhos mais repelentes. Os das castas superiores não lhes podem tocar nem mesmo com, o olhar. Gandhi lutou com jejuns extenuantes para que a sociedade indiana reabilitasse os “párias”, rebaptizados por ele “filhos de Deus”. Mas quase nada conseguiu.
Ao Nirmal Hriday, chegam um dia os estudantes de medicina da Universidade. Começam a servir e a medicar os miseráveis da Madre Teresa sem olhar a distinção de casta. Prometem voltar todos os sábados. Senhores de castas elevadas vêm, regularmente, a lavar as chagas dos moribundos. É uma coisa pequena. Mas, na Índia das castas, é um milagre.

Para mais uma criança


Metade da população indiana tem menos de 17 anos. As crianças, na Índia, são multidões, encontram-se por toda a parte, como as formigas. Hillary, o conquistador do Everest, escreve: “Chegados à Índia, viajámos dias e dias de comboio. Dúzias de crianças, carregadas de sacos de arroz, viajavam connosco sem bilhete. Iam agarrados da parte de fora do comboio, apertados sobre os tejadilhos e até sob as carruagens. Em cada paragem, a polícia afasta-os a golpe de bastão, mas, por cada criança afastada, outras duas subiam nas costas dos polícias. Com surpreendente coragem, estas crianças permaneciam agarradas no exterior das carruagens quase 80 quilómetros de percurso sem paragens. Fizemos entrar algumas para dentro da carruagem; aí se sentavam no pavimento com tão paciente resignação que me chocou. Quando se chegava às aldeias, as crianças esgueiravam-se logo para se defenderem das bastonadas dos polícias que esperavam a chegada do comboio”.
Logo que pôde dispor de algumas colaboradoras, Madre Teresa abriu centros de assistência primária para as crianças. Eram asilos, escolas elementares dotadas de poucos meios mas suficientes: pequenas casas em terra batida, cabanas com tecto de folhas de palmeira, às vezes apenas uma simples árvore para se poderem sentar à sombra dos seus ramos.
Depois, surgem as “Shishu Bhavans” (cidade das crianças) para as crianças doentes, os recém-nascidos lançados para a lixeira, os doentes mentais. “Até agora não recusamos nenhum — diz. — Há sempre uma caminha pronta para mais uma criança”.

Uma lampadazinha para aquecer os recém-nascidos


Pensa-se também nas incubadoras, necessárias para as crianças nascidas prematuras e lançadas fora como lixo. Não há dinheiro para as modernas máquinas médicas, niqueladas e assépticas, e as primeiras incubadoras são toscas caixas de madeira. Nelas são colocados cinco recém-nascidos, lado a lado. Uma redezinha serve para ventilação, uma lampadazinha acesa, e apagada oportunamente, mantém a temperatura constante. Mais tarde, um artesão chinês ofereceu-se para arranjar uma coisa mais funcional.
As vitaminas, as glucoses e o leite de cabra vão enchendo aquelas faces desnutridas. E o amor das irmãs ajuda-as a sorrir. Quem visita a “Shishu Bhavans” fica impressionado com a algazarra festiva que as crianças fazem nos corredores. Tomam o visitante pela mão, abraçam-no, convidam-no a correr e a brincar com elas. Uma mulher, que passava no corredor, fez uma carícia a uma criança muito pequenina que estava a comer; e ela, enchendo a mão de arroz, estendeu-a para a senhora, com um sorriso.

Os pequeninos colaboradores dos ladrões


“Um dia — conta Madre Teresa — veio ter comigo um polícia com uns rapazitos dos seus dez/onze anos que tinham sido apanhados a roubar nas proximidades da estação de Howrah. Aquele polícia era uma pessoa boa e hesitava metê-los na prisão: em contacto com os criminosos, arruinar-se-iam para sempre. Perguntou-me se eu podia tomar conta deles.
Falei um pouco com aqueles rapazes e descobri que faziam de receptadores e colaboradores de uma quadrilha de ladrões que, em troca, lhes dava todos os dias uma boa refeição. Propus: “E se eu vos desse todos os dias uma boa sopa quente, e mais qualquer coisa, deixaríeis essa quadrilha?.
“Olharam-me indecisos. O que os convenceu, provavelmente, não foi a sopa, mas o interesse e o afecto que demonstrava por eles. Vieram comigo”. Madre Teresa procurou para eles uma casa, o alimento necessário e organizou uma escola. Depois, um rico hindu doou outras casas e agora os rapazes, paupérrimos, que as irmãs da Madre Teresa alimentam e preparam para a vida, são 2.500.
À medida que crescem, Madre Teresa arranja-lhes um trabalho. Para as raparigas, procura arranjar um modesto dote que as ajude a encontrar um marido.
Um dia, enquanto caminhava por uma rua de Calcutá, juntamente com a senhora Ann Blaikie, um jovem hindu deitou-se-lhe aos pés e beijou-lhos. Madre Teresa levantou-o rapidamente, reconheceu-o e abraçou-o. Uns anos antes, aquele rapaz tinha sido levado, moribundo, para o Nirmal Hriday. A tuberculose e a fome crónica tinham-no prostrado. Trataram-no com amor e salvaram-no. O rapaz frequentou a escola e Madre Teresa tratou de arranjar-lhe o necessário para que tivesse um modesto ofício, engraxador. Agora, aquele rapaz tinha conseguido uma boa posição, estava para casar e sentia-se feliz por poder abraçar a sua benfeitora.
“Isto é maravilhoso! — sussurrou Madre Teresa à senhora Blaikie. — É pena que, tantas vezes, não aconteça assim”. O desemprego é uma doença tão grande na sociedade indiana que, muitas vezes, os rapazes recolhidos e curados pela Madre Teresa voltam a cair na maior miséria. “Nós somos uma gota de água no oceano — diz com seriedade a pequena Irmã. — Fazemos o que podemos mas é pouquíssimo em relação àquilo que deveríamos fazer todos em conjunto”.

O quarto voto

Todos os religiosos da Igreja católica fazem a Deus três votos: de viver em castidade, de ser pobres e de obedecer aos seus superiores. As irmãs da Madre Teresa acrescentam um quarto: dedicar-se única e completamente à ajuda e à salvação dos pobres.
“Nós não aceitamos presentes daqueles a quem vamos visitar — diz com energia Madre Teresa, — nem sequer uma fatia de pão. Porque os verdadeiros pobres não a podem dividir connosco. Cada uma das irmãs tem um prato de esmalte no qual come, uma colher, dois saris de pouco valor (um dos quais é lavado todos os dias), um par de sandálias e um colchão. Nada mais. A nossa casa são as casas dos pobres e as ruas onde morrem os esfomeados. O convento serve-nos apenas para repousar algumas horas e rezar. Porque temos necessidade de rezar. Sem a força da oração a nossa vida é insuportável”.
Se lhe perguntardes: “Onde arranja o dinheiro de que precisa?”, Madre Teresa sorri e mostra o último pacote de cartas recebidas da Europa. Escrevem-lhe de todo o mundo e mandam-lhe ajudas. Os alunos ingleses enviam-lhe pão, os dinamarqueses leite, os alemães vitaminas. Ela resume tudo em três palavras: “Deus ajuda-nos”.
E que seja Deus a intervir, demonstram-no acontecimentos estranhos que perturbam o nosso espírito ocidental de “planificadores”. Acontecimentos que se lêem também nas crónicas do Cottolengo de Turim.
“Estava para chegar uma postulante — conta com simplicidade Madre Tere­sa — e não havia um colchão para ela em todo o convento. Tínhamos o forro, mas não tínhamos nada com que enchê-lo. Estava a descoser a minha almofada para lhe tirar o algodão e usá-lo, quando toca a campainha da entrada. Vou abrir. É um inglês com uma almofada debaixo do braço: “Estou para deixar Calcutá — disse — e pensei que talvez vos pudesse servir”. Ajudo-o a tirar de dentro do carro um colchão muito cheio, pesado, que servirá para encher pelo menos quatro dos nossos pequenos colchões vazios”. No centro de assistência, em Calcutá, um dia foram recebidos mais vinte rapazes. Ao almoço, o seu enorme apetite acabou com o arroz da casa. Não há mais nada para a refeição da tarde. É hora de acender o fogão, mas que se vai meter na panela? Madre Teresa sorri. Talvez pense nas palavras que, em circunstâncias semelhantes, dizia o Cottolengo: “Agora se verá se a casa é minha ou é da Providência”. Pela porta, entram três pessoas: uma mulher e dois homens curvados sob o peso de dois sacos. Aquela mulher, desconhecida, dirige-se à primeira irmã que encontra: “Pensei em trazer-vos um pouco de arroz. Quereis aceitá-lo?”.
Setembro 1963. Em Agra, as irmãs da Madre Teresa abriram um outro “centro de caridade”. Lá de longe, uma irmã telefona em termos dramáticos:
— Temos de abrir a todo custo uma casa para as crianças abandonadas. Nesta zona, morrem às dezenas todos os dias.
— E quanto é preciso para abri-la?
— Podemos construí-la com 50 mil rupias (cerca de quatrocentos mil escudos).
— Compreendo muito bem, irmã — murmura Madre Teresa. — Mas eu não sei onde ir buscar cinquenta mil rupias.
Poucos minutos depois, o telefone toca de novo. É da redacção de um jornal diário de Calcutá. Comunicam à Madre Teresa que o governo das Filipinas lhe tinha concedido o prémio Magsaysay, que a reconhece como a “mulher mais benemérita da Ásia”. Teresa não faz a mais pequena ideia do que seja aquele prémio. Pergunta:
— Trata-se de dinheiro?
— Sim, cerca de 50 mil rupias.
O redactor do jornal fica estupefacto quando ouve a Irmã murmurar ao microfone:
— Então sempre é verdade que Deus quer a casa para as crianças abandonadas de Agra.

Alegria para os pobres


Quando uma rapariga pede para se juntar à família da Madre Teresa, a preparação é dura e avança por graus. Durante seis meses, a “postulante” vai observando o trabalho que a espera, e é observada para ver se nela existem sinais de uma autêntica vocação.
Perguntaram à Madre Teresa quais eram estes “sinais” que ela queria ver em cada “missionária da caridade”. Respondeu: “Saúde de mente e de corpo. Capacidade de aprender. Uma grande dose de bom senso. Um carácter alegre”.
Insiste sobre a necessidade da alegria: “A alegria do Senhor é a nossa força, como está escrito na Bíblia. Por isso, não temos razão para nos sentirmos tristes e infelizes, mas temos muitos motivos para sermos felizes e levar esta alegria ao mundo. Todos nós, se temos Jesus connosco, devemos levar a alegria ao mundo”. A uma irmã que lhe pedia um dia para ir para as barracas dos pobres, mas que se apresentava de rosto triste, respondeu: “Não vai. Volte para a cama. Não se pode ir ao encontro dos pobres com a cara triste”.
Depois, refere a qualidade base, que toda a missionária da caridade deve possuir em grau absoluto: a capacidade de amar a Deus nos pobres. “Os pobres são a nossa oração — diz; — neles está Deus e nós encontramo-lo neles. A oração é fazer tudo por Cristo, rezar em qualquer lugar, rezar no trabalho. Começamos cada dia com a Santa Missa e a Comunhão, e terminamo-lo com uma hora de adoração ao Santíssimo. Nós procuramos descobrir Cristo nas aparências do pão da Eucaristia e, ao longo do dia, conti­nuamos a vê-lo nas aparências dos corpos desfeitos dos nossos pobres.
“Que consolações teríamos se isto se não realizasse nas nossas vidas? Nós encontramos o Senhor que tem fome e sede: esta é a grandíssima consolação de uma irmã. Isto enche a nossa vida”.

A Irmã com bigodes postiços

Nos meses de preparação, a postulante aprende o inglês e faz uma séria aprendizagem no campo médico-sociológico.
O dia em que uma nova irmã pronuncia os quatro votos, é dia de festa. Uma irmãzinha confiou ao microfone de um jornalista: “Vós não fazeis festa quando um de vós acaba um Curso? Para nós, este dia representa muito mais: fazer os votos quer dizer seguir a Cristo mais de perto, juntamente com a Madre Teresa. Nesse dia, cantamos e dançamos. Ouviu a voz da irmã Josefina: era professora de música antes de vir para nós e toca o piano maravilhosamente. Pois bem, algumas de nós pintam-se e colocam uns grandes bigodes postiços, tocamos tam­bor nas caixas da carne congelada...”
A casa central das irmãs é o número 54A de Lower Circular Road, em Calcutá. Foi um muçulmano que a ofereceu à Madre Teresa.
— Quanto queres pela casa? — perguntou-lhe a Irmã.
— Quero que tu habites esta casa com as tuas filhas. Se aceitas, a casa é tua.
Quem quiser entrar, puxa pela corda de uma sineta. No pequeno pátio, ladra um cão manso e brincalhão, também ele salvo de um lamaçal para onde tinha sido atirado para morrer. Para encontrar as irmãs, normalmente, tem de se ir à capela: uma sala pobre, sem bancos, com esteiras nas quais se podem acocorar à oriental. Na parede do fundo, sobre o altar, um grande e escuro crucifixo, com uma inscrição a caracteres brancos: “I THIRST!” (Tenho sede).
Na capela, alternam-se, por grupos, as irmãs que residem em Calcutá. Cada grupo dedica um dia por semana à meditação. Os livros de oração são escritos à máquina “porque os livros são caros”.

A oração da Madre Teresa


Terminada a meditação, todas recitam em coro uma oração que aprenderam com a Madre Teresa:


“Tornai-nos dignas, Senhor, de servir os nossos semelhantes que morrem de miséria e de fome em todo o mundo.
Dai-lhes hoje, por meio das nossas mãos, o pão de cada dia e dai-lhes alegria e paz através do nosso amor inteligente.
Faz de mim, Senhor, um instrumento da tua paz, para que onde reina o ódio, eu leve amor;
Onde há a maldade, eu leve o espírito do perdão;
Onde há discórdia, eu leve a harmonia;
Onde há erro, eu leve a verdade;
Onde há dúvida, eu leve a fé;
Onde há desespero, eu leve a esperança;
Onde há trevas, eu leve a luz;
Onde há tristeza, eu leve a alegria.
Senhor, concede-me que eu procure mais consolar que ser consolada; Compreender mais que ser compreendida;
Amar mais que ser amada;
Porque é esquecendo-se de si própria que cada qual se encontra;
E morrendo que se acorda para a vida eterna.
Amen”.

Onde a lepra é de casa


A norte de Calcutá, perto da cidade de Asansol, ergue-se a obra mais querida da Madre Teresa. Chama-se Shanti Nagar, Cidade de Paz. É uma verdadeira cidadezinha, com casas, piscina, jardins, escolas. Ali habitam duas mil pessoas. Há apenas uma diferença em relação às outras pequenas cidades: aqui, os habitantes são leprosos.
Esta doença tão antiga suscitou sempre repulsa. Mesmo quando a ciência demonstrou que a lepra é menos contagiosa que as outras doenças, o leproso continua a ser marginalizado, com violência, pela sociedade.
O bacilo da lepra não ataca órgãos vitais, mas corrói a pele, apodrece os dedos, transforma o rosto numa máscara trágica. O leproso, além de ser um doente, sente-se aviltado, desprezado, humilhado.
Madre Teresa pensou: “Farei uma cidade só para eles, onde ninguém os humilhará. Lá procuraremos curá-los com os remédios mais modernos, inventados pela ciência — as sulfamidas. Não são muito caros, são fáceis de administrar e o efeito é seguro, se o tratamento for prolongado e constante”.
O terreno para a “Cidade da Paz” (17 hectares) deu-lho o rico hindu que comprou o Lincoln branco do Papa. O resto do dinheiro serviu para começar a construção das casas.
Hoje, a “cidade” é habitada por quatrocentas famílias de leprosos. Têm à sua disposição médicos e enfermeiros fixos. Foram escavados catorze poços, que fornecem água de nascente às casas e ao hospital. As escolas, bibliotecas, oficinas de tipografia, mecânica, marcenaria, fábricas de calçado, fiação e cestaria funcionam em pleno. Jardins, hortas, pomares, arrozais e aviários tornam a cidade praticamente auto-suficiente.
A toda a volta, um grande parque circunda de verde e de paz a cidade.
Não é um “grande convento governado por irmãs, mas uma pequena aldeia indiana” que se governa por si própria, segundo os antigos costumes da Índia: todos elegem os próprios representantes, escolhendo-os entre os mais velhos.
Os leprosos que se curam voltam para a sociedade com um emprego que lhes dá boas perspectivas de sustentar a sua família.

O prémio “João XXIII”

Quando a construção se encontrava quase a meio, os dinheiros recebidos da venda do Lincoln do Papa tinham acabado. Estávamos em finais de 1970. No dia 22 de Dezembro, o Papa Paulo VI anunciou que, pela primeira vez, seria atribuído o prémio internacional “João XXIII”: “atribuímos este prémio a uma religiosa muito modesta e silenciosa, mas bem conhecida por aqueles que estão atentos e admiram os heroísmos da caridade no mundo dos pobres: chama-se Madre Teresa. De há vinte anos para cá, nas ruas da Índia, vem desenvolvendo uma obra maravilhosa de amor e dedicação em favor dos leprosos, dos velhos e das crianças abandonadas. Propomos à admiração de todos esta intrépida mensageira do amor de Cristo”.
Madre Teresa foi a Roma, no dia 6 de Janeiro de 1971, e recebeu das mãos do Papa uma imagem de Jesus e um cheque de quinze milhões de escudos. O diploma, que documentava a atribuição do prémio, dizia assim: “É belo e significativo que nesta nossa civilização de consumo o prémio da paz seja dado a quem se consagra aos seres mais inúteis e improdutivos da humanidade: os leprosos, os moribundos, os diminuídos”.
Os quinze milhões, fechados num envelope azul que o Papa lhe deu, chegaram para concluir Shanti Nagar, a cidade dos leprosos.

O silencioso e rápido desenvolvimento

A obra da Madre Teresa tem já 29 anos de vida na Índia. 29 anos desde aquele dia em que tirou o hábito religioso da sua congregação, vestiu o sari branco e começou a juntar as primeiras crianças abandonadas nas ruas. A sua obra estendeu-se rápida e silenciosamente por todo o mundo. Deitemos um rápido olhar a este desenvolvimento.
Em Calcutá, foram abertos 59 centros de caridade. Na Índia, funcionam outras 30 obras de assistência aos mais pobres. Como prova de reconhecimento, o governo indiano conferiu-lhe uma medalha de ouro — a Padmashri Medal. Madre Teresa pô-la ao pescoço de uma pequena estátua da Virgem Maria, que se ergue numa parede do Nirmal Hriday.
1965. Um pequeno grupo de irmãs, guiadas pela Madre Teresa, abre uma obra na Venezuela, na América Latina. Ao sul de Caracas, a região de Yaracuy é habitada por descendentes de escravos africanos, mergulhados numa apatia e pobreza que dilaceram o coração. “Pelos caminhos poeirentos das aldeias — escreve Maria Dainotti — grupos indiferentes passam as horas fumando e bebendo; as crianças, sujas, esgravatam com as galinhas entre os detritos ou misturam-se entre os cães vadios e cabras negras, enquanto nas cabanas todas sujas, reino de maus cheiros e de desordens, as mulheres passam o tempo tagarelando”. As Missionárias da Caridade ajudam as mulheres em casa, ensinam a fazer pequenos trabalhos caseiros, ensinam a coser à máquina, tratam os doentes, procuram interessar as crianças pelos jogos. 1967. O governo budista da ilha de Ceilão expulsou, há mais de 20 anos, quase todos os missionários católicos. Agora, pede à Madre Teresa que envie para aquela ilha as suas irmãs, para que construam dispensários para os mais pobres, organizem clínicas móveis, abram casas para as crianças abandonadas.
Madre Teresa chega à capital da ilha com um pequeno grupo de missionárias. A suprema autoridade da ilha recebe-a à chegada, aperta-lhe as mãos e diz-lhe: “Nós trabalhamos para o mesmo Deus. Atrás do nosso templo existem alguns barracões que não nos servem para nada. Usai-os para o vosso primeiro dispensário e peço-vos que me considereis, aqui na cidade, o primeiro entre os vossos cooperadores”.

Missionárias em Roma

1968. Vindas de Calcutá, chegam à Tanzânia a irmã Shanti e sete missionárias, pedidas pelo Bispo de Tabora à Madre Teresa, para que se ocupem dos pobres acampados nos arredores da cidade. Dez anos depois, nos subúrbios da cidade de Tabora dirigem seis dispensários (a irmã Shanti é licenciada em medicina), ajudam os leprosos e os cegos a construir cabanas à sua volta. Sete jovens tanzanianas vestiram já o mesmo sari das irmãs indianas.
Entretanto, nascem os “Irmãos Missionários da Caridade”, que são já uma centena. Orienta-os o padre Andrea, um jesuíta que recebeu também ele licença para deixar o seu convento na Austrália, para se dedicar aos mais pobres. Os “Irmãos” apoiam a obra das missionárias e executam os trabalhos mais duros e pesados.
Em 1969, as missionárias abrem um centro em Bourke, na Austrália, entre as tribos aborígenas. Em 1970, surgem casas em Melbourne (Austrália), em Amman (Jordânia), em Londres e em Roma. Na capital da cristandade, onde vivem 22 mil irmãs de 1200 ordens diversas, estão, a pedido de Paulo VI, no bairro das barracas do Aqueduto Felice.
Vão passando de casebre em casebre, visitando velhos e doentes, fazem-lhes os curativos, arrumam ambientes, ocupam-se dos mais pequeninos que ainda não são aceites nos asilos, cozinham para as famílias cujas mães estão ausentes por motivo de trabalho.

Ciclone de fogo no Bangla Desh

Março de 1971. A tragédia abate-se de improviso sobre o Bangla Desh (o Paquistão Oriental que confina com a Índia, a poucos quilómetros de Calcutá). Como os seus habitantes exigiram a separação política do Paquistão Ocidental e a independência, os soldados desencadeiam uma repressão com um massacre horrível... O terror da carnificina leva as pessoas a fugir.
Abril, Maio, Junho 1971. Começa o horroroso êxodo. Perseguidas pelas tropas paquistanesas que disparam à queima-roupa, as populações do Bangla Desh fogem para as florestas e para os pântanos. O seu fim é alcançar a fronteira e pôr-se a salvo na Índia. O governo indiano pede ajuda internacional e organiza campos para os refugiados. Estes atingem a cifra de nove milhões. Os campos transformam-se em enormes formigueiros. A cólera alastra.
Outubro, Novembro 1971. Chegam os ventos ciclónicos e as chuvas torrenciais. A situação torna-se cada vez mais trágica.
Dezembro 1971. Para desbloquear a situação na única direcção possível (derrubar o governo paquistanês e declarar a independência do Bangla Desh), a Índia declara guerra ao Paquistão. Multidões de bengalis, horrorizadas pela situação, fogem espavoridas. Vagueiam pelos pântanos, atravessam florestas espessas e insidiosas. Levam consigo, ao colo, as crianças que tremem de febre, os velhos e os doentes. Dormem no chão, comem raízes, sempre com medo de se encontrarem com alguma patrulha de soldados paquistaneses que os liquidariam a todos.
“Calcutá — afirma um médico naqueles dias — está a rebentar, literalmente falando, sob a pressão de oito milhões de pessoas.
Falta a água na cidade. A maior parte dos habitantes sofre de desnutrição. Faltam estruturas hospitalares. Se entrarem na cidade mais dois ou três milhões de fugitivos, será o fim. Quem se poderá salvar das epidemias?”.
“Visitei dezenas de campos de refugiados — escreve um enviado especial. — São todos iguais, montados por vezes em terrenos alagados pela chuvas acompanhadas de ventos ciclónicos. Tendas de todo o tipo, cabanas e barracas. As famílias vão morrendo no meio da lama, da humidade e da promiscuidade. Por todos os lados o espectáculo é o mesmo: crianças nuas devoradas pelas moscas e pelos mosquitos, pequenos regatos de líquidos amarelos e pestilentos, pequenos fogos acesos pelas mulheres com o fumo acre que seca a garganta, pessoas acocoradas nas fossas, os urros, as rixas, o nojo, os rostos desesperados, os corpos esqueléticos”.

De novo o êxodo por entre os campos minados

Felizmente, a guerra dura apenas catorze dias. O Paquistão é derrotado. É proclamada a independência do Bangla Desh. Inicia-se o êxodo ao contrário, igualmente incómodo, igualmente trágico, mas mantido pela esperança de “voltar a casa”. Nove milhões de pessoas caminham através dos campos, pelas estradas, pelos atalhos. Os enormes problemas de assistência transferem-se para o território do Bangla Desh incendiado e devastado, semeado de minas.
As irmãs da Madre Teresa sentem-se submersas neste mar de sofrimento. Trabalharam até ao esgotamento, andando de campo em campo, recolhendo, ao longo dos caminhos, os extenuados, as crianças perdidas e quase enlouquecidas no caos geral. O governo reconhece a sua acção com a atribuição do “Prémio Nerhu”. O documento diz: “Madre Teresa deu ao mundo uma das mais surpreendentes provas de caridade, inspirando um grande número de pessoas a dedicar-se ao serviço dos pobres, dos abandonados e dos fracos”. Agora é o Bangla Desh a chamá-las, com urgência. Para socorrer, de qualquer maneira, a massa de refugiados que regressa, o governo chama as Missionárias da Caridade para seis cidades-chave. E elas vão. Abrem, em pouco tempo, uma vintena de obras, pobres mas funcionais: dispensários médicos, asilos para crianças órfãs ou abandonadas, casas para os moribundos, institutos para os mutilados pelo rebentamento de minas.

Os pobres do Ocidente


1972. As Missionárias da Caridade entram no Yemen a pedido do governo (há anos que o Yemen não admite a presença dos cristãos). Abrem uma casa no bairro de Ballymurphy, em Belfast (Irlanda do norte), palco de uma guerrilha impiedosa entre protestantes e católicos. Vão também habitar em Harlem, no bairro negro de New York, entre os viciados e drogados. É aqui que a Madre Teresa descobre doenças mais terríveis ainda do que a lepra e a fome, que estão minando o nosso farto mundo ocidental. “Na Índia — disse — nós temos casas para os moribundos privados de tudo. Mas, na Europa e na América, encontramos gente ainda mais pobre: os não-amados, os não-queridos, os não-confortados. Hoje no mundo, a doença mais grave não é a lepra mas a solidão, o não sentir-se amado por ninguém. É esta a doença mais grave”. Em 1973, a Madre Teresa abriu cinco novas casas na Índia, e fundou centros de assistência em Óstia, Palermo, Addis Abeba, Taiz (Yemen), Lima (Peru), Gaza (Israel), Katherine (Austrália), Saigão (Vietname).
As suas irmãs, ao terminar o ano de 1975, eram 870.

A dança do menino


Há um episódio, na vida da Madre Teresa, que perturba muita gente e faz pensar. Talvez seja um dos episódios-chave para compreender esta figura.
Passou-se na estação de Howrad, em Calcutá. Perto da meia-noite, quando os comboios ficam parados durante algumas horas, chegou uma família muito pobre que costumava vir dormir na estação. Eram mãe e quatro filhos, dos cinco aos onze anos. A mãe apresenta-se num estado burlesco, pequena, vestida com um sari branco de algodão, demasiado frio para uma noite fria de Novembro, com os cabelos cortados a zero, coisa estranha para uma mulher. Levava consigo recipientes de lata, alguns farrapos e pedaços de pão, tudo o que possuía para si e para os seus filhos. Eram pedintes. A estação era a sua casa.
As crianças, três meninas e um menino, o mais pequeno, eram todas como a mãe, cheias de vivacidade. Àquela hora, em plena noite, sentaram-se todos num dos passeios da estação, junto à linha do comboio, pertinho de muitas outras famílias e mendigos solitários que já dormiam à sua volta. Tomaram a sua refeição da noite, de pão seco, provavelmente o que tinha sobrado de algum revendedor e que, ao cair da tarde, lho tinha cedido por um preço irrisório... Mas não foi uma ceia triste. Eles falavam, riam e diziam graças. Seria difícil encontrar uma família mais feliz do que aquela.
Quando acabaram a mísera ceia, dirigiram-se todos a uma torneira, com muita alegria; lavaram-se, beberam e lavaram também os recipientes de lata. Depois, desdobraram com cuidado os seus trapos, para dormirem juntos, e um pedaço de lençol para se cobrirem.
E foi então que o mais pequenino fez qualquer coisa absolutamente maravilhosa: pôs-se a dançar.
Saltava e ria entre as linhas do comboio; ria e cantava docemente, com irresistível alegria.
Que dança aquela, em tão absoluta miséria!
Madre Teresa já disse várias vezes que para nós, ocidentais, tristes no meio da nossa riqueza, encerrados dentro das nossas luxuosas vivendas, o pobre é um “profeta”. Mesmo na miséria em que a nossa habilidosa economia os marginalizou, eles dão-nos lições de valores que nós já esquecemos: o amor para com os outros, a alegria que provém das pequenas coisas, a amizade, a capacidade de entusiasmar-se por alguma coisa.
“Nós ajudamo-lo a sair da miséria. Mas ele dá-nos alguma coisa mais: ensina-nos uma maneira diferente de viver: servir-se das coisas, mas não tornar-se prisioneiros delas; acreditar que há valores bem mais preciosos que o dinheiro: o amor, o calor da família, o sorriso das crianças, a amizade, a alegria...”.

Alberto Schweitzer

Terésio Bosco
Alberto Schweitzer
Porto, Edições Salesianas, 1990


“Ao observarmos a sociedade contemporânea, uma coisa nos impressiona: discutimos mas não fazemos progressos. Porque os povos não confiam uns nos outros”.
“Os homens querem chegar à lua, mas não vêm as flores que desabrocham a seus pés”.
“Assim como a luz branca é a resultante de raios coloridos, assim o respeito pela vida supõe todas as componentes da ética: amor, benevolência, simpatia, empatia, paz, capacidade de perdoar”.
“O homem não pode viver para si. Devemos tomar consciência de que toda a vida é preciosa e que estamos unidos a todas as formas de vida”.

Alberto Schweitzer
Ao saírem da escola, dançavam no ar os primeiros flocos de neve. O espectáculo provocou uma alegria esfuziante naquela multidão de estudantes, que se atropelavam e envolviam em lutas rumorosas, acaloradas e felizes. Só um se mantinha à parte: Alberto.
Há três anos que frequentava a escola, mas era sempre posto de lado. Porquê? Por ter pouca vida, mas sobretudo por ser o filho do pastor, isto é, um “fidalguete”, e vestir melhor que todos os filhos dos camponeses. Aquele cerco de solidão enchia de amargura o coração de Alberto. Naquele dia, vencido pela alegria da neve a esvoaçar, decidiu acabar com esse isolamento. Aproximou-se de George Nitschelm, um latagão de rosto rubicundo e forte musculatura. Apesar disso, pondo a pasta no chão Alberto disse-lhe:
— Vamos à luta. Tenho a certeza que te venço.
Aquelas palavras eram uma declaração de guerra. Mas Alberto não sabia o que era a guerra nem tão-pouco como se declarava: dizia aquilo com um sorriso aberto e cordial, olhos luminosos e serenos, como se tivesse convidado Jorge a comer bolos. Jorge aceitou a guerra. Desatou numa gritaria triunfante como se há muito tempo esperasse aquela ocasião; cuspiu nas mãos, e dirigindo um olhar significativo aos colegas que se aglomeravam em volta deles gritou:
— Vamos a isso, meu anjinho. E prepara-te para o que der e vier!
Alberto olhou para ele desolado, pois o que desejava era apenas um encontro de amigos. Jorge pelo contrário queria a guerra total. Mas Alberto não podia continuar a viver à margem. E embora a contragosto lançou-se, de cabeça em riste. Era por demais evidente que Alberto, um barra em aritmética, de luta livre não percebia nada. Caiu por terra duas ou três vezes com as fintas e as rasteiras de Jorge. Em volta deles os companheiros gritavam de entusiasmo. Mas o pálido “fidalguete”, com as lágrimas nos olhos, a cada passo voltava a cair. Para ele, agora era uma questão de vida ou de morte. Finalmente, evitando uma nova rasteira, Alberto conseguiu deitar as mãos a Jorge. Agarraram-se fortemente, dentes cerrados pelo esforço, procurando cada qual dominar o adversário. Jorge nunca pensou que aqueles braços tão franzinhos tivessem tanta força. A certa altura começou a fraquejar. Não podia mais. A um novo esticão perdeu o equilíbrio, e caiu de costas. Alberto, olhando-o, lançou-se sobre ele. No seu rosto tinha aparecido de novo o sorriso cordial, e agora estendia a mão ao “inimigo” vencido, para ajudá-lo a levantar-se. Mas Jorge recusou. Levantou-se sozinho, e com lágrimas de raiva gritou-lhe:
— Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua, havia de malhar-te até dar cabo de ti.
E desapareceu. Alberto sentiu-se atingido por aquelas palavras como se fossem pedradas. Olhou em volta. O silêncio dos colegas exprimia o mesmo pesar. Então, num repente, agarra na sacola e soluçando corre para casa. Não quis jantar: parecia-lhe ver os companheiros, sentados à volta das suas mesas sem nada para comer. Naquele dia tinha descoberto uma coisa que o enchia de amargura: a miséria.
No domingo seguinte, quando fosse à igreja com o seu pai para a reunião dos fiéis, Alberto devia vestir o sobretudo novo.
Pela primeira vez cedeu à teimosia: não quis. O pai tinha pressa e começava a perder a paciência:
— Então, acabas ou não acabas com esses caprichos?
— Mas eu não quero o sobretudo.
— É porque foi aproveitado do meu sobretudo velho?
— Não, papá, não é por isso.
— Então?
— Porque os meus colegas também o não têm.
— Essa é uma razão nobre. Mas eu sou o pastor, e não quero que as pessoas pensem que não tenho dinheiro para comprar um sobretudo ao meu filho. Veste-o.
Foi como se tivesse falado com as paredes.
— Então recusas obedecer ao teu pai?
— Eu não recuso obedecer-te, papá. É que eu não posso levar o sobretudo.
— Sabes então o que sou obrigado a dar-te?
— Sim.
Alberto apanhou então um tabefe, mas foi para a igreja sem o sobretudo, como os outros rapazes. Em todos os domingos daquele Inverno, mesmo que tivesse de apanhar de novo, Alberto não mudou de ideia. Mas o pai tinha compreendido a bondade do seu filho, e nos últimos domingos de Inverno o tabefe tinha-se transformado em carícia.
Ao chegar o Verão, Alberto acompanhou o pai pela primeira vez a Colmar. Caminhando por uma rua junto aos jardins públicos, a certa altura parou e apontou ao pai uma estátua. Era a “cabeça de um jovem negro” de Bartholdy, o autor da Estátua da Liberdade de Nova Iorque. Representava um negro forte e distinto, mas de olhos aterrorizados.
— Porque é que tem medo daquele negro, pai?
— É um negro do Gabão, o país mais pobre do mundo. Os que lá nascem são pessoas condenadas à miséria.

Um livrinho verde indica o caminho

Quando aos 14 anos Alberto Schweitzer abandonou Günsbach, a aldeia onde seu pai era pastor, para prosseguir os estudos em Mulhausen, manifestava já uma extraordinária vocação musical. Desde os nove anos que todos os domingos se sentava ao órgão da igreja para acompanhar as funções que o pai dirigia.
Em Mulhausen, quando os estudos liceais lhe deixavam algum tempo livre, Alberto dirigia-se para a igreja de Santo Estêvão e sentava-se ao órgão. Foi ali que descobriu Bach, o grande músico alemão que na primeira metade do século XVIII tinha oferecido ao mundo um rio caudaloso de música, que até então permanecera esquecida nas estantes das bibliotecas. Quando Alberto Schweitzer tocou no órgão de Santo Estêvão as primeiras peças daquele grande músico, Bach era quase desconhecido. Será ele, Schweitzer, que o dará a conhecer à Europa e ao mundo com os seus admiráveis concertos e com os seus livros.
Aos 18 anos inscreve-se na Universidade de Estrasburgo e simultaneamente inicia uma série de concertos de órgão na Alemanha, na França e na Espanha.
Aos 22 anos laureou-se em teologia pela Universidade de Estrasburgo. Um ano depois conseguiu a láurea em filosofia. Entretanto tinha-se tornado um dos organistas mais célebres da Europa. Vendia saúde e a sua força de vontade era enorme: conseguia brilhar nos estudos e dedicar várias horas por dia ao órgão, para preparar os concertos. Dormia três a quatro horas por noite, e apesar disso a sua capacidade intelectual era fora do comum. Um ano depois da sua segunda láurea, Schweitzer foi convidado a ficar na Universidade de Estrasburgo: professor universitário aos 24 anos.
Na manhã de Pentecostes, Alberto Schweitzer foi acordado pelo toque dos sinos.
“Imóvel, escutei aqueles sons juntamente com a voz da minha felicidade íntima — escreveu. — Os meus sonhos mais radiosos tinham-se concretizado. A vida abria-se maravilhosa diante de mim. Mas de repente o meu pensamento voltou-se para uma multidão de homens, homens sem conta que nada possuíam... Vieram-me à mente as palavras de Jorge Nitschelm: “Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua...”, e as palavras do meu pai diante da estátua do negro: “a gente mais pobre e miserável do mundo...”. Dentro de mim ressoavam insistentes as palavras do Evangelho: “Àquele que muito recebeu muito será pedido... Recebestes de graça, pois dai de graça... Pregai a palavra... Curai os enfermos...”. Naquela manhã Alberto Schweitzer, com calma e lucidez, tomou uma decisão: continuaria a dedicar-se à ciência por mais seis anos. Depois deixaria tudo, e iria para um país miserável a fim de dedicar a vida aos seus irmãos mais desgraçados. Durante aqueles seis anos tomaria conhecimento do país onde a miséria fosse maior, e esse país seria a sua futura pátria. Era o dia de Pentecostes de 1899.
“Uma manhã de Outono (1904) — conta Schweitzer — encontrei sobre a minha mesa de trabalho um daqueles livrinhos de cor verde nos quais a Sociedade das Missões Evangélicas de Paris publicava os relatórios mensais das suas actividades. Pu-lo de lado para retomar o meu trabalho. Mas depois peguei nele e abri-o mecanicamente. O meu olhar caiu sobre um artigo intitulado: As necessidades das missões no Gabão. Aquela região era ali apresentada como “o ponto mais doentio do mundo”, e o director da Sociedade das Missões lamentava que a missão carecesse de homens para continuar a obra. Exprimia a esperança de que o seu apelo fosse ouvido pelos que “vivem sob o olhar do Senhor” e os levasse a ir trabalhar naquela obra urgente. O artigo terminava com estas palavras “Precisam-se homens que à chamada do patrão respondam generosamente: Senhor, aqui estou! Deus tem necessidade destes homens”. Terminada a leitura, recomecei com toda a tranquilidade o meu trabalho. Fiquei a saber naquele momento a que actividade dedicaria a minha vida.”


Um maço de cartas para começar desde o princípio

O professor Schweitzer estava noivo de Hélène Bresslau. Logo que pôde estar com ela, disse-lhe:
— Hélène, já encontrei a finalidade da minha vida: servir os negros do Gabão. Eles necessitam sobretudo de médico. Vou pôr de parte todas as outras ocupações para me inscrever na faculdade de medicina. Dentro de oito anos estarei apto para partir. Sentes-te com coragem de esperar por mim durante tanto tempo? E especialmente, sentes-te com coragem para vires sepultar-te comigo no meio das florestas? Eu não tenho direito de expor-te aos perigos e à miséria.
Hélène reflectiu um pouco, muito séria. Depois sorriu:
— Vou frequentar um curso de enfermagem — disse-lhe. — Assim sentir-te-ás mais ligado à tua Hélène.
No dia 13 de Outubro Alberto Schweitzer deitou na caixa do correio um maço de cartas. Em algumas delas anunciava aos parentes e amigos a decisão tomada. Noutras pedia a demissão da Universidade e de todos os outros encargos para poder iniciar os estudos de medicina.
Aquelas cartas tiveram o efeito de uma bomba. Em Paris, em Estrasburgo, na sua terra natal muitos pensaram que se tratava de uma loucura passageira. Escreveram-lhe cartas a lamentar a decisão, disseram-lhe claramente que o que tencionava fazer era o maior disparate da sua vida. “Nenhum deles pode compreender — escreveu entristecido Schweitzer — que a atitude de servir o próximo recomendada por Jesus possa levar alguém a mudar o rumo à sua vida. Todavia todos lêem o Evangelho, e todos acreditam em Jesus Cristo...”.
Mas Alberto Schweitzer, quando tomava calmamente uma decisão, não voltava atrás. Quando começaram os cursos de medicina, os estudantes do primeiro ano ficaram admirados de ver a seu lado alguém que até há pouco pertencia ao corpo de professores. Foram oito anos de trabalho aturado: seis para a láurea, um de trabalhos práticos no hospital, e outro em Paris, dedicado à medicina tropical. Neste último ano Schweitzer realizou também uma série de concertos. Nas catedrais de França, Espanha, Inglaterra, Alemanha foi aplaudido pelas admiráveis execuções de Bach. Com o dinheiro recebido encheu sessenta e nove caixotes de medicamentos. Depois casou com Hélène, e com ela partiu. Os amigos de Paris quiseram oferecer-lhe um piano.
— Assim lá longe não perderás o exercício. E se um dia te cansares da floresta, poderás voltar às nossas catedrais.
O piano estava revestido de fortes chapas de ferro para o defender das formigas brancas.


Pirogas no rio Ogové

Abril de 1913. Há cinco horas que o barco Alembe sobe o rio Ogové, na zona zero equatorial. Ao longe avistavam-se as colinas de Lambaréné, uma aldeia perdida do Gabão. A sereia do Alembe lança silvos prolongados. O pequeno vapor só atracará dentro de meia hora. Mas a sereia adverte os habitantes das fazendas das vizinhanças, para que cheguem a tempo com as pirogas para levantarem as encomendas e o correio.
Alberto Schweitzer, um homem robusto de 38 anos, está sentado no convés junto de Hélène, sua jovem esposa. Tem na cabeça um chapéu branco colonial, e toma uns breves apontamentos no seu bloco de notas: “Água e florestas primitivas... Parece sonhar... A floresta é uma muralha gigantesca donde emana um calor insuportável... Penso no comércio dos escravos que durante séculos despovoou estas regiões...”.
Da plataforma, onde atracou o Alembe, à estação missionária de Lambaréné à qual se dirigem os Schweitzer ainda era uma boa hora de piroga. “Não havia ningém a receber-nos — escreve Schweitzer. — Mas durante o desembarque (eram as quatro e o sol queimava), descubro de repente uma piroga comprida e estreita. É conduzida por jovens que cantam alegremente. Chega com a velocidade de uma flecha e gira à volta do vapor com tanta rapidez que, junto da amarra que prende o barco ao ancoradouro, o branco que vem a bordo mal tem tempo de se desviar para não ficar sem cabeça. O branco é o missionário protestante Christol, e os remadores são jovens da missão. Logo atrás aparece também, muito veloz, a piroga com o missionário Ellenberger. Esta é conduzida por adultos. Entraram num desafio de velocidade, e os mais novos, por terem vencido, troçam agora dos “mais velhos”. Os vencedores têm direito de transportar o doutor e a mulher, os outros encarregam-se da bagagem. Esplêndidos rapazes! — O começo da viagem em piroga atrapalha-nos um pouco. Estas embarcações estreitíssimas são escavadas num único tronco de árvore, e perdem o equilíbrio ao mínimo movimento. Os remadores remam de pé, o que de maneira nenhuma favorece a estabilidade. Fustigam a água com as longas pás e cantam num ritmo veloz. Se algum deles perde o lance, vamos todos ao charco... Meia hora depois o nosso medo tinha desaparecido, e podíamos dizer que a travessia fora agradável. Os rapazes fazem um desafio de velocidade com o pequeno vapor, e por pouco não fazem virar uma piroga ocupada por três velhas indígenas, que nos gritam imprecações num dificílimo dialecto gutural...”.
Já na missão, Alberto e Hélène são recebidos com grandes grinaldas de flores e de ramos de palmeira, e apertam dezenas de mãos negras. Depois sobem à sua pequena casa situada na colina: uma construção em madeira assente numa estacaria de ferro. Mal tinham acabado de chegar, caiu a noite. Nos trópicos a noite cai subitamente, como um fio-de-prumo, logo o último raio de sol desaparece, sem o repousante intervalo do crepúsculo.
E Schweitzer, assomando à varanda, sentiu-se envolvido por uma colossal sinfonia de grilos, entrecortada aqui e ali por uns ruídos surdos e ritmados do tanta que anunciava a toda a imensa floresta a chegada do Oganga, o feiticeiro branco.

A África chega aos bandos

Ao reentrar no quarto, Alberto viu uma sombra impressionante que descia ao longo da parede: era uma aranha peluda e enorme. Espantado, Schweitzer agarra num pau, a única coisa que tinha à mão, e descarrega fortes pancadas na parede. Quando Hélène apareceu, preocupada com as pancadas, Alberto enxuga o suor após a sua primeira “caçada” africana.
Às seis da manhã foram acordados pelo toque do sino da missão e pelo brilho ardente do sol. Desceram apressados para verem “o barracão de chapas” que seria o núcleo inicial do hospital. Não deram com ele.
Os missionários explicaram-lhes que, infelizmente, tinha faltado a mão-de-obra. A única coisa disponível era um velho galinheiro de tecto esburacado e com as paredes todas sujas. Schweitzer pediu vassouras e um balde de cal, e ele mais Hélène limparam como puderam aquele galinheiro, durante três horas de trabalho fatigante.
Depois, exaustos, puseram-se a descansar à sombra de uma palmeira, quando, pelas dez horas, ouviram na direcção do rio um barulho de vozes que aumentava cada vez mais. Levantando-se, Alberto viu no rio um grande número de canoas apinhadas de indígenas, e na colina um formigueiro de gente: pessoas coxeando, amparando-se umas às outras, doentes transportados nos braços. Desta vez Schweitzer perdeu a paciência:
— Assim não! É impossível! Eu disse que nas três primeiras semanas não atendia ninguém, a não ser casos urgentes! Ainda não chegaram os caixotes dos medicamentos, e aqui nem uma palhota existe para atendimento dos doentes!
Na verdade a estação missionária tinha avisado que o Oganga branco nas primeiras três semanas não atendia ninguém a não ser os casos urgentes. Mas os que naquele momento subiam a colina eram todos infelizmente casos urgentíssimos. Em poucos minutos Alberto e Hélène viram-se cercados por uma multidão de pobres seres humanos atingidos pelas mais variadas doenças: lepra, malária, doença do sono, febre amarela, úlceras tropicais, pneumonias, hérnias inguinais... Eram acompanhados de familiares e amigos. Impossível compreender uma só palavra no meio de toda aquela confusão e gritaria, mas em cada rosto Alberto leu aquele terror que, num dia distante, descobrira na “cabeça do jovem negro” de Bartholdy.
O doutor Schweitzer tratou primeiro de separar os doentes contagiosos dos outros. Depois começou a observá-los ali mesmo, ao ar livre, diante do velho galinheiro e sob um sol de fogo. Hélène correu a casa e voltou com a mala de pronto socorro que tinham trazido na bagagem em vista de eventuais casos de emergência. Utilizando ligaduras, álcool e outros desinfectantes, trabalharam lado a lado durante todo dia.
Quando tombou a noite, e começaram a zumbir por todo o lado os terríveis mosquitos da malária e da febre amarela, ainda eles lá estavam a fazer pensos, a desinfectar e a ligar. Tiveram de interromper, mortos de cansaço, o corpo alagado em suor. E no entanto a fila dos “casos urgentes” era agora maior que da parte da manhã. E aqueles pobres infelizes acocoraram-se na terra nua: vítimas de variadas doenças teriam de passar a noite lado a lado, esperando a sua vez para serem tratados pelo oganga branco, se a morte os não surpreendesse. Os dez dias que se seguiram foram um pesadelo para o doutor Schweitzer.Todos os medicamentos de que a estação missionária dispunha ficaram esgotados. E os doentes, alguns gravíssimos, aumentavam a olhos vistos. Parecia ao jovem médico que todas as florestas da África vinham despejar as suas vítimas ali na esplanada frente ao “galinheiro”. Mais tarde viria a saber que os feiticeiros lhe tinham enviado naqueles dias todos os doentes, por eles julgados incuráveis, para o desencorajar.
Enquanto espera a chegada dos seus setenta caixotes de medicamentos, que estão a ser transportados rio acima, Schweitzer realiza verdadeiros milagres de cirurgia. Apesar de tudo, alguns doentes morrem sob os seus olhos. Com esses nada a fazer. Aumentava o seu pesadelo ao saber que os indígenas têm um medo terrível dos mortos. Alberto e Hélène vêem-se obrigados a pegar nas pás para enterrar os cadáveres.
Mas na noite de 26 para 27 de Abril foram acordados por um silvo prolongado. “Era o silvo da ressurreição — escreve Alberto. — O vapor carrega com os meus setenta caixotes estava chegar. Terminara o grande pesadelo”
Numas estantes rústicas, o oganga branco lá foi alinhando a aparelhagem cirúrgica e empilhando as reservas médicas. O caixote número setenta era maior de todos: continha o piano que os amigos de Paris lhe tinham oferecido.


Uma barreira de olhos brancos

Naquele dia Schweitzer pôde fazer sua primeira operação de vulto, debato do tecto do velho galinheiro preparado c melhor maneira possível. Um negro robusto, de uns trinta anos, tinha sido transportado pelos familiares de uma distância de mais de 150 quilómetros. Uma viagem horrível. A cada passo, negro soltava-se das mãos dos que amparavam e rebolava-se no chão, gritando desesperadamente. Tinha uma hérnia dupla prestes a degenerar em peritonite. Schweitzer conta assim o caso: “Logo que o pobre doente chegou ao hospital, coloquei-lhe a mão na testa e disse-lhe:
— Não tenhas medo. Agora vais dormir, e quando acordares já não vais sentir nada. Dei-lhe uma injecção de omnipon, chamei a minha mulher e preparei tudo para a operação. Ao retalhar aquele ventre inchado e duro, à minha volta havia um silêncio de morte. Uma barreira de olhos brancos, vindos da penumbra da cabana, seguiam todos os meus gestos. Lia neles uma decisão firme: se com o meu bisturi viesse a causar a morte ao negro também seria liquidado. Mas a operação correu bem. Depois, observei o acordar daquele homem. Recobrados os sentidos, olhou em volta e gritou com entusiasmo:
— Já não tenho nada! Já não tenho nada!
A sua mão procurou a minha e não a largou mais. Agora a barreira de olhos brancos olhava-me com veneração, e naquelas bocas rolava um alegre murmúrio. O sol africano brilhava entre os arbustos do café, enquanto nós ambos, o homem branco e o homem negro, um ao lado do outro, compreendíamos plenamente o significado das palavras: somos todos irmãos”.
Ao cair da noite, o tantã da floresta transmitiu aos quatro ventos um boletim médico triunfal: “O oganga branco tem uma faca que cura todos os males... O oganga branco é poderoso...”. Naquela noite, pela primeira vez, com o ressoar do tantã, ecoaram pela floresta os sublimes acordes da “tocata e fuga em ré menor” de Bach. Alberto Schweitzer, um dos maiores organistas do mundo, dava o seu primeiro concerto na floresta.


Os canibais à porta de casa

Entre os doentes sem conta que Schweitzer curou nos dias seguintes, estava Joseph Azvawami, um negro sensível e inteligente da tribo dos Galaos. Uma malária crónica tinha-o reduzido a pele e ossos. Schweitzer fez o impossível para o salvar. Acompanhado por Hélène, passou noites inteiras à sua cabeceira. E Joseph ficou-lhes muito reconhecido. Ele tinha já trabalhado às ordens de alguns comerciantes franceses, e conhecia um pouco a sua língua. Depois de curado ficou com Schweitzer, e depressa se tornou o seu valioso intérprete.
Através dele o doutor veio a saber coisas da maior utilidade para a sua missão. A tribo dos Galaos, pacata e pacífica, ocupava no passado toda a região do rio Ogové. Mas depois, vinda do interior, tinha aparecido a tribo dos Panins, ferozes e canibais, provocando guerras e saques. Agora as duas tribos viviam em territórios fronteiriços, e a missão estava na linha de fronteira. A pouca distância da casa de Schweitzer, os cambais continuavam a alimentar-se de carne humana. Durante meses de trabalho extenuante e contínuo, Schweitzer combateu contra todas as doenças e sofrimentos. Mas havia uma força que o ultrapassava, uma força que dominava muitíssimos negros e os trazia fora de si: essa força era o medo. E o medo, vinha do tabu.
“Na zona do rio Ogové — escreve Joseph Golomb — mesmo entre as tribos que praticavam o canibalismo, era tabu tapar com terra um buraco, pisar um carreiro de formigas, tocar num camaleão e fazer mil outras coisas. Além disso, havia inúmeros tabus pessoais para homens, mulheres e crianças. A uma criança dizia-se que para ela era tabu contar os dedos. Um rapaz não devia permitir que ninguém lhe tocasse no ombro direito. Uma mulher, para quem era tabu uma vassoura, limpava a casa com as mãos nuas. A um rapaz, que frequentava desde há pouco a escola da missão, tinham dito que morreria se comesse qualquer alimento tirado de um recipiente em que tivessem cozido grama. Em ar de troça, alguns companheiros disseram-lhe (e não era verdade) que tinham acabado de comer peixe cozido numa panela contaminada pela erva impura. O efeito foi terrífico mesmo para os autores da brincadeira. O pobre rapaz começou a contorcer-se com as cãibras e morreu no meio de dores atrozes.
Obcecados com os mais variados e estranhos tabus, muitos indígenas enlouqueciam. Então os familiares ou os deitavam ao rio, ligados de pés e mãos, ou os abandonavam no meio da floresta, onde os seus gritos frenéticos se misturavam com os rugidos de feras.


Os feiticeiros, senhores da floresta

“Mas a maior fonte de terror para os indígenas — escreve Golomb — eram os feiticeiros. Nas aldeias eram senhores da vida e da morte. Incorrer na sua cólera significava estar condenado à morte, porque o feiticeiro tinha à sua disposição infinitos meios de matar um inimigo. Por vezes fingia-se amigo da sua vítima, para mais fácil e eficazmente poder utilizar o veneno. Outras vezes servia-se de algum débil mental, metendo-lhe na cabeça que a sua vida corria perigo enquanto não liquidasse determinada pessoa”.
A arma do veneno era usada com a perícia de criminosos profissionais: administravam-no por turnos aos habitantes das aldeias de maneira a terem sempre doentes para curar “miraculosamente”. Aos pobres diabos condenados à morte aplicavam-no em doses fortíssimas, anunciando de antemão que os deuses estavam para desafogar a sua cólera sobre o desgraçado.
Tinham passado dois meses desde que chegara, quando Schweitzer foi solicitado a ir ao rio: estava lá uma piroga com um moribundo.
Acompanhavam-no como de costume familiares e amigos. Mas o doutor viu também, ao fundo da piroga, um rapazito atado, com os olhos aterrorizados. Põe-se a observar o doente, ali mesmo à beira do rio, e encarrega alguém de ir chamar Joseph. A infecção estava muita adiantada: não havia nada a fazer. Enquanto Joseph ia traduzindo aos indígenas as palavras do doutor, o rapazito começou a gritar cheio de medo. Schweitzer exigiu com energia que o soltassem, e perguntando a Joseph o que é que se estava a passar. Depois de uma violenta troca de palavras com os familiares, o intérprete disse ao doutor que aquele rapaz tinha sido designado pelo feiticeiro como responsável de o “espírito mau” se ter apoderado do moribundo. Se o doente morresse, o rapaz teria de pagar com a sua vida. Schweitzer sabia aliás que procurar convencer os indígenas era tempo perdido. Limitou-se pois a dizer àquela gente que, se acontecesse alguma coisa ao rapaz, os denunciaria ao governador da província como homicidas.
Entretanto Schweitzer foi chamado com urgência à “secção cirúrgica” e teve de se retirar. Quando voltou, chamado pelos gritos de Joseph, a piroga estava a afastar-se a toda a velocidade. A bordo, o rapaz ligado de pés e mãos gritava desesperado. Schweitzer deu algumas ordens secas e decididas. Em poucos minutos duas pirogas da missão estavam prontas a perseguir os fugitivos. Mas era tarde demais. Metendo por um braço secundário do rio, a piroga com o rapaz desapareceu da vista deles, num labirinto intricado de trepadeiras e plantas aquáticas.


A hora da amargura

Naquela noite Schweitzer tinha o coração cheio de amargura. Nisto Hélène chama-o em voz baixa e aponta para a janela. No céu havia um luar pálido, mas a claridade permitia descortinar umas sombras rastejando silenciosamente para fora da floresta e dirigindo-se para a “secção cirúrgica”. Eram os canibais em busca de carne humana. O doutor foi ao armeiro, pegou na espingarda, abriu a porta com um pontapé e gritando disparou para o ar um carregador inteiro. As sombras desapareceram rapidamente. Voltando para o quarto, Schweitzer tremia dos pés à cabeça, e a testa estava inundada de suor. Compreendia agora perfeitamente o que em tempos lhe dissera com tristeza um velho chefe dos Pauins:
— A nossa terra devora os seus filhos.
Naquela noite o pesar, a repugnância, o desânimo atingiram profundamente a alma de Schweitzer. Não conseguiu pregar olho. Revia um a um os anos de vida que tinha passado na Europa, e perguntava-se com amargura:
— Terei feito bem deixar tudo? Não serei um iludido?
Mas naquela noite amarga, Alberto Schweitzer sentiu Hélène junto de si.
— A vida é muito dura, Alberto — disse-lhe ela enquanto lá fora os uivos das feras rasgavam o silêncio. — Mas não foi para isto que viemos? Os indígenas são perigosos, mentirosos e ladrões, e assassinos às vezes. Mas quem os fez chegar a este estado? A floresta, os feiticeiros, os negociantes de escravos. De certeza que não foi a má vontade. E se nós nos vamos embora, se os abandonamos, também Joseph, também os melhores voltam a ser ladrões e assassinos. Porque só assim é possível sobreviver na selva do Gabão. “Quem perder a vida por meu amor, há-de encontrá-la”. Recordas quem disse estas palavras, Alberto?
Às seis da manhã, Schweitzer estava, como de costume, na “secção cirúrgica”. A seu lado, silenciosa e sorridente, Hélène chegava-lhe a seringa, o bisturi, as gazes. Lá fora, a fila dos novos doentes esperaya cheia de esperança os “milagres” do oganga branco, que não os abandonaria até a morte.
No dia 15 de cada mês fazia-se ouvir no rio a sirene do Alembe. Schweitzer largava os ferros de cirurgia e descia a buscar o correio. Chegavam sempre dezenas de cartas dos seus amigos da Europa, juntamente com medicamentos, víveres e dinheiro para o hospital. Depois de as ler, passava duas noites à mesa para responder e agradecer. Quando, dois dias depois, o Alembe partia de regresso ao mar, Schweitzer subia a bordo para entregar o seu maço de cartas e ter dois dedos de conversa com o capitão, um dos poucos europeus que conseguia ver.

A guerra anda no ar

Nos primeiros meses de 1914, Schweitzer começa a ler, nas cartas que lhe chegavam, notícias alarmantes. Alemanha, França e Inglaterra estavam a armar-se a toda a pressa. Nos estaleiros fabricavam-se colossais vasos de guerra. Eram instalados nas fronteiras intermináveis filas de canhões e grandes contingentes de tropas. Também nas conversas com o capitão do Alembe, Schweitzer começa a notar um certo mal-estar, como que uma expectativa angustiada. Aproximava-se o dia em que a grande avalanche da guerra iria abater-se sobre a Europa. Schweitzer escreveu por aqueles dias no seu diário: “Se a guerra for declarada, a selva do Gabão, comparada com a Europa, será um paraíso. Aqui o homicídio é uma questão de homem para homem. Numa guerra europeia o massacre será em moldes modernos, automático. Atingirá tão larga escala que se terá a impressão de que todas as outras guerras da história foram quase inofensivas e antiquadas...”. As suas previsões eram infelizmente certeiras.
Em Abril, Schweitzer traçou o seu plano de acção. Ele e a sua mulher, nascidos na Alsácia, eram cidadãos alemães. Não havia dúvida de que em caso de guerra as autoridades do Gabão os internariam num campo de concentração. No pouco tempo que faltava, era necessário dar o máximo desenvolvimento ao hospital. Só diante de um hospital bem equipado as autoridades hesitariam em mandá-lo encerrar. Alberto e Hélène, com a ajuda dos missionários e de operários recrutados entre os que tinham sido curados pelo doutor, trabalhavam até ao limite das suas forças. Foi ganho à floresta um pedaço de terreno e nele construído um barracão de chapas. Mudou-se para ali o bloco operatório. Depois Schweitzer desenhou na terra nua, com um pau afiado, dezasseis rectângulos: o lugar onde ficariam as primeiras dezasseis camas para os doentes, quando se construísse o segundo barracão. Mas já naquela tarde, antes que este se levantasse, dezasseis doentes vieram ocupar aqueles rectângulos de terra.
Um dia de Agosto, Schweitzer tinha subido o rio numa piroga, para ir tratar os habitantes atingidos pela disenteria. No regresso, Joseph esperava por ele com um bilhete na mão e com o rosto desolado. O bilhete era do capitão do barco. Dizia assim: “Rebentou a guerra na Europa. Recebi ordens de colocar o barco à disposição das autoridades. Por isso não sei quando poderemos voltar a ver-nos. Boa sorte”.
Na mesma tarde chegou a Lambaréné um grupo de indígenas armados. Ordenaram a Schweitzer para suspender todos os contactos com brancos e negros. As autoridades centrais em breve mandariam novas instruções.
Com uma tristeza infinita, Schweitzer juntou os doentes e disse-lhes que tinham de voltar para suas casas. Então, antes que Schweitzer acrescentasse outras palavras, deu-se uma cena repentina. Todos os doentes se atiraram ao mesmo tempo contra os indígenas armados. Encheram-nos de escarros e insultos. Estavam a chegar a vias de facto (e já os militares tinham apontado as armas) quando Schweitzer, Hélène e Joseph intervieram para os deter.

Seladas as portas do hospital

Naquela noite Schweitzer fechou os dois pavilhões e os militares selaram-nos com os selos do governo.
Mal o tantã acabara de lançar na floresta a notícia da guerra, do encerramento do hospital e da prisão do oganga branco, muitos indígenas curados por Schweitzer acorreram incrédulos. Uma mulher perguntou-lhe:
— Tu disseste-nos que os brancos adoram Cristo, e que Cristo pregou o amor. Porque é que então os brancos se guerreiam?
Schweitzer não soube responder. O velho chefe canibal da tribo dos Pauins, que um dia lhe tinha dito “a nossa terra devora os seus filhos”, não conseguia acreditar na guerra.
— Então os brancos dispararão uns contra os outros?
— Infelizmente, sim.
— E haverá muitos mortos?
— Penso que sim.
O velho canibal abanou a cabeça:
— Mas porque não se reúnem e não discutem para porem fim à guerra? Os europeus não comem os inimigos mortos, disseste-me tu. Mas então matam-se por crueldade. Eu julgava que os europeus tinham melhores sentimentos.
Antes de findar o mês, também os indígenas do Gabão foram chamados às armas pelo exército francês. Schweitzer, com os missionários, desceu até ao rio para se despedir de alguns alistados que partiam para a Europa. Um mês antes aqueles rapazolas não sabiam sequer pegar numa espingarda. Não sabiam até este momento que havia uma nação chamada Alemanha. No entanto, dentro de trinta dias, seriam empurrados para as trincheiras, nas fronteiras da França, e receberiam ordens para disparar contra o inimigo completamente desconhecido. E muitos não mais voltariam. “Quem são os selvagens? — intrigava-se Schweitzer naquele momento. — Estes homens que vivem na selva e matam por necessidade, ou aqueles que organizam um massacre de proporções apocalípticas e perfeitamente inúteis no centro da Europa?
“A multidão tinha-se dispersado — escreveu Schweitzer, — mas na margem do rio uma mulher já idosa, que tinha visto partir o filho, estava acocorada no chão em silêncio. Tomei-a pela mão. Tentei consolá-la. Ela continuou a chorar como se me não tivesse ouvido. Então, vencido pela amargura, também chorei junto daquela mãe, na margem do rio”.
Depois chegou a ordem: “Todos os cidadãos alemães residentes no Gabão devem ser embarcados e transportados para a França”. Antes de partir Schweitzer viu por entre o capim um par de cobras maravilhosamente coloridas, com a ninhada recém-nascida ali perto. A pouca distância, absolutamente estranhas ao que se passava, brincavam algumas crianças negras. Schweitzer pede uma espingarda, e mata os répteis com dois tiros. As crianças, espantadas com os tiros, fogem aos gritos. Do convés do pequeno vapor, Schweitzer despediu-se de Lambaréné. Deixava os seus negros, aquelas crianças: sem defesa contra tantos perigos.
Mas voltaria, custasse o que custasse.
Os Schweitzer foram internados num campo de concentração junto aos Pirinéus. Depois, numa troca de prisioneiros, voltaram à Alemanha passando entre mortos e escombros. Quando, a 11 de Novembro de 1918, chegou finalmente a paz, a Europa fazia lembrar um imenso cemitério. Com a paz, chegaram de Lambaréné as primeiras notícias. Os missionários escreviam a Schweitzer cartas lancinantes: “O hospital está em ruínas... Esta gente precisa de vós... Doutor, sentimos terrivelmente a vossa falta. Na região do Ogové, num raio de cem milhas, não existe um só médico. Tudo recaiu nas mãos dos feiticeiros...”.

Respeitai a vida

Schweitzer estava decidido a voltar, mas também na Europa havia quem precisasse dele. Hélène adoecera gravemente. No dia 14 de Janeiro nasce a sua filha, Rhena. Mas os meios mais necessitados de ajuda pareciam-lhe ser os seus irmãos europeus. Profundamente traumatizados pela guerra, eles tinham necessidade de ouvir uma palavra de esperança, como que uma palavra de ordem que lhes permitisse cobrar ânimo e construir de novo. E Schweitzer parecia-lhe ter descoberto esta palavra de ordem. Junto à floresta compreendera que na raiz de qualquer civilização tinha de estar o mandamento: “respeitar a vida”. Naqueles difíceis anos do pós-guerra escreveu o livro Decadência e restauração da civilização.
Programara entretanto uma longa série de concertos de órgão e de conferências, na Suíça, Dinamarca, Suécia, Espanha, Alemanha, França. A Europa ouviu pela primeira vez, juntamente com a música de Bach, o nome de Lambaréné, e as aventuras do oganga branco na margem do Ogové despeitam imenso entusiasmo em muitos jovens.
A 21 de Fevereiro de 1924, em Bordéus, Schweitzer embarca no vapor Orestes de regresso ao Gabão. Hélène não o acompanha: não estava ainda refeita, e tinha de pensar na pequenina Rhena. Mas ia com ele um jovem estudante de medicina, Noèl Gillespie, o primeiro jovem europeu que aceitara o convite de condividir com Schweitzer as fadigas de Lambaréné.
Era a vigília de Páscoa quando o Alembe atracou próximo da missão de Lambaréné. Schweitzer viu centenas de negros que das margens agitavam ramos de palmeira e flores. Mas o seu olhar correu veloz para o “seu” hospital. E ao vê-lo ficou desolado: o terreno desbravado, tinha sido novamente engolido pela floresta. Os barracões, destelhados, tinham sido invadidos pela vegetação tropical. Nem sequer as paredes de chapas tinham resistido à força da floresta. Schweitzer (contava agora cinquenta anos) disse uma só palavra: “temos de recomeçar”.
O tantã esteve a transmitir a notícia do regresso do oganga branco durante o dia de Páscoa. E na segunda-feira repetiram-se cenas já recuadas no tempo: canoas apinhadas no rio, o fervilhar de gente colina acima, doentes levados em padiolas ou nos braços, filas intermináveis de “casos urgentes”.

Os homens-leopardos

O começo, desta vez, ficou assinalado por um luto e por uma descoberta macabra. Enquanto Gillespie trabalhava freneticamente durante toda a noite, Schweitzer velou um negro doente de coração, tentando em vão salvá-lo. Na madrugada de terça-feira, o negro morria. Enquanto o cadáver era transportado para fora, uma menina começou a gritar desesperadamente, e fugiu em direcção à missão. A quem procurava acalmá-la a menina disse, com os olhos esbogalhados de terror, que o oganga branco era um homem-leopardo: no seu quarto tinha entrado um homem vivo e tinha saído um homem morto.
— Porque é que deixam vir um homem-leopardo matar os pobres negros? — continuava a perguntar entre soluços aquela menina.
Schweitzer, impressionado, perguntou:
— Mas quem são esses homens-leopardos?
A resposta deixou-o atónito. Durante os anos da sua ausência, tinha-se espalhado no Gabão como uma mancha de óleo uma associação secreta de selvagens, que circulavam munidos de garras de leopardo. Com estas garras esganavam as suas vítimas. A seita conseguia penetrar entre os negros através da astúcia: convidavam um indígena a beber na sua companhia, depois diziam-lhe que lhe tinham feito beber sangue humano fervido numa caveira. Nesta altura, o negro tinha de escolher: ou entrar na seita ou ser degolado. Vencidas pelo terror, as vítimas cediam quase sempre. A primeira incumbência que lhes era imposta era atrair um seu parente para a floresta, onde a seita estava emboscada para o matar. Com aquele delito o novo adepto ficava automaticamente fora da lei. Se fosse denunciado às autoridades era condenado à morte. Não tinha, por conseguinte, outro remédio senão entrar na seita e entregar-se definitivamente ao banditismo.
A única maneira de vencer este mal que vinha juntar-se a tantos outros, era arrancar os negros à ignorância e à miséria.
Schweitzer e Gillespie trabalhavam como médicos, pedreiros e lenhadores. E bem depressa o hospital foi restaurado. Dois meses depois, chegou da Inglaterra Mathilde Kottman, enfermeira voluntária. Uma mulher alta, robusta, enérgica e sorridente. Tinha ouvido falar do hospital de Lambaréné, e vinha dar uma ajuda. Schweitzer anotou no seu diário: “Não acreditava que uma mulher aguentasse por muito tempo no nosso hospital. Mas, decorrida uma semana, começámos a notar que os candeeiros de petróleo estavam sempre em ordem, que a água fervida nunca faltava na secção cirúrgica, que a roupa limpa enchia as prateleiras, que os ovos das nossas galinhas eram recolhidos antes que alguém os roubasse e começavam a alimentar convenientemente os nossos doentes. A continuar assim, nunca mais se daria o caso de encontrar as camas feitas com toalhas em vez de lençóis...”.
Depois de Mathilde apareceu Joseph, que deixou o negócio de madeiras para retomar o seu lugar junto do oganga branco, com o título de “primeiro assistente do doutor de Lambaréné”. Poucos dias depois Schweitzer recebeu a mais agradável notícia que lhe podiam dar: tinha partido da Europa um médico que vinha trabalhar com ele. Ao entrar no cais de desembarque para lhe dar as boas-vindas, Schweitzer viu no convés do navio um jovem, com cara de adolescente, que lhe gritou logo:
— Agora pode descansar, doutor! Eu tratarei de tudo!
Era o doutor Vítor Nessmann, que não tardou a revelar-se um homem afável, inteligente e enérgico. Naquela tarde, escreveu Schweitzer no seu diário: “É uma bênção poder finalmente confessar a mim próprio que de facto me encontro cansado!”
Depois foi a vez de a doce Hélène voltar a Lambaréné, acompanhada de Rhena que se tinha tornado uma rapariguinha cheia de vida e de força. E chegou o doutor Mark Lauterburg, “um homem esbelto com a elegância e a desenvoltura dos oficiais de cavalaria”. Chegou juntamente com uma esplêndida oferta dos “Amigos de Lambaréné” da Suécia: uma lancha a motor com nove metros de comprimento, de grande solidez e brilho, apta para a navegação fluvial e dotada de um poderoso motor.

Alastra a epidemia
Com a ajuda de Lauterburg e daquela potente lancha, Schweitzer enfrentou a crise mais grave de quantas terão atingido a região do Ogové: uma larga e violenta epidemia de disenteria que ameaçou despovoar completamente aquelas terras. Foram dias de horror em que uma ou outra vez a coragem de Schweitzer pareceu vacilar. “Estávamos todos cansados e desmoralizados — escreve Schweitzer. — Em vão tentávamos deter o contágio avassalador... No hospital, alguns doentes, convalescendo da operação, foram atacados pela disenteria e não conseguimos salvá-los...”.
A coisa mais difícil era convencer os negros a precaver-se do contágio, a na© tocar nos doentes, a não se servir dos recipientes por onde eles comiam.
Cansado e desesperado, Schweitzer desabafou um dia com amargura:
— Que idiota que eu fui, quando me decidi a vir para aqui cuidar destes selvagens!
E Joseph, que estava ao pé dele, repondeu:
— Na terra, talvez seja idiota. Mas no céu, não.
Atrás da epidemia veio a fome. Os homens mais fortes tinham morrido com a epidemia. Muitas famílias, muitos órfãos, morriam literalmente de fome nas aldeias da floresta. Schweitzer pediu enormes quantidades de mantimentos às autoridades, aos seus amigos da Europa: “É um povo inteiro que está a morrer por não ter um punhado de arroz. É preciso ajudá-lo imediatamente, sem perder um minuto de tempo”. A sua lancha carregada de víveres salvou naqueles dias milhares de pessoas sumidas nos cantos mais escondidos da selva.
Mas de novo o céu se obscureceu sobre a Europa. As notícias que chegavam vinham carregadas de angústia. Os “homens-leopardos” não os havia só no Gabão. Na Alemanha Hitler, o louco e feroz ditador, tinha posto em pé de guerra o mais poderoso exército da história. Os seus carros armados e os seus canhões estavam prontos a desencadear a segunda e terrível guerra mundial.

A segunda guerra mundial
Em Setembro de 1939 chegou a tristíssima notícia: os exércitos de Hitler tinham invadido a Polónia. O mundo estava de novo em guerra.
Agora que a Alsácia pertencia à França, Schweitzer não foi considerado estrangeiro, e o hospital pôde continuar aberto. Mas bem depressa os medicamentos começaram a escassear, e o fornecimento dos víveres ficou suspenso. Os submarinos alemães dominavam os mares, e Lambaréné ficou isolada do resto do mundo. A lancha Brazza que transportava a bordo uma grande quantidade de víveres e medicamentos para o hospital de Schweitzer foi torpeada e afundou-se. Entretanto chegavam notícias apocalípticas: cidades que ardiam sob os bombardeamentos aéreos, campos onde eram exterminados milhões de pessoas, armas cada vez mais sofisticadas que provocavam nódoas de horror na humanidade.
No dia em que Schweitzer completava setenta anos, no dia 14 de Janeiro de 1945, Londres como que desaparecia sob a chuva de bombas-foguetes de Hitler, as chamadas VI e as V2. Em Agosto daquele ano, o velho de Lambaréné foi abalado por uma notícia horrorosa: duas cidades japonesas tinham sido varridas do mapa por uma nova arma e terrível, a bomba atómica. “Que valem os nossos pobres esforços — escreveu nessa altura — de que serve ter vindo salvar algum milhar de negros, quando cidades inteiras, populosas, civilizadas desapareceram como se por cima delas passasse uma esponja?”.

O “Nobel” da paz
Em 1948, Schweitzer voltou à Europa. Passou mais uma vez pelas cidades reduzidas a escombros, por entre os sobreviventes destroçados. Tocou Bach “que é um acto de oração e adoração”, falou de Lambaréné e do “respeito pela vida”. E foi então que o mundo “descobriu” Schweitzer. Os homens que durante cinco anos tinham pensado em suicidar-se, ficaram sacudidos e encantados diante daquele velho que no mesmo espaço de tempo tinha pensado em curar e salvar vidas humanas numa terra desconhecida e longínqua. A Universidade americana de Harvard convida-o para um ciclo de conferências, e no final Albert Einstein define-o “o maior dos homens vivos”. Em 1949, a célebre revista americana “Life”, dedicava-lhe a primeira capa do ano, considerando-o “o maior homem do mundo”. Em 1952 foi-lhe atribuído o Nobel da Paz. Daquele dia em diante, são incontáveis as condecorações, os prémios, os doutoramentos “honoris causa” que Schweitzer recebe. Mas o que mais o conforta é o aparecimento contínuo de jovens europeus e americanos que vêm a oferecer dois, três, cinco anos da sua vida aos seus leprosos e aos seus doentes. Agora sentia-se velho. Deixara de operar. Mas passava pelos barracões, que se tinham multiplicado, entre os 3.500 doentes que habitavam o seu hospital em aumento crescente, a sorrir, a dizer uma palavra de conforto, a fazer uma carícia. Passava horas esquecidas junto dos animais que circulavam em plena liberdade nas cercanias do hospital. Os pequenos antílopes empurravam-no delicadamente com o focinho, reclamando as suas carícias. Os gatos saltavam para cima da sua secretária, farejando o tinteiro e os maços de cartas. Um velho pelicano saudava-o com guinchos estridentes, e esperava pelas seis da tarde para se pôr de guarda à sua porta.
Agora Lambaréné era conhecida em todo o mundo; tornara-se por assim dizer uma meta turística. Aqueles que desembarcavam dos jactos surpersónicos, no aeroporto construído nas vizinhanças, vinham ver um patriarca, que tinha vivido unicamente para o seu próximo mais pobre e mais desamparado.
Morreu assim a 4 de Setembro de 1965, entre os seus doentes, as suas crianças, os seus animais. Schweitzer tinha então noventa anos. E tinha ensinado os homens a ter estima pelos outros.

Um justo português - Esther Mucznik

Esther Mucznik

Público, 10 de Novembro de 2006


A perseguição e a destruição dos judeus produziu atitudes diametralmente opostas: o mal absoluto e a compaixão humana. Hoje, dia em que se celebram 68 anos da chamada “Noite de Cristal”, prefiro lembrar a compaixão humana na pessoa de José de Brito Mendes, um “justo” português.

“Espero que um dia, quando nos voltarmos a ver, o meu marido e eu reencontremos a nossa filha e voltemos a estar de novo juntos e felizes.” É assim que termina uma carta escrita em 1942 por Fojgel (Fanny) Berkovic a Marie-Louise e José Brito Mendes, a quem ela confiara a guarda da sua filha Cécile, para a proteger das rusgas da polícia francesa às ordens da Gestapo. Fojgel Berkovic não realizou o seu sonho. Apenas voltou a ver a filha, de cinco anos, quando estava já por detrás do arame farpado do campo de Drancy, a caminho de Auschwitz de onde nunca voltou. Mas Cécile sobreviveu. Graças à coragem da família do português Brito Mendes.

José Brito Mendes emigrou para França em 1926, onde casou com uma francesa, Marie-Louise, e de quem teve um filho, Jacques. Viviam em St. Ouen, nos arredores operários de Paris. Mesmo em frente à sua casa vivia um casal de judeus polacos, Aron e Fojgel Berkovic, com a filha Cécile, nascida em 1937. Aron era sapateiro e tinha uma pequena oficina na mesma rua onde moravam. Daí assistia às brincadeiras de Cécile e Jacques, praticamente criados juntos naquele bairro onde se aglomeravam, na época, imigrantes espanhóis e italianos, portugueses e polacos.
Mas em 1942, a 15 de Junho, Aron é deportado e morre em Auschwitz. A sua mulher Fojgel esconde-se algures em Paris, mas antes confia Cécile à guarda da família Brito Mendes, numa tentativa desesperada de a salvar. E com efeito, meses depois, apesar de escondida, Fojgel é presa e levada para o campo de trânsito de Drancy, de onde partiam os transportes para os campos de extermínio. Antes da sua partida, José Brito leva Cécile ver a mãe uma última vez: tem já cinco anos, mas já sabe que não a pode chamar de mãe. Pela sua segurança e pela segurança de José. Tem de esconder que é judia, fingir que é prima de Jacques e que o seu nome é Bellouin – nome de solteira de M. Louise. Mas as crianças aprendem depressa…
A família Brito toma conta de Cécile, como uma filha – apesar dos cartões de racionamento e do perigo sempre iminente de uma rusga policial, porque quem esconde judeus corre o risco de ser deportado. Esta acontece efectivamente em 1943 devido a uma denúncia, mas a Gestapo não encontra Cécile, momentaneamente ausente. Para José Brito é o sinal de alarme: Cécile e Jacques são enviados para a província, onde ficam em casa de familiares do casal.
O tempo passa, a guerra acaba, os pais de Cécile não voltam e o casal Brito prepara-se para adoptar a criança. Mas do campo de concentração de Dachau chega um sobrevivente da família: um tio de Cécile, que obtém a sua guarda e a leva para os Estados Unidos, para bem longe das sombras da Europa… e dos Brito Mendes que nunca se consolarão verdadeiramente da dor da sua perda. Cécile nunca mais viu a família que a salvou. Nos Estados Unidos, mudou de nome, estudou, exerceu advocacia, casou e teve duas filhas. Voltou a França em 1987 à procura dos Brito Mendes, mas não os encontrou. Morreu sem os rever.
Jacques continuou sempre à procura da irmã perdida. Não a encontrou mas, em 2002, graças à Internet e às associações das Crianças Escondidas, descobriu as filhas de Cécile, que, embora ao corrente de que ela nascera em França e que os avós tinham sido mortos em Auschwitz, nada mais sabiam sobre o passado francês da sua mãe. “Ela não falava nunca”, explica Cara, filha de Cécile. “Era a época em que ficou órfã e o sofrimento permaneceu muito vivo.” Para Jacques, encontrar as filhas de Cécile foi “um vazio que se encheu com o que se tornou Cécile, a sua vida”. “O tempo passou, muitos actores desta história estão mortos, mas, se os nossos filhos se conhecerem, a história continua”.
Em 2004, devido aos esforços de Cara, a filha americana de Cécile, o Yad Vashem, Autoridade Nacional para a memória dos Mártires e Heróis do Holocausto, de Jerusalém, atribuiu a José e a Marie-Louise Brito Mendes o titulo de “Justo entre as Nações” – já desde 1967 também atribuído a outro português, Aristides de Sousa Mendes – por, “arriscando a própria vida, terem salvo judeus perseguidos durante o período da Shoah na Europa”. O diploma de honra a eles atribuído refere ainda que “o seu nome será homenageado para todo o sempre, e gravado no Muro dos Justos das Nações no memorial Yad Vashem em Jerusalém”.

Porquê contar hoje e aqui esta história? Em primeiro lugar, porque é uma história bonita que trata da bondade humana. Numa época em que esta era um acto demasiado solitário, em que grassava o medo ou a indiferença, a denúncia e a colaboração, não é demais lembrar que a bondade também existiu. Os Brito Mendes eram certamente pessoas simples, não foram heróis da Resistência, mas à sua maneira foram dos poucos a praticar o lema do Yad Vashem retirado do Talmude: “Quem salva uma vida salva toda a humanidade.”
No memorial de Jerusalém estão gravados os nomes de dois portugueses. Mas muitos mais foram sensíveis ao sofrimento de judeus e não judeus que fugiam das garras do nazismo. Segundo Avraham Milgram, historiador do Yad Vashem – a quem devo o conhecimento da história que hoje divulgo entre os leitores portugueses –, em Fevereiro de 1941, a PVDE (Policia de Vigilância e Defesa do Estado) comunicou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que “os consulados de Portugal em Milão, Budapeste, Bucareste e Antuérpia estão a conceder vistos em passaportes de estrangeiros, fora das instruções superiormente recebidas”.
O que, do ponto de vista de Milgram, mostra que o desrespeito às ordens recebidas era um fenómeno amplamente difundido nos meios consulares. Em geral, as representações consulares portuguesas eram sensíveis ao destino dos judeus. Não encontramos no arquivo histórico do Ministério dos Negócios Estrangeiros documentos que testemunhem preconceitos ou atitudes anti-semitas da parte de cônsules portugueses no exterior, da mesma forma que não havia denominador comum – ideológico ou político – entre os diplomatas portugueses que ajudaram judeus a sair da Europa via Portugal.
“A compaixão pelo sofrimento alheio, no caso dos judeus, era comum ao monárquico Aristides de Sousa Mendes, ao antimarxista Alfredo Casanova, ao republicano Alberto da Veiga Simões, ao liberal Giuseppe Agenore Magno”, escreve A. Milgram. Poder-se-ia acrescentar Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho em Budapeste, entre outros dos serviços consulares de Portugal.

A perseguição e a destruição dos judeus produziu atitudes diametralmente opostas: o mal absoluto e a compaixão humana. Hoje, dia em que se celebram 68 anos da chamada “Noite de Cristal” – pogrom que na noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 estilhaçou não só as montras de 7 mil comércios judaicos e sinagogas, mas também as vidas dos judeus alemães –, neste dia prefiro, apesar de tudo, lembrar a compaixão humana na pessoa de José de Brito Mendes, um “justo” português.