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domingo, 17 de junho de 2007

O Primeiro Natal em Portugal - Luísa Ducla Soares

É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas.
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.

ОЛiВЕДЬ — lápis
ЗОШИТ — caderno
КИГА — livro
ШКОЛА — escola

Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:

Irina, Irina, Irina,
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina.
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.

Na Ucrânia deixou tantos amigos...

Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?
Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
— Pareces uma fada!
E foge logo a correr.
Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!
De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
— Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
— Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
— Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
— Pai, pai! — grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
— Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
— Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
— Força! Coragem! Está quase...
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.
Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
— Como é que o doutor se chama?
— Anton.
— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
— Manhã nós visitar! — exclama a garota.
Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.
— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.
Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.

Para uma fada loura.
com amizade


A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.
— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.
— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.
Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:

OЗНАКА — fada

Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.


Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006


sábado, 16 de junho de 2007

Aristides Sousa Mendes

O homem que ficou sem sono
ou
a História de um herói contada em português


Era uma vez um homem que um dia ficou sem sono. Queria dormir, mas não conseguia, apesar de sempre ter dormido bem. Quando fechava os olhos, não lhe saía da cabeça a tristeza que havia no olhar das crianças que se apinhavam junto da porta da casa onde morava e trabalhava.

Era um homem bom que gostava do que fazia e que fora educado para obedecer às ordens dos seus superiores, estivesse onde estivesse. Nunca lhe passara sequer pela cabeça a possibilidade de um dia vir a infringir essa regra.

Esta história é verdadeira e aconteceu poucos dias antes de começar o Verão do ano de 1940. Ainda há muita gente viva que se lembra bem desse homem e daquilo que ele fez, deixando de pensar em si e pensando nos outros e na sua salvação.

O homem era diplomata e nascera no norte de Portugal. Chamava-se Aristides de Sousa Mendes, era casado e tinha vários filhos. A sua carreira como cônsul levou-o até à cidade francesa de Bordéus, onde lhe chegaram as primeiras notícias do começo da Segunda Guerra Mundial quando as tropas alemãs atacaram a Polónia e a Inglaterra se opôs a essa agressão, em defesa da liberdade e da democracia, declarando que faria frente, pelas armas, aos agressores.

O homem era pessoa de bem e defensor da paz. Não podia aceitar a ideia de que alguém pudesse ser perseguido, torturado e morto só por ter ideias políticas diferentes ou outra religião. Fora educado para a tolerância e por isso respeitava os direitos dos outros.

À medida que as tropas alemãs invadiam países como a Bélgica ou a Holanda e se aproximavam da fronteira francesa, iam chegando a Bordéus refugiados das nações ocupadas, em busca de um visto no passaporte que lhes permitisse chegar a Espanha e depois a Portugal, apanhando mais tarde, em Lisboa, um barco ou um avião que os levasse para países como os Estados Unidos da América, o Brasil ou a Argentina, onde não havia guerra. Portugal e Espanha, governados por ditadores como Hitler, o senhor da Alemanha, não tinham entrado na guerra e iriam manter-se à margem dela, embora durante muito tempo tenham estado ao lado dos alemães e do que eles representavam.

O homem queria dormir, mas não era capaz. Ecoavam-lhe na cabeça as vozes das crianças que sofriam de fome e de sede e que, lembrando-lhe os seus filhos, tinham o direito de viver e de crescer em liberdade.

De Lisboa, o cônsul português recebera ordens muito rigorosas no sentido de não deixar chegar refugiados a Portugal. Pensou e voltou a pensar, consultou a mulher e escreveu uma longa carta aos filhos explicando o que tencionava fazer e as razões dessa opção. Espreitou pela janela e viu nos olhos das crianças um sorriso fugidio que representava a última réstia de esperança. Por elas valeria a pena arriscar. Por elas e pelos princípios que defendia. Foi assim que a palavra «desobediência» entrou definitivamente no seu vocabulário. Mandou abrir as portas do Consulado de Portugal e forneceu aos funcionários carimbos e selos brancos para poderem emitir o maior número de vistos possível. A partir desse momento seria uma batalha sem tréguas contra o tempo. Cada minuto contava. Cada dia parecia uma eternidade.

Durante três dias não houve descanso para ninguém dentro do Consulado, e ainda sobrou tempo para se dar água e comida àqueles que esperavam à porta em intermináveis filas, com a esperança de que o pesadelo por fim terminasse. Pela rádio chegavam notícias da rendição da França, o que significava que já faltava muito pouco para que as tropas de Hitler chegassem também a Bordéus, perseguindo e prendendo judeus e opositores políticos ao regime nazi. Era preciso actuar ainda mais depressa. O cônsul conseguiu arranjar tempo para ir às cidades de Bayonne e Hendaye onde havia um grande número de refugiados tentando passar a fronteira em direcção a Espanha.

Aristides de Sousa Mendes sabia que o desrespeito pelas ordens de Lisboa teria consequências dramáticas para o seu futuro e da sua família. Ainda assim, não recuou. Sabia que a razão estava do seu lado e não estava disposto a abdicar dessa razão, que correspondia à salvação de milhares de vidas.

— Mãe, tenho fome e sede e quero sair deste sítio — dizia a menina austríaca para a mãe pálida e exausta.

— Talvez amanhã de manhã já possamos estar a caminho da liberdade, porque há ali dentro um homem bom que nos quer ajudar.

O homem não se deixou vencer pelo cansaço, pelo sono, pela fome ou pela sede. A vida dos outros estava primeiro. Se eles tinham pressa, a sua conseguia ser ainda maior. No Consulado, houve quem o avisasse: «O senhor bem sabe o que lhe pode acontecer!» Mas ele não quis saber e continuou a passar vistos, perdendo a conta às pessoas que já tinha conseguido salvar. Terão sido dez mil, quinze mil ou trinta mil? Não se sabe ao certo. Sabe-se sim que chegaram a Lisboa e que depois foram encaminhados para o Estoril, para a Ericeira, para a Figueira da Foz ou para as Caldas da Rainha. Mais tarde, a maioria conseguiu partir para países onde havia liberdade. Alguns voltaram depois do final da guerra às suas terras, outros nunca mais as quiseram ver porque não conseguiram esquecer as horas de sofrimento e perda.

Três dias bastaram para que o cônsul Aristides de Sousa Mendes abrisse a milhares de refugiados as portas para a liberdade, desobedecendo a Salazar e ao regime que ele dirigia. Por isso foi prontamente banido da carreira diplomática e proibido de exercer qualquer actividade profissional, morrendo na miséria em 1954, com os filhos dispersos por países como os Estados Unidos, onde puderam estudar e seguir as suas carreiras.

Num dia quente de Junho de 1940, no Rossio, em Lisboa, um menino de cabelo loiro perguntou aos pais, enquanto estes procuravam uma pensão ou um hotel onde se pudessem instalar até conseguirem arranjar bilhetes num barco ou num avião para Nova Iorque:

— Como é que se chama aquele senhor que, em Bordéus, nos passou os vistos para podermos chegar a este país?

O pai, não contendo uma lágrima comovida, respondeu-lhe:

— Chama-se herói, filho. Quem faz o que ele fez por nós só pode ter esse nome.

Ainda não houve um grande realizador de cinema que fizesse um filme sobre esta história verdadeira, à semelhança do que Steven Spielberg fez com Oskar Schindler, mas pode ser que ainda venha a ser feito. Nunca é tarde para celebrar os feitos dos heróis.

Naquelas noites quentes de Junho de 1940, havia em Bordéus um português que não conseguia dormir. Não lhe saía da memória a aflição das crianças que queriam ver abrir-se a porta que as deixasse seguir o caminho até à liberdade. Essa porta abriu-se e por ela passou uma réstia de luz, desenhando no cetim negro do céu, entre as estrelas, a linda palavra «Esperança», escrita em português como esta história verdadeira que é sempre bom contar e recontar. Porquê? Porque é sempre possível que a tragédia volte a acontecer, onde e quando menos se espera.
José Jorge Letria
AAVV
Contos de um Mundo com Esperança
Lisboa, Texto Editora, 2003
Excertos adaptados

Célia e a água doce da infância - Katherine Paterson

Há muito, muito tempo, viviam, numa pequena casa no campo, uma mulher chamada Mara, a sua filha Célia, e um cão grande, peludo e extremamente mal-humorado, chamado Brumble. Tal como a maioria dos cães que vivem com famílias, Brumble falava sem cessar. Às vezes, Mara e Célia prestavam atenção; outras vezes, não.
Ao contrário de Brumble, que era um lamuriento nato, Célia estava quase sempre feliz. Daí que ficasse surpreendida quando, às vezes, via lágrimas nos olhos belos de sua mãe.
Mara lembrava-se da guerra, que lhe roubara tanto a casa da sua infância como o marido. Nunca falava à filha desses tempos, nem de como tinha fugido com ela e com o cão para escapar ao conflito. Na cabana isolada que encontrara, há já dez anos, tinha-se sempre sentido segura e confortável. Quando Célia a via chorar, Mara apressava-se a limpar as lágrimas e tocava uma melodia alegre na sua flauta de madeira, até se sentirem ambas felizes de novo.
Só que Célia não era nem uma criança mimada, nem uma filha inconsciente. Amava muito a mãe e, quando um dia esta ficou doente, tratou de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para a ajudar a recuperar. Fez chá de casca de árvore, esfregou os pés frios da mãe e tocou-lhe melodias na flauta de madeira. Em vão. Mara virava-se e revirava-se na cama com febre, e parecia já nem reconhecer a filha. Célia estava a ficar desesperada.
— Que hei-de fazer?
— Eu digo-te o que deves fazer — resmungou Brumble. — Sossega e deixa este cão honesto descansar.
A menina não lhe prestou atenção. Estava habituada ao seu mau génio e aos seus ainda piores modos. Além disso, estava demasiado preocupada com a mãe para se maçar com os resmungos de Brumble.
Foi então que ouviu a mãe. Parecia uma pessoa a falar durante o sono e dizia qualquer coisa como: — Se pudesse voltar a beber a água doce da minha infância, ficaria de novo boa.
Célia sabia que a mãe tinha nascido a muitos quilómetros dali, numa aldeia que a filha nunca conhecera. No entanto, corajosa como era, estava disposta a encontrar esse lugar. Tinha de trazer à mãe a água milagrosa do poço.
Encontrou uma garrafa de vidro com uma rolha de cortiça e atou-a à cinta. Arranjou um pequeno cesto com pão e queijo, porque sabia que a viagem seria longa. Enrolou-se na capa de lã da mãe, por causa do ar fresco da Primavera, e pôs a flauta à cinta, caso viesse a necessitar de música para a alegrar na viagem.
Debruçou-se sobre a mãe e sussurrou-lhe:
— Vou buscar a água doce da tua infância. Tens algo para comer e beber na mesinha de cabeceira. Voltarei em breve.
Brumble abriu um olho.
— O que estás a dizer? Uma criança da tua idade não pode andar por aí sozinha, sem saber por onde ir.
— Não há outra hipótese — retorquiu Célia. — Se eu não for, a minha mãe morre.
Brumble pôs-se de pé, a resmungar:
— Bem, acho que tenho de ir contigo.
Célia ficou contente por ter companhia para a viagem, mesmo tratando-se de alguém tão rabugento como Brumble.
Puseram-se a caminho a meio da manhã. O sol já ia alto, e o cheiro das folhas novas e das flores silvestres enchia o ar de Abril.
— Que dia maravilhoso! – exclamou Célia.
— Espera para ver – aconselhou Brumble.
Tinha razão, porque em breve chegavam à orla de uma floresta. As árvores eram tão cerradas que, mesmo ao meio-dia, o sol mal penetrava entre os ramos entrelaçados. Célia caminhou em frente, não fosse Brumble pensar que estava com medo.
De repente, ouviu um grito tão agudo que parecia cortar as folhas das árvores.
— O que foi aquilo? – perguntou, assustada, já esquecida de que queria parecer corajosa.
O canzarrão afilou as orelhas.
— Ou me engano muito, ou é a criança selvagem da floresta.
“Se for apenas uma criança”, pensou Célia, “não me importa que seja selvagem. De certeza que não há nada a temer.”
Surgiu, então, uma criatura, que veio das árvores mesmo de encontro a ela. Tinha o cabelo todo espetado e lançava gritos estridentes.
Célia engoliu em seco.
— Rapazinho – conseguiu dizer, num tom gentil – não sabes que é mal-educado não cumprimentar as visitas? O Brumble e eu gostávamos de ser teus amigos. Se parares de gritar e nos contares o teu problema, podemos tentar ajudar-te.
Mas o rapaz rosnou-lhe e continuou a coçar a cabeça com as unhas compridas e sujas.
— Vá lá – disse Célia, tentando empregar o mesmo tom da mãe. — Do que precisas é de um bom almoço. Acontece que o trouxe comigo, e que o partilharei contigo se te portares bem.
A criança selvagem ficou atónita. Nunca ninguém lhe tinha falado de forma tão doce. As outras pessoas que encontrava na floresta lançavam-lhe um olhar rápido e saíam dali ainda mais rapidamente. O rapaz sentou-se no chão e apontou o lugar à sua beira com a mão suja.
— Lá se vai o nosso almoço – resmungou Brumble.
E foi-se mesmo. Célia deu quase todo o pão e queijo ao rapaz, que os comeu avidamente e sem maneiras.
— Se voltarem a passar por aqui – disse a criança a Célia – não se esqueçam de parar para me cumprimentarem.
Célia prometeu que o fariam.
— Porque haveríamos de o fazer? – interrogou-se Brumble. — Já não há mais nada para comer.
Quando chegaram ao outro lado da floresta, sentiam um pouco de fome. Mas Célia estava contente. Isto até ver um lago enorme e verde diante de si.
— Ora bolas, esqueci-me da água – resmungou Brumble.
— Escuta – instou Célia, que tinha ouvido um som estranho. Alguém estava a chorar sem cessar, com se tivesse o coração despedaçado.
— Também me esqueci da mulher infeliz do lago – suspirou Brumble. — Devo estar a ficar velho.
Logo que Brumble se calou, Célia viu um barco no lago. Dentro dele, estava uma mulher a chorar tanto que nem se detinha para enxugar as lágrimas.
Célia era uma menina bondosa e condoeu-se da velha. Também era suficientemente esperta para perceber que o barco lhes seria útil.
— Minha senhora, o que a faz sentir tão infeliz? – perguntou Célia.
Os olhos da mulher abriram-se, surpresos. Ninguém lhe tinha perguntado isso antes. Habitualmente, as pessoas ficavam muito embaraçadas e iam-se embora.
— Tenho frio e estou só – lamentou-se. — Não tenho um único amigo no mundo.
— Tenho mesmo aquilo de que necessita. Uma capa quente e confortável e dois companheiros de viagem que atravessarão o lago consigo e lhe contarão histórias – disse Célia, olhando Brumble de soslaio.
Brumble suspirou, desagradado, mas ficou contente por não ter de molhar as patas.
A mulher já não se sentia infeliz quando os deixou do outro lado do lago. Estava embrulhada na capa quente de Mara e sorria. — Obrigada – disse. — Quando regressarem, não se esqueçam de me chamar para voltarmos atravessar o lago juntos.
— Fá-lo-emos com prazer – disse Célia. Brumble não resmungou, ao contrário do que costumava fazer.
Na praia coberta de seixos onde aportaram, depararam-se com uma montanha enorme. O coração de Célia apertou-se perante este obstáculo.
— Com os diabos – resmungou Brumble. — Tinha-me esquecido da montanha.
— Quem se atreve a pisar a minha praia? – gritou uma voz furiosa.
Célia ergueu os olhos e viu o mais alto e mais irado homem de toda a sua vida. Brandia um machado enorme, como se tivesse a intenção de o atirar à cabeça da menina.
— Meu Deus, como está zangado! – exclamou Célia, com a voz a tremer ligeiramente.
— Também me tinha esquecido do louco da montanha – murmurou Brumble entredentes.
— Sabe o que me acalma quando estou zangada? – perguntou Célia, sentindo-se mais corajosa a cada palavra que proferia. — Música. Quer que toque para si?
Sem esperar pela resposta, tirou a flauta da cintura e começou a tocar.
Junto à água, a música ainda soa melhor do que num quarto fechado. O homem pôs-se a escutar. Em breve pousava o machado e sentava-se nos rochedos, sem qualquer vestígio de fúria no rosto.
Quando Célia parou de tocar, o gigante ficou tão triste que Célia lhe deu a flauta para a mão. — É para si. Para que possa tocar quando quiser.
— Podes ficar comigo e ensinar-me a tocar? – pediu o homem.
— Posso ficar um pouco. Mas estou com muita pressa. Tenho de ir à aldeia que fica por detrás desta montanha buscar água do poço para salvar a minha mãe.
— Eu levo-te e podes ir-me ensinando enquanto caminhamos.
Embora Brumble tivesse dificuldade em subir, o homem não fez qualquer menção de o carregar.
— Que vida de cão! – resmungou Brumble.
Ao subir a montanha, Célia tocou uma melodia tão alegre que o homem riu alto. Quando atingiram o cume, a menina mostrou-lhe como se colocavam os dedos e se soprava para extrair sons da flauta. Quando desceram a montanha, Célia agarrou-se aos cabelos do homem para ele poder praticar.
Depois de a colocar no chão com suavidade, o gigante tocou uma pequena melodia para demonstrar quão bom aluno era.
— Chama-me quando regressares, e atravesso a montanha contigo de novo.
Célia prometeu fazê-lo, embora Brumble rosnasse disfarçadamente.
Quando se deu conta de que a aldeia estava perto, Célia esqueceu a fome e o cansaço e correu.
— Lá está o poço, Brumble. O poço com a água doce da infância da minha mãe.
O seu grito ecoou na rua deserta. A erva crescera entre as pedras e, pelos telhados e paredes das casas, via-se que a aldeia estava há muito em ruínas.
— Não faz mal – disse Célia. — Só viemos buscar a água. Deve haver água no fundo do poço.
Debruçou-se sobre a borda, mas não conseguia ver nada.
Brumble pegou num seixo com a boca e deixou-o cair. Imediatamente se ouviu o ruído da água a ser tocada.
— Hurra! Temos água! – exclamou Célia.
— Que frustração – queixou-se o cão. — Temos água mas não temos balde para a tirar.
Sem dizer palavra, a menina subiu para a borda do poço, enrolou o que restava da corda à cinta e pediu ao cão que a baixasse devagar.
— Quando te chamar, segura bem a manivela, de forma a eu poder encher a garrafa. Depois, iças-me novamente.
Brumble não parecia satisfeito com o plano. E se a manivela se soltasse? Mas, embora se sentisse receosa, Célia estava disposta a ir até ao fim. Nada a deteria agora.
Desceu o poço de cabeça para baixo. Não conseguia ver a água, mas via o rosto da mãe e isso deu-lhe coragem. Sentiu, finalmente, a água fresca na sua mão.
— Pára! – ordenou a Brumble, que segurava com firmeza a manivela, enquanto Célia enchia a garrafa. — Já podes içar-me! – pediu a menina.
Brumble assim fez e só respirou quando viu Célia sã e salva fora do poço.
— Não foi difícil, pois não? – perguntou a menina.
— Estou a ficar velho para aventuras – lamentou-se o cão, e lambeu a cara suja da menina com a sua língua vermelha e áspera.
A viagem de regresso a casa foi bem mais rápida do que a ida. O gigante, que já não estava irado, levou Célia aos ombros e tocou-lhe uma linda melodia, enquanto esperavam que o ofegante Brumble os apanhasse. A mulher, que já não se sentia infeliz, levou-os novamente à outra margem do lago e desejou-lhes boa sorte. A criança, que já não era tão selvagem, ia de árvore em árvore a cumprimentá-los, o que fazia Célia rir, os pássaros grasnar e Brumble resmungar.
Quando avistaram a sua querida casa, Célia desatou a correr.
— Chegámos – gritou, tirando a garrafa preciosa da cintura. — Coragem, mãe! Estou de volta e trago-te a água doce da tua infância!
— Cuidado e atenção – murmurou Brumble. — Uma viagem só está completa quando chega ao fim.
O cão tinha razão, porque Célia, com a pressa, tropeçou nas escadas, a garrafa voou-lhe da mão, indo partir-se contra a parede da cabana.
A água preciosa escorreu para o chão.
Célia nem conseguia olhar. Correu para dentro de casa e abraçou-se à mãe, cujo corpo estava hirto como a morte.
— Oh, mãe, como pude ser tão descuidada e estúpida? Não fui capaz de te ajudar.
Célia sentia-se tão selvagem como a criança, tão zangada como o homem, e muito mais infeliz do que a mulher. Chorou como se o seu coração se tivesse partido em mil bocados, e as suas lágrimas cairam sobre o rosto da mãe como se de uma nascente se tratasse.
Foi então que os lábios da mãe se entreabriram e que esta provou um pouco das lágrimas que escorriam da face da filha. Sorriu, lentamente.
— Que água tão doce – murmurou, abrindo os olhos. — É tal e qual a água de que me lembro da minha infância. E foste tu, minha querida Célia, que a trouxeste até mim.
Durante todos os anos das suas ainda longas vidas, Mara e Célia conheceram uma alegria que muitos não chegam a conhecer. Uma alegria que nenhuma delas conhecera até então, e que consiste em dar-se conta de que só quando partilhamos as lágrimas de alguém é que partilhamos também a sua felicidade.
Quanto a Brumble, foi ficando cada vez mais velho, nunca se sentindo tão feliz como quando se podia queixar de alguma coisa.


Katherine Paterson
Celia and the Sweet, Sweet Water
New York, Clarion Books, 1998
Texto traduzido e adaptado

Passa-boné e belos bolinhos - Bénédicte Laferté

Todos os dias, às quatro horas, abre-se a porta da casa branca: é a hora do passeio do Leonel e da sua irmã Maria. Fecham a porta, atravessam o jardim e vão-se embora. O Leonel põe um boné que enterra até às orelhas e a Maria leva no braço um grande cesto. Caminham devagar, não estão com pressa. Quando passam por um vizinho, a Maria sorri e o Leonel tira o boné.
Às quatro e meia chegam diante da escola; toca a campainha, é a hora da saída. Quando vêem o Leonel, os rapazes largam as pastas e correm para ele.
— Passa, Leonel, passa! — gritam eles, empurrando-se uns aos outros.
Com um movimento da cabeça, o Leonel faz saltar o boné e atira-o aos garotos.
— Aqui, dá-me a mim o boné — grita o Joaquim.
Zum, o boné rodopia no ar. Cai no chão e quatro mãos se lançam para o apanhar.
— Apanhei-o — grita o Joaquim; e corre até ao caixote do lixo, deita-o lá para dentro e berra: – Golo!
Então o Leonel vai buscar o boné, sacode-o no joelho e finge que volta a pô-lo.
— Toma — grita ele de repente a um rapazinho — apanha.
E o boné lá volta a rodopiar no ar.
Os rapazes gostam muito do Leonel; inventou um jogo muito giro: o passa-boné!
Entretanto, a Maria sentou-se num banco e meteu a mão no cesto.
— O que é isto? — pergunta ela tirando um engraçado bolinho redondo.
— É uma argola de guardanapo — sugere a Gabriela.
— É um O — diz a Manuela.
Outra menina avança e grita:
— Não, isso conheço eu bem. É um zero, e eu cá como os zeros!
Agarra no bolinho e come-o de uma só vez. Do cesto a Maria tira ainda borboletas folhadas, broinhas em forma de lápis e ratinhos de chocolate. Os gulosos gostam muito dela; com a Maria o lanche é um encanto!
Ao voltarem para casa, o Leonel e a Maria vão às compras. Lá no bairro todos dizem:
— Como eles são amáveis e simpáticos!
Mas, quando chegam a casa, o Leonel e a Maria já não sorriem nem são nada delicados. O Leonel diz à Maria:
— Quando deixas de empanturrar os miúdos com os teus horríveis bolos cheios de açúcar? Vão ficar gordalhufos que nem conseguem correr!
E a Maria responde:
— Quando é que deixas de fazer de palhaço com o boné? Por tua causa a saída da escola parece um campo de batalha!
Ao jantar a discussão continua:
— Maria, este guisado não presta, parece comida do gato!
Furiosa, a Maria diz para o Leonel:
— Vou cortar o teu boné às rodelas para cozer com as batatas!
— Velha dos tachos! — grita o Leonel.
— Palhaço velho! — grita a Maria.
À noite, sobem a escada lentamente; estão muito cansados de terem passado o dia a discutir! O Leonel fecha a porta do quarto dele.
A Maria fecha a porta do quarto dela. Não se ouve mais nada.
Então, com muito cuidado, o Leonel abre as gavetas. Tira de lá belas taças de prata, jornais velhos e fotografias; são fotografias de uma equipa de futebol. O que está de cócoras com a bola é o Leonel. Então, o Leonel recorda os gritos e os “vivas” dos espectadores quando marcava um golo.
No seu quarto, a Maria também abre as gavetas. Tira grandes livros de cozinha e fotografias onde ela está diante de um grande fogão. Então a Maria recorda as pirâmides de bolos de creme e os noivos de açúcar que sabia fazer tão bem. Recorda também todas as pessoas que vinham felicitá-la. À noite, o Leonel sonha com a bola; a Maria só vê bolos.
O Leonel e a Maria vivem tristes no meio das suas recordações. Só gostam do passeio; o Leonel imagina que os rapazes são jogadores de futebol e a Maria olha os gulosos a devorarem os seus engraçados bolinhos.
Um dia, o Leonel e a Maria não estão na saída da escola.
— Se calhar estão doentes — diz o Joaquim.
E, com os outros meninos e meninas, vai bater à porta da casa branca.
O Leonel e a Maria estão lá dentro; afinal não estão doentes! Só que discutiram tanto que se esqueceram do passeio!
Ao vê-los, os meninos e meninas não dizem nada, ficam a olhar espantados.
Então a Maria vira-se para o Leonel: ele também faz uma cara esquisita.
“Que palermice”, pensa a Maria, “hoje não houve jogo de passa-boné”.
Ao mesmo tempo, o Leonel pensa:
“Que pena, não houve bolinhos para ninguém!”
Então, o Leonel corre para as crianças e agarra-lhes nas pastas.
— Vão depressa ter com a Maria, ela vai fazer-lhes biscoitos e caramelos.
— Vão antes para o jardim — diz a Maria.
— De certeza que não conhecem o passe de cabeça do Leonel!
Diante da porta, as crianças não se mexem; hesitam. Os jogadores de passa-boné pensam: “O passa-boné é óptimo, mas os biscoitos e os caramelos também não são nada maus!” E os gulosos pensam: “O lanche é bom, mas o passe de cabeça do Leonel deve ser formidável!”
A Gabriela pergunta timidamente:
— Não podemos fazer as duas coisas?
— Que bela ideia — exclama o Leonel. — Vá, todos lá para fora. Primeiro jogamos e depois lanchamos.
Depois pergunta baixinho à Maria:
— Vens connosco?
— Claro — responde a Maria. — Mas não me obriguem a correr como um coelho!
E todos os meninos e meninas jogaram ao passa-boné e comeram bolinhos engraçados. Depois foram-se embora.
O Leonel e a Maria fecharam a porta; estavam um bocadinho cansados de todo aquele barulho.
— Como a casa está calma – diz o Leonel.
— E como se está bem aqui — diz a Maria.
Nessa noite o Leonel e a Maria conversaram muito tempo. Quando o Leonel lhe contou os jogos de antigamente, a Maria disse-lhe com delicadeza:
— Estás a exagerar um bocadinho Leonel. Naquele dia não marcaste os dez golos sozinho!
Quando a Maria contou como fazia as pirâmides de bolos de creme, o Leonel disse-lhe:
— Achas mesmo que precisavas de um banco para pôr o último bolo lá no cimo?
O Leonel e a Maria olharam um para o outro e riram-se das suas recordações.
Nessa noite aconteceu-lhes uma coisa estranha: a Maria sonhou que fazia bolos mas que no cimo da pirâmide dos bolos de creme punha uma bola muito redondinha!
E o Leonel sonhou que jogava futebol; mas, quando correu para marcar um golo, foi num bolo de creme que deu o pontapé.
Ah! Que confusão vai nos sonhos da Maria e do Leonel!
Desde esse dia, todos os meninos e meninas vêm jogar e lanchar depois da escola. A Maria aplaude os jogos de passa-boné e o Leonel felicita a Maria pelos seus bolos tão bons. Quando chega a noite, o Leonel instala-se na poltrona e a Maria puxa a cadeira para perto do candeeiro. Estão os dois contentes; agora as recordações já não dormem dentro das gavetas; passeiam pela casa e misturam-se com os gritos das crianças.
Quando está a ficar tarde, o Leonel levanta-se e diz:
— Vamos, Maria, agora temos de ir dormir.
E sobem lentamente a escada e vão para a cama.

Bénédicte Laferté
Passa-boné e belos bolinhos
Lisboa, Editorial Caminho, 1991

A casa que o amor construiu - William W. Price


Esta história é verdadeira. Passou-se em França depois da Primeira Guerra Mundial, durante a qual uma aldeia inteira foi destruída pelos combates.

Marie acordou sobressaltada na escuridão cerrada e sentiu o cheiro familiar da sujidade. O seu pequeno corpo estremeceu com o frio húmido. Enquanto se levantava para arranjar a cama feita de trapos e de serapilheira no chão sujo, o pesadelo que lhe tinha abalado o sono pairava sobre ela como uma nuvem negra. Era todas as noites o mesmo pesadelo.
Começava sempre com um sonho agradável. Via a sua aldeia francesa muito amada. Depois via-se a sair com a Mãe e a Avó da casa velha e aconchegante, e a passar pela rua estreita. Debaixo de quase todas as janelas, havia floreiras garridas cujas flores se agitavam ao vento. O Sol resplandecia no campanário da igreja. Mas havia uma reverberação assustadora que vinha na direcção da aldeia: a reverberação das armas. Marie estremeceu de novo, à medida que sentia que o sonho feliz se tornava um terrível pesadelo. Vinham-lhe à cabeça recordações assustadoras. Aterrorizadas, a Mãe e a Avó tinham-na arrastado para as árvores. Aí, deitaram-se por terra. Soldados de uniforme azul passavam em colunas. Armas! Lutas! Explosões e gritos! Fogo! Quando tudo acabou, a aldeia deixara de existir.
À medida que a guerra se afastava, Marie, a Mãe e a Avó vasculharam, em lágrimas, o cascalho em que a sua casa se transformara. A pequena família mudou-se para uma antiga cave. “Como toupeiras nos buracos do chão”, pensara Marie com tristeza.
Enfiou-se nos trapos e voltou a cair num sono irregular. Na sua cabeça, os soldados continuavam a marchar. Depois dos soldados franceses em uniformes azuis, tinham vindo os soldados alemães em uniformes verdes. Para alívio de todos, depressa se foram embora. Depois vieram os uniformes caqui dos americanos. Os americanos riam-se e entregavam moedas francesas aos miúdos ávidos. Mas, quando partiram, a aldeia continuou em ruínas.
Quando Marie acordou de novo, o Sol brilhava através das fendas nas tábuas velhas que serviam de tecto. Ao ouvir sons estranhos, sentou-se num ápice. Algo de diferente estava a passar-se naquela manhã. Perguntava-se que sons seriam aqueles.
― Mãe, será que os soldados voltaram? ― perguntou ansiosamente.
― Não, minha querida. Vai lá acima ver quem chegou.
A Mãe parecia estranhamente contente.
Marie atirou com os trapos e subiu os degraus periclitantes da cave. Viu de imediato que outros homens, de uniforme cinzento, tinham vindo para a aldeia.
― Oh, Mãe! ― gritou excitada depois de os observar por algum tempo. ― Os soldados trazem serras e martelos, em vez de armas. Estão a construir casas.
Marie pensou que eram soldados porque traziam uniformes. Mas não eram soldados. Eram trabalhadores britânicos e americanos.
Marie pensou depressa. Desceu os velhos degraus a correr e pegou numa meia velha onde estavam seis cêntimos franceses que os soldados americanos lhe tinham dado. Era o único dinheiro que a sua família tinha. Enquanto voltava a subir as escadas, um misto de esperança e ansiedade fazia-a tremer a cada degrau. Correu para o chefe dos homens vestidos de cinzento.
Timidamente, estendeu a meia e mostrou-lhe os seis cêntimos.
― O senhor pode construir-me uma casa por seis cêntimos? O homem pareceu surpreendido e pediu-lhe para repetir a pergunta. Quando finalmente compreendeu, não se riu nem sorriu, mas respondeu muito seriamente:
― Bem, Menina, veremos o que se pode fazer. Não disse “Sim”, mas também não disse “Não”. Marie montou guarda todos os dias para ver o que aconteceria.
Uma por uma, foram-se construindo casas pequenas para outras pessoas. As casas eram pequenas e simples mas, para Marie, eram bonitas. Como ansiava por um chão de madeira limpo para varrer e um belo telhado de telhas vermelhas para impedir a chuva de entrar!
Será que se iriam embora sem construir uma casa para a família dela? Enquanto esperava e observava, a cave parecia-lhe mais escura e húmida do que nunca.
Quando estava quase a desistir de esperar, Marie obteve a sua resposta. A resposta era “Sim”. A casa de Marie, tal como as outras, foi construída em apenas três dias. Para Marie era a casa mais bela do mundo.
No dia em que acabaram de a construir, o chefe dos homens de cinzento entregou, com muita cerimónia, a chave da porta de entrada a Marie, dizendo: ― Menina, a sua chave.
Marie pegou nela e abriu oficialmente a porta, enquanto a Mãe, a Avó e toda a aldeia a observavam.
Parou de repente, como se se recordasse de algo. Prometera-lhes os seis cêntimos pela casa, por isso esta ainda não era propriedade sua.
Voltou rapidamente a descer os velhos degraus da cave e, quando voltou, dirigiu-se ao chefe dos homens de cinzento. Agora que estava acabada, a casa parecia grande e os seis cêntimos pareciam pouco. Mas era tudo o que ela tinha, e foi-os contando à medida que os colocava na mão do chefe.
Será que chegava? Quase nem se atrevia a olhar para o homem.
Ele sorriu-lhe e disse solenemente (em Francês, claro):
― Obrigado, Menina, mas quatro cêntimos são suficientes. E devolveu-lhe dois cêntimos.





William W. Price (Texto adaptado)

Lightning candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
Tradução e adaptação

A porta verde - Ron Holt

A Chave
A D. Sónia Black é uma senhora muito velhinha. Tem oitenta anos e gosta muito de histórias. Os seus netos, Susan e Tom, adoram as histórias da avó. Vêm sempre vê-la depois da escola.
― Conte-nos uma história, avozinha ― dizem.
Sentados no chão, bebem um pouco de limonada e comem bolo enquanto a avó, sentada no cadeirão, conta a sua história.
“Quando eu era menina, vivia numa casa grande. Tinha um jardim enorme onde havia árvores e flores. Ao fundo do jardim, havia uma porta verde.
Como eu era muito pequena, não chegava à maçaneta. Mas, mesmo quando cresci, não conseguia abri-la porque não tinha a chave.
Um dia, quando estava na cozinha, reparei num grande armário que tinha muitas gavetas. Pus-me em cima de uma cadeira e abri-as, uma por uma.
Havia uma grande chave numa das gavetas. Era uma chave muito antiga. Que porta abriria?
Fui ao jardim. Estava um dia radioso, cheio de sol. Caminhei até à porta verde. Meti a chave antiga na fechadura e rodei-a. A porta abriu-se.
O que estaria por detrás?
Entrei. Estava num grande jardim mas havia muitas nuvens e vento, e senti frio. No meu jardim estava sol e calor. Mas aqui estava escuro e frio.
Foi então que vi o castelo. Tinha torres altas. Havia algumas árvores. Era Verão mas as árvores não tinham muitas folhas. Não havia pássaros nas árvores. Neste jardim, era Inverno.
Apareceu uma mulher pequena e velha que vestia de preto e tinha um chapéu alto e também preto.
― O que estás aqui a fazer? ― perguntou. ― Este é o meu jardim. Não podes ficar aqui.
― Peço desculpa ― disse eu. ― Há uma porta ao fundo do jardim. É uma grande porta verde. Foi por lá que entrei.
― Não se abre a porta verde ― disse a velha senhora. ― Vai-te embora!
A porta do castelo rangeu e saiu de lá uma menina.
― Avó, quem está aí? Quem é essa rapariga?
― Entrou pela porta verde ― disse a velha senhora. ― Não pode ficar cá.
A pequena, triste, olhou para mim.
― Ela podia brincar comigo. Deixa-a ficar, avó, deixas? ― pediu.
A velha senhora ficou zangada.
― Está bem ― disse. E entrou no castelo.

Às escondidas

― Eu sou a Sónia ― disse eu. ― Como te chamas?
― Leila ― disse a menina triste.
― Quantos anos tens? ― perguntei-lhe.
― Não sei ― disse Leila.
― Quando fazes anos?
― Não sei.
― Pergunta à tua avó.
― Ela não sabe.
― Pergunta à tua mãe e ao teu pai.
― Não tenho mãe nem pai ― disse Leila com tristeza.
O céu estava nublado e escuro. Estava frio e não havia folhas nas árvores. O castelo tinha um aspecto muito triste.
― A que é que vamos jogar? ― perguntou Leila.
― Às escondidas ― disse eu.
― O que é isso? Não conheço esse jogo.
― Tu fechas os olhos e eu escondo-me. Contas até vinte e abres os olhos. E vais à minha procura ― expliquei.
Escondi-me atrás de uma árvore mas a Leila encontrou-me.
― Estás atrás da árvore ― gritou.
Leila estava contente. Quando olhei para a árvore, reparei que já tinha algumas folhas verdes.
Jogámos às escondidas. Depois veio a velha senhora. Estava zangada.
― Vocês estão a fazer muito barulho ― disse. ― Não gosto de barulho. Estejam caladas.
― Desculpe, avó ― disse Leila.
A velha senhora olhou para mim.
― Como te chamas? ― perguntou.
― Sónia.
― Vai-te embora, Sónia ― disse.
― A Sónia pode vir amanhã? ― perguntou Leila.
― Pode. Pode vir amanhã. Mas não façam demasiado barulho.
Saí pela porta verde e fechei-a. No meu jardim estava sol e calor. Havia muitas flores e as árvores estavam em flor. Subi à árvore mais alta do meu jardim e consegui ver por cima do muro. Observei o castelo, que estava escuro, e o jardim silencioso. Voltei para casa e pus a chave na gaveta.
No dia seguinte, estava sol. Peguei na chave e abri novamente a porta verde. Leila já se encontrava no jardim do castelo. Mas, embora o jardim estivesse frio e escuro, Leila não estava triste. Sentia-se contente. Tinha um vestido novo, vermelho e branco.
― Leila ― disse eu ― no meu jardim há sol e está quente. Por que é que aqui o tempo está nublado e frio?
― Não sei ― disse Leila.
― Anda. Vamos brincar às escondidas.
Brincámos às escondidas. Depois, Leila sugeriu: ― Vamos até ao castelo.
― O que é que a tua avó vai dizer?
― Não vai dizer nada.
― Porquê?
― Porque está a dormir no quarto. O quarto dela é no cimo da torre mais alta.
Fomos até ao castelo e entrámos numa grande sala. Também lá estava frio e escuro.
― Anda comigo até à cozinha ― disse Leila. ― Há lá uma lareira.
A cozinha estava escura mas havia uma lareira pequena. Um homem pequeno, velhinho, estava sentado à lareira.
― Este é o Ben ― disse Leila. ― É o nosso cozinheiro.
― Sou o cozinheiro, mas não gosto de cozinhar ― disse Ben.
― Queres almoçar? ― perguntou Leila.
― Sim, por favor ― respondi.
― O que há para o almoço, Ben?
― Batatas.
― Com…?
― Batatas com batatas ― disse Ben.
― Não gosto de batatas ― disse Leila. ― Posso comer uma omeleta?
Omeleta, pateta ― disse Ben. ― Fá-la tu.
― Não sei cozinhar ― disse Leila.
― Eu sei cozinhar ― disse eu. ― Vou fazer uma omeleta.
― Como é que se faz uma omeleta? ― perguntou Leila.
― É fácil. Põe-se quatro ovos numa tigela… um pouco de leite… uma pitada de sal e de pimenta… mistura-se… põe-se um pouco de óleo numa frigideira… põe-se a frigideira ao lume… põe-se tudo na frigideira. E aqui temos… uma omeleta!
― Posso comer um bocadinho? ― perguntou Ben.
― Claro que sim. ― disse eu. ― Vamos comer todos.

Os brinquedos

Comemos a omeleta.
― Estava muito bom ― disse Ben, a rir. ― Amanhã também podes cozinhar, Sónia.
O Sol brilhou através da janela. Brilhou sobre Ben.
― O Sol não pode brilhar aqui dentro ― disse Ben. ― Vou correr as cortinas.
― Não corras as cortinas ― pedi. ― Olha, vê-se que a cozinha não está nada limpa.
― Vamos limpar a cozinha. O Ben é muito preguiçoso ― disse Leila.
― Não sou preguiçoso. Não sei cozinhar, mas consigo limpar a cozinha.
O Sol brilhou através da janela. Limpámos a cozinha, que ficou a brilhar.
Voltámos para a sala grande.
― Leila, sabes por que é que está escuro aqui dentro? ― perguntei.
― Porquê?
― Porque as cortinas estão corridas. Podemos abri-las?
― A avó não quer abri-las. Vai ficar zangada. Vamos para a torre. Vou mostrar-te o meu quarto.
Subimos algumas escadas e chegámos ao quarto de Leila. Era um quarto grande mas só tinha uma cama, uma mesa e um armário.
― Onde estão os teus brinquedos? ― perguntei-lhe.
― Não tenho nenhuns brinquedos ― disse Leila.
― Quantos quartos há no castelo?
― Não sei.
― O que há dentro deles?
― Não sei. Não vou lá.
― Vamos ver.
― A minha avó vai ficar zangada.
― Ela está a dormir. Não nos vai ouvir.
Fomos até ao primeiro compartimento. Era um quarto de dormir. Fomos ao segundo. Era uma sala de estar. Havia um piano. Fomos ao terceiro. Estava cheio de brinquedos.
Havia um grande cavalo de baloiço.
― Posso andar nele? ― perguntei.
― Claro ― disse Leila. ― Mas não faças barulho.
Sentei-me no cavalo. Havia igualmente uma casa de bonecas com a qual brincámos. Tinha algumas bonecas e livros.
― Vamos pôr estes brinquedos no teu quarto ― disse eu.
― Está bem.
Levámos os brinquedos para o quarto de Leila.
― Agora, o teu quarto está muito mais bonito.
― Sim, mas a avó vai ficar zangada.
Apareceu uma mulher alta e magra.
― Olá ― disse Leila. ― Sónia, esta é a Sra. Grime. Ela é empregada de limpeza no castelo.
― Eu não faço limpeza. São as minhas raparigas que fazem limpeza.
― Mas não há nenhumas outras raparigas ― disse Leila.
― Vai haver e elas limparão o castelo.
― Nós seremos as suas raparigas ― disse eu. ― Vamos nós limpar o castelo.
A Sra. Grime sorriu. Já tinha algumas raparigas e estava radiante.
Limpámos o castelo. Corremos as cortinas, lavámos as janelas, limpámos os móveis e lavámos o chão. Trabalhámos toda a tarde. O castelo ficou limpo e a Sra. Grime muito contente.
Quando me vim embora, estava escuro. Atravessei a porta verde. Fechei-a e dei a volta à chave.

O Castelo Encantado

O dia seguinte estava soalheiro e quente. No meu jardim, as flores eram belas e as árvores tinham rebentos cor-de-rosa e brancos. Fui até à porta verde e abri-a.
Desta vez, o jardim do castelo não estava frio nem escuro mas quente, e o Sol brilhava. Havia folhas e rebentos nas árvores e flores. Os pássaros cantavam nas árvores. O castelo resplandecia. As janelas e as torres brilhavam.
Leila saiu do castelo.
― Olá, Sónia ― disse. ― Olha para o jardim. Está bonito, não está? Ontem não havia flores, mas hoje há muitas. Não havia folhas nas árvores, mas hoje há muitas. Não havia pássaros, mas hoje há muitos. O jardim está bonito e o Sol brilha.
Fomos até ao castelo. As cortinas estavam corridas para os lados, os quartos cheios de luz e de sol e as janelas e o chão limpos. Fomos até à cozinha, que estava limpa e resplandecente. O velho Ben estava lá.
― Entrem ― disse. ― Estou a fazer um bolo. Comam um bocadinho.
A velha senhora entrou. Tinha um vestido azul.
― Avó! ― exclamou Leila. ― O teu vestido é muito bonito.
― Obrigada, Leila. Estava sol quando me levantei de manhã. Olhei pela janela e vi o jardim. Então apeteceu-me pôr o meu vestido azul e andei pelo castelo. Vi os quartos limpos e radiosos. Fui também ao teu quarto e vi os brinquedos. Eram os meus brinquedos.
― Desculpa, avó. Fomos buscá-los.
― Não há problema nenhum. Agora são os teus brinquedos.
― Obrigada, avó ― disse Leila.
― Olha o bolo que o Ben fez! Vamos prová-lo ― disse a avó.
Estava escuro quando vim embora. Parei no jardim e olhei para o castelo. Havia luzes nos quartos. A Lua reflectia-se nas torres altas. Era como um castelo encantado. Fechei a porta verde, fui para casa e pus a chave na gaveta.
A minha mãe estava na cozinha.
― Onde foste, Sónia? ― perguntou.
― Olá, mãe. Estive no castelo.
― Que castelo?
― O castelo que fica para lá da porta verde.
A minha mãe riu. ― Não há nenhum castelo para lá da porta verde.
― Vem comigo. Eu mostro-to.
Peguei na chave e fomos na direcção da porta verde. Abri-a.
― Estás a ver? ― disse a minha mãe. ― Não há nenhum castelo, mas há muitas casinhas. Houve aqui em tempos um castelo, mas isso foi há muito tempo. Não há nenhum castelo agora.”

Ron Holt
The Green Door
London, Macmillan Education, 1992
Tradução e adaptação


Morangos para o pequeno-almoço

Nos anos que antecederam a libertação dos escravos nos Estados Unidos da América, existiam várias rotas de fuga para os escravos que tentavam chegar ao Canadá, onde estariam a salvo. Muitas famílias, ao longo dessas rotas, ajudavam os escravos a esconder-se, alimentando-os e enviando-os para a próxima família da cadeia de solidariedade. Uma lei proibia a ajuda aos escravos e as famílias que o fizessem arriscavam-se a ser presas e obrigadas a pagar multas avultadas caso fossem descobertas. Mesmo assim, muitas famílias continuavam a ajudar, e muitos milhares de pessoas conseguiram, desta forma, alcançar a liberdade. Esta é uma de muitas histórias sobre o Underground Railroad, (Caminho-de-Ferro Clandestino) que consistia num grupo de pessoas que, de forma ilegal, ajudava os escravos a conseguir a liberdade antes da Guerra Civil Americana. Desta organização faziam parte os quakers, um grupo religioso originário do cristianismo, com uma forte implantação nos Estados Unidos da América.



Por volta das cinco e meia de uma manhã de Verão no sul do Ohio, a luz já forte do sol acordara Lucinda Wilson, uma rapariga de treze anos. Sentou-se imediatamente e, de seguida, ao sair da cama, lembrou-se: “Os morangos na colina já devem estar prontos para serem colhidos.” Lucinda tinha vindo a observar com ansiedade a colina coberta de morangos silvestres. Era com grande alegria que planeava agora surpreender a família com um cesto cheio de morangos maduros e deliciosos para comerem ao pequeno-almoço.
Vestiu-se rápida mas silenciosamente para não acordar a irmã. Lucinda tinha dormido nessa noite na cama grande, uma vez que a sua irmã Mary, de dezassete anos, estava a passar alguns dias com uma amiga numa quinta vizinha, e Ruth, de quinze anos, dormia numa pequena alcova no enorme quarto do andar de cima.
A casa da família Wilson ficava a alguma distância da estrada principal, e havia um caminho longo e estreito desde o portão até à porta de entrada da casa. Como este caminho parecia demasiado longo, Lucinda decidiu seguir por um atalho em direcção à colina dos morangos, que se estendia ao longo da estrada principal. Este atalho, que começava junto à capoeira, era praticamente invisível devido ao crescimento emaranhado dos arbustos. Lucinda correu até à rua e começou a subir a colina. Ali estavam os morangos, vermelhos e deliciosos. Começou a colhê-los rapidamente, mas o fundo do cesto não estava ainda coberto quando ouviu uma voz a chamá-la da estrada principal.
Sobressaltada, olhou para baixo e viu dois homens a cavalo. Não os conhecia e a sua primeira reacção foi pôr-se em alerta, pois a sua casa pertencia ao Underground Railroad. Estava certa de que estes homens eram caçadores de escravos.
No momento seguinte, Lucinda viu que tinha razão.
O homem que a chamara, de tez morena e mal-humorado, voltou a dirigir-lhe a palavra:
— Viste duas raparigas negras a passar por aqui? Duas raparigas de dezassete ou dezoito anos? Temos a certeza de que elas levam apenas alguns minutos de avanço.
Lucinda acenou com a cabeça. Respondeu-lhes honestamente que tinha chegado nesse instante e que não tinha visto ninguém para além deles. Os cavaleiros seguiram caminho. Mas Lucinda não pensou mais nos morangos. Tinha a certeza de que as duas raparigas iriam para sua casa e de que aqueles homens as apanhariam mesmo à sua porta, a não ser que conseguisse avisá-las antes. Discretamente, olhou para os caçadores de escravos para se certificar de que nenhum deles estava a olhar para trás. Então, precipitou-se para a estrada e desatou a correr para casa.
Em poucos instantes, estava no terreiro da quinta e entrou em casa de rompante. Mal abriu a porta das traseiras, ouviu a voz da mãe na parte da frente da casa. As raparigas já lá estavam, e os homens chegariam dentro de breves instantes. Sem fôlego, foi ter com a mãe e as raparigas ao vestíbulo. A porta ainda estava aberta.
— Fechem a porta! Fechem a porta rapidamente! Eles vêm aí! — disse, ofegante.
No momento em que proferia estas palavras, viu um cavalo a aparecer. A mãe fechou a porta, trancou-a e olhou desesperadamente em volta, à procura de um esconderijo para as duas raparigas. Estas choravam apavoradas, pois tinham a certeza de que seriam arrastadas de volta e de que nunca mais seriam livres.
— Rápido! Vão lá para cima! — disse Emily Wilson.
Correram pelas escadas acima e entraram no quarto onde Ruth já estava a vestir-se. Esta, espantada, olhou para as quatro pessoas que tinham entrado de rompante.
— Lucinda, veste a camisa de noite, põe a touca e mete-te na cama outra vez — disse a mãe.
A mãe pegou nas roupas de Mary que estavam debaixo da almofada, e atirou-as a uma das fugitivas.
— Veste isto e deita-te na cama com a minha filha. Fica do lado da parede, de costas para a porta. Cobre bem a cara com a touca.
As raparigas obedeceram imediatamente, e Emily Wilson levantou a tampa de uma arca grande feita de verga, que estava encostada à parede. Felizmente, estava quase vazia.
— Mete-te aí dentro — disse ela à outra rapariga, que obedeceu de imediato e se encolheu de modo a que a arca pudesse ser fechada.
Fez-se ouvir uma forte pancada na porta da frente.
— Ruth, veste o roupão, senta-te em cima da arca e tapa-a o mais possível. Os caçadores de escravos estão quase a chegar.
A mãe olhou de relance o quarto, para se certificar de que não havia indícios da presença das raparigas negras, e apressou-se a descer as escadas para abrir a porta.
— Bom dia, minha senhora! Nós andamos à procura das duas escravas que estão aqui — disse um dos homens.
— A sério!? Como sabe que temos duas escravas aqui escondidas? — retorquiu ela.
— Porque estávamos mesmo no seu encalço e temos a certeza de que não passaram daqui. Por isso, vai ter de nos deixar revistar a casa.
— Estejam à vontade! Mas garanto-vos que vai ser uma perda de tempo.
— Veremos! — respondeu o homem.
Começaram a revistar todas as divisões da casa. Emily Wilson deixou-os abrir as portas e procurar à vontade até chegarem ao quarto das raparigas. Aí, pôs-se à frente deles.
— As minhas três filhas dormem aqui e ainda é muito cedo. Meus senhores, peço-lhes que não entrem no quarto.
— Podem estar tanto aqui como em qualquer outro lugar — disse um dos homens. De seguida, abriu a porta e entrou.
Ali estavam as três raparigas, duas na cama, tapadas até às orelhas, a outra sentada na arca com um roupão sobre a arca como se fosse apanhada de surpresa. No entanto, lá dentro, a fugitiva aterrorizada tremia de tal modo que Ruth tinha a impressão de que os homens deviam ver a arca a abanar. Ela sentou-se o mais pesado que conseguiu e cobriu a arca com o roupão.
Um pouco embaraçados, os homens deram uma vista de olhos rápida pelo quarto, abriram o guarda-vestidos e, como não encontrassem nada, saíram novamente, balbuciando um pedido de desculpas.
— Bem — disse um deles quando saíram do último quarto — parece que aquelas raparigas, afinal, já passaram por aqui. É melhor apressarmo-nos e talvez ainda as possamos apanhar.
— Eu avisei-vos de que seria uma perda de tempo — disse Emily Wilson calmamente.
De forma hospitaleira, ofereceu-lhes o pequeno-almoço, o que eles recusaram de imediato, pois estavam com pressa. Partiram a cavalo, e as raparigas sentiram-se então livres para poderem sair dos seus esconderijos.
— Ainda bem que decidi ir apanhar morangos para o pequeno-almoço. Ainda há tempo de voltar lá e encher o meu cesto. Afinal, vamos mesmo ter morangos para o pequeno-almoço — disse Lucinda.
As duas raparigas ficaram tranquilamente em casa durante todo o dia. De madrugada, uma carroça coberta levou-as para outra casa de quakers. Daqui, sem grandes riscos, foram levadas no dia seguinte, pois soube-se que os dois caçadores de escravos tinham perdido o seu rasto e declararam que as duas escravas fugitivas haviam desaparecido.



Anna Curtis
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
Tradução e adaptação

Gandhi - Demi


Mohandas Karamchand Gandhi nasceu em Porbandar, na Índia, a 2 de Outubro de 1869. O pai era primeiro-ministro na corte do príncipe local. A mãe, mulher devota, deu aos filhos uma educação religiosa. A religião da família era uma combinação de Hinduísmo e de Jainismo.

Gandhi cresceu a acreditar na doutrina do karma, segundo a qual devemos rezar, ser disciplinados, honestos e parcimoniosos, a fim de conservarmos a alma pura.

Quando tinha treze anos, casou-se, segundo a tradição hindu, com Kasturbai Makanji, uma linda rapariga da mesma idade, dotada de grandes qualidades, como a paciência, a força e a coragem.

Quanto a Gandhi, era de baixa estatura, tímido, e tinha medo de várias coisas, entre as quais as serpentes, os fantasmas e a escuridão. Kasturbai ria-se com ternura do marido, por este ter de dormir com a luz acesa.

Gandhi sentia-se diferente das outras pessoas. Aluno fraco: terminou o liceu com dificuldade e teve más notas na faculdade. Em 1888, instado pelo tio, deixou a mulher na Índia e foi para Londres estudar Direito. Durante muito tempo, sentiu-se completamente só, um estrangeiro em terra alheia. A fim de se sentir mais confiante, decidiu transformar-se num autêntico cavalheiro inglês. Vivia num apartamento selecto e vestia roupas elegantes. Aprendeu a falar um inglês perfeito, teve aulas de violino e aprendeu até a dançar o fox-trot.

Mas não era feliz. Sentia que um fosso enorme separava o seu ser interior da sua aparência exterior. Tentou então recuperar a sua herança jainista: abandonou o apartamento selecto, passou a cozinhar as suas próprias refeições, a andar a pé em vez de tomar transportes, e aderiu à Sociedade Vegetariana de Londres. A sua nova independência fê-lo sentir-se mais feliz, embora continuasse desajeitado e tímido.

Tirou finalmente o curso e regressou à Índia, três anos depois de ter chegado a Londres.

De regresso a casa, soube que a mãe tinha morrido.

Gandhi abriu um escritório de advocacia em Bombaim, decidido a triunfar na vida profissional. Mas a sua timidez desajeitada impedia-o de falar em público e foi humilhado com frequência.

Como o irmão de Gandhi conhecia uma firma de advogados na África do Sul que precisava de um sócio, Gandhi, acompanhado pela mulher, deixou a Índia em 1893. De novo estrangeiro em terra alheia, experimentou o racismo na própria pele. A sua cor fazia dele um alvo de desprezo e de maus-tratos físicos por parte dos brancos sul-africanos. O trabalho no escritório era duro mas, em vez de desistir e de abandonar aquele país hostil, Gandhi decidiu mudar-se a SI MESMO, a fim de enfrentar os desafios que lhe eram colocados.

Através da auto-disciplina e da concentração, conseguiu atingir os seus objectivos e compreendeu que o verdadeiro exercício do Direito consiste em procurar o lado melhor da natureza humana e penetrar nos corações dos homens. Começou a encarar todas as dificuldades como formas de melhor servir os outros, atitude que viria a tornar-se o segredo do seu sucesso durante o resto da vida.

Numa noite de Inverno, Gandhi viajava de comboio, em negócios, numa carruagem de primeira classe. Um passageiro branco insistiu que Gandhi viajasse em terceira classe. Gandhi recusou, e o revisor atirou-o para fora do comboio. No meio de parte alguma, rodeado de escuridão e cheio de frio, Gandhi reflectiu sobre a profunda e dolorosa doença do preconceito.

Pouco depois da sua experiência no comboio, criou a teoria da satyagraha, que quer dizer “a força do amor”. Escreveu: A força do amor exercida através da paz triunfa sempre sobre a violência. Empenhou-se em extirpar a doença do preconceito, sem nunca ceder à violência e sem nunca exercer violência sobre os outros, e prometeu trazer a paz do Céu para a Terra.

No início do século XX, a África do Sul estava dividida em quatro colónias britânicas distintas: a Colónia do Cabo, o Natal, o Estado Livre de Orange e o Transval. A 22 de Agosto de 1906, o governo do Transval promulgou a Lei dos Negros, que privava os negros e os indianos dos seus direitos cívicos. Em resposta a esta lei, Gandhi formou o primeiro movimento não-violento de resistência de massas. Mais de quinhentas pessoas participaram neste movimento de desobediência civil.

Gandhi e os seus apoiantes lutaram pelos direitos de negros e indianos, bem como pelos direitos das mulheres. Prestou apoio jurídico gratuito e ajudou pessoas que viviam em condições desesperadas. Tratou de pessoas doentes, que tinham sido abandonadas durante uma epidemia, fez curativos a leprosos e reconfortou os moribundos. Costumava dizer:

— Estas pessoas são meus irmãos e irmãs. O seu sofrimento é o meu sofrimento. A minha família é o mundo inteiro.

Gandhi acreditava profundamente nos ensinamentos de um dos livros sagrados hindus, o Bhagavad-Gītā. Meditava várias vezes ao dia e tentava enfraquecer os seus desejos egoístas através do amor aos outros e do amor ao “Senhor do Amor”. Tentava não sentir raiva, para que esta não tolhesse o seu discernimento. Ao acreditar no poder do amor e ao tratar todas as pessoas como se fossem membros da sua própria família, Gandhi descobriu que deixara de sentir timidez e que não tinha medo de coisa alguma.

Tanto ele como os seus seguidores agiam no sentido de aceitar de igual maneira as coisas boas e más da vida, de receber os desafios com humildade e mansidão, e de trazer a harmonia ao mundo.

Gandhi regressou à Índia em 1915, acompanhado pela mulher e pelos quatro filhos. Começou a lutar para libertar a Índia do sistema preconceituoso de castas que dividia a sociedade em quatro classes. Os sacerdotes ocupavam o topo da pirâmide social, seguidos pelos príncipes e pelos militares que, por sua vez, se encontravam no patamar acima dos trabalhadores. Os pobres ─ os “intocáveis” ─ ocupavam o nível mais baixo da pirâmide. Gandhi chamava-lhes “filhos de Deus” e estava decidido a libertá-los do seu estigma.

Também se empenhou em libertar a Índia do domínio britânico. Durante trezentos anos, vários milhares de Britânicos tinham governado mais de trezentos milhões de Indianos. Gandhi dirigia-se às multidões e pedia-lhes que pusessem a satyagraha em prática, ou seja, o amor altruísta pelos outros. Os Indianos deixaram de colaborar com os Britânicos e muitos foram presos. Muitos outros começaram a confeccionar as suas próprias roupas, para não terem de comprar tecidos britânicos. A túnica branca de fiação caseira chamada khadi começou a ser usada por milhões de pessoas, tornando-se o símbolo da independência indiana.

O governo britânico ficou furioso com a não-cooperação da Índia e, em 1919, durante o massacre de Amritsar, soldados britânicos mataram 379 inocentes, tendo ferido mais de um milhar.

Gandhi liderou então um hartal, ou greve nacional, que paralisou a Índia inteira. A campanha não-violenta baseada na teoria da satyagraha continuou, encorajada pelas palavras do próprio Gandhi:

A não-violência actua de forma contínua, silenciosa e incessante, até transformar o mal em bem.

Em 1922, os Britânicos prenderam Gandhi por pregar a não-violência, por desafiar a autoridade britânica e por escrever panfletos anti-governo. Esteve preso durante dois anos, mas o movimento da não-violência manteve-se forte.

O imperialismo britânico na Índia estava sob ameaça e Gandhi sentia-se feliz. Não achava que o facto de estar preso fosse uma tribulação; pelo contrário, via-o como um motivo de orgulho. Considerava que sofrer corajosamente por um ideal era a força motriz que transformaria cada homem e cada mulher da Índia em seres livres.

Em países quentes e tropicais como a Índia, o sal é uma parte essencial da alimentação das pessoas. A lei britânica proibia os Indianos de fazerem o seu próprio sal e obrigava-os a pagar um pesado imposto sobre este produto.

Em 1930, Gandhi liderou os seus compatriotas na chamada Marcha do Sal. Acompanhado por setenta e oito pessoas, empreendeu a caminhada de Sabarmati até Dandi, uma cidade costeira que ficava a mais de 200 quilómetros. Quando Gandhi chegou a Dandi e pegou num punhado de sal, num gesto simbólico de desafio do domínio britânico, as pessoas que o acompanhavam excediam já as centenas de milhar. O governo britânico foi forçado a reconhecer que estava a perder o controlo da Índia.

Depois de liderar a Marcha do Sal e outras iniciativas igualmente desafiadoras, Gandhi sentiu que o jugo imperialista sobre os seus compatriotas estava a diminuir de intensidade, o que, para ele, constituía um motivo de grande júbilo. Os seus seguidores deram-lhe o cognome de “Mahatma”, que significa “alma grande”.

Mas o governo britânico não desistia facilmente da Índia e Gandhi foi preso depois da Marcha do Sal. Decidiu então jejuar, a fim de pressionar as autoridades. Foi uma forma poderosa e não-violenta de ameaçar o governo. Como este não queria ser responsável pela morte de Gandhi, após seis dias de greve de fome, acordou em proteger os direitos cívicos dos “intocáveis”. Conseguir mudanças sociais através de meios pacíficos foi o grande contributo de Gandhi para a humanidade.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os indianos de religião hindu e os indianos de religião muçulmana travaram uma guerra civil motivada pelas suas diferenças religiosas e culturais. Massacres e actos de destruição devastaram o país inteiro.

Durante todo este período de grande anarquia e sofrimento, Gandhi percorreu, descalço, aldeias remotas que tinham sido destruídas e continuou a pregar a sua mensagem de não-violência.

A 12 de Agosto de 1947, a Índia conseguiu, finalmente, libertar-se do domínio britânico. Mas o país estava separado em duas partes: a sul ficava a Índia, de maioria hindu, liderada pelo Primeiro-Ministro Jawaharlal Nehru e, a norte, o Paquistão muçulmano, liderado pelo Governador-Geral do Paquistão e Presidente da Liga Muçulmana, Muhammad Ali Jinnah.

Gandhi não comemorou a independência da Índia. Encetou um período de jejum para lembrar a Hindus e Muçulmanos a importância da paciência, da compreensão e do perdão, face à intransigência. Ansiava que o seu povo vencesse o ódio através do amor.

Como o movimento da satyagraha conseguira vencer o domínio britânico, Gandhi confiava que ele pudesse também unificar as facções que agora dividiam a Índia. Mas tal unificação nunca viria a consumar-se.

Embora extremamente debilitado devido ao jejum, Gandhi, agora com 78 anos, continuou a dirigir-se aos seus seguidores. Como ensinava e professava a irmandade de todas as pessoas e religiões, era odiado pelos Hindus e Muçulmanos, que acreditavam que a sua própria religião era a única verdadeira.

No dia 30 de Janeiro de 1948, ao cair da tarde, quando Gandhi se dirigia para um encontro de oração, no qual era aguardado por milhares de pessoas, um Hindu, de nome Nathuram Godse, disparou sobre ele, atingindo-o mortalmente no coração. Gandhi caiu. As suas últimas palavras foram palavras de compaixão e amor:

Rama, rama, rama. (Perdoo-te, amo-te, abençoo-te.)

Foi cremado em Nova Deli. Milhões de pessoas, vindas de toda a Índia e de todos os cantos do mundo, choraram a perda deste extraordinário mensageiro da paz.

Quando morreu, Gandhi tinha poucos bens: duas colheres, duas panelas, três macacos, três livros, um relógio de bolso, um par de óculos, uma tigela de alumínio (recordação da prisão), um conjunto de secretária, dois pares de sandálias, e a sua khadi.

As suas cinzas foram misturadas com pétalas de rosa e espalhadas pela família na confluência dos três grandes rios indianos: o Ganges, o Jumna e o Sarasvati.

O Bhagavad-Gītā diz que sermos unos com o Senhor do Amor é o estado supremo de ventura. Se conseguirmos atingir esse estado, passaremos da morte à imortalidade. O amor ilimitado de Mahatma Gandhi pela humanidade guiou a sua vida, mudou a vida de milhões de pessoas, e tornou-o imortal.


Demi
Gandhi
New York, Margaret K. McElderry Books, 2001
Tradução e adaptação